sábado, julho 04, 2009

José Afonso, o Silêncio que fala!!!

"O prémio espanhol Memorial LiberPress foi atribuído, este ano, a José Afonso e vai ser entregue, amanhã, numa cerimónia simbólica, na campa do cantor e compositor, no Cemitério da Nossa Senhora da Piedade, em Setúbal.
O prémio é atribuído, desde o ano passado, pela Asociacion LiberPress, com sede em Girona, Espanha, distinguindo, a título póstumo, uma personalidade que tenha lutado pela dignidade e os direitos humanos e cujo percurso de vida possa servir de exemplo à sociedade.
Fonte próxima da Associação disse, hoje, à Lusa que a iniciativa da cerimónia tem a colaboração da Associação José Afonso e da presidência da Câmara de Setúbal, e terá lugar às 11h00.
O acto simbólico de homenagem a José Afonso contará com as presenças de uma delegação da LiberPress, chefiada pelo seu presidente, Carles McCragh, do presidente da Deputation de Girona - que engloba 220 municípios - Enric Vilert, e da presidente da Câmara de Setúbal, Maria das Dores Meira. Também estarão presentes o vice-reitor da Universidade de Aveiro, Manuel Assunção, o presidente da Associação José Afonso, Francisco Fanhais, o jornalista Adelino Gomes, a filha de José Afonso, Helena Afonso, e amigos do cantor.
O prémio Memorial LiberPress é representado por uma placa que será, mais tarde, colocada na Universidade de Aveiro, num pequeno jardim anexo a um edifício onde existe uma livraria e uma sala de espectáculos e exposições.
O cantor e compositor José Afonso, nascido em Aveiro em 1929 e falecido em Setúbal, em 1987, ficou para sempre associado à música popular portuguesa e de intervenção contra a ditadura do Estado Novo.
Com carácter não-governamental, humanitário e sem fins lucrativos, a Associação LiberPress foi criada em Girona, em 1999, para promover a cultura de solidariedade, e procura envolver os meios de comunicação social nesse movimento realizando conferências, debates, exposições e jornadas.
Criado em 2008, o Prémio Memorial LiberPress foi então atribuído à jornalista e fotógrafa de guerra Gerda Taro, uma alemã de origem judia, que morreu num acidente, em 1937, perto de Madrid, durante a retirada das tropas republicanas, quando fazia a cobertura da Guerra Civil de Espanha".
Jornal Público de 03 JUL 2009.
Pois! Convocado pelo noticiário regional da "Rádio Sim", do seu estúdio em Palmela, não poderia deixar de comparecer. A manhã estava quente, ali em baixo a frescura do Rio Azul e, mais longe, a Serra da Arrábida, em todo o seu esplendor.
Conheço o caminho. Cemitério quase deserto, em completo sossego, fácil foi chegar à campa. Parecia ainda mais humilde, com os cravos vermelhos sempre presentes. Fui o primeiro. "Nuestros hermanos" nem parecia que tinham vindo de longe, de tão longe. Logo a seguir. Todos nos entendemos, diversas as línguas utilizadas: português, catalão, castelhano, francês, inglês. Não consegui fazer-me compreender - ou não percebi a resposta... - indagando a forma como surgiu o Zeca indigitado para o Prémio Memorial. Logo no seu 2º. ano. Dedicado aos que morreram. Há outros prémios LiberPress para os que vivem: poesia, fotografia, direitos humanos... Pessoas que se tenham distinguido a tornar o "mundo melhor". Dos Estatutos! Já atribuídos, desde 1999. A Filha de José Afonso, a doce Helena, deu as boas vindas aos presentes e agradeceu mais esta homenagem "ao Zeca"! O Presidente da Associação catalã falou, em Português, de José Afonso. Do significado do seu Silêncio tão expressivo, actual e actuante no que nos escreveu e cantou. O Vice-Reitor da Universidade de Aveiro, cidade onde o Zeca nasceu, a justificar a deslocação da placa comemorativa, ali presente, alusiva ao Prémio, para aquela Escola Superior. José Afonso é o futuro. As duas Tunas académicas da UA acolhem-no e cantam-no. As palavras sentidas, sinceras de Adelino Gomes a evocar o Homem, o Poeta, o Cantor, o Amigo. Falou pela "Associação José Afonso", AJA. A emoção de Francisco Fanhais, o Presidente, não garantia que conseguisse levar as suas palavras até ao fim! Maria de Lurdes Meira, a Presidente do Município setubalense, sábias palavras. Zeca não é de Aveiro, por lá ter nascido, nem é de Setúbal, por aqui ter morrido. José Afonso é cidadão do Mundo.
Não éramos muitos, menos de 40. Poucos para tanto Valor a homenagear. Firmemente, sob a voz sempre linda de Francisco Fanhais, todos cantaram, como podiam e sabiam, mas de coração ao alto, "Grândola, Vila Morena". Grândola, que não quis ou não pode estar presente! Mas devia!!!

domingo, junho 28, 2009

Em nome de Jesus Cristo


O ano catequético chegou ao fim. Na companhia de algumas Crianças de 6 e 7 anos propus-me andar à procura do caminho que nos conduza a Jesus Cristo. Não foi, não é, nunca será fácil encontrá-l'O. Ele mesmo nos vai desafiando a encontrarmos a "porta estreita", a agir no "toma a tua cruz e segue-Me", a praticar o "amai-vos uns aos outros como Eu vos amei", a aceitar o "quem quiser ser o primeiro torne-se servo dos seus irmãos", a acreditar que "Deus não quer holocaustos, mas misericórdia"... Todo um projecto de vida fecunda e feliz em favor dos outros, em permanente oposição ao nosso egoísmo e paixões.
Pedem os pais um milagre aos catequistas: que os substituamos junto dos seus filhos, em vez de formarmos uma parceria para carregarmos a cativante e difícil missão de levarmos a Criança à descoberta de si própria, do seu irmão e de Deus Pai por intermédio de Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida, garantia da nossa felicidade terrena e da vida eterna. E eles deitam-se de fora deste projecto magnífico. Ora, se o caminho em parceria já seria difícil, com a demissão dos pais torna-se uma carga demasiado pesada para os ombros tão humanos quanto frágeis do catequista para tão ingente tarefa. Alguns deles não têm mesmo qualquer preocupação, por mínima que seja, para dar uma ajuda em tão maravilhosa descoberta. Pouca Fé ou nenhuma, às vezes ali deixam os filhos para irem ... descansados ao supermercado fazer compras. Nem mais! Quase sempre nem se preocupam em informar-se da presença ou ausência do catequista. Salvam-se honrosas excepções.
Ora ficar ali, em cada Domingo, durante uma hora, a descobrir o caminho do transcendente com estes pequeninos seres não é tarefa a que alguém se atire sem confiar, sem espaço para dúvidas, que tal missão não depende de si, mas de Deus. E temos de agir como se tudo dependesse de nós, acreditando como se tudo dependesse de Deus. Espírito Santo, enchei o meu coração; enchei o coração destes pequeninos que me confiastes.
Olhando para o que os olhos da carne conseguem ver... vejo nada. Acreditando que tudo podeis, espero tudo.
Senhor, eu fiz o que podia. Agora, Senhor, actua neles. São Teus filhos. Tão peqeninos, tão inocentes, tão indefesos!
Senhor, tende Piedade!

