Fui passando, dando conta dos meus estados de alma, relatando para a página o que vi, ouvi, saboreei, senti e cheirei ao longo de uma vida que já vai longa: angústias e alegrias, medos e fanfarronices, lazeres e trabalhos... Falei da minha vida, da minha Aldeia e da minha Beira, enfim, daquilo que amei ... mesmo que já não possa ver. Se lhe dei motivo para me revisitar, agradeço do coração o tempo que me concede.
A Meimoa é muito conhecida por causa da sua
barragem, junto ao início da Serra da Malcata, onde deveria viver o lince, com
belos olivais, grandes pinhais, vinhas e a famosa Ponte Filipina (que não o é)
que liga a Aldeia à Benquerença e daqui aos Três Povos, Alpedrinha, Fundão,
Covilhã, Serra da Estrela… Sabia que para lá da minha
aldeia existia uma outra com o nome MEIMÃO, perto do Sabugal, mas ainda
concelho de Penamacor, e depressa pensei que o nome MEIMOA tivesse algo a ver
com o outro. Mas não consigo descortinar parecenças…
Foi na Meimoa que me estreei na equipa de futebol dos Grandes do Vale da
Senhora da Póvoa, aldeia a quatro quilómetros. Ou porque era bom a jogar, ou
talvez porque faltasse alguém, o seleccionador Norberto convocou-me. Lembro-me
que a dado momento, durante o jogo, a bola sobrou para mim e chutei "ao calhas"
para a frente… Só dei conta de dez latagões saltarem para cima de mim (um
franganote moreno, escanzelado e pau de virar tripas) abraçando-me e quase me
esmagando. É que tinha marcado um golo, sem querer, é claro, mas o único do
desafio.
Os rapazes da Meimoa, capitaneados pelo Nuno Moiteiro, presentearam-nos com uma
grade de gasosas do Soito, que serviu para recuperar forças; ainda tínhamos que
fazer os tais quatro quilómetros a pé de volta à nossa aldeia…
Houve nesta aldeia um acontecimento célebre que é uma delícia recordar! Em
todas as aldeias, aos domingos, os sinos das igrejas badalavam, às 19 horas,
marcando o fim dos bailes e a obrigatoriedade dos jovens irem rezar o terço.
Até no nosso Vale isso acontecia, Os padres estavam combinados, era marosca,
via-se… É claro que só as meninas donzelas iam, mas arrastadas pelas mães, que
lhes diziam que só assim garantiam um bom casório!
Essa estória chegou-me aos ouvidos pelo meu Tio Manuel Cameira «Caixeiro», do
Vale da Senhora da Póvoa e irmão do meu Avô, contada naqueles serões de Inverno
junto à lareira e com os varões com "enchido verde" a pingar sobre todos. O Ti
Manuel Caixeiro casou na Meimôa, por volta de 1940, com uma senhora de nome
Teresa Manteigas. Foi por essas idas e vindas à Meimoa que ele ouviu esta
versão do acontecido e assim ma contou.
Numa tarde de um qualquer domingo, às 7 da tarde, o sino tocou e o baile acabou,
como era hábito.
O Padre Fernando, à hora do terço, deu pela falta, nos bancos compridos, de uma
rapariga, a Maria Martins, já em namoro adiantado com o Tóino Berto (tudo nomes
fictícios).
Não foi à Igreja, sabe-se lá onde terá estado a aproveitar melhor o tempo…
No domingo seguinte, em plena homília, no cimo do púlpito, então não é que o
Padre Fernando verbera, em público, alto e bom som, que a Maria Martins (citou
mesmo o nome dela) tinha faltado ao terço do outro domingo?! Que era pecado,
mau comportamento, imoral, uma vergonha…
A rapariga