Na verdade, do Bairro da Mocidade, do Cimo da Aldeia, de S. Miguel, do Ferrador, do Centro … elas e eles iam chegando. A primeira roda formava-se quase a medo, só raparigas. De mãos dada lá começava uma a dar o tom e o mote:
- Raparigas cantai todas,
Rapazes cantai com elas;

Nem nos rapazes nem nelas.Os rapazes, sempre mais acanhados e “brutos, iam-se entusiasmando. Batiam nas mão delas para que abrissem a roda e “deixa-me entrar”. E outro. E outro. Depois … ainda não havia casamentos “homossensuais”. Mesmo que fosse preciso dançar em pares de duas... tudo era consentido. Sem meias nem dúbias intenções nem comentários descabidos, numa sociedade que vivia quase em estado de Inocência. Pares de dois é que não. Aqui o preconceito era bem forte. Ou apenas a tradição.
Formavam-se pares de mais ou menos “interessados”, uns com vista “ao futuro”, a maior parte para aquele momento. O presente. O canto, afinado desde o nascimento de cada um pelos acordes da Banda, era ali posto à prova. E que boas provas dava. Batiam-se palmas, estalavam-se os dedos, agitavam-se e davam-se braços, passava-se de mão em mão, ou de par em par, num rodopio estonteante de corpos viçosos, cheios de vida.- Castelo Branco é vila,
Penamacor é cidade,
Aldeia barquinho d’ouro,
Onde embarca a mocidade.
Ou
- Lá vem aurora, lá vem, lá vem….
De madrugada, que graça tem;
Lá vem aurora, lá vem lá vinha,
De madrugada que graça tinha.Ainda aquela roda não aquecera e já, ao lado, outra se formara. Que não queria ficar atrás. E trouxera “artilharia”. Dois adufes tocados por mãos ligeiras e que punham o grupo num vendaval de movimento, cor e som. Aquele dançar “a direitos” ao som ritmado de um tam-tam, que só voltei a ouvir em África, punha os corpos suados e excitados, balançando para cá e para lá,
- Aldeia de João Pires,
Ai! Ricotão, ricotão… tão ...tão…
Lindo cantinho da Beira
Ó ai! Ó ai! Ai! Ricotão.. tão… tão … ó ai ricotão!
De entre as terras do Concelho
Ai! Ricotão, ricotão… tão ..tão
É de todas a primeira.
Ó ai! Ó ai! Ai! Ricotão.. tão… tão … ó ai ricotão!Ou ainda outra:
- Pum-pum ao redol,
meu bem como o sol…
Canta o pintassilgo,
mais o rouxinol.
Aquela quadra, das mais ouvidas, servia de refrão a um grande número das cantigas de roda…
- Aldeia de João Pires,
Lindo cantinho da Beira,
De entre as terras do Concelho,
É de todas a primeira.
Quando chegava o Tó do Realejo, uma nova roda se punha a girar. Das de “agarrar”. Como a “malta” preferia. Avós e mães à espreita. Quando não os pais. Aos “avanços” de algum mais “atrevido” lá se fincava o cotovelo direito da rapariga no peito do moço, que ela não “era de brincadeiras”. “Divertir sim, gozar não”. Depois era como se fosse o último baile da vida daquela gente que sentia que o corpo não era para descansar. E nem só de sacho e enxada, de charrua ou de arado se vivia na Aldeia.
E se viesse o Zé do Pífaro haveria ainda uma nova roda. Um novo baile, por onde homens e mulheres, casados e solteiros, rapazes e raparigas, garotos (que, sempre travessos, preferiam dar uma palmada ou um beliscão…) e garotas entravam, num corrupio de cantares e dançares, a fazer esquecer as agruras de uma semana que tão próxima ainda estava e de outra que já tão depressa se achegava.
- Alecrim, alecrim aos molhos….
Por causa de ti choram os meus olhos…
Ai meu amor quem te disse a ti
Que a flor do campo era o alecrim.
Lá muito de longe em longe passava um automóvel e o(s) baile(s) não parava(m). A música continuava, arredavam-se os dançarinos para a berma da estrada, os passantes arregalavam os olhos de espanto e… sorriam. Quem sabe se com vontade de também entrar na roda.
- Lá vem aurora, lá vem, lá vem….