Pontes de Esperança

Vieram de todo o lado, ontem! Unidos num só objectivo: semear a Esperança, matando a fome, dando a educação, promovendo e defendendo a vida, a solidariedade e a paz. Há seis anos, num almoço de voluntário da Cáritas com o seu Presidente, agora também aqui connosco, foi lançada a semente para uma campanha de angariação de "padrinhos" para que, à custa de uma pequena renúncia mensal, se pudesse proporcionar uma vida nova, uma vida com Esperança, àquelas Crianças que lá, nas Ilhas do meio do Mundo, pudessem necessitar de ajuda. Concebeu-se como ajuda mínima a importância mensal de 10 €uros. Com este dinheiro o "afilhado" ou a "afilhada" poderia, desfrutar de um bem-estar mínimo. Em cooperação com a Cáritas de S. Tomé foi dado o tiro de partida para a instalação de uma casa que acolhesse bebés, às vezes abandonados na rua, ou à porta de uma instituição e até junto dos caixotes do lixo. Não há muito tempo foi "apanhado" um menino a gatinhar na praia, com cerca de 8 meses... Esta casa está sempre cheia, mas o conforto e o essencial não falta, incluindo a muita dedicação dos responsáveis e trabalhadores.
Mas vamos a este dia propriamente dito. Juntámo-nos no jardim da beira-rio, em Setúbal. Instalámo-nos a bordo do "Évora" e fizemos um passeio pelo "Rio Azul", admirando a Serra da Arrábida e as suas praias - Albarquel, Figueirinha, Galapos, Galapinhos, Coelhos, Portinho... - e a bela e extensa Tróia, na margem esquerda, agora tão cosmopolita e tão diferente daquela que, há 40 ou 50 anos, era a "praia do povo"... O almoço decorreu no Restaurante "Gandum´s", numa linda quinta ali para os lados de S. Paulo. Bem escolhido. Decorreu sem muitos elogios nem protestos. Chegada a oportunidade, a Drª. Madalena, a alma grande destes projectos, deu as últimas notícias. As novas valências de acolhimento de crianças e adolescentes em S. João dos Angolares e em Ribeira Afonso. Também já funcionava o Centro de acolhimento, na vila das Neves, para cerca de 200 crianças, a cargo de uma educadora, 3 vigilantes e um guarda, com o encargo salarial mensal destas cinco pessoas no valor de 450 €uros. Repito: 450 €uros para CINCO pessoas. Sem direito a Sindicato nem a protestos! E com um clima danado... O salário mensal de um professor é de 93 €uros...Não dá para beber sequer uma cerveja por dia... Em frente! As crianças são recebidas, às 6h 45m e tomam a sua primeira refeição - 3 bolachas!!! Pelas 10 horas partilham as pobres merendas que levaram de casa. Ao meio-dia tomam a única refeição quente do dia, o que nem sempre é possível, dada a escassez de meios, depois do que regressam às suas "casas". Até ao dia seguinte!
Feitas as contas e no sentido de sensibilizar os "padrinhos" e "madrinhas" para um maior esforço financeiro foram apresentados os seguintes números: o encargo mensal por cada Criança e adolescente anda entre os 8,70 e os 12,50 €uros. Há religiosas que entregam os seus magros "vencimentos" de cerca de 50 €uros para as instituições em que trabalham. Os "padrinhos" que já excederam a procura estão agora com um deficit de 49. Cada um assumiu o compromisso de divulgar os projectos pelos meios ao seu alcance. Foi-nos dada a informação de que as importâncias subscritas por cada um de nós não vai à posse das famílias, mas é gerida pelas próprias casa, de modo a que chegue para responder às necessidades básicas de cada "afilhado": livros, vestuário, calçado, material escolar, alimentos, vacinas e outros medicamentos e até a prenda para o dia mais festivo das crianças do Arquipélago, que não é o Natal, mas o seu dia 1 de Junho. Lá, o "Dia Internacional da Criança" é feriado! E é o seu grande dia de festa e das prendas!!!
Ir a S. Tomé passear e ajudar? A ideia foi lançada e pode ser realidade daqui a um ano. Começámos logo a idealizar projectos, sobretudo nas áreas do Ensino e da Saúde. Também no apoio a uma escola de pesca. E até mesmo promover a instalação de uma salina. Vivi lá cinco anos e acho difícil. Seríamos nós "a inventa a pólvora". A razão desta ideia veio da notícia de que ainda, recentemente, teriam estado 3 meses sem sal. TRÊS MESES SEM SAL???!!!! Por acaso confirmei esta notícia no portal do governo santomense...
Falou-se dos muitos, muitos dólares que por lá têm passado; da indolência dos santomenses; do abandono das roças e dos mares, chegando a haver falta de produtos de primeira necessidade e até de peixe... pasme-se! Tantas e tantas histórias de pobreza e de desperdício!!! É mesmo preciso lançar pontes de Esperança. Estou a ajudar na sua construção. Voltaria lá com Alegria!!!! Talvez Deus me conceda tal graça já daqui a um ano!
Ora, abane lá esse K7!!!

quarta-feira, junho 24, 2009

Manhã de S. João - única!


O Sol despontava atrás do mar e a impaciência ia tomando conta dos passageiros a bordo do N/M "Império", naquele 24 de Junho de 1968! A terra, a querida "Terra de Santa Maria" não tinha maneira de aparecer a nossos olhos. Fora uma viagem e tantas! 8 dias de mar, sempre mar, com aquela pequena e fugaz saída no Funchal. Bonita esta passagem pela "Pérola do Atlântico", com uma aproximação ao fim da tarde e uma saída para Lisboa, pela meia-noite. Dois aspectos surpreendentes daquela Ilha linda, de uma só penada. Estava nestas doces recordações que me levavam a regressar a Lisboa, depois de uma amarga partida haviam passado quase 25 meses, quando alguém exclama: "Olhem... terra... terra..." Um bruá por todo aquele convés. Poucos teriam ficado no resguardo dos lençóis, pois o momento seria único para a maior parte dos passageiros. Para mim, a aventura começara a 27 de Maio, dois anos antes. Tanta coisa mudara na minha vida. Partira solteiro, regressava casado; partira filho, voltava pai... Mas a mobilização já implicara estes dois pressupostos, aliás todos consequências uns dos outros. Por graça especial de Deus, imerecida de todo, estava-me destinada uma vida militar confortável e sossegada no Q.G. de Tomar, quando tive conhecimento de duas vagas para a minha especialidade, em Nampula e em S. Tomé. O nosso namoro estava já um tanto "velho" - a caminho dos 3 anos e meio - e entendíamos que casar seria um passo a dar. No entanto, a tal independência só nos viria com dinheiro que nos libertasse da tutela paterna. Mas do casamento falarei na data apropriada. "Forcei" a mobilização, opção por S. Tomé com a garantia de Paz e o resto a seu tempo se saberá. Agora vamos chegar a Lisboa. Começaram a dar-se muitos palpites sobre a zona de terra que se avistava. Milhares de pessoas, ao longo de séculos, teriam vivido aquele momento. No meu caso, bem confortavelmente a bordo de um dos nossos navios dos muitos que asseguravam a circulação de pessoas e bens entre a então Metrópole e as então Províncias Ultramarinas. Ninguém arredava pé da amurada, olhos fixos no horizonte, e as opiniões quase não divergiam: tinha de ser o Cabo da Roca e a Serra de Sintra. Um ou outro, com mais conhecimentos a Sul, ainda "apostou" no Cabo Espichel e na Serra da Arrábida. Francamente, hoje não recordo qual a resposta acertada.
A linha de costa foi vindo ao nosso encontro e, pela 8 horas já se destacava a embocadura do nosso mais que saudoso rio Tejo. Feito o alinhamento, com ajuda dos pilotos da barra, aí vamos nós, vendo a bombordo, primeiro, Cascais, Estoril, Carcavelos ... e depois, a estibordo, a Costa da Caparica, a Trafaria... pela proa, a desafiar-nos, a então Ponte Salazar, um espanto para muitos dos espectadores, que a viam pela primeira vez. Ao vivo!
A manhã estava luminosa, as águas do Tejo tranquilas e o calor apertava, suavizado, entretanto, pela brisa que varria o convés, acelerada pela deslocação do navio, em direcção ao cais. A Torre de Belém, que vira tantas vezes de bordo do "cacilheiro" Trafaria-Belém, apresentava-se de outro ângulo e, sobretudo, era vista "com outros olhos". Depois o Monumento aos Descobridores, ao fundo o Mosteiro dos Jerónimos, tantos testemunhos de uma Histórica heróica e trágica de um País que dera "mundos novos ao mundo" e que agora vivia mais um episódio bem doloroso da sua vida pluri-centenária. Lisboa espraiava-se, preguiçosamente, pelas suas colinas e o movimento, nas vias marginais, era acentuado, quando fizemos a tão desejada passagem sub-ponte. A aproximação ao cais de Alcântara deu-se com suavidade e a atracagem ocorreu com segurança. A competência dos nossos Marinheiros sempre a dar boas provas.
A maior parte dos passageiros eram civis e a convivência, a bordo, com os militares não fora famosa. Passado o período das "dores de barriga" e das crueldades de 1961, os "colonos" de Angola, dizia-se, olhavam de esguelha para a presença dos nossos soldados. Dias viriam - e não faltava muito, mas nestas coisas a "bruxaria" nunca funciona - em que voltariam a ser mais que queridos... Já sem remédio!
Dizia eu que as amizades, a bordo, não se chegaram a fazer, pelo que o desembarque se deu rápido e sem cerimónias. Interesses muito mais importantes esperavam-me cá fora. As 10 horas andavam por ali, a minha Mulher e a minha Filha também. Já as avistara, de bordo. Um sonho, uma ilusão , uma doce realidade. Finalmente, o reencontro tão desesperadamente desejado. Uma eternidade esta separação de quase dois meses.
Fora a 30 de Abril anterior que o serviço de transportes do CTI me informara: "O pedido de transporte que fez para a sua esposa e para a sua filha, pela FAP, vai ter lugar, amanhã, 1 de Maio, pelas 7 horas". Que decepção, que mágoa, que angústia. Menos de 24 horas para arrumar uma vida. "Perder" aquilo que de mais caro eu tinha assim... de repente. Nunca tal acontecera! Ter transporte exactamente para o 1º. dia do período que se requerera... Pelo contrário, os aviões vinham já completos de Luanda e só a custo se arranjava maneira dos familiares dos militares de S. Tomé irem conseguindo voltar para Portugal. Mas a vida não é só sorrisos e esta pequena provação - que nos pareceu enorme, na altura! - estava guardada para nós.
Foi, pois, com enorme emoção que desci as escadas por onde abandonei o N/M "Império". Atravessei aquela enorme largura que ia do cais ao lindo edifício da Alfândega e gradeamento envolvente. Atrás estava duas pessoas lindas e queridas, Mãe e Filha, duas das três Mulheres mais importantes da minha vida. O grande abraço caloroso, apertado, doce, muito querido e muito desejado. Depois, o que tantas vezes acontecera, lá em S. Tomé: "Vem, Amor, vem ao colo do pai!" Surpresa!!! Aquilo que sempre foram "favas contadas", o colo do pai, todos os dias, pelas 5 da tarde, com o passeio óbvio, era agora recusado. Como estava "grande" a minha Menina, 8 meses e meio! E "senhora do seu nariz"!!! Os bracinhos que tantas vezes me haviam procurado, apertavam-se agora, com força, ao redor do pescoço da Mãe. Devagarinho, de mansinho, palavras doces e ternas e o milagre vai dar-se. Espreita com um olhito, mais conversa doce, vira, suavemente, a cabecita - a Mãe a ajudar "Olha, Filha, é o papá... é o papá!" - olha de frente e... o amor vence sempre, dois bracitos que se estendem, mil beijos que lhe cobrem a cara e uma tão grande saudade ali começa a diluir-se, na esperança de outros amanhãs tão iguais a esta manhã de S. João.
Ah! Da Mãe? Do Marido e da Mulher? Ali estavam, frente a frente, juntinhos de almas e corpos, cheiinhos de saudade e de Amor e com milhões de coisas para contar. E na certeza de uma vida que ia recomeçar. Para sempre! Lado a lado! Com Deus. Graças a Deus!

