sexta-feira, outubro 17, 2008

quarta-feira, outubro 15, 2008

Amar como Jesus amou

Padre Zezinho no seu melhor!!!!

http://www.youtube.com/watch?v=vzCOGzV25KQ

a "cópia" também está deliciosa...
http://www.youtube.com/watch?v=NFouZjRoce4

Nossa Senhora da Graça

4.O Crente.
Desde tempos imemoriais o dia 8 de Setembro é o nosso “feriado paroquial”. Dia que a Igreja Católica dedica à celebração da Natividade de Maria, para nós o "dia de Nossa Senhora da Graça". Honra nos seja feita, a devoção deste nosso Povo à Mãe de Jesus, neste dia 8, tem conseguido vencer o desejo “natural” de ganhar mais dinheiro à custa da sua festa, pelo que tal data se mantém intocável. Nunca se caíu na "tentação" de "empurrar" tão querida celebração para o mês de Agosto, mês de emigrantes e de mais gente em férias, ou "encostá-la" a um fim de semana. Foi assim também, neste ano. A igreja estava cheia, uma homilia de se lhe “tirar o chapéu", com o nosso Padre Moiteiro a apresentar-nos Maria como aquela que nos indica o caminho para seu Filho, Jesus. Um excelente momento de doutrinação cristológica. A procissão teve o sabor dos velhos tempos, mesmo na ausência dos foguetes que a Lei não permite. A Banda a tocar e o Povo a cantar: “Nossa Senhora da Graça/ Padroeira desta Aldeia/ A velar pelos seus filhos/ Do Inimigo defendei-a”./ Nossa Senhora da Graça/ Este amado Povo teu/ Quer, ó Mãe, sempre amar-te cá na Terra/ Com este amor forte e leal/ Que perdura até ao Céu”. Foi a minha mãe que, desde o colo, me ensinou a rezar. Foi a minha mãe que me ensinou também a cantar e, assim, louvar a Mãe do Céu. Matando saudades dum tempo que não mais voltará, cantei, de novo, nas ruas da minha Aldeia.
Educado desta maneira, sentindo desta maneira, vivendo desta maneira, não será de estranhar que o meu espírito se tivesse ensombrado com a “coincidência” de constar o facto das festas do 1º. Centenário da Banda se terem alongado, sem necessidade, em meu entender, por todo o dia 8. Vi pessoas no “ramo”, no adro da igreja; sei que havia pessoas no terreiro da antiga escola, onde decorriam as festas da “União”. Fiz e ouvi comentários de que “não havia necessidade…” Serei diferente dos outros? Talvez, mas “quem nasce torto… tarde ou nunca se endireita”. E a liberdade de expressão é do pouco que nos resta do "25 de Abril"... Por quanto tempo?
Para aliviar alguma decepção deste dia que vivi, proponho-lhes o “nosso rei", Roberto Carlos…

terça-feira, outubro 14, 2008

A Família

Padre Zezinho: o grande Compositor, o grande Músico, o grande Cantor, o grande Apóstolo, o HOMEM, filho de Deus, no seu esplendor!!!
Tive a grande Alegria de assistir a um seu concerto.
Que bom!!!
Oração da Família:

http://www.youtube.com/watch?v=RdkscK-QBqc

UTOPIA, um hino à FAMÍLIA... Vale a pena ouvir a introdução, pois segue-se uma linda canção:

http://www.youtube.com/watch?v=V30jzpTVFPo&feature=related

domingo, outubro 12, 2008

100 anos de "A UNIÃO de Aldeia de João Pires"



3.Folgazão
Só se fazem 100 anos, uma vez. E tão provecta idade, numa Associação de uma pequena Aldeia, é obra! Lembro-me muito bem! Ainda a guerra devastava a Europa e o Mundo e, desde muito pequenino, me habituei a adormecer ao som do tchim… popó…tatá…bum…bum…bum… como todo um Povo, afinando o ouvido e a garganta. Nasci com a Banda – a “Música”, como nós dizíamos! – cresci com a Banda. Quis estar com a Banda, neste seu primeiro centenário, como ali vivi os já distantes 50 anos. Pois lá estive. Lembrei as muitas festas em que era apresentado o resultado de muitas e muitas noites de ensaios. Tudo pelo querer de um jovem sacerdote, aqui colocado ainda no tempo da monarquia – ah! a implantação da república levou a que o nosso querido Padre José Maria tivesse que andar escondido lá no meio de valados e silvas… - por aqui se manteve, até ao último suspiro, e a sua memória é venerada no cemitério desta localidade, onde repousa para sempre. Recordei gerações de homens analfabetos – ou o analfabeto era eu? – que, depois de um dia de trabalho sofrido, de sol a sol, mal pago e mal comido, ainda arranjavam forças para aprenderem a ler uma pauta musical e a tirar de cada um daqueles instrumentos, que duravam…. duravam… duravam …. os sons que eram conhecidos no concelho e arredores. A paciência do “mestre”, dos “mestres”, pois conheci vários – o Ti Matos, o sr. Carlos, o sr. Jaime ou “Jaimeca”, como era conhecido entre nós, cuja avó foi a heroína de uma “promessa” à Senhora da Póvoa, membro de uma grande família de executantes, o pai, sócio-fundador, os irmãos, os sobrinhos, os netos... Recordei, aliás, o “chocante” que foi, naquela época, era eu um garoto, os filhos tocarem música no velório do Ti Ricardo. Apaixonados mesmo!!! De todos os “mestres” gostei mais do Ti Matos. Morávamos na mesma rua, mas não era isso o mais importante. Aquela mão, acima abaixo, abaixo, acima. “Dó, ré, ré ,sol, fá sustenido, meu burro… sol, sol, fá…. Pronto, esqueceste … fá bemol… outra vez ao princípio…deixa!!! Burro…burro…burro!!!” E outro aprendiz... E outro. E recomeçar. E todos juntos. “Estás a dormir?!” Horas disso já eram. E aqueles corpos tão fatigados! O Ti Matos era quase o meu herói. Sobrancelhas hirsutas, quase selvagens, banda pronta para a festa, a primeira “arruada” e ele, clarim na mão – nesse tempo o “mestre” também tocava – “Tudo pronto??? Ordinário, marche…” E não é que saía um som que envolvia toda a Aldeia, trazia gente às portas e janelas e a garotada atrás e à frente, os foguetes F…f…f…f…f…f……. Pum! Pum! Trau, trau… pum. Ah! O “ordinário” era uma coisa que me enchia a alma, que nos enchia a alma. Que nos unia e alegrava. O “ordinário” era a marcha que quase dava início à festa. Quase???!!! Ainda o sol não despontara atrás da serra das “Pedriças”, praticamente toda a Aldeia dormia e, de repente, PUUMM!!! O “morteiro” e … a festa vai começar. Com a “alvorada”, um momento alto do dia. A “alvorada”!!! Depois, o Sol ia despontando, os aldeões acercavam-se, iam chegando os músicos carregando o seu instrumento, o “fogo" ali pronto para a primeira descarga do dia, dando sinal à vizinhança de que ia ser (ou não…) um “uma festa de arromba”. Os garotos estremunhados, cara por lavar, roupa vestida à pressa, não queriam perder este momento. Aí começaria a disputa pela apanha das canas dos foguetes. E nenhum quereria deixar os seus créditos por mãos alheias. Também a canzoada se acercava, ainda que a medo, pois o estrondo que os despertara não prenunciava nada de bom. Os cães gostam de música. Repetidamente os ouvi a “acompanhar” os ensaios, para desespero dos vizinhos. Mas detestam foguetes. O resultado é “explosivo”. Voltemos à alvorada. Tocada de pé, em círculo. Fascinante naqueles meus anos de menino de aldeia. A melodia, a harmonia “dizem bem” com o despertar para a festa. Nome e efeito encaixam. Ninguém dava pelos desafinados, isso era só mais lá para o pôr-do-sol, já uns bons copos “entornados”. Escutados os últimos acordes, o fogueteiro não espera: ffffffff…..pum… pum…pum. Os adultos apreciam, os garotos correm atrás das canas, os cães… ah! os cães… “Quem é que me convidou?” Caim…Caim… ãoãobéubéu, numa corrida desenfreada, mal encontrando saídas, cada um procurando escapar ao “fim do mundo”. O nosso “Farrusco” fomos encontrá-lo num valado, no meio das silvas, três dias depois da festa, quase morto de fome e de sede, ainda a tremer. Cães e foguetes não dão boa liga, decididamente.
A missa solene, a procissão, o almoço melhorado, o “ramo”, o leilão das ofertas – quanta generosidade e competência na gente pobre!!! – e a Banda tocando, tocando ... dezenas de pares a dançar, no alcatrão da estrada, interrompidos umas poucas vezes com a passagem de algum raro automóvel….O único momento triste era o do pôr-do-sol e ... o fim da festa. Não, ainda não havia luz eléctrica. Acabava mesmo com o anoitecer.
Foram todas estas imagens que desfilaram, na minha mente, durante mais de duas horas, na tarde do dia 7 de Setembro, naquele mesmo largo, o das “alvoradas”, enquanto esperava o momento alto do programa estabelecido para estas comemorações, o desfile de cinco bandas convidadas e que quiseram associar-se a tão merecida homenagem: a da Idanha, a do Fratel, a do Gavião, a de Alcácer do Sal e … a de Aldeia de João Pires.
Ficara combinado que, a partir dos 5 cantos da Aldeia, cada uma delas viesse actuando para o encontro no Largo Padre José Maria Lopes Nogueira – há-de ser sempre o “Largo do Rato” – donde seguiriam todas tocando, em simultâneo, a “Marcha do Centenário” (uma adaptação, a propósito, do que já fora executado nos 50 e nos 75 anos) em direcção ao campo das festas, anexo à antiga escola primária e em frente à Sede de “A UNIÃO”. Entre as 14 e as 16 horas aquilo ia dando “p´ra morrer”, pois o programa não havia maneira de “arrancar”. Nem tudo foi prejuízo, pois revelou-se tempo insuficiente para pôr as memórias em dia, com acima ficou escrito. Acontecera que a Banda de Alcácer, graças ao “Eu sei o caminho” do motorista do autocarro que a transportava, “acertara em cheio” com a pior opção, seguindo a A23 até ao Fundão e “enfiando-se” pela “estrada” da Fatela. Uma lástima para os convidados, uma lástima para nós! Mas “tudo está bem, quando acaba bem” e, pelas 17 horas foi um momento bem emocionante, dezenas de instrumentos a tocar, centenas de gargantas a cantar “Já se vêem lindas raparigas/saias garridas/blusas de chita/e a banda vai tocando/ e ao ir passando/o Povo grita:/ Aldeia de João Pires,/ por aqui não tens rival/ és a primeira das Beiras/gritam as solteiras/ neste festival…” Depois, os discursos de circunstância, os políticos – por acaso não muito oportunistas, pois nem sequer tiraram “dividendos” da atribuição da “Medalha de Ouro do Concelho" – a presença do Sr. Prof. Dr. Martins da Cruz, grande benemérito de “A União” que, numa idade avançada, quis estar presente. Com amor e sacrifício, era evidente. Finalmente, aquilo de mais gosto: música, música, música até às tantas. Pelas cinco bandas. À vez.
Teve paciência para ler esta "treta"???? Então tem prémio!!!!
Não quer ouvir a Banda da Sociedade Filarmónica Veirense???