De madrugada, que graça tem;
Lá vem aurora, lá vem lá vinha,
De madrugada que graça tinha.Ainda aquela roda não aquecera e já, ao lado, outra se formara. Que não queria ficar atrás. E trouxera “artilharia”. Dois adufes tocados por mãos ligeiras e que punham o grupo num vendaval de movimento, cor e som. Aquele dançar “a direitos” ao som ritmado de um tam-tam, que só voltei a ouvir em África, punha os corpos suados e excitados, balançando para cá e para lá,
- Aldeia de João Pires,
Ai! Ricotão, ricotão… tão ...tão…
Lindo cantinho da Beira
Ó ai! Ó ai! Ai! Ricotão.. tão… tão … ó ai ricotão!
De entre as terras do Concelho
Ai! Ricotão, ricotão… tão ..tão
É de todas a primeira.
Ó ai! Ó ai! Ai! Ricotão.. tão… tão … ó ai ricotão!Ou ainda outra:
- Pum-pum ao redol,
meu bem como o sol…
Canta o pintassilgo,
mais o rouxinol.

Aquela quadra, das mais ouvidas, servia de refrão a um grande número das cantigas de roda…
- Aldeia de João Pires,
Lindo cantinho da Beira,
De entre as terras do Concelho,
É de todas a primeira.
Quando chegava o Tó do Realejo, uma nova roda se punha a girar. Das de “agarrar”. Como a “malta” preferia. Avós e mães à espreita. Quando não os pais. Aos “avanços” de algum mais “atrevido” lá se fincava o cotovelo direito da rapariga no peito do moço, que ela não “era de brincadeiras”. “Divertir sim, gozar não”. Depois era como se fosse o último baile da vida daquela gente que sentia que o corpo não era para descansar. E nem só de sacho e enxada, de charrua ou de arado se vivia na Aldeia.
E se viesse o Zé do Pífaro haveria ainda uma nova roda. Um novo baile, por onde homens e mulheres, casados e solteiros, rapazes e raparigas, garotos (que, sempre travessos, preferiam dar uma palmada ou um beliscão…) e garotas entravam, num corrupio de cantares e dançares, a fazer esquecer as agruras de uma semana que tão próxima ainda estava e de outra que já tão depressa se achegava.
- Alecrim, alecrim aos molhos….
Por causa de ti choram os meus olhos…
Ai meu amor quem te disse a ti
Que a flor do campo era o alecrim.
Lá muito de longe em longe passava um automóvel e o(s) baile(s) não parava(m). A música continuava, arredavam-se os dançarinos para a berma da estrada, os passantes arregalavam os olhos de espanto e… sorriam. Quem sabe se com vontade de também entrar na roda.
Ainda outra:
- Onde vai com seu sapatinho, olaré!
Onde vai com seu lindo pé!
Mata aranha, serranita,
Mata aranha, se tu és bonita!
Mata aranha, olaré,
Mata aranha com seu lindo pé!!!
- Ó Tio Fernando, cheguei a contar quatro bailes naquele espaço de quase 200 metros de alcatrão…
- Olha, sobrinho, e eu cheguei a ver e a dançar, ali, NUM só baile, a ocupar todo aquele espaço, embora nem todos cantassem e dançassem a mesma música… - respondeu-me o meu Tio, já este ano, nos seus 85 anos, uma das memórias vivas da nossa Terra, com um sorriso de saudade. E se ele tinha pé para a festa!
- Olha a triste viuvinha
Que anda na roda a chorar!
É bem feita, é bem feita,
Não acha com quem casar .
ou
- Viva o nosso ranchinho,
Viva e torna a viver,
Um ranchinho com’ó nosso,
Não o há nem pode haver.
E mais:
Eu pensava que a margaça.
Era nome de mulher;
A margaça é má erva,
Nem os animais a quer(em)
Ainda:
Maria da Conceição,
Ó que palavra tão doce,
Dava-te o meu coração,
Se o teu ao meu fiel fosse.
Muitos destes cantares acompanhavam os trabalhos do campo e tinham épocas próprias, coreografias adaptadas, sem grandes diferenças de localidade para localidade. Os mesmos cantares, adequadas as danças, ouviam-se pelas aldeias, em redor.
- O senhor do meio julga que é alguém…
É um macaquinho que nem barba tem…
- Valverde, Valverde, Valverde ladrão,
Rouba agora a moça que é a ocasião.