segunda-feira, maio 25, 2009

Uma Coisinha boa que Deus nos deu!!!

Não, não podia ser. Faltava ainda um mês. Com certeza o jantar assentara mal e não passava de uma dor de barriga. Talvez ... um desarranjo intestinal. Voltas e mais voltas e não conseguia estar na cama. Assim se foi passando a noite, ora em pé, ora deitada, até que, pelas 4 horas, se começou a pensar que iria nascer nesse dia.
A história começara uns meses atrás. Em de Outubro de 1981, a minha Mãe - nada lhe escapava! - chega-se-me ao ouvido e sussurra-me "Ides ter outro bebé...". "Ó Mãe, nem pense nisso. Só que a Leo, hoje, está mal disposta. Agora com esta idade. Era o que faltava. Já cá temos três e bastam" E mais conversa... "!!! Ali há coisa..."
Havia. Não nos custou muito a aceitar a ideia. Deus a confrontar-nos com a nossa boa vontade. Com os nossos Ideais de vida cristã. Mais complicado foi a irmã mais velha. Na sua adolescência "tinha vergonha" da Mãe grávida. O Dr. Gil deu-nos uma boa ajuda, quando a convenceu a pedir "Mãe, posso ser a madrinha do bebé?!" E foi. E o irmão mais velho seria o Padrinho. Muito bem escolhidos, tudo em Família. Um sortudo, este menino, mesmo antes de nascer. Graças a Deus.
Mas eu sempre desejei que fosse uma menina. Já tínhamos uma e assim ficariam dois e duas. Até o nome escolhi, Margarida Isabel. E a Mãe a dizer "Olha que pode ser um rapaz". "Não, é menina, de certeza...". Ah! As certezas humanas... "Mas... e se for menino?" tornava a Mãe. Ui! O coração da Mãe até sabe coisas que os médicos desconhecem ou não querem revelar. "Ora, Deus é grande e vais ser menina", cantava eu, com toda a segurança.
O tempo passou num instante e aquela linda barriga sempre a crescer, causando já o desconforto tão próprio daquelas situações. As mães entendem isto melhor do que nós, os pais. O dia 14 de Maio de 1982, foi grande para Portugal, especialmente para a região da Grande Lisboa. João Paulo II, no auge da sua missão apostólica, quis estar na nossa Capital e o Parque Eduardo VII engalanou-se, esmerou-se para o receber. Pai e filha compareceram e lá se encontraram a rezar, a cantar, a acenar com muitos milhares de outros, crentes ou não. Um deslumbramento. Foi um choque. Na sua deslocação para a parte alta do Parque, o Sumo Pontífice passava ali, a poucos metros. Um estremecimento. Um arrepio. Uma revelação. "Vai ser menino e chamar-se-á João!" Estive na festa, até ao fim. Voltei cheio, para Setúbal. Trazia um coração a bater de contentamento e uma "certeza": "Vai ser menino e chamar-se-á João!" Passei o meu estado de espírito à Mãe. Não foi difícil convencê-la. Parece-me que até ficou aliviada. Seria João Pedro ou João Paulo? "João Paulo é capaz de haver por aí uma inflacção..." Mas ainda "faltava" mais de um mês e poderíamos ir falando. Depois se decidiria. Não faltava. Só passaram 11 dias, para nossa surpresa.
Voltando aquela manhã de há 27 anos. Eram 5 e meia e a Mãe deita-se no chão e dizer-me "Vai nascer, vai nascer. Já não consigo mexer-me!" "Ó Mulher, não me faças isso! Vá, coragem, levanta-te, vamos já para o hospital. Chego lá num instante!!!" Foi um instante que pareceu uma eternidade. Um pouco antes das 6 passámos, sem parar, pela recepção do Banco do Hospital de Setúbal e nasceu quinze minutos depois, A parteira, que não se portou nada bem, terá dito "Depressa, senão nasce aqui no corredor". Um despachado. Já estava em casa e rezava com a futura madrinha - tive de voltar para preparar os três mais velhos e levá-los às escolas - quando o telefone tocou a dar a feliz notícia: nascera um rapazão, a Mãe estava bem... Chamar-se-ia João Pedro. Para mim "a Coisinha boa que Deus nos deu".
Ainda hoje, quando já são ELES que estão à espera da sua coisinha boa. O Pai quer um rapaz, a Mãe deseja uma menina... Graças a Deus!
A festa ficou um tanto ensombrada com novo assalto à sua casa, lá em Bruxelas, o segundo em menos de um ano. Ali, a 500 m da Praça Robert Schuman. Sim, um dos fundadores "desta" Europa. Lá como cá...
Fica sem música, pela "música" que nos querem "dar". E "dão"!!!

sábado, maio 23, 2009

CART 840: Vieram de longe... também de perto. 42 anos depois..