sábado, outubro 11, 2008

Deus me deu uma Filha

Éramos muito jovens, uma amor sem fronteiras, puro, casto, a unir-nos, eu militar mobilizado, em África, ela uma recém-formada professora. Sem mais nada. Mas com tudo. A Fé de querermos viver juntos, para sempre. Casamento "por procuração", contra a vontade de quase todos. Foi preciso um querer muito, muito forte. Uma festa religiosa, primeiro, civil, depois, com a chegada da noiva, no meio daquela "tropa" toda. Que sorte eu tive!!! Depois, a gravidez, em clima hostil. Um trabalho docente, penoso, por vezes, com um calor insuportável, dia e noite, noite e dia. Assistência na gravidez? Ah! Ah! Ah! Licença de maternidade? Ah! Ah! Ah! 30 dias, se estivesse colocada... Foi mesmo à tangente, quatro dias depois.... Abono de família? Ah!Ah!Ah! Subsídio de nascimento? Ah!Ah!Ah! Ai aqueles tempos eram bem complicados, mas as dificuldades a vencer foram indispensáveis para cimentar o nosso Amor. Ou juntos nos salvávamos ... ou pereceríamos!
Mas voltemos à madrugada de 11 de Outubro de mil novecentos e... olha, "não me lembro"...
A ida para a maternidade no "jeep" de serviço ao "oficial de dia". Qual 112 qual carapuça???!!! Então, pouco mais de um ano depois do um "enorme dia", aí esteve a nossa Menina. Tanto que ela "refilou", naquela noite primeira da sua vida "cá fora". Faz anos, hoje. O princípio da nossa grande riqueza de quatro filhos trabalhadores, honestos, competentes nos seus afazeres. Graças a Deus por esta dádiva da nossa Filha, graças a Deus pelo presente dos que vieram depois. Graças a Deus pelos netos que já aí estão ou já vêm a caminho. Parabéns, minha Filha. Tu sabes que eu te amo. Obrigado, Mamã, por esta Filha que me deste.
PS.: Neste dia já longínquo, uma avó feliz e uma tia jubilosa, de 11 anos, a cerca de 5.000 kms, percorriam as ruas da minha Aldeia a clamar: - Já me podem "serrrar a velha", já me podem "serrar a velha". Sou avó!!! Sou Avó!!!
Esta é para ti, minha Filha. Beijo. Pai

sexta-feira, outubro 10, 2008

Vivendo um grande Amor!

É muito bom recordar que, há muitos anos, pelo seu aniversário, "ofereci" esta música a minha mulher. Quarenta e muitos anos depois, volto a "oferecer"-lha, aqui.
Obrigado, por teres a paciência, a SANTIDADE, de me aturares.
Beijão
STT

http://www.youtube.com/watch?v=Mtvl8IbX434&feature=related

Porque não "Diana"?????

http://www.youtube.com/watch?v=fuTbB-d12A0&feature=related

Estou um mãos largas: Chubby Checker e "Let's twist again"...

http://www.youtube.com/watch?v=K5PqydMA1kA&feature=related

Grande farra!!!!

Pronto, já chega!!!

Tenho direito ao meu casamento!!!

Os homossexuais e os meus direitos.
Começo por afirmar que não me faz qualquer mossa que os homossexuais consigam ver aprovada uma Lei que garanta os seus direitos civis, num estatuto específico que trate de maneira diferente o que é diferente, pois cada um viverá como entender, sem afrontar os outros cidadão, e fará do seu corpo e das correspondentes partes o que lhe der na gana. Não aceito é que me queiram meter no mesmo saco… ou que se queiram meter no saco em que já me encontro, com muitos milhões de outros casais.
Ora numa época em que a estabilidade do Mundo corre gravíssimos riscos financeiros, económicos, laborais, sociais e empresariais a nossa RTP, no seu noticiário das 13 horas de hoje, ofendeu-me, nos seus primeiros 13 minutos, com a discussão do projecto de Lei do Bloco de Esquerda para “casamento” dos homossexuais, ouvindo vozes minoritárias que, em nome da Liberdade, querem esmagar, completamente, o sentir e o querer de uma grande maioria a quem não é dada qualquer oportunidade de dizer o que pensa. Estas minorias tomaram conta dos órgãos de comunicação social e ali se afirmam como únicos detentores da verdade, chamando todos os nomes a quem deles ousar discordar, fortemente apoiados na inércia ou até na cobardia da grande maioria dos que pensam que “casamentos” de homossexuais não pode ser mais do que uma brincadeira de mau gosto. Mas eles estão determinados, bem apoiados e não se importam de ofender os casados, que eles querem imitar, chamando de “casamento” aquilo que não o é, há milhares de anos, mesmo antes do alvorecer do Cristianismo. Sinto-me envergonhado, sinto-me ofendido, pois tal como eles tenho direito à diferença. Tenho direito a ver o meu casamento respeitado, como o constituí, com minha mulher, há 42 anos, tenho direito a não ver esse estatuto alterado por pressões e influências de pessoas que gostam de dar nas vistas “macaqueando” a celebração de “casamentos”, à porta da Assembleia da República, que devia ser respeitada e fazer-se respeitar, tenho direito à indignação pela atitude confrangedora de deputados que, sem um mínimo de pudor, votaram contra o Projecto de Lei e fizeram declarações de voto a favor do que acabavam de “chumbar”, sem coluna vertebral, querendo ter “sol na eira e água no nabal”. Uma vergonha que envergonha a classe política, uma vergonha que nos envergonha a quase todos. De que têm medo esses “representantes do Povo”? Entendo, pois, que se os homossexuais querem ser respeitados, comecem por respeitar também a grande maioria dos Portugueses e o seu casamento que tanto querem ofender!!! Tenho direitos! Tenho direito ao meu casamento!!!

quarta-feira, outubro 08, 2008

O Zeca canta

Quanto é Doce
(Popular/José Afonso)

Quanto é doce, quanto é bom,
No mundo encontrar alguém,
Que nos junte contra o peito
E a quem nós chamemos mãe.
Vai-se a tristeza, o desgosto
Põe-se um ponto na tormenta,
Quando a mãe nos dá um beijo,
Quando a mãe nos acalenta.
E embora seja ladrão
Aquele que tenha mãe,
Lá tem no meio da luta
Ternos afagos de alguém.
Quem me arranja a música????
Já cá está. Obrigado, Luís, meu Filho!!!

segunda-feira, outubro 06, 2008

Cesária Évora

Uma voz espantosa, duas canções inesquecíveis, uma grande saudade, a querida África tão promissora e tão maltratada. Há séculos!!! Resta saber até quando!!!
Obrigado, Cesária Évora!!!

http://www.youtube.com/watch?v=hQspgLUTBKA

http://www.youtube.com/watch?v=0djuGyISzNE&feature=related

Na Beira Baixa...