- Já cá vai roubada, já cá vai na mão,
Já cá vai metida em meu coração…A camioneta da carreira, que marcava o aproximar das sete e meia, nem sempre dava sinal de que a festa ia acabar. No entanto, cada um dos membros desta fantástica comunidade sabia que o “vimos da festa” se aproximava, a passos largos. Melhor era voltar para casa. As “Avé-Marias” haviam tocado – um “invejoso” que não sabia dançar até o fizera “mais cedo” – o baile parara para todos rezarem, uns de verdade, outros nem por isso – e dali p’ra frente já não seria a mesma coisa. Até porque “os amigos do copo”, para quem a “festa” fora outra, nas tabernas ali à volta, começavam a dar “sinais” de si, geralmente de “má catadura” ou "com mau vinho", e melhor era ir cada um à sua vida. Coitadas das mulheres e dos filhos que haviam de os aturar.
Quanto sofrimento o “maldito vinho” causou, entre nós… Pois, nem sempre os filmes acabam bem para todos.
- Onde vai com seu sapatinho, olaré!
Onde vai com seu lindo pé!
Mata aranha, serranita,
Mata aranha, se tu és bonita!
Mata aranha, olaré,
Mata aranha com seu lindo pé!!!
- Ó Tio Fernando, cheguei a contar quatro bailes naquele espaço de quase 200 metros de alcatrão…
- Olha, sobrinho, e eu cheguei a ver e a dançar, ali, NUM só baile, a ocupar todo aquele espaço, embora nem todos cantassem e dançassem a mesma música… - respondeu-me o meu Tio, já este ano, nos seus 85 anos, uma das memórias vivas da nossa Terra, com um sorriso de saudade. E se ele tinha pé para a festa!
- Olha a triste viuvinha
Que anda na roda a chorar!
É bem feita, é bem feita,
Não acha com quem casar .
ou
- Viva o nosso ranchinho,
Viva e torna a viver,
Um ranchinho com’ó nosso,
Não o há nem pode haver.
E mais:
Eu pensava que a margaça.
Era nome de mulher;
A margaça é má erva,
Nem os animais a quer(em)
Ainda:
Maria da Conceição,
Ó que palavra tão doce,
Dava-te o meu coração,
Se o teu ao meu fiel fosse.
Muitos destes cantares acompanhavam os trabalhos do campo e tinham épocas próprias, coreografias adaptadas, sem grandes diferenças de localidade para localidade. Os mesmos cantares, adequadas as danças, ouviam-se pelas aldeias, em redor.
- O senhor do meio julga que é alguém…
É um macaquinho que nem barba tem…
- Valverde, Valverde, Valverde ladrão,
Rouba agora a moça que é a ocasião.
- Já cá vai roubada, já cá vai na mão,
Já cá vai metida em meu coração…A camioneta da carreira, que marcava o aproximar das sete e meia, nem sempre dava sinal de que a festa ia acabar. No entanto, cada um dos membros desta fantástica comunidade sabia que o “vimos da festa” se aproximava, a passos largos. Melhor era voltar para casa. As “Avé-Marias” haviam tocado – um “invejoso” que não sabia dançar até o fizera “mais cedo” – o baile parara para todos rezarem, uns de verdade, outros nem por isso – e dali p’ra frente já não seria a mesma coisa. Até porque “os amigos do copo”, para quem a “festa” fora outra, nas tabernas ali à volta, começavam a dar “sinais” de si, geralmente de “má catadura” ou "com mau vinho", e melhor era ir cada um à sua vida. Coitadas das mulheres e dos filhos que haviam de os aturar.
Quanto sofrimento o “maldito vinho” causou, entre nós… Pois, nem sempre os filmes acabam bem para todos.
Cantigas e saudades? Muitas... Impossível deixá-las aqui todas.
Então… e o instrumento dos instrumentos de baile, a concertina não havia?
Ah! Era preciso pagar e não podia ser todas as semanas. E então a nossa Banda não punha o Povo a dançar? Oh! Se punha!!!
Veremos em episódios a seguir…
Então… e o instrumento dos instrumentos de baile, a concertina não havia?
Ah! Era preciso pagar e não podia ser todas as semanas. E então a nossa Banda não punha o Povo a dançar? Oh! Se punha!!!
Veremos em episódios a seguir…
2 fotos por especial deferência de João Paulo Fidalgo.