Telefonaram-me do Colégio. Um José Pascoal queria o meu contacto. Podiam dar-lho? Deixou o dele? Sim. Então eu falo-lhe...
E assim foi. Nesse mesmo dia liguei. Um telefone de Lisboa. Apareceu uma voz feminina. Sou o António Serrano. Minha Senhora, José Pascoal, francamente, estou com dificuldade... Ó colega, sou a Fátima e estou casada com o JOSÉ MARIA Pascoal. Com a minha irmã, a Felisbina, estivemos todos em S. Tomé... Exclamações de surpresa, o Pascoal, de St. Estêvão, colega do Magistério e camarada de armas em África. O Zé não está... blá... blá... alegre, divertido, bem disposto. A conversa com o José Maria foi nessa noite. A CART 840 ia realizar o seu 11º. convívio, se eu não queria aparecer, mas eu fui da CCS, não faz mal conheces lá muita gente... Conversas, hesitações, decisões. Hoje, 23 de Maio, lá estive. Com a Leonilde. Afinal, ela também "estivera na tropa". E o dia de hoje fez-nos ver que a decisão foi a única que faria sentido. Uma festa!!!
Estava combinado que a reunião seria junto ao Forte do Bom Sucesso, nas imediações da Torre de Belém. Arrumado o carro, pelas 11 horas, fomo-nos aproximando, a medo. A malta passara já para o interior do forte, agora Museu da Liga dos Combatentes. Num dos átrios, alguém dava as boas vindas. Eu olhava... olhava... e proponho à minha Companhia: Vamos para casa? Não reconheço ninguém... Vamos, não vamos e já nos dispúnhamos a "uma retirada estratégica", quando chega o Zé Maria e a Fátima. Grandes abraços e exclamações de alegria. Psiu!!! - insiste alguém. Têm de entrar para ver a exposição ali patente sobre Pirataria nos séculos XVIII e XIX. Tentando explicar a pirataria do séc. XX. Não, não da que temos por cá. Mas aquela lá da Somália. Afinal, os piratas até entenderam que só unindo-se e com atitudes democráticas conseguiriam sobreviver. Uma cabeça, um voto, nas grandes decisões. Fiquei parvo e não fora ver ali escrito num texto com "estes dois que a terra há-de comer" e nunca acreditaria. Impressionante!!! Os piratas de hoje têm muito que aprender. É só estudar a História. Mas, realmente, os de hoje não estão interessados na Democracia. Querem uns votos para assaltar o poder e depois... "chacun s'arranje"... "se governe" ... "embolse" ... "armazene" ... trate da SUA (dele) vida!!!
Passados ao pátio interior e começa a festa: "Então tu não me reconheces? o Amadeu...Olha-me esta foto!!!" Espanto meu, uma foto do NOSSO casamento, uma noiva lindíssima, rodeada de "magalas" à civil. "Este sou eu!" - uma criança, como havia de reconhecê-lo??? - "aqui está o Nogueira. Olha aí vem ele". O Nogueira também tinha a mesma foto. E outras. A nossa aventura de um casamento em África e na tropa marcara-os de algum modo e aquelas fotos eram uma relíquia. Também para eles. Diz a mulher do Amadeu "Há anos que o conheço e estava ansiosa por que viesse. Mas está um pouco diferente..." Que crueldade esta verdade bem dura. Mas aí vem o Sabino agarrado ao estandarte. E o Baptista, com o olhar doce daqueles tempos. Senti-o triste. Oxalá fosse apenas ideia minha. E o Gomes, que "meteu o chico", como nós dizíamos, e é hoje Ten.Coronel. Brilhante. Continua simples, como sempre. Beirão lá de S. Miguel d'Acha. Com a esposa. Vieram de Castelo Branco, no inter-cidades. Foi este mesmo Gomes - gerente da Messe - que organizou o nosso jantar nupcial e também estava nas fotos. E na festa! "Então já não te recordas de mim? Sou o Carrasco". Abraços, risadas, piadas... "Andas na mota sem capacete? Vai-se-te o cabelo e podes pagar multas". Esta "malandragem" não perdoa uma... O capitão (hoje coronel) Pancada da Silveira. As vezes que eu me ri por lá, há tantos anos, com este nome. PANCADA!!! Inventam cada uma! Continua baixo e agora um pouco mais gordo e muito mais velho. O trabalhão que me deu, nestes últimos dias, trazê-lo à memória. Mas hoje de manhã... "saltou", assim de repente. "Leonilde, lembrei-me, capitão Pancada da Silveira". "Mas não tens mais nada em que pensar?"
"O Velhinho" já em S. Tomé era caso falado. Com medo da guerra, lá pelo Interior, não fora "dar o nome" e ia escapando da "má vida" que tantas vidas ia levando. Ele fazia pela sua. Não havia "Simplex" e para ele era ... simples. Vivia feliz. Já pelos seus 30 anos deram pela "marosca". Não se sabe se queixinhas, se eficiência administrativa. Foi mesmo apanhado e grande sorte... 2 anos de boa vida em S. Tomé. Do mal o menos. Nos anos 60 notava-se a diferença de idade. Agora muito mais: "O Velhinho" está mesmo mais velhinho. E o Manuel Dias! Fomos no mesmo barco, estivemos no mesmo quartel, durante dois anos e, soubemo-lo hoje, vivêramos 35 anos quase ao pé, andáramos nas mesmas ruas de Setúbal e nunca nos víramos. Até teve duas netas na querida Escola da Azeda!!! A Fátima e o Zé têm uma daquelas histórias de amor em que "o destino marca a hora". Ela, de Bragança, com a irmã, duas lindas jovens vão à descoberta de África e o Governador Silva Sebastião "pranta" com elas no Príncipe. Ele, de Santo Estêvão, (Sabugal) também professor, com o seu Pelotão de Artilhatia, "aterra" na mesma Ilha do fim do Mundo. Estava escrito: amor para sempre. E gostei tanto do os rever!!! Ficou prometido que vamos estar mais próximos, até porque eles também têm "interesses" aqui na Península de Setúbal.
O João ouve-me falar. "Da Beira Baixa?" "Sim, Aldeia, entre Penamacor e Monsanto..." "Não se esforce. Conheço. Andei por lá. Estudei no ISA. A D. Aida, a Aidinha - nascida quando já não havia esperanças - o Dr. Palmeiro. Os Lopes Dias. Estive casado com uma Lopes Dias..." "Eu fui aluno do Dr. Joaquim... "Olhe que o pessoal do VSP tem festa, no próximo sábado..." "Eu sei, mas não vou estar". "Tenho a certeza de que já o vi antes..." Vivêramos no mesmo quartel. Um dos alferes, com cara e presença de quem está bem na vida. O Sérgio, outro dos oficiais subalternos, não teve sorte com o planeamento deste convívio. Que falta de estratégia: encontro no Forte, Missa na Igreja da Memória, almoço no Forte. Ele julgou estar numa Cidade de Interior??? Querer fazer deslocar quase duas centenas de pessoas, em Lisboa, nesta distância e com os obstáculos inerentes, só podia dar no que deu... não houve Missa. Coitado do Zé Maria que teve de "explicar" a situação ao padre... Por sorte temos os telemóveis... Há sempre fotos mal tiradas, em todas as festas.
A refeição foi uma decepção. Já escrevi ao Presidente da Liga. Aquele sítio, onde se homenageiam os Combatentes, merece melhor. Ao lado, na mesma mesa, "Então vim da Alemanha para comer disto e beber desta zurrapa?". O "chefe" do "restaurante" - afinal uma sala "arranjada" para ser usada em serviço de "catering" - quis armar-se em "chico-esperto", agressivo para com os convivas... No rótulo das garrafas, um emblema que deveria merecer respeito, o nome e a imagem do próprio Forte. Desafiei-o a abri-las ali, ao pé de nós, pois vinham já todas sem rolha, a conta gotas. Não abriu nenhuma...
Mas quase nos esquecemos de comer, quando a alma está quente. Foi com pena que vimos a roda começar a desandar. Pelas cinco da tarde. "Que bom ter-te reencontrado." "Então até p'ro ano... Se Deus quiser!!!"
Agora... vamos recordar o que foi muito bom:

sábado, abril 25, 2009

Não estavas lá

Um dia e pêras! Levantar às 5 da manhã, apanhar comboios e metro para estar em Castelo Branco, pelas 11 horas e poucos minutos, já não seria obra de monta, nos dias que correm. Por isso, fora assim decidido e não me arrependi. O Curso do Magistério finalista de 1961 estava convocado, desde há um ano, para celebrar 48 anos de desafios, de derrotas e vitórias, de ilusões, sonhos e pesadelos, vidas dedicadas às Crianças, às Famílias, a Portugal e ao Mundo. Quase parece megalomania, mas é assim que penso. Como penso, escrevo. A viagem de comboio, na ida, de manhã cedo, e no regresso, durante a tarde, proporcionou-me desfrutar de um espectáculo que que me fugia, há muitos anos: passear pela lezíria ribatejana e pelo vale do Tejo até "Portas do Ródão", subindo depois aos terrenos da capital da nossa Beira, com uma avalanche de cores entrando, em catadupa, pelos meus olhos, tornando impossível digerir tão farta "refeição"... Na lezíria vi - para além de uma enormidade de terreno de alta qualidade agrícola a ser preparado para mais uma urbanização a NE de Vila Franca - vi, dizia, vastas áreas de terras lavradas e preparadas para as sementeiras da Primavera. Vi depois um quase infindável oceano verde pejado de mil cores: as margaridas, as giestas, os tojos, as carquejas, os rosmaninhos, as estevas, os cardos e muitas outras flores mostravam-se em todo o seu esplendor deste final do mês de Abril. Por esta época, as encostas que marginam a nossa viagem tornam-se indescritíveis. Só vendo!
Aqui e ali, quase sempre nos arredores das povoações, também as hortas e pomares se mostravam em toda a sua beleza. De outro tipo: frutos do trabalho e do querer do homem. E da mulher!!! Dando ânimo à nossa alma!
O Encontro deste ano revestia-se de alguma angústia, que se tornará cada vez mais frequente, com o avançar dos anos. Inevitável! Havia já a certeza de que a Idalina Gaspar - a Serraninho já se fora há 4 anos - não cumpriria a promessa de "até p'ro ano" com que nos despedíramos. Doença rápida levou-a, para sempre, de um convívio que tanto animara e pelo qual tanto lutara. Na Missa recordámos os que não mais voltarão e agradecemos pelos que vivem, ali presentes, ou que não puderam/quiseram aparecer. Excelente a homilia do Padre Martinho, por sinal ex-aluno do Tonel, ali presente, pouco dado a estas coisas de religião. A vida brinda-nos com estas partidas: eu, toda a vida armado em "pregador" e nem um aluno no seminário!!!
Não via o Firmino há 48 anos. E outros! E outras! "Estás na mesma, malandro"... "Continuas linda, como em 1961"... "Tu estás mais barrigudo; que fizeste ao cabelo?"... Risos e gargalhadas, com estas "mentiras piedosas" ou verdades adocicads... E a/s Carmo/s. A Carolina, a mais novinha do Curso. Garantidamente, ainda bem atraente. E a Maria dos Anjos. Com ela e as Carmos são 3 da Sobreira Formosa. A Maria José, da Idanha, a quem pergunto pela D. Bernarda - fomos colegas em Proença-a-Velha - agora entretida com as "Adufeiras", certamente a preparar a festa da Senhora do Almurtão, daqui a 2 dias. "Já está velhota, mas rija", como se nós não o estivéssemos, e nem sempre rijos... A Laidinha e a Francisca tomaram conta da organização. A Francisca, a dançar, toma o estilo da Sylvie Vartin. Disse-lho. Desconhecia... ou fingiu. Dancei uma marchinha com ela. "Não oiças a letra, que esta música pimba é horrível", dizia-me. E não ouvi. "Homem honrado não tem ouvidos". Foi primeira vez que dancei com uma "garota" do meu Curso!!! Quando as tinha ali "à mão de semear" não sabia dançar. Depois... o tempo voou. O Luís e o Adelino ficarão com o encargo para 2010. "Olha o Mário Rocha. Vi-te nas Caldas, quando lá fiz a recruta!" Uma eternidade... O Domingos apareceu, finalmente. Com o estilo de "Conde", de sempre. Mesmo quando se baldava às aulas e afligia o Dr. Frade Correia para que não perdesse o ano por faltas. Tem tido poucas ralações, nota-se no seu aspecto. Impecável! Pedi à esposa que tirasse uma foto do grupo com a minha máquina e quase só fiquei eu e a parede. Talvez tivesse medo de me cortar... Assim fiquei ao centro - estava na ponta - e não vou publicar. A Amália, a Fernanda, a Madalena - fez-me pena o seu ar "aéreo" ... Não mudou. Pareceu-me que nem a "paixão" pelo Adelino. As fitas que ela fez para o fotografar. Mas acho que "levou a bicicleta" . O Domingos, guarda-redes da equipa e dos "frangos"... Fazer discursos é a sua especialidade. Faltou o Manuel. O "rapaz" mais divertido que conheço. Há dois anos passou um mau bocado e esteve frente a frente com "Ela"... Desta vez foi uma das filhas que estava de partida. Cada uma em seu canto do Mundo. O Sanches e a Mercedes. Serenos e lindos. Dançaram os dois. Só p´ra eles. Como de costume ficámos na mesma mesa. A Aurorita, que viajou no inter-cidades sem nos darmos conta. Vive na Costa da Caparica. Foi cá uma "brasa"... Continua linda! O G. e a B. estarão a viver uma "história" bonita? Oxalá que sim! Eu gosto tanto dos dois que lhes desejo todo o bem do Mundo. E merecem-no. A Amália, doce, serena. Parece uma santa. A Fátima e a prima Emília, esta a vir pela primeira vez. O Zé Pinto. Não sei o que faz para estar tão elegante. Bom, o Tonel também não está mal. A Nelly sempre com as anedotas picantes. Nem lhe assenta o almoço, se não contar pelo menos uma para todos. Fora as que saem à mesa... Terrível, esta cachopa! E o Quim grande!! Rica vida tem levado este rapaz. Nunca se esquece de me contar a história: ao dar posse à minha irmã, lá em V. Franca, "Eu tive um colega com estes apelidos" "É meu irmão" "Não pode ser; ele só tem UM irmão" "É que eu nasci fora de prazo". E lá vem mais um abraço e uma sonora gargalhada. O José Barata apresentou-se com um livro de poesias. Algumas foram ditas. Gostei muito de uma delas. O "grande amor" com a Estrela? Ela já não veio. Nada é eterno... O Leonel, sempre presente, com as dificuldades de quem sofreu uma trombose. Antes do tempo. A doença vem sempre "antes do tempo"... A Eluísa - está assim no registo... - e a Estela estão com bom aspecto. Com a Estela a brincadeira do costume "Então ainda ouves o "Stella, Stella" do Marino Marini???" Há coisas que nunca esquecem. E sorrimos com alegria. A Manuela Fróis vem de longe. Com eu. Tem sido assídua e gostámos de rever-nos. A Maria do Rosário continua com aquela ar de garota travessa que sempre lhe conheci. Esquiva a atraente, ao mesmo tempo. É das que menos perderam "com a idade". A Zélia, veio pela primeira vez. Serena. Como sempre, está uma linda também. A Rosalina cheia de serenidade de quem viveu uma vida sem sobressaltos. Seria? Deus queira que sim.
A refeição foi o que menos interessou. Nada de espantar, mas o espaço é uma maravilha. E prefiro comer "pior" e estar à larga, com grande conforto. Um salão de hotel só p´ra nós. Se pudesse, teria comido apenas queijos e presunto. Dos melhores. Mas este colesterol é terrível. Interrogo-me sempre sobre o nosso destino: o que é bom ... ou faz mal ...ou é pecado!!! Que "tragédia"!
Já não assisti ao partir do bolo. A Laidinha telefonou-me - interessando-se pela minha chegada, uma querida, como sempre, bem maltratada pela vida!!! - e disse-me que estiveram até perto das 19 horas. Eu quis vir no "inter" das 16. Andar em Lisboa, pelas tantas da noite, nos túneis do Metro ou nas estações de comboio, é coisa que já não dá para a minha idade. Nem para muitos mais novos. Voltei a encher os olhos de verde, de terra, de água, de beleza. Agora me lembro: não vi qualquer rebanho. Que se passará, havendo tantas pastagens???
Às 21 horas entrava em casa. Não me lembro de adormecer. E esta?! Graças a Deus!!!
Idalina, não estavas lá, mas sempre foste uma romântica. Tenho a certeza de que gostavas destas e há muito tempo que as não ouvias. Aqui te ficam com a minha, com a nossa saudade! Não te esqueceremos!

quinta-feira, abril 23, 2009

Uma tarde com ... ARLINDO DE CARVALHO!!!!