Foi numa quinta-feira de Setembro. O Verão ainda tinha umas semanas de vida, mas a tarde convidava a viajar. São quase 300 kms e demoro para cima de 4 horas para fazer o percurso. Azelhice e bom gosto. Senhor do meu tempo, percorro a estrada antiga, os campos de Ribatejo verdejam com extensos milheirais, as águas de Montargil refrescam a tarde amena, o céu, um tanto nublado, não deixa ver todo o esplendor do seu azul. Não gosto de viajar em auto-estrada. A pressa não deixa apreciar a Natureza. E ver foi a maior graça que Deus me concedeu. Já o Sol se escondia por detrás das Serras da Alvelos e Moradal, quando Castelo Branco ficou para trás. Depois de um “graças a Deus” estacionei, tendo por fundo, já pouco perceptível, o morro altaneiro de Monsanto.
Gosto da nossa Beira, amo a minha Aldeia. É sempre com alegria que lá volto e piso aquelas terras que foram meu berço e de muitas gerações que me precederam. Não podia ser diferente, desta vez! Até porque havia um motivo maior para estar presente: o 100º. Aniversário da Fundação da nossa banda filarmónica, “A UNIÃO de Aldeia de João Pires”. Para sistematizar esta minha passagem pela Beira Baixa, vou arrumar a minha escrita em 4 capítulos, neles se poderão encontrar as minhas emoções por ter aqui passado dias tão cheios e felizes.
1.Camponês:
Nasci, no campo, cresci no campo, vivi no campo, amo o campo. É uma paixão mergulhar as mãos na terra e poder senti-la escorrer por entre os dedos, ver as sementes brotarem e crescerem, darem fruto e matarem a fome. Ficou-me por lá um bocado, que já foi dos meus avós e que me dá mais despesas que proveitos, trabalhos e canseiras. Lá se passaram duas manhãs a cortar as vergônteas das oliveiras, a arrancar as giestas e os codeços, a pulverizar as silvas, “tratar-lhes da saúde” … a limpar a barroca para que as águas de Outono possam seguir o seu caminho, em paz. Uma trabalheira, um suadouro, uma paz de espírito. Haja vida e força para continuar!
2. Viajante:
Há muito que ouvia falar do Centro Cultural Raiano, em Idanha-a-Nova, mas a disponibilidade para a visitar não se oferecia. Em fins de Agosto, num dos nossos canais de TV, apareceu uma manhã dedicada a esta terra progressiva e acolhedora. Meti logo na minha cabeça que seria desta. Ainda bem. Uma casa acolhedora, com belo aspecto, e uma sala que falava comigo. Ali tudo eram recordações: aquilo que eu vira em criança no amanho das terras, na apanha e debulha dos cereais, da azeitona e extracção do azeite, no trato dos animais e produtos a que davam origem, enfim… é melhor ver que ler o que outro lhe conta. Bem lá no meio, as três "engenhocas" que mais me fascinaram, na minha vida: a máquina a vapor que fazia trabalhar um lagar de azeite, com e prensas, na minha aldeia, uma gigantesca “malhadeira” – como tive pena das vacas que a deslocavam de uma eira para outra – e um tractor, um tractor igualzinho àquele que pôs os gaiatos da minha aldeia, eu incluído, em total alvoroço e a fazer “tractores” de todo o material que havia disponível: tábuas, cortiça, latas, borrachas, cordéis… Junto desta debulhadora “fascinante” encontra-se uma máquina a vapor, muito mais antiga, igualzinha a outras, em AJP, que me roubava horas e horas a olhar para ela, desde que me lembro.
Monsanto há muito estava no meu roteiro. Ouço, pela Internet, o RCM. Sou amigo e admirador pessoal do seu director e tinha um convite, mais que repetido, para o visitar, em sua Casa. Foi muito bonito ver o edifício e o equipamento. Graças à carolice e generosidade de um homem notável, o Prof. Joaquim Fonseca, há mais de 40 anos monsantino por afinidade e adopção, que dedica a sua vida e as suas muitas capacidades, com muitos sacrifícios pessoais e até financeiros, já lá vão 23 anos, à missão de levar a voz da nossa Beira a todo o País e a todo o Mundo. Obrigado, Professor.
A povoação, a “aldeia mais portuguesa de Portugal”, é um encanto. Para onde quer que nos viremos aquelas pedras têm hist´ria p´ra contar, são portuguesas, são beirãs... As ruas, as casas, as fontes, a igreja, a torre, os miradouros, toda aquela paisagem que se avista lá do alto nos “esmaga” e exalta. Monsanto, uma Aldeia a visitar.
Vale da Senhora da Póvoa: Estando de visita ao Convento de Mafra, anos atrás, um cavalheiro espanhol quis saber de mim qual o melhor caminho para Aljubarrota. Esbocei um sorriso, confesso, um tanto trocista, ele percebeu e explicou-se: “Sou professor de História, na Universidade de Madrid, já li tudo o que há para ler sobre essa famosa batalha, mas tenho de ver o local para ver se consigo entender o porquê do insucesso castelhano, contra todas as possibilidades dos dois exércitos…” Lá lhe expliquei o melhor que podia e sabia, despedimo-nos com “hasta siempre” e cada um foi à sua vida.
Vem isto a propósito de quê? Escrevi lembranças da minha infância e juventude em que evocava Nossa Senhora da Póvoa e era forçoso que voltasse ao encontro do que já vira, há muito, e ligar a escrita à realidade, aos caminhos, ao santuário, à povoação.
Chovera com alguma abundância na noite de sexta-feira para sábado e a manhã chegara fresca e húmida. Aproveitei-a para a labuta campestre, como já referi, marquei encontro, para depois de almoço, em Penamacor, com um dos muitos amigos feitos via Internet, Bons conversadores, foram duas horas e meia, que passaram num instante. Obrigado, Prof. Caldeira!
Já a tarde ia adiantada quando me dispus a cumprir aquilo que há muito fora decidido: saber quantos Kms iam da minha casa ao santuário, rever paisagens e povoações, encontrar paz e tranquilidade. Concluir que a viagem, em quatro rodas, era mais confortável, mas não tinha o encanto da que fizera aos 27 anos. Os campos estavam agora quase todos cheios de mato, excepto nos arredores dos povoados. Mas era a festa do verde e dos cheiros. Os incêndios não haviam passado por ali, a terra fora regada e deitava aquele odor tão característico e agradável que, juntamente com os da esteva, do eucalipto, do pinheiro do rosmaninho me inebriavam, enchiam de bem-estar. As curvas eram mais rápidas de fazer e lá cheguei ao alto da “Serrinha”. Avistei o santuário, para a esquerda, ao fundo da Serra d’Opa, logo a seguir a Povoação e depois todo um lindo vale, tão bem aproveitado para dar o nome a esta Aldeia. Especatcular. Parei, saí, admirei e enchi os pulmões com aquele ar tão puro e leve, quase capaz de “dar vida a um morto”. Fui descendo, devagar. O recinto estava muito diferente do que eu conhecera. Com mais conforto. Como será no dia da festa? Entrei na Capela e venerei aquela imagem que leva a fama de Maria até bem longe. Pedi-lhe por Amigos, filhos seus, desde pequeninos, ali lembrados por mim, também seu filho menor. Achei a povoação, como tantas outras, triste e “abandonada”. Quase não vi gente! O maior sinal de vida foram as belas hortas que a cercam, indício de água abundante e trabalho extenuante. Com certeza daqueles que já pouco podem e que, num último alento, vão tentar prolongar a vida do que tanto amaram e amam. Quis pisar o recinto de festas onde haviam estado amigos meus, duas semanas antes. E senti uma grande nostalgia. Era tempo de regressar, fazendo-o, na convicção, de que poderia ser a última vez.
Por isso, não quis deixar de passar pelo Meimão. A única das nossas aldeias que nunca visitara. A barragem – uma pequena decepção, julgava-a maior – depois sempre mato, pinhal, eucaliptal. Bem lá no fundo, uma pequena povoação. Ruas muito estreitas, um larguinho para as festas. Gente valente, capaz de viver lá, nesse fim de mundo. Admirável!! Que dia!

sexta-feira, outubro 03, 2008

Olá, Portugal

Só música estrangeira???!!! Mas eu AMO a música portuguesa. Vou estar mais atento. Aqui vai a minha fadista preferida, D. Maria Teresa de Noronha, que a Morte bem cedo nos levou. Certamente, cantará para Deus!!!

Las Palmeras


Alberto Cortez, uma saudade!!! Há muitos, muitos anos, todos os domingos - imagine-se quanto eu gostava de o ouvir!!! - acordava às 7 horas, pois o programa da Emissora Nacional abria com esta canção e este intérprete... Depois... adormecia, de novo...
http://www.youtube.com/watch?v=3YdKVHeVPbw

http://www.youtube.com/watch?v=U_4dW70LDEQ&feature=related

domingo, setembro 28, 2008

O Grande Desafio!

Evangelho segundo S. Mateus 21,28-32.
«Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, disse-lhe: 'Filho, vai hoje trabalhar na vinha.’ Mas ele respondeu: 'Não quero'. Mais tarde, porém, arrependeu-se e foi. Dirigindo-se ao segundo, falou-lhe do mesmo modo e ele respondeu: 'Vou sim, senhor.' Mas não foi. Qual dos dois fez a vontade ao pai?» Responderam eles: 'O primeiro.' Jesus disse-lhes: 'Em verdade vos digo: Os cobradores de impostos e as meretrizes vão preceder vos no Reino de Deus. João veio até vós, ensinando-vos o caminho da justiça, e não acreditastes nele; mas os cobradores de impostos e as meretrizes acreditaram nele. E vós, nem depois de verdes isto, vos arrependestes para acreditar nele'.»
Da Bíblia Sagrada

quinta-feira, setembro 18, 2008

1ª Carta aos Coríntios 12,31.13,1-13.
Aspirai, porém, aos melhores dons. Aliás, vou mostrar-vos um caminho que ultrapassa todos os outros. Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas, se não tiver amor, nada sou. Ainda que eu distribua todos os meus bens e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada me aproveita. O amor é paciente, o amor é prestável, não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso, nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento. Não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais passará. As profecias terão o seu fim, o dom das línguas terminará e a ciência vai ser inútil. Pois o nosso conhecimento é imperfeito e também imperfeita é a nossa profecia. Mas, quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Mas, quando me tornei homem, deixei o que era próprio de criança. Agora, vemos como num espelho, de maneira confusa; depois, veremos face a face. Agora, conheço de modo imperfeito; depois, conhecerei como sou conhecido. Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor; mas a maior de todas é o amor.

segunda-feira, setembro 15, 2008

A promessa…
A Ti’ Joaquina Rosa tinha já muitos, muitos anos, quando eu, muito criança, brincava, ali, na calçada do Largo do Pereiro, “à sombra” da minha avó Emília, enquanto os meus pais lidavam nos afazeres do campo. Era uma figura castiça, com fama e proveito de uma inteligência fora do normal, “danada para o negócio”, quase impossível de se deixar enganar. “Ladina como uma raposa” – dizia-se. Era conhecida na Aldeia e por toda a redondeza, andando de terra em terra, com o burro carregado de loiças de barro, raramente o poupando ao peso do seu corpo bem avantajado. Eram numerosas as histórias que se contavam da sua sagacidade, algumas ainda passadas de boca em boca até aos que agora são contemporâneos dos seus bisnetos. A maior parte das lendas conhecidas diz respeito à sua enorme apetência pela boa comida E nisto tenho de lhe gabar o bom gosto
Ora, no primeiro fim de semana deste mês, de muitas emoções e memórias, abraços para aqui e conversas para ali, veio à baila o meu passeio até à Senhora da Póvoa. Logo uma querida amiga de infância se havia de recordar de uma das muitas “aventuras” da Ti’ Joaquina Rosa.
No meio de gargalhadas e boa disposição as coisas ter-se-iam passado mais ou menos assim:
Ainda o século passado era menino e nenhum de nós tinha nascido, já a festa de Nossa Senhora da Póvoa dava brado por toda a Beira Baixa e até mais longe. Na parte Sul do nosso Concelho, era mesmo um dos poucos e fortes pontos de referência com o Norte, a par da “Terra Fria”, onde se iam fazer as ceifas e buscar sementes para renovar as culturas e tentar conseguir melhores colheitas. Mas vamos à Ti’ Joaquina Rosa, antes que ela nos escape.
Chegara a Primavera, os aleluias pascais já tinham ficado para trás e o mês de Abril cedera, no movimento perpétuo da Terra, lugar ao mês de Maio.
- Ó Emília, tenho vontade de ir à Senhora da Póvoa. Mas a merenda está-me a fazer confusão, pois lá em casa as farturas não são nenhumas…
- Ó Joaquina, tu nunca paras em casa, andas sempre no teu negócio. Que vais tu “cheirar” à Senhora da Póvoa??? Também cá temos a Senhora da Graça…
- Ó Emília, tenho mesmo de ir. Fiz uma promessa a Nossa Senhora…
- Estás sempre com as tuas… Que promessa foi, desta vez?
- Olha, prometi a Nossa Senhora estar lá no seu dia e comer da melhor merenda que se encontre no arraial…
- Tu estás boa do tino? Com a filharada que tens e com negócio que pouco dá, não te vejo maneira de comeres da “melhor merenda da festa”.
- Ando cá com ideias. À festa vou. A merenda também se há-de arranjar!
O tempo passou rápido, conversas de festa mais não houve.
Para espanto da minha avó materna, na segunda feira do Espírito Santo daquele tão longínquo ano, não viu a Ti’ Joaquina Rosa. Não ligou importância ao facto, dado que era normal ela sair, com o seu burro, alta madrugada, para efectuar o pequeno negócio a que se dedicava, tantas vezes trocando pratos, tigelas, jarros… por feijão, milho, centeio ou o que houvesse, pois dinheiro é que não abundava.
Já a semana ia alta, quando se reencontraram.
- Ó Joaquina, nem te tenho visto. Por onde andaste?
- Não te falei que tinha uma promessa à Senhora da Póvoa? Fui na segunda feira…
- Ora, ora. De burro lá foste?! Mas não tinhas falado em “comer a melhor merenda”… Não me cheirou a nada…
- Olha, Emília, essa foi a parte mais fácil…
- Fácil?! Como podes dizer uma coisas dessas, mulher? Não troces da miséria…
- Então, ouve-me com atenção. Levantei-me muito cedo, aparelhei o burro, a lua deu um jeitinho e aí vou eu. Chegada a hora da Missa, lá estava eu no meio daquela gente toda…
- Mas a merenda, a merenda?!
- Espera aí, que a merenda já aparece. Assisti à Missa, fui na procissão e não me esquecia de ir rezando “minha Senhora da Póvoa ajudai-me a cumprir a promessa”. Já viste como é. Acabada a parte religiosa, foi um estender de mantas e toalhas por cima daquela erva toda. Aproximei-me de cada família, cumprimentava “Boa tarde!!!!” “É servida?” diziam-me, simpáticos, “ Por enquanto, não, obrigada; tenho uma promessa a Nossa Senhora de comer da melhor merenda; pode ser que cá volte; até já!” Ó Emília, tu não vais acreditar, mas TODOS me disseram que ficavam à espera, com um sorriso.
- E depois? E depois? – questionou a minha avó, mais que conhecedora das artimanhas da vizinha, mas ansiosa.
- Tem calma, que vais saber o resto. Dei volta ao arraial, fiz a minha apresentação, à medida que ia passando, e ia deitando o olho. Quando já tinha visto o suficiente, voltei àquela que me agradou mais e apresentei-me “Há pouco convidaram-me para comer da vossa merenda, eu disse que tinha promessa de comer da melhor que cá estivesse; a vossa é, sem dúvida, a melhor merenda deste arraial, aceito o vosso convite”.
- Ó Rosa, é preciso descaramento. Que grande lata!!! – exclamou a minha avó indignada.
-Ó Emília!!! Havias de ver a cara de satisfação com que me receberam!!! Fui mais que mimada. Afinal, graças a mim, ficaram a saber que tinham a melhor merenda de todo o arraial de Nossa Senhora da Póvoa. Olha que ainda me podiam ter dado algum para o caminho…
- Francamente, Joaquina, francamente! Que descaramento!!! – murmurava, quase incrédula, a minha avó…