A notícia "andou no ar", através da Rádio Sim: Arlindo de Carvalho daria um espectáculo no auditório da Renascença para os que quisessem estar presentes. Aconteceu comigo. De comboio. De Metro. Lá me encontrei com o Américo. O abraço amigo que já tardava. Arlindo de Carvalho irradiando simpatia. A sua voz poderosa e bela. "Fadinho Serrano", "Ó Castelo Branco" "Ode à Guarda", "Chapéu Preto", "Hortelã Mourisca", "Crucificados desconhecidos", "O comboio da Beira Baixa", "Ao 25 de Abril", "Marcha de Lisboa" ... uma hora que passou num instante. Com entusiasmo, com motivação, com participação da assistência. Certamente, também um bom programa para os que ouviam, em todo o Mundo. Apresentação profissional de José La Féria. Primo do outro. A Equipa da Rádio Sim. A Dina Isabel, directora de programas da Renascença. A Teresa Silva, que já fizera "A minha música" comigo, a 25 de Janeiro. A Miriam, filha e "menina do mimo" de um Amigo e camarada de armas, lá pelas Áfricas. A Inês Carneiro... Uma simpatia, esta Equipa!!! Uma prenda para o poeta, o compositor, o cantor, o beirão, o professor, o Mestre. O Homem. Quem diz que fará 79 anos por estes dias?
Mas a minha sorte não acabara, neste dia de sorte: ouvir-lhe, em privado, uma canção dedicada a Aldeia de João Pires, a minha terra. Escrita há dezenas de anos, a falar de lugares e coisas que "mexem comigo". Que memória!!! Depois, um CD com dedicatória de Arlindo de Carvalho, num gesto que muito me comoveu. Generosa intervenção do Américo, que agradeço. Eu não me atreveria a querer mais. Que tarde!!!

quarta-feira, abril 22, 2009

Ah! As Crianças!!!



A surpresa veio, há dias, logo no recomeço das aulas, pela mão do meu neto: um quadro com frases de Crianças dizendo-me que ainda era importante para elas. Não sou dado a apreciar prendas, muito menos de anos. Chego a ser quase "troglodita". Mas foi uma lembrança que recebi e muito apreciei. Uma "prenda do coração" de que muitas vezes lhes falara. Pois queriam-me com eles? Gostariam de cantar-me os parabéns? Porque não? São tão pequenos e tão puros!!! E assim se foi combinando: falei com o Director, com a Prof. Sónia. Depois, em segredo, tanto quanto foi possível guardar, pelas 16 horas entrei na sala de aula a convidar 0s alunos do 2º. B para lancharem comigo. Foi um reviver de emoções, com muita alegria. Soube, então, que houvera ali "o dedo" dos Pais, especialmente das Mães. Agradeço às Crianças, às Famílias, à Professora e ao Director os momentos únicos que vivi. Sobretudo pelo seu inesperado e pelo conteúdo. Muito obrigado. Não esquecerei. Graças a Deus!!!

terça-feira, abril 21, 2009

Meu Filho, parabéns!!!


Era Domingo, 20 de Abril. A Páscoa festejara-se duas semanas antes. Vivíamos e trabalhávamos em Penamacor e, como de costume, visitávamos as nossas Famílias, nas Águas e em Aldeia. A tua Mãe, linda e esplendorosa, nos seus 22 anos, uma "brasa", digo-te, andava um tanto atrapalhada com a enorme barriga onde tu te divertias, dando voltas sobre voltas, traquinas e desenrascado - hoje, a palavra da moda com que os americanos querem "enriquecer" a língua inglesa. "Não me sinto bem; estou quase sem forças", dizia-me ela, com alguma angústia. "Vou ficar por aqui, na companhia da minha mãe". A tua avó materna. A gravidez fora inesperada - a tua irmã ainda tão pequenina e a "dar-nos água pela barba" - mas foste aceite, desde o momento da tua concepção. E sabíamos que estava a chegar ao fim. Era muito difícil a nossa vida, mas tínhamos tanta esperança e tantos sonhos!!! Tu passaste a fazer parte deles. Mas vamos ao que interessa. Já era noite, quando regressámos a casa - a tua Mãe decidira que nascerias na nossa casa e combinara tudo com uma parteira, de Alcains. Não havia telefones, muito menos telemóveis, uma palavra e um objecto desconhecidos, ainda por inventar. Tudo combinado: se houvesse sinais de que nascerias nessa noite, meter-me-ia no carro, ia até às Águas - por acaso tua avó tinha o telefone público, ligava-se à parteira, levava a tua avó para junto da tua Mãe e ficávamos entregues nas mãos de Deus. "Será menino ou menina?" Por incrível que pareça, há 40 anos nascia-se sem se saber "o que era"... Cerca da uma da manhã do dia 21, lá estava eu "D. Clara, D. Clara, está na hora!" "Como está a minha filha?" "Está com as dores... Ah! Deixe-me telefonar à parteira e vamos!"
Passava pouco das duas da manhã quando ela apareceu. Nariz empinado. sabichona. "Oh! Isto ainda está muito atrasado. E logo agora que tenho outro parto lá nos Escalos. Dou-lhe uma injecção para atrasar, pois lá devo demorar pouco..." Injecção dada e "ala que se faz tarde!" Regressou a passar das cinco. Cheia de pressa. Agora vão duas injecções para despachar. Eram umas seis e meia e soltas o teu primeiro protesto contra este mundo. "É um menino!!!" E tu a gritar "Aqui estou! Podem contar comigo!" Uma grande alegria, uma enorme dádiva do bom Deus. Eu, com 26 anos e a tua mãe, tão jovem, com um casalinho, nada mau. Antes... "cinco estrelas"!
Não foi fácil aquele teu primeiro dia para a tua Mãe. As drogas contraditórias que lhe enfiaram no corpo tiveram um efeito quase devastador. O seu coração queria rebentar. O Dr. Landeiro e a "coramina" mas, sobretudo, o favor de Deus conservaram-no-la, até hoje. Demos graças por ti e por ela. Uma coisa ficou assente: se houvesse mais filhos, nenhum mais nasceria em casa. Um desafio, um perigo para a mãe e para o filho.
Foram 40 anos contigo. Já te disse: és um dom de Deus. Eu volto a agradecer-Lhe tamanha bênção. Parabéns, meu Filho, por este dia. Parabéns a nós, a mim, a tua Mãe, aos teus irmãos por te termos como nosso. Um Homem! Um Cidadão! Um Filho! Um Pai! Obrigado, meu Filho, por nos honrares com a tua vida! Para ti, com Amor!

segunda-feira, abril 20, 2009

O velho, o rapaz e o burro...

O mundo ralha de tudo,
Tenha ou não tenha razão,
Vou contar-vos uma história,
Em prova desta asserção.
Partia um velho campónio,
Do seu monte ao povoado,
Levava um neto que tinha,
No seu burrinho montado.
Encontra uns homens que dizem

"Olha aquela que tal é!
Montado o rapaz que é forte,
E o velho trôpego a pé".
"Tapemos a boca ao mundo",
disse o velho: "Rapaz,
Desce do burro qu'eu monto,
E vem caminhado atrás".
Monta-se ,mas ouve dizer:
"Que patetice tão rata!
O tamanhão de burrinho
E o pobre pequeno à pata!"
"Eu me apeio!" diz prudente,
o velho de boa fé.
"Vá o burro sem carrego
E vamos ambos a pé!"
Apeiam-se e outros dizem
"Toleirões, calcando lama,
De que lhes serve o burrinho?
Dormem com ele na cama?"
"Rapaz", diz o bom do velho,
Se de irmos a pé murmuram
Ambos montemos no burro
A ver se inda nos censuram".
Montam, mas ouvem de um lado
"apeiem-se almas de breu!
Querem matar o burrinho,
Aposto que não é seu?"
"Vamos ao chão" diz o velho,
que já não sei o que fazer!
O mundo está de tal sorte,
que não se pode entender.
É mau se monto no burro,
Se monta o rapaz, mau é.
Se ambos montamos é mau,
É mau se vamos a pé:
De tudo nos têm ralhado,
Agora que mais nos resta?
Peguemos no burro às costas,
Façamos ainda mais esta!"
Pegam no burro: o bom velho
Pelas mãos o ergue do chão:
Pega-lhe o rapaz nas pernas
E assim caminhando vão.
"Olhem dois loucos varridos!"
Ouvem com grande sussurro.
"Fazendo o mundo às avessas,
tornados burros do burro!"