Nota:
Acho que a Ti’ Mari’ Rosa tinha razão: hoje, os nossos “provadores” fazem-se pagar “a peso de ouro”; estava avançada para a sua época.

segunda-feira, setembro 01, 2008

A Caminho da Senhora da Póvoa ´2


A Promessa - 2ª. parte
Enquanto recordava as peripécias de há anos atrás, depois da conversa com a prima, Carminda tinha a certeza de que não ia ligar mais ao assunto. Estava encerrado mesmo. Deus mandava-lhe ser boa, mas burra é que não. Duas tentativas, sempre com o mesmo resultado, eram de mais. A prima não batia bem da bola e Nossa Senhora da Póvoa ia dar-lhe “um desconto”. Sim! Afinal também era Mãe dela e as mães dão sempre “um desconto”…
- Ora esta! Tanto que eu tenho de fazer! Vem já aí a Festa, o ensaio das alvíssaras e dos cânticos da Missa, os bolos, a limpeza da casa, a visita do senhor padre – ai, se as coisas não estivessem num brinquinho, na sua modesta casa, seria uma vergonha. Pobre sim, mas asseada – ia pensando com seus botões. Mas o pensamento não têm travões. Ah! E a festa a Senhora do Incenso já ali mesmo à porta, ia ser p´ra deslumbrar com os seus dotes de cozinheira. O belo galo tinha os dias contados, os chouriços estavam uma delícia. Porco bem tratado. As pataniscas. Os pasteis de bacalhau... Queijo do melhor. As azeitonas estavam para “comer e chorar por mais”... Não bebia, mas a pinga não havia de faltar. E da boa. Ah! A toalha a estender na relva ia ser surpresa. Das poucas economias tirara algum para deslumbrar o pessoal. Até salada haviam de ter, de umas alfacitas escapadas ao frio do Inverno que passara. Uma trabalheira, como se já não bastasse ter casado com um ganhão “o mais desgraçada dos trabalhos” - desabafava Mas agora que o filho mais velho regressara de África, são e salvo, ganhara novas forças. Ele bem lhe ia contando que outros seus amigos não haviam tido tanta sorte… Porque baixaria a voz, quando falava nestes assuntos? Mas já tinha uma netinha, com dois anos, nascida na “tropa”. Esta gente nova não tem juízo nenhum, sempre cheia de pressas. E um netinho de meses…Olha a pressa! Não, desta vez já não foi um jipe militar que levou a mãe à maternidade. Ah! A merenda não seria p´ra valer menos que nos outros anos. Ter alegria … alegria é que ia ser difícil. Viera um, fora o outro, que “estava passando um inferno lá Guiné”. Tanto, tanto rezava que até adormecia de cansaço, com o terço nas mão, depois de um dia de trabalho sempre a doer. “Estes malandros dos ricos ficam com tudo e só não nos tiram o sangue porque depois já não têm quem trabalhe para eles”. Mas aquele filho lá na Guiné, quando já pensava que se safava… Um sofrer tão forte que nem de noite nem de dia se acalmava. Doía… doía… doía. A sua cabeça, sempre àlerta, parecia agora o fervedouro do caldeiro pendurado nas cadeias onde aquecia a vianda do porco…E o coração estalava… estalava… Seria da idade? Mas ainda pouco passava dos quarenta e já tanta opressão. Bom, isto há-de passar. Um já cá está… o outro. “Olha, Mãe do Céu, também to entrego”. Ia pensando, pensando, mas nada estorvava o seu constante mourejar…
As horas, os dias dessa semana da “estrafega” passaram, num instante. O pessoal com a Banda a percorrer as ruas da Aldeia, à meia-noite de Sábado Santo, todo o povo a cantar as alvíssaras em alegres aleluias, o sino quase a partir de tanto tocar – “aquela garotada tá toda maluca, ainda racham os sinos!” – a Missa, as escadas enfeitadas com rosmaninho, o Senhor ressuscitado em casa de cada um “Ò Senhor Prior vá lá nem que seja um borrachãozinho!” “Obrigado, ti Carminda, mas não pode ser…” e mal houve tempo de dizer ai e já os joelhos se dobravam “Senhora do Incenso. Senhora do Incenso, Virgem Mãe .. o meu filho .. o meu filho!!!” Ai o Amor de mãe, o Amor da Mãe!!!
Vinha no regresso, saboreando os elogios do merenda que preparara e de que mal provara, sempre atenta às necessidades de cada um, que não as dela, quando bate na testa e exclama:
_ Ora esta!!! O meu Tó já cá está e temos de ir à Senhora da Póvoa, a pé. Olha se me esquecia…
E, naquela tarde, fosse pelo cansaço, fosse pelo problema já poucas palavras lhe ouviram.
- Ó Carminda, estás tão calada!... Sentes-te doente?...
- Ai, homem, não vês que estou cansada? As mulheres somos umas desgraçadas…Logo tu só sabes pegar na rabiça do arado… E outros nem isso…
Sempre resmungona, sempre a refilar, mas seria sempre a paixão da sua vida. Mulher a valer, nem em casa nem no campo nenhuma “lhe deitava água nas mãos…”
Ia por uma das ruas de Aldeia, onde naquele tempo ainda a vida fervilhva, quando topa a prima.
- Ó Maria, lembras-te da conversa que tiveste comigo na Semana Santa?
- Entã…ão não há…via de lem…lem…brar?. C’a res…pos…ta que tu me…me deste?!
- Olha. Prometi a Nossa Senhora da Póvoa que iria lá, a pé, quando o meu Tó viesse da África. Vou falar com ele e depois te digo alguma coisa?
- Então pos…so te..er s’pe… ran…ça?
- Olha, nem sim nem não… Espera pela resposta.
O tempo passa depressa e, logo na primeira ocasião, lá vai.
- Ó Tó, tenho uma coisa p’ra te dizer. Quando andavas por lá, prometi ir contigo à Senhora da Póvoa, se voltasses em condições de ir… Que me dizes?
- Ó Mãe. Na nossa Família as promessas são para cumprir. Quer ir já este ano?
- É melhor. P´ró ano não sabemos se lá chegamos…
- Então como é que isso funciona?
- Olha, aquela pateta da tua prima Maria já lá foi a desinquietar-me Eu disse-lhe logo que não, pois já chega a parvalheira das duas últimas vezes. Mas de companhia faz-se melhor o caminho. E vou ver se arranjo um grupinho…
- Ó Mãe, mas eu moro em Penamacor… A que horas é que me quer cá?
- Bom, temos de sair às 3 da manhã para assistirmos a tudo. Até porque nunca se sai à hora certa, Tu estás levantado às cinco e meia e pronto a marchar. Batemos-te à porta e “ala que se faz tarde”.
- Ó Mãe, mas a promessa que fez por mim fica coxa…
- Deixa lá que Nossa Senhora vai ter em conta as caminhadas que eu já fiz…
Confortavelmente instalado na posição que lhe era “oferecida” o filho não “foi capaz” de arranjar argumentos. As Mães são mesmo assim: se pudessem, andariam sempre com os filhos ao colo.
Eram cinco e meia da manhã, quando um rijo bater à porta, na Rua Padre Mestre, mesmo por cima da antiga 1ª. Companhia Disciplinar, me acordou.
- Quem é???!!! – perguntei, estremunhado.
- Sou eu!!! Então ainda estás na cama???
- Ó Mãe, desculpe, mas deixei-me dormir…
- Quero-te cá em baixo, num instante. Não, não quero subir que acordamos os gaiatos e perdemos tempo. Despacha-te…
Se despachei??? Ora, vocês não tiveram a sorte de conhecer a minha Mãe…
Eram cinco mulheres e um rapaz. Sim, rapaz, eu tinha 27 anos…
Penamacor fica para trás, num instante. Curva e contra curva pela estrada da época, passada a antiga estalagem aí está o acesso para a carreira de tiro, o sol despontara numa radiosa manhã de Primavera, num alvorecer inesquecível, mas que, temíamos, pudesse dar para o calor. Reza-se, canta-se conversa-se, pensa-se. Já a Meimoa acorda, quando atravessámos o povoado. Eu, com menos dez quilómetros rodados, sempre a puxar.
- Filho, vai mais devagar. Julgas que temos a tua idade? Além disso, vamos chegar a horas.
Sobe, sobe, curva e mais curva e aproximava-se a descida, a caminho do ”lugar da crise”. Duas das peregrinas, bem lembradas, não querem repetir a “proeza”. A minha Mãe, bate no ombro da prima e pôs o dedo no nariz: “Sscchhiiuu” A outra percebe todo o drama da situação e faz “que sim” com a cabeça. Todos se calam e só se ouvem os sapatos a bater na berma da estrada trás… trás … trás… catrapás … A tensão aumenta entre as duas. Ou agora ou nunca. Mais uns passos, mais uns minutos, lá se avista a capela e… pronto. Já passou!
A descontracção começa a instalar-se. Cinco dos caminhantes preparam-se para retomar a conversa, quando, Deus do Céu, não podia ser:
- Ó se.e.nhor pró.prio.f’sor, foi me.e.esmo a.ali a.atrás que das ou.ou.tras ve.e..zes “per…er.di a pro.pro.me.essa”…
Primeiro, um silêncio opressivo. Depois um riso a medo, seguem-se cinco gargantas escancaradas a rir, a rir em gargalhadas que ressoaram, quase de certeza, por montes e vales, até aos declives da Serra de Opa, seguramente até aos ouvidos de Nossa Senhora da Póvoa. Que deve ter rido também connosco.
Só a Maria, atarantada, perguntava, gaguejando:
- Ó Cra,car.min.da, no stá.ás zan.gaa.da com.comi.mi.go???!!!

(As situações narradas são fruto da imaginação do autor; qualquer acontecimento da vida real que se lhe assemelha é pura coincidência)
Notas:
Naquele tempo ainda se tratavam os professores por “senhor” ou “senhora”.
Acredito que, lá no Céu, Mãe e filhas se riem com gosto, quando recordam estas “aventuras” tão descuidadamente humanas. Fazem-me saudade!
1 de Setembro de 2008

domingo, agosto 31, 2008

A Caminho da Senhora da Póvoa 1


A Promessa
- Caramiinda, só faltam 7 semaanas…
- Sete semanas para quê, Maria???
- Para ir…irmoos à S’nhora da Pova a pé e m…me m…me ajuda…ares a cumpri…i…ir a po…prome…essa a Nonossa Senho…ora da Póva…a…a… - gaguejou.
- Ná! Desta vez não me enrolas. Já duas vezes que fui contigo e mesmo a chegar ao fim, estragas tudo. Isto é de mais e já não tenho idade para brincadeiras…
- Ooh!!! Caraminda po…or fa…avor não me deixes i…ir p’ro Infe…erno…o… - insistia a outra.
- Não, não desta vez não contes comigo.
Passou-se numa Semana Santa de há muitos anos atrás, precisamente no início da década de 70.
Maria era uma das figuras típicas da minha Aldeia, um tanto “abajoujada”, meio “tronga” e “desleixada”. De gente modesta, não tivera vida fácil, como quase todos os nossos aldeãos, que trabalhavam de sol e sol, ao frio e à chuva, para alimentar a preguiça dos das “casa grandes”. Não primava pelo aprumo nem pelo asseio, divertia e divertia-se com os remoques dos outros. Eventualmente, com um baixo coeficiente de inteligência, tinha muitas histórias que faziam com que uma “malta” cruel a “assanhasse” cada vez que passava sobretudo se algum engraçado se atrevia a chamar-lhe “parracha”, vocábulo muito pejorativo na terra que nos viu nascer. Era um despejar de asneiras em cima do atrevido, que chegavam e sobravam para ele e para todos os familiares, próximos ou distantes, até à quinta geração. E esta encenação não acontecia só de ano em ano, podendo a ocorrer várias vezes, no seu percurso, até ao fim da povoação, na estrada para Medelim. Uma figura castiça que, certamente nem a Reforma da Maria de Lurdes conseguiria pôr a ler. Muito menos a calcular. Pelo menos no papel que no resto governava-se com mais ou menos dificuldade.
“Sempre que nasce um sapo, também nasce uma sapa!” Quantas vezes ouvi esta frase lá pelo povoado onde nasci e percorri em dias felizes que já não voltam. Pois foi assim que, sem muito espanto, a Maria lá se casou e teve uma catrefada de filhos, todos pessoas de bem, com uma vida bem mais aliviada que a dos pais que, anos fio, foram sendo pastores de algum dos muitos rebanhos que, ao tempo, enchiam caminhos e pastos com o tilintar bucólico de chocalhos e campainhas, a vaidade dos donos daqueles animais que davam vida e algum ganho às nossas pobres gentes beiroas. Dormir na choça, parir filhos sem parteira nem maternidade, trabalhar muito e receber pouco foi o destino da nossa Maria, muitas vezes motivo de galhofa de muitos que se achavam engraçadinhos.
Carminda era prima da Maria. Talvez daí a amizade que as unia e uma certa cumplicidade com as suas “parvoíces”. Ficara órfã, ainda na adolescência, fora criada com 3 irmãos por uma jovem Mãe que nunca mais deixou o seu fato de viúva, e só se lembrava de sempre ter trabalhado. Ah! Aquele malfadado “rolho” “areando” a terra e separando volfrâmio para prolongar, cruel e inutilmente, uma guerra que devastava a Europa, enriquecendo uns, com extravagâncias inconcebíveis, e explorando os mais fracos, de maneira escandaloso e muito sofrimento!!! Mesmo assim, ainda fez a 3ª. classe, um “bacharelato” nos anos 30 – a “licenciatura” era “dada” pela quarta classe, numa das salas da Escola de Penamacor, onde a nossa Carminda nunca chegou a pôr os pés, não por falta de capacidade, mas sem oportunidade.
Por força das circunstâncias, aos 20 anos casou. Não foi o enlace que sonhara, mas o possível, já que detestava a vida do campo e saíra-lhe na rifa um “ganhão”. O destino de ambos estava traçado…
- Filha, uma casinha nova é o sonho de qualquer rapariga. É trabalhador, não tem vícios, uma junta de vacas… blá… blá..
Ah! A força de uma Mãe quando o candidato sabe namorar em dois dos campos.
Entregue ao seu triste destino de tratar dos “torrões” dos outros, aqueles arrendamentos e aqueles ricos exploradores e sem coração, nem por isso deixou de se fazer notar pela sua inteligência e sagacidade, argumento na ponta da língua de “mais vale perder um amigo do que guardar uma boa resposta”. Militante convincente do Catolicismo, nem sempre esclarecido, mas sem culpa própria, poucas iniciativas passavam por ali sem que estivesse presente. A sua devoção mariana tornavam-na uma grande fã, como hoje se diz, das peregrinações a pé, a pão e água… e das nossas romarias. Ah! Que ricas merendas ela sabia preparar!!!
Ora a nossa história começa uns quatro ou cinco anos antes da conversa que inicia este texto. Numa das suas muitas aflições, a Maria, uma língua de trapos, socorrera-se de Nossa Senhora da Póvoa:
- Virgem Santíssima, valei-me nesta aflição e eu prometo que irei à vossa romaria, a pé, desde Aldeia, sem dizer uma só palavra em todo o caminho…
Para quem a conhecesse, ou a aflição era grande ou a inconsciência do prometido quase irresponsável. Mas estava prometido, estava prometido. Pronto!
O pedido para tão grande desespero teve a resposta pretendida e “promessa de rei (rainha) não volta atrás”. Estávamos no tempo em que se vendiam prédios para sempre com uma “única palavra” ou, então, depois de bebido o “albroque” estava negócio fechado para sempre. Ah! Escrituras e simplex podiam ser dispensáveis, eram mesmo ignorados!
Ora pois. Havia a promessa para cumprir. Sem lugar para hesitações nem desculpas. Promessa era promessa. Deixemos os juízos de valor aos iluminados de hoje!!!
A Maria dava voltas e mais voltas e não tem dúvidas.
- A minha prima Carminda vai dar uma ajuda…
Conversa daqui, conversa dali, convida-se esta e aquela e tudo se arranjou. Até porque a Carminda estava em vésperas de ter os filhos lá pelas Africas, prontos a marchar para uma guerra sem sentido nem motivo. Acreditava, profundamente, que tendo a MÃE de Jesus por aliada as coisas poderiam correr da melhor maneira, como era o seu desejo mais profundo, abraçá-los vivos e escorreitas, no regresso. Oh! Mães de Portugal quanto sofrimento injusto e injustificado!!!
Foi assim que, lá pelas 3 da manhã de uma 2ª. Feira do Espírito Santo, aí vão elas, quase só elas – já nesse tempo era mais fácil levar os homens à taberna… - não sem que antes a cartilha tivesse sido bem lida:
- Maria, já sabes que não podes abrir a boca e nós não estamos aqui para brincadeiras!!!
- Está…á be…em… Sei be…em qual é o meu traba…a…a…alho…
Dada a partida, passa-se a Aldeia do Bispo – uma pêra doce – Penamacor – ui que já me dói um tornozelo – a Meimoa - ai os meus joelhos que nem os sinto – caminhado, rezando, cantando, falando. E a Maria “ moita carrasco” . Um poço de silêncio. Parecia, sim parecia, que a vitória era certa!!!
Ai aquele caminho depois da Meimoa que não mais chega ao fim. Upa que já falta pouco. E lá vão, passo a passo, quilómetro a quilómetro.
- Ui! Estes quilómetros são mais compridos que aquele dois até Aldeia do Bispo – exclama uma delas.
VSP já aparece lá ao fundo bem iluminado pelo sol brilhante de uma manhã suave de Maio.
- Força que estamos perto.
De repente, numa curva da estrada, vislumbra-se algo que todos julgam ser a capela de Nossa Senhora da Póvoa e ouve-se com entusiasmo e alegria:
- Mi...inha Senhoira da Pova, que já vos vejo!!!
O espanto deixa os peregrinos gelados. Faltavam uns poucos quilómetros e aquela desbocada não conseguira conter-se. Nem a caminhada, nem a Fé, nem a Esperança, nem a Caridade foram tidas em conta numa explosão de revolta e ira:
- Minha grande maluca, todo este sacrifício e estragaste tudo!!! Estava quase, quase e essa língua destravada só fala de mais…
A viagem vai até ao fim. Nessa já tão distante segunda feira a devoção a Nossa Senhora da Póvoa foi vivida por cada um dos caminheiros segundo o seu entendimento Mas a promessa … Ah! A promessa fica para um novo episódio…
(Esta narração é fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com situações reais é pura coincidência)

sexta-feira, agosto 29, 2008

Aposentação


Fim de via ou de vida???
Dentro de semanas completam-se os 47 anos passados desde o dia em que comecei a leccionar. Dou graças a Deus por isso. Obrigado, Senhor! São muitos dias, muitas semanas, muitos meses e, verdade seja dita, muitos anos, mais de 2/3 da minha vida. Foi bom, muito bom, com todas as limitações que esta apreciação possa conter, na forma e no conteúdo. Trinta e quatro anos no ensino público e treze no privado, deram-me oportunidade de conhecer milhares de Crianças e suas Famílias, de conhecer Colegas e Auxiliares irmanados, de mãos dadas, num grande objectivo: formar Cidadãos livres e responsáveis.
Começando lá pela Aldeia que me viu nascer, viajei pelo Mundo e vim aterrar nas margens do Rio Azul e por aqui me fiquei. Até porque, cada vez que mudávamos de terra, nascia-nos um filho e entendemos que quatro eram bastantes. Não que sejam de mais!!! Foi uma vida cheia. Vivi.
Mas agora queria fazer uma pequena reflexão sobre esta chegada à meta. Desde há meses que dei conhecimento ao Senhor Bispo de Setúbal de que gostaria de ser dispensado da honrosa missão que a Diocese me entregara: dirigir uma das suas Escolas. Sentia que, nestas coisas, não há lugar para fraquezas nem desculpas, que com a Educação não se brinca e que as Crianças têm o direito de exigir de nós o máximo, o que eu já não me sentia em condições de fazer. Foi assim que as coisas, com naturalidade, se foram encaixando de forma que a hora do adeus se foi aproximando inexorável, mas certeira. E tudo até correu bem: as festas com Crianças e Adultos foram bonitas, fartas, amorosas, imerecidas. Muitas mensagem de Amizade, muitas provas de Carinho, tentando “amortecer” a dor que toda a perda, toda a partida contém. Ficam as recordações, a sensação de ter feito o melhor que podia a sabia, com tantas limitações e falhas. Fica a certeza de ter ajudado o Mundo a ser melhor e de que, se fosse possível voltar atrás, como desde Criança dizia, repetiria: “Quero ser Professor!”