O velho, então, pára e exclama,
"Do que observo me confundo,
Por mais qu'a gente se mate,
Nunca tapa a boca ao mundo!
Rapaz, vamos com dantes,
Sirvam-nos estas lições!
É mais que tolo quem dá
Ao mundo satisfações".
(de Curvo Semedo)

segunda-feira, abril 13, 2009

A caminho da Senhora do Incenso

As tristezas e jejuns da Quaresma haviam passado. As agonias da Semana Santa, em solidariedade cristã com as dores da Paixão do Senhor estavam quase a terminar. A meia-noite aproximava-se. Demasiado vagarosa para quem a ansiara durante 7 semanas. A claridade da Lua Cheia era bastante naquela agradável noite de Abril de uma Primavera que enchera já os campos de cores e odores e que o cuco anunciara, alegremente, desde o mês que passara. As lanternas, os candeeiros, as pinhas e as velas davam uma ajuda e os que chegavam iam-se reconhecendo e cumprimentando. Aproximava-se um dos momentos mais intensos da vida desta Aldeia. A meia-noite de Sábado Santo estava quase "a cair" e o Povo acotovelava-se, no adro da sua igreja, com a banda filarmónica, aguardando, com impaciência, as doze badaladas. Ei-las que batem: 1... 2... 3... 4.....12!!! Um morteiro rasga o céu...Pum!!! Os sinos repicam, festivamente, a banda desata a tocar e o Povo parte dali, anunciando a Ressurreição de Jesus, cantando as suas "Alvíssaras". Durante uma hora são percorridas as ruas do povoado, de capela em capela, até voltar junto da sua igreja paroquial. "Aleluia, Aleluia,/ Aleluia do prazer/ Já Cristo ressuscitou/ Para nunca mais morrer" ou "Levante-se, senhor prior/ Levante-se não durma tanto/ Nós já vimos da igreja/ Vamos para o Espírito Santo". Povo maroto. Mesmo no canto religioso nunca deixa a alfinetada... É o regresso a casa. A noite vai ser curta. A azáfama do almoço de Domingo de Pascoa. As "boas festas" da visita pascal. A merenda para a Senhora do Incenso. Enfim! Um rodopio, a sobrar para as "donas de casa". A garotada lá andou pelas casas dos padrinhos e dos avós, à procura de uma amêndoa, um doce ou uma bica. Naqueles tempos tudo era de aproveitar. Até uma moedinha. Que sorte!
A madrugada fora de cantares de rouxinol, numa noite ainda iluminada pela Lua a caminho do minguante. Toca a saltar da cama, que a caminhada é longa, quase duas horas a pé, por atalhos enlameados e a pular as poldras das ribeiras. A das Taliscas vá que não vá. Mas a da Ceife a meter respeito. Não raro o banho que não se deseja. Todo o cuidado é pouco. A azáfama da véspera fora mais que muita. As burras, que alguns afortunados montarão, mereceram mantas de trapos novas, às vezes uma colcha, nas albardas escovadas. Há cabrestos enfeitados com as flores que cobrem os campos ainda não lavrados ou que os gados ainda não pastaram. Normalmente alecrim ou rosmaninho, às vezes uma rosa. Que luxo! Não, não era como agora, flores aos milhões, nos baldios abandonados. Então, cada canto de terra era tratado com carinho. Dali ia depender o passar fome ou não. Muitas vezes nem assim se arranjava com que enganar o estômago. Mas voltemos à festa. A Aldeia tinha então muitos e muitos habitantes. Pelas nove horas de segunda-feira de Páscoa, no largo da fonte, iam-se juntando os mais madrugadores. Sem grandes combinações nem esquisitices. Quando o grupo parecia bastante, havia sempre um que dizia "Vamos?" "Vamos...", era a resposta pronta. E, assim, sucessivamente, não podendo haver grandes atrasos, pois a Missa era "pelo meio-dia". Ponto assente: mesmo os que chegassem primeiro, deviam esperar pelos últimos, à entrada do recinto, para se cantarem as alvíssaras a Nossa Senhora. Com a banda, se calhasse, com os adufes, de certeza. "Dai-me as alvíssaras, Senhora/ que as estou a merecer/ Ressuscitou vosso filho/ Para nunca mais morrer" ou "Ó Virgem Mãe do Incenso/ Quem vos varreu o terreiro/ Foi o ranchinho d'Aldeia/ Com raminhos de loureiro"... Ranchinho d'Aldeia, das Águas, da Meimoa, do Pedrógão, do Vale... Era assim. Uma festa!!!
Lembro-me de uma Missa Solene celebrada dentro da capela. Apinhada. Quase ia sufocando. Sem condições, pois a grande maioria ficava no vasto recinto, com pouca ou nenhuma atenção, mau grado os enormes altifalantes, em forma de sino. Depois, o bom senso, foi obrigando a que se fizesse a Missa campal. Para bem de todos. Do próprio objectivo da festa religiosa. Belos sermões lá ouvi. Os mais lembrados do Padre César Fatela, que não ficava satisfeito enquanto não fizesse chorar todas (ou quase todas) as Mães. Os Pais era mais difícil... Coração duro? Não, "um homem não chora". Seguia-se a procissão, banda filarmónica afinada, foguetes a estoirar. Um deslumbramento para a rapaziada e garotada daquele tempo. Lenços a acenar, uma última descarga de fogo - para "o recolher" - a banda a tocar, lágrimas a cair entre cânticos que saíam de gargantas apertadas e a imagem da Senhora do Incenso a entrar, devagarinho, na sua morada, assim acabava a procissão....
Passadas as emoções da alma e enquanto se enxugavam ainda as lágrimas mais teimosas, havia que olhar em frente e retemperar as forças dispendidas na caminhada e na celebração. Dar de comer ao corpo. Não havia oliveira em redor do recinto que não tivesse dois ou três burros amarrados. Um ou outro cavalo fazia o dono felizardo "impar" de vaidade. Nos ramos das árvores havia alforges dependurados, cabazes, cestos, bolsas. De pano. O plástico ainda não tomara conta das vidas de cada um. Aqui e além uma ou outra carroça. Os automóveis, há 50 anos, eram poucos. Os carros de aluguer do Araújo e do Zé "Paxá", de Penamacor, continuavam, numa roda viva, levando e trazendo gente de mais posses. As camionetas do "Martins Évora", que, durante a manhã, apinhadas até não se poder respirar, transportando os afortunados que podiam pagar 3,5 escudos por cabeça, descansavam, na beira da estrada, à sombra das matas da quinta do dr. Elvas. Havia alegria no ar. A festa ia continuar. Melhor, para alguns ia começar...
Num instante, famílias e amigos escolhem o lugar que lhes convém, uns dentro e outros fora do recinto, pois espaço é o que não falta. As mantas estendem-se na farta relva de uma Primavera que promete. Toalhas que só servem nestas ocasiões, aparecem, como por encanto, manipuladas por quem sabe e quem ama. Tarefa para esposas e mães. É um mundo seu, onde o homem não tem lugar. Estender a merenda!!! Ah! os homens, de garrafão na mão, vão já dando uns aos outros o copo do tinto tratado com carinho para ocasiões destas. "Prova lá deste?" "É bom, mas não ganha ao meu!!!" "Toma..."
É um encanto. O galo que ainda cantara Sexta-Feira Santa está ali ao alcance de dentes vorazes e muito apetite. O salpicão. Os pasteis de bacalhau. O queijo e as azeitonas. O cabrito ou o borrego, no forno. De lenha. Da Aldeia. O pão alvo, cozido com os borrachões, os biscoitos, os esquecidos, o pão-de-, os bolos de leite, em Sábado de Aleluia! Um arroz de galinha de comer e chorar por mais... As bicas de azeite! Ah! A grande surpresa, a saladadinha verde, comida pela primeira vez neste ano - ainda não havia os supermercados que "mataram" este encanto! - com as alfaces a serem acompanhadas, com carinho, a tapar e a destapar, não fosse a geada "queimá-las" numa noite de travessuras. Desde Fevereiro!!! E ainda as pataniscas de bacalhau, o esparregado, os ovos verdes... eu sei lá. Um milagre que só as mulheres e mães conseguiam fazer, à imitação de Maria, ali venerada. Trabalhar nos campos, arrumar a casa para as festas pascais, preparar roupas, aturar e tratar os filhos - e o marido!!! - a agora apresentar ali aquele banquete era mesmo um prodígio. Já disse, noutras ocasiões que os tempos não eram fáceis, mas "um dia não são dias"... As amarguras viriam depois. E este teria de ser a valer por um ano de sacrifícios e renúncias.
Bem comidos e melhor bebidos, era a vez de se andar a provar da vizinhança, se a confiança dava para isso. "Ó António, prova-me este paio!!!" "A minha Maria tem cá uma mão..." "Tá bom, tá..." E não se atrevia a acrescentar "Mas o da minha Carminda está melhor..." "O silêncio é de oiro" e já havia muitos garrafões vazios... Era o que faltava "estragar a festa" a contrariar "basófias"...
O sol não parava e já brilhava para os lados da Gardunha. Havia que apressar. Levantar restos e loiças. Dobrar toalhas e mantas. Meter tudo no sítio. Era ainda preciso ir "às tendas". Umas amêndoas paras os gaiatos - "cuidado que as do ano passado eram só farinha!" - uns "rosários" de pinhões - "nunca dês logo o que te pedem, senão és enganada" - um carrito de lata ou de madeita para as crianças - "coitadinhos, só brincam com aquilo que fazem de cortiça ou de madeira" - uma "caravela" para a garota - "há tanto tempo que anda a pedir-ma"... Há ainda ranchos que vão tocando adufes e cantando alvíssaras à volta da capela. A banda filarmónia dá voltas ao arraial. O povo gosta. De vez em quando, os foguetes rasgam o espaço e estoiram no ar, sempre apontados lá p´ra fora do recinto, "não vá o diabo tecê-las"... Um ou outro garoto corre atrás das canas e abraça-as, no seu contentamento. Julga ter-lhe saído a sorte, encontrando uma bomba que não estoirou. Que pode ser a sua desgraça...
Entardece.Grupos pas seiam e cumprimen tam-se. Da mesma Aldeia.Da Vila. De outras aldeias. Desejam-se "boas festas" uns aos outros e exclamam-se aleluias!
É preciso regressar. A tarde esvai-se, serena e acolhedora. Não viera a chuva prometida. "Hoje não, Mãe Santíssima, amanhã"... Uma entrada última na capela para mais um agradecimento. Um pedido. Uma vela. Uma "esmola"...
Aperta-se o coração, na hora da despedida. Uma lágrima furtiva. Entregam-se àquela Senhora os sonhos, os filhos, o casamento, os trabalhos... A vida. Confiadamente!
Está dada a partida. Cestos à cabeça. Garrafões nas mãos. Alforges dos animais de carga e abarrotar. O passo tem se ser apressado. A chegada ao destino terá de ser "com luz" . Por causa dos miúdos. "Mãe, quero colo" - chora um mais pequeno. "Deixa, que eu levo-o às cavalitas". Ora, o "venho da festa" tem que se lhe diga. Só quem experimentou!!! 
Já os pés tropeçam e os joelhos incham quando se entra na Aldeia. Há tão só forças para cantar as alvíssaras a Nossa Senhora da Graça. Que é a "nossa". Depois, soturnamente, cada um regressa ao seu poiso. Descalçar e meter os pés em água salgada. "P´ra que é que eu fui levar os sapatos novos?!" " Eu bem te avisei!!!" Não há resposta. Sem forças, comem-se restos. Depois, cada um se mete na cama e adormece. Com sono. De cansaço.
Amanhã, de novo, o confronto realidade. Pouco divertida. Quase sempre injusta!