Abril em flor!!!


A propósito de Baságueda…
O Inverno era longo e doloroso, no frio e na fome. As alegrias da Primavera continham a esperança do regresso do Sol e da “Festa de Flores”. Era por este nome, ouvido da boca da minha Mãe, que eu comecei a conhecer a Páscoa. À mistura com a esperança em dias melhores aí estavam as amêndoas, as “bicas” – não, não é a “italiana” nem a “cheia” - as “boas festas”. Era um desatino, nos cheiros, nas músicas, nas cores e nos sabores. Mas o melhor estava para vir. A Senhora do Incenso, com toalhas estendidas e deliciosas merendas, logo na 2 ª. Feira pascal. Duas semanas depois aí estava a Senhora do Bom Sucesso, ou da Baságueda, com cenário semelhante, com a paródia da passagem da Ribeira, normalmente cheia bastante para haver banhos fora de época, já que as muitas bestas, sim, burros de verdade, não se aguentavam nas canetas e… catrapum. Acudam! Acudam! Uma risada pegada. E, no regresso, os miúdos esperando, à beira do caminho, pela “rebatinha” das amêndoas – lá vai outra. Depois do pôr-do-sol um “morteiro” anunciava o regresso da Banda à Aldeia - e não garanto que todos tocassem a mesma música numa última “arruada” e acabou-se a folia. Contudo, era certo e sabido que, com maior ou menor dificuldade, à noite, todos dormiam em casa. Baságueda, é, pois, um local da freguesia de Penamacor, junto à fronteira com a Espanha, onde se celebra, ainda hoje, uma festa que junta mais Espanhóis que Portugueses, certamente para se vingarem de uma “pesada derrota” que, nos tempos de “agora atacais vós, depois atacamos nós”, lá devem ter sofrido. Do nosso lado é essa a convicção e daí a razão da capela e da romaria. Baságueda dá nome à festa e à Ribeira, afluente do Erges e nascida aí perto de vós, na Malcata. Mas de festas ainda não estamos conversados. Cinquenta e um dias depois era a Senhora da Póvoa, onde já fui a pé, em carro de bois, de mota e de automóvel, algumas vezes, não tantas quanto gostaria. Mas desta sabem muito mais os meus Amigos e “não vá o sapateiro além da chinela…” É a vossa vez de me falarem da maior romaria da Beira Baixa, que os meus Amigos da Idanha não me leiam, pois eles “têm a certeza” de que é a da Senhora do Almurtão. E lá se iam as Amizades e vinha “tchangotada” de “matar bicho” . Não, não esse “mata-bicho” de que falaram atrás… Este de que falo “faz mossa”. Embora com o “outro” também não se deva brincar, sobretudo que as multas já começam a “doer”… Por causa das dúvidas o nosso Zeca canta as duas numa só e linda canção. Não acreditava em bruxas …“mas havê-las há…” “Porque não te calas?” Calo, pois!!!

terça-feira, julho 15, 2008

Os meus Meninos!



Queridos Amigos do 3º. A:
Acabei de ler os vossos lindos textos que me encheram o coração de muita alegria e ternura, aquela ternura que me levava a tratar-vos por "filho" ou "filha" que dava aso a que alguns mais corajosos me chamassem "avô" e me impelia a que vos tratasse como "netos". Recordastes os "muitos" anos que vivemos e convivemos como bons Amigos leais e fiéis.
Assim, daqui a uns tempos, quando eu já for velhinho e vós vos tiverdes tornado lindos rapazes e encantadoras raparigas, aqui hei-de voltar para saborear, para apreciar, para me animar com a mais extraordinária prenda que já recebi, na vida, depois do Amor dos meus Pais, da minha Mulher, dos meus Filhos e Netos.
As "prendinhas" do coração" de que falávamos no 2º. ano, na aula de EMRC, são estas que acabais de escrever e com que me dais mimo e manifestais a grande Amizade que nos une. Foi um momento inesquecível, neste início de 16 de Julho de 2008, e vou recordá-lo como o culminar de uma vida inteira a lidar com Crianças lindas como vós, que fostes as jóias da minha vida. Valeu a pena ter vivido assim. VIVI!!! Com entusiasmo, vos digo: por vós e para vós, se fosse possível voltar atrás, quereria, de novo, ser Professor, para vos amar e ajudar a crescer e voltar a receber o prémio dos vossos sorrisos, a alegria das vossas palmas, o som das vossas cantigas, a doçura dos vossos afectos, a beleza dos vossos textos...
Queridos Amigos Alunos, querido professor Hugo, tenho a felicidade de vos ter por Amigos. Obrigado Amigos! Até sempre.
Um abraço muito apertado, tendo-vos no meu coração de Amigo para sempre.
Obrigado, muito obrigado. Bem hajam, como dizemos na nossa Beira.
António de Almeida Serrano

segunda-feira, junho 09, 2008

Gostei; não gostei...

Fui à nossa Terra. Gostei da Missa de Domingo, 12h, na Sé de C. Branco. Tantas boas recordações! Esta manhã, gostei de ver dois irmãos, do Vale, Senhora e Senhor, comprar "borrachões" em S.M.d'Acha. Apreciam-nos muito, acho! Ambos de luto. Mais novos do que eu.
Não gostei de ter programado uma visita de 4 dias e nem chegou a 24 horas. Falta de cálculo meu? Bem feito! Não gostei de atravessar o matagal que é a nossa Beira e de ver a calçada da minha Aldeia "forrada" de verde. Para onde vão? Também por culpa minha.
Não gostei de pagar 5 Kgs de cerejas, na ponte de S. Gens, e eram só 4,5 Kgs, quando conferi. Juro que não as comi pelo caminho. Gosto de ajudar, mas assim não vale. Até porque não discuti o preço. Alto, por acaso!

quarta-feira, junho 04, 2008

A romagem

A data ficara marcada, desde o ano anterior: último sábado de Maio. Algumas semanas antes, uma chamada não fosse eu esquecer-me. A manhã acordou serena. Quis ir mais cedo para abrir portões, portas e janelas. Foram chegando,aos poucos. Todos mais velhos do que eu. Como era grande a alegria de mais um reencontro. Gargalhadas. "Olha como estás linda!" "Mentiroso, mas simpático". Mais sorrisos e abraços. Eram os antigos alunos da Escola Técnica de Setúbal, na sua "Romagem". Histórias engraçadas e recordações de um passado que se esfumou. Depois... foram saindo, lentamente. Fiquei sozinho! Comigo apenas a saudade de um dia que vivi, repetidamente, e que nunca mais voltará...

sexta-feira, maio 30, 2008

Festas na escola

Três dias antes uma delegação do 4º. ano passou pelo meu gabinete. A Odete ia fazer anos e queriam fazer-lhe uma surpresa.
A Odete é uma querida Colega. Trabalhamos juntos, há muitos anos, na Escola Pública, antes, na Escola Privada, há 12 anos. Excelente profissional, tem todas as qualidades que a fizeram tão especialo junto destes Garotos que educa, instrui e forma, há 4 anos. Esta explicação ajuda a compreender o que vem a seguir.
Uma vez que o Quico, do mesmo grupo, também faz anos, no mesmo dia, sugeri que as festas, previstas fartas, fossem repartidas por dois dias. Ouviram, calaram e saíram. A Diana voltou, pouco depois, em nome de todos, "se eu autorizava... que festa só é festa mesmo no dia... blá...bla´..." "Ó Diana, as festas não são minhas, mas vossas. Nisso eu nada mando..."
Acabei também convidado. Não era esse o preço da negociação, mas tenho a sorte de os ter por Amigos!Com uma condição: era segredo. E eles sabem que aquela sala é o confessionário da Escola.
O ansiado dia chegou! A manhã estava um tanto nublada para esta Primavera que tarda em chegar. Mas sentia-se que andava qualquer coisa no ar. O brilho nos olhos dos alunos do 4º. ano, os cochichos, as entradas e saídas, a presença um pouco mais demorada de algumas Mães, solícitas e atentas, o pedido de dispensa do almoço geral, o grande arranjo de flores na mesa da Odete, o quadro - sim, nós ainda usamos quadro!!! uns atrasados para alunos tão brilhantes!!! -enfeitado com tanta arte e Amor, tudo dizia que ia ser um dia diferente. O caso também não era para menos. Também esta sua querida Amiga está de partida, como eles, e não mais estará na Escola a festejar o seu aniversário. Claro está que as actividades lectivas estavam um tanto "prejudicadas", se isto se pode dizer quando se está também muito interessado na construção de pessoas sábias, competentes para além do comum, mas também com um grande coração e um doce carácter aliado a forte vontade de escolher o melhor para si a para os outros.
A campainha ouviu-se por toda a Escola anunciando o intervalo e a hora do almoço. Do 4º. ano saem uns, entram outros, informa-se a Odete de que querem almoçar mais tarde para ninguém os perturbar no almoço comum. Passavam 40 minutos do meio-dia. Dera-se o jeito para reter a Professora na sala de aula e, quando chega ao refeitório, as portas estão fechadas. "Mas que é isto?" Bate à porta, espera. A grande sala abre-se. Os parabéns mais alegremente cantados que já ouvi, Mesas onde tudo de bom sobre elas abundava, sobretudo porque o Amor estivera presente. Mãe e pais, avós, alunos e amigos uniram-se para este momento. Beijos e abraços. Emoção muito forte e lágrimas teimosas corriam da cara desta querida Amiga. Que se misturaram com outras. Depois foi a satisfação da partilha de um almoço que era de todos para todos.
Querida Odete, querido 4º. ano, uma turma fantástica para uma professora fantástica. Um momento inolvidável em que tive a alegria de estar. Estou mais rico, todos nós estamos!
Então e o Quico? Não, não é a pedra da "sopa de pedra", para outra festa.
Acabou a da Odete?! Pois sim! Pelas 15 horas já estava outra em movimento, a do nosso Quico, tão educado, tão doce, tão meigo que, como a irmã e os primos todos que cá andaram, vai ser mais uma grande saudade. Para sempre.
Parabéns, Quico! Parabéns, Odete! Que Deus continue a abençoar-vos. Gosto muito de vós e nunca vos esquecerei! Obrigado!!!

segunda-feira, maio 26, 2008

Segunda feira da sapateiro...