sábado, abril 11, 2009

Ressuscitou!!! Aleluia!!!

Evangelho segundo S. Marcos 16,1-7.
Passado o sábado, Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram perfumes para ir embalsamá-lO. De manhã, ao nascer do sol, muito cedo, no primeiro dia da semana, foram ao sepulcro. Diziam entre si: «Quem nos irá tirar a pedra da entrada do sepulcro?» Mas olharam e viram que a pedra tinha sido rolada para o lado; e era muito grande. Entrando no sepulcro, viram um jovem sentado à direita, vestido com uma túnica branca, e ficaram assustadas. Ele disse-lhes: «Não vos assusteis! Buscais a Jesus de Nazaré, o crucificado? Ressuscitou; não está aqui. Vede o lugar onde o tinham depositado. Ide, pois, e dizei aos seus discípulos e a Pedro: 'Ele precede-vos a caminho da Galileia; lá O vereis, como vos tinha dito.»
Eu creio, Senhor! E canto aleleuias!!!

Senhora do Silêncio!

A Sexta Feira do Sofrimento, das Dores, da Paixão terminara, enfim! Mãe amantíssima, coração despedaçado, torturada pelo martírio de seu Filho, agora a repousar no sepulcro que a Caridade de um amigo lhe cedeu, Maria regressa ao abrigo onde os discípulos se esconderam para fugir da fúria da populaça. A mesma que, dias antes, O aclamara com hossanas e palmas.
"...O Todo Poderoso fez em mim maravilhas. Santo é o Seu Nome. A Sua Misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem. Manifestou o poder do Seu braço e dispersou os soberbos..." consegue ainda cantar, como todos os dias fizera, desde aquele dia em que tudo começou. Maria da Esperança. Maria da Fé!
O sábado amanhecera sereno e luminoso, como não acontecia, há muito. Pareceu que a Natureza não quisera perturbar o sono do seu Criador. Também Maria se associa e recolhe-se perante o seu Senhor. Maria do Silêncio!
Mãe Santíssima, Mãe de Jesus Sepultado, minha Mãe, nossa Mãe, neste dia de Esperança e de Silêncio, venho pedir-te pelas nossas mães silenciosas e sem esperança: as mães que também perderam os filhos na guerra; s mães que perderam os filhos nos acidentes de trabalho e das estradas; ainda as mães que perderam os filhos nos caminhos tortuosos da vida, a droga, a prostituição e o crime; as mães que vêem os seus filhos amarrados, sem esperança, na cama de um hospital, numa cadeira de rodas ou metidos numa prisão; as mães que são maltratadas e desprezadas pelos filhos; as mães que se sentem incapazes de educar os seus filhos, ainda que pequeninos; as mães que, um dia, sentiram os filhos desaparecer das suas vidas sem nunca mais darem notícias; as mães que têm os filhos, cada dia, batendo de porta em porta, à procura de trabalho; as mães que, por falta da solidariedade e de amor, são obrigadas a matar os seus filhos, ainda dentro delas, indefesas e indefesos; as mães que vêem os seus filhos com empregos precários, mal pagos e mal amados, numa sociedade iníqua e exploradora dos mais fracos. Mãe do Silêncio, numa palavra, neste dia do silêncio, enquanto esperas aleluias a cantar, confio-te o sofrimento silencioso de todas as mães que sofrem no mundo inteiro. Oh! Mãe de todas as mães, ensina-nos a esperar, como Tu, com Esperança. E a acreditar nessa esperança como tu acreditaste.
Ó Mãe, esta aprendi-a no meu "cursilho de cristandade", talvez o momento em que mais perto estive de teu Filho. Não estranhes que ta ofereça, Mãe, pois ela canta a Esperança de uma Primavera que cheia de vida...