Esta língua pátria (porque não língua mátria? machismos?!) lança-nos na "eterna dúvida" (outra estória ou história bem divertida...)
"No tempo em que os animais falavam..." ou "quando Deus andava pelo mundo..." - assim começavam os contos/estórias/histórias que a minha avó materna me contava e com que me encantava - há muitos e muitos anos, os homens organizavam-se em corporações com seu estandarte, santo padroeiro e dia de festa, normalmente regada com copos de tinto, ou branco, ou verde, ou maduro (vinho, claro, ou escuro também se fosse tinto... esta língua pátria/mátria traiçoeira).
Assim os carpinteiros tinham o seu S. José, os Pescadores o seu S. Pedro... Só os Sapateiros não gozavam de um dia para festejar o seu Santo, o que lhes causava grande privação e/ou provação. Uma vergonha para a classe. Padroeiro tinham, S. Crispim, mas em que dia festejá-lo?As opiniões dividiam-se e apenas uma pista: a última referência certa conhecida, uma incerta segunda-feira. E se o ano tem 52 desses dias de começo de semana de trabalho! Uma fartura!!! Não ter nenhum para festejar ou ter tantos? A escolha foi fácil: se não há dia certo celebram-se as 52 segundas-feiras do ano.Uma festa pegada, a que só se sucederia o carnaval do Rio de Janeiro. Não, esta do carnaval não faz parte da história/estória. E daí para diante, os sapateiros prolongaram o fim de semana e, hoje, sempre que um de nós, e somos muitos, vai com preguiça para o trabalho, o que acontece quase sempre, com o corpo a puxar para a festa e/ou para o descanso, exclama:
- Oh! Sinto-me em "2ª. feira de sapateiro".
Isto desde o tempo em que os animais falavam, ou mesmo desde quando Deus andava pelo mundo...

domingo, maio 25, 2008

O "estado da nação"...

Estimado Colega,
Tenho alegria em lhe dizer que sou seu conterrâneo, não no sentido lato, mas quase restrito, pois nascemos no mesmo Concelho. Vi a primeira luz do dia e fiz-me jovem, em Aldeia de João Pires. Ainda por lá ensinei, na "primária", durante 5 anos - 2 am Aldeia do Bispo e 3 em Penamacor, com quase 4 anos de tropa, pelo meio, 2 anos dos quais em África - aonde voltei, em 1971, como professor, tendo-me fixado em Setúbal, a partir de 1974 e por aqui vou dar fim àcarreira de 47 anos, se Deus quiser, em 31 de Agosto.
Conheço várias pessoas na Meimoa - a Ana Madeiras é minha comadre, embora vão nos vejamos há anos - o António Cabanas Moiteiro e a Clara, sua esposa, são aqui quase meus vizinhos - vivo em Palmela e eles em Azeitão, mas já o vi esta semana. Quando vou a Aldeia, de vez em quando gosto de almoçar num dos restaurantes lá da sua Meimoa, embora já fosse mais entusiasta pelo passeio e refeição do que o sou, actualmente. O texto que tão bem exprime o seu pensar, repito, como no anterior, honrar-me-ia subscrevê-lo. Eu lido com pessoas, como já disse, que procuram o Ensino Privado, em desespero de causa e não por vaidade, pois o Estado não responde aos seus anseios. E têm de pagar por isso duas vezes, mensalidades e impostos, com enorme sacrifício, na maior parte dos casos com que lido, diariamente. O que esta Ministra tenta implementar nas Escolas Públicas, um acolhimento condigno e ensino de qualidade, passe a vaidade, já se praticava na Escola nº. 8 de Setúbal, sob a minha modesta direcção, nos anos 80. Lá recebíamos as Crianças das 8 às 19 horas, sendo isto uma completa novidade, naquela Cidade. Fundou-se a "Liga de Amigos da Escola" e, com os Pais, levámos a cabo um Projecto interessante, pelo menos. O primeiro jardim de infância público da península de Setúbal também lá foi instalado poucos meses depois da publicação do Decreto que os criava e permitia. Não se vai à Escola ou à Saúde privadas por vaidade, mas porque os Sistemas Públicos não funcionam. Dei-lhe exemplos, na comunicação anterior e não vou repetir-me para não ser maçador, mas os casos de mau atendimento são aos milhares e o nosso Povo sofre a "ditadura da mediocridade" que é quase tão má, segundo vejo, ouço e leio, como a "Dita Dura". Escolheu as grandes áreas em que uma Democracia a sério devia assentar e que são fundamentais para que, no seu funcionamento correcto, tornem os cidadãos mais iguais e felizes: a Educação, a Saúde e a Justiça. Mas olhe à sua volta e, creio-o, a "paisagem" é desoladora. Estão as Crianças e os Jovens portugueses a receber a Escola que precisam e merecem? Não, em meu entender. Ainda agora as famigeradas provas de aferição foram de uma "tristeza" incrível: professores tratados abaixo de cão pelas disparatadas exigências que eram feitas aos "aplicadores", quase como mentecaptos; crianças "avaliadas" como imbecis, pois as provas podiam ser resolvidas pelos alunos bem preparados do ano anterior, com resultados satisfatórios; uma despesa tremenda, sem resultados práticos - no fundo, as provas não servem para nada! - com desperdício de dinheiros públicos e um verdadeiro ataque ao ambiente - cada prova, em média, tinha 20 páginas e se o grupo tivesse 21 alunos, como vinham em pacotes de 10, lá iam nove exemplares para as"sobras"...
E os Doentes têm o acolhimento, a solicitude e o tratamento por que tanto anseiam? Não e não, pelo que vejo e sinto. E a Justiça? Ah! A Justiça, a justiça, tenho de a escrever com letra pequena... Só mais um pequeno episódio pessoal: a minha mulher, também professora, foi humilhada e ofendida dentro da própria sala de aula, por uma mãe. Decidimos levar o caso a tribunal. Sabe qual foi a nossa sorte? O Juiz estava casado com uma professora e "compreendeu" a situação, abrigando a queixosa no seu próprio gabinete para a livrar dos "desaforos" da ré. Impunemente! Mas isto é um pequeno "aperitivo" comparando-o com o que vai por aí. Quem, no seu perfeito juízo, leva uma ofensa a tribunal?
Outro dever do Estado que não referiu nas suas escolhas, a Segurança. Se alguém se quer sentir, com relativa "segurança", terá enormes encargos, sendo Privada ou Pública a pagar "por fora". O resto dos cidadãos encontra-se completamente indefeso, com destaque para os mais fracos, Crianças e Idosos, mas que nenhum pacato cidadão se arme em valente porque "quem se mete...com eles..leva". Sem remissão. E as actividades que deviam ser privadas, sobretudo no campo económico - pescas, agricultura, comércio, indústrias... - estão com cargas pesadíssimas. Saio da Escola, embora já com 65 anos, não pelas Crianças, não pelos Pais ou Trabalhadores docentes ou não docentes, mas porque estou cansado, cansado da burocracia. E garanto-lhe que todos os nossos impostos e encargos estão, religiosamente, pagos, em dia.
O director do Rádio Clube de Monsanto, Prof. Joaquim Fonseca e também nosso Colega, que faz o favor de ser meu Amigo, debate, às vezes, estas questões comigo, via internet. Agora anda a "desatinar-me" para uma conversa, a dois, pelas ondas hertzianas. Vou-lhe propor um "directo", agarrando a sua ideia, a 3 ou 4 ou 5... a partir da sua praia fluvial, lá na Meimoa. Ia ter muita piada...
Já chega, por hoje, que a sua bondade e paciência têm limites.
Abraço amigo do
António Serrano

Escola pública versus escola privada?

Amigos,
Fui professor na Escola Pública durante 34 anos e estou, por isso, à vontade para escrever o seguinte:
Já conhecia este texto, antes de ser "rasurado" para "universidades privadas". No escrito inicial, alguns dos episódios, em razoável equilíbrio, passavam-se em Escolas Superiores Privadas e Públicas, para nossa desgraça. Até porque a preparação de base dos alunos que "alimentam" os dois "tipos" de ensino é a mesma e discutir isto levava a sessões infindáveis de "prós e contras". A verdade é que o ENSINO está mal. Também por culpa minha! Ora o autor das "emendas" está muito enganado se pensa que, na Escola Pública, só há sábios!!! Sem querer alimentar polémicas, escrevi isto em jeito de reflexão, até porque o problema é demasiado grave para que fechemos os olhos, ou nos fiquemos nos maniqueísmos perniciosos.
Abraço do
António A. Serrano

Público versus privado?!

Tenho 3 filhos licenciados que fizeram todo o seu percurso escolar no Ensino Público, com explicações privadas a ajudar; tenho um filho, que não é licenciado, por culpa do Ensino Público, a nível do secundário. Tive com os seus professores, meus colegas, discussões "tramadas", porque entendo que também se pode "assassinar" "matando a esperança" ou criando falsas ilusões nas Crianças, Adolescentes e Jovens, conduzindo-os a "becos sem saída", mesmo sem retorno. E "eles" "mataram a esperança" num dos meus filhos. Felizmente, este foi forte, deu a volta por cima e é, hoje, um técnico muito qualificado da Ford alemã, em Colónia. Mas custou-lhe muito mais chegar aos seus objectivos. E bastava que a Escola Pública o tivesse ajudado, reprovando-o, como nós, os Pais, queríamos, no 9º. ano. Absurdo, não é?! Nós, os Pais,l queríamos que ele fosse "retido", como agora se diz, e a Escola Pública, em que eu e a mãe nos integrávamos, não quis!!! Reconheço que isto podia também acontecer - e acontece, com demasiada frequência!!! - no Ensino Privado, onde muitas vezes, não se "mata a esperança", mas se faz viver a esperança "em coma", dando "vida"que não vai servir para nada e que conduz também ao desespero. Permita-me uma nota pessoal: para meu desgosto, pois está em causa o futuro desta Pátria, os meus filhos não querem os meus netos na Escola Pública, embora eu lha recomende. Paradoxal? Infelizmente! Até porque pagam "uma pipa da massa". Os pais são trabalhadores por conta de outrem, ela no Público, ele no Privado. Sempre a batermos no mesmo e, creio-o, não é aqui que está o cerne da questão, pois ambos têm boas avaliações nas responsabilidades que lhes estão atribuídas.!Quer saber? Até há anos tinha como únicos HEROIS os meus PAIS, simples camponeses da nossa pobre Beira, tão explorados e sofredores! Hoje, passados os 13 anos que, em breve se vão concluir também com o fim da minha missão aqui, considero os PAIS destes GAIATOS encantadores também meus HERÓIS, os enteados do Serviço Nacional de Educação. Quase 100% deles são trabalhadores, da classe média, esta em vias de desaparecer. Eles entregam-me, anualmente, quantias que poderiam aplicar num carro novo ou em férias em qualquer parte do Mundo. No entanto, por Amor aos Filhos, renunciam a muita coisa material em troca de Educação, Instrução, Segurança e Afectidade que, em seu entender, não encontram noutro lado. O nosso Colégio não está abrangido pelos "contratos de associação" e apenas um número muito reduzido de "contratos simples" e "contratos de desenvolvimento" que, normalmente, não contemplam os que mais precisam. A sua opção é HERÓICA: pagam o ensino dos seus filhos - as mensalidades só têm uma pequena percentagem de desconto em sede de IRS - e, com os seus impostos, subsidiam o Ensino Público de onde nada recebem. Até a Câmara Municipal cá vem buscar a derrama de 10% sobre o IRC que, sem qualquer contrapartida, pontualmente, também a Escola paga para financiar o Ensino Público. Perante a realidade do que encontrei, pelo menos no que se refere a esta Escola, tive de rever os meus preconceitos e tive também de pôr, nos pratos da balança, os dois sistemas e tentar avaliar, com a justiça humanamente possível. Mas, repito, não tenho nenhum pai/mãe ricos. Os filhos destes andam por outras paragens. Não raro, tenho de esperar o pagamento das mensalidades para além do desejável e razoável, quando não se vão para sempre. Uma crise!!! Se calhar, estou a ser confuso, mas quando o coração fala, a mente nem sempre acompanha... Se me permite uma avaliação ao que me disse, são sensatas as suas palavras. Não teria qualquer dúvida em subscrever um texto de fino recorte, produto da lúcida inteligência de alguém que não está no mundo "p'ra ver a banda passar", antes atento, crítico e responsável. A Democracia tem destas coisas: ou intervimos, em direcções várias, ou afunda-se no pantanal. Só há uma coisa em que discordo de si, no que toca aos "contratos de associação": eles foram uma necessidade imperiosa para o Estado, que não tinha capacidade para dar resposta à explosão da procura da Escola pelos jovens que a democratização pós 25 deAbril impôs à Nação. Mesmo com a "oferta" privada, as escolas estatais, por turnos de manhã, à tarde e à noite, transformaram-se em armazéns onde se amontoavam alunos em turmas de trinta e muitos alunos - cheguei a leccionar 40 crianças em 3 anos consecutivos e mais de trinta, durante outros - foram "o pão nosso de cada dia" e de cada um, com professores impreparados - alguns deles nunca fizeram ideia de ir parar à Escola e só lá chegaram em desespero de causa, por falta de emprego e enquanto não o arranjavam. Os "contratos de associação" permitiram que filhos de Portugueses de poucos recursos económicos frequentassem escolas privadas que estão bem colocadas nos "rankings" de avaliação, se é que isto significa alguma coisa ou se a Verdade passa por aí...Claro está que a matéria de discussão é inesgotável, mas é urgente que se faça do Aluno o centro da Escola. Há Escola e professores, porque há Alunos e não o contrário. O "corporativismo" tem de acabar. Penso que a Ministra vai no bom caminho, embora discorde de alguns dos seus métodos. Talvez por falta de dinheiro, há docentes, em actividades de enriquecimento curricular, muito mal pagos e sem qualquer avaliação do trabalho que produzem nem garantias profissionais. Duas injustiças numa situação que pode não estar a dar os frutos que a propaganda apregoa."Mal por mal o Ensino Público", escreveu. Mas o Ensino Público não tem que ser um MAL! Somos demasiado pobres para nos darmos a esse Luxo. O Ensino Público tem de ser um BEM e o ajustamento logo se dará. Há Ensino Privado porque o Estado não responde às necessidades dos Cidadãos. Quando virá o dia: "Bem por Bem o Público???!!!"
O meu "palavreado" poderá servir para os hospitais e Serviço Nacional de Saúde, onde o "corporativismo" manda - com honrosas excepções, lembro o Dr. Manuel André, entre outros - em que muitos se dão ao luxo de "tratar" os pacientes, muitas vezes, como "impecilhos" e causa para desassossego e trabalho... Eu e a minha mulher apenas vamos ao Hospital Público, regularmente, como dadores de sangue. Como doentes vamos ao Privado, onde somos acolhidos como Pessoas. E é o Privado que tem a culpa? Já esta semana lá estive e, ao menos, o médico ouviu-me e discutiu saídas comigo. No Público nem os olhos levantam para mim e dão-me dois minutos!!! Tenho tido azar? Se calhar, sim, mas é azar a mais e azar é o que menos desejo, num hospital... Esta é a verdade nua e crua. Também aqui a discussão pode ser interminável. Entendo que o SNS deve centrar-se no doente, o que está muito longe de acontecer. Ainda ontem, dois octagenários meus conhecidos, deslocaram-se, de táxi, de Beja a um hospital público de Lisboa, para estarem cerca de dois minutos com o médico, que marcou, num instante, a operação da Senhora, às cataratas, para daqui a mais de 6 meses!!! E saíu a correr - já eram 13h 30m - sem querer dar uma palavra de explicação ou conforto aos idosos ou à filha, minha colega, que faltou ao serviço para os acompanhar. A Senhora é sua doente "privada", em Beja, e candidata a operação, no "público", em Lisboa. Daqui a muitos meses!!!Já não vê, a deslocação, a desumanidade e a frieza do acolhimento causaram-lhes um sofrimento desnecessário e injusto. Ouvi o testemunho indignado da filha. Pediu o "livro amarelo"e escreveu? Não, com medo de retaliações!!! Uma promiscuidade, uma vergonha!!! Não é esta a IGUALDADE que nos canta o ZECA! Os poderosos, mesmo no Público e sobretudo aí, arranjam-se. Veja-se as operações plásticas, no Hospital de S. João... Uma vergonha. O Público não é de alguns que enriquecem até, via partidos políticos - ordenados dos administradores da GALP, CGD, Banco de Portugal... mas dos Portugueses. E é isto que torna muito céptico, depois de um indiscritível fervor pela "Revolução dos Cravos" que, em meu entender, continua por fazer. Por culpa de todos. Por culpa MINHA!!!
Desculpe a "divagação"...
Termino, sentindo que fiquei mais rico depois de ler as sábias palavras que fez o favor de me enviar e por elas lhe digo, à nossa maneira, BEM-HAJA.
Com um abraço que espero, um dia, possa ser de Amigo, sou, ao seu dispor,
o António A. Serrano

sexta-feira, abril 18, 2008

A visita - no aniversário da morte de Zeca Afonso

O sol  Aquecia-me com suavidade e soprava uma ligeira brisa, trazendo o cheiro a maresia do mar ali bem perto. Era pela tarde e o tempo passava, sem se dar por ele. Há muito que não fazia este percurso e o silêncio era quase sepulcral, neste sítio com toda a propriedade da palavra. Aproximei-me da campa. Rasa. Florida, raízes na terra que o guarda, um misto de flores do Alentejo, que tanto amou, e de outras que mãos amigas lá foram colocando e que por lá foram ficando e se reproduzindo, umas dando outras, um tanto descuidadamente. Para quem lá não esteve ou de mais fraca memória, seria difícil encontrar o que se procurava. Na maior humildade, à cabeceira, numa placa vertical, apenas esta inscrição; José Afonso 1929-1987. Fui meditando, então, no efémero desta vida; haviam passado 21 anos sobre o que parecera ser meses antes e, então, os amigos eram aos milhares...
Aproximei-me. Sentei-me na pedra de campa vizinha, sem flores, e ali fiquei um tempo. Pensando naquela voz que hoje canta e encanta, no poeta, no homem, no músico, nas suas grandezas, muitas, nas suas fragilidades, algumas.
Ainda lhe balbuciei:- Olha, Zeca, trouxe - te saudades....
Alma piedosa, amorosa mais, num jarro de mármore, deixara uma dúzia de cravos bem vermelhos, ainda vivos, rutilantes, brilhando ao sol desta tarde de Abril. Depois, depois foi preciso mais um adeus num até já, lá em casa, voltar a ouvi-lo, a sentir a saudades mais.
Era forçoso partir. Isto do "dever" chamar tem que se lhe diga. Voltei-lhe as costas e passeei-me por aquelas ruas vazias e silenciosas, arrumadas e limpas. Não pude deixar de ir ao túmulo do Rui e do Paulo, amigos como irmãos um do outro e, outrora, meus vizinhos, desde miúdos, que um dia disseram:
- Mãe, vou ali já venho!!!
Mas não voltaram senão dentro de uma caixa. Tão amigos que foram, a morte os levou com 15 anos de intervalo, aos 18 e aos 33 e agora, por vontade das famílias estão juntos para sempre. E, logo ao lado, mesmo ao lado, a Vanessa, única riqueza de sua Mãe já pobre e agora velha antes do tempo, a Vanessa que eu vi correr lá noutra escola, que ajudei a crescer, único amor da Paula, 19 anos em flor que a morte ceifou, à vinda do concerto de Agosto, de Zambujeira do Mar, já a chegar a casa. As campas, verdadeiros jardins de flores sempre renovadas, símbolos vivos de vidas que não voltam mais. E de um amor que é eterno, o amor das mães.
Foi uma tarde diferente, Estava precisado. Encontrei-me mais perto do Céu.



domingo, fevereiro 24, 2008

Olhares da Beira: Aldeia de João Pires

Olhares da Beira: Aldeia de João Pires Gosto do vinho, produzido na da terra onde vivo; gosto da Aldeia, a terra onde nasci. Bebido lá torna-se inesquecível!!!
António A. Serrano

terça-feira, novembro 01, 2005

Em busca do tempo que passou?
Na celebração da festa de Todos os Santos foi lida a que é para mim uma das mais belas passagens do Evangelho de Jesus Cristo, as Bem-aventuraças, autêntico código de vida feliz, em perfeito contraste com o pensamento do mundo de economia global que criámos e que tanto sofrimento traz à Humanidade. Não resisto a transcrevê-las:
"Felizes os pobres que o são no seu íntimo, porque é deles o Reino dos Céus; felizes os que choram porque hão-de ser consolados; felizes os humildes porque hão-de possuir a Terra como herança; felizes os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados; felizes os misericordiosos porque hão-de alcançar misericórdia; felizes os puros de coração porque hão-de ver a Deus; felizes os obreiros da paz porque hão-de chamar-se filhos de Deus; felizes os que sofrem perseguição por amor da justiça porque é deles o reino dos Céus; felizes sereis quando, por Minha causa, vos insultarem e vos perseguirem e, mentindo, vos acusarem de toda a espécie de mal; alegrai-vos e exultai, pois é grande nos céus a vossa recompensa." (Do Evangelho de Marcos) A.A.S. 01 Nov 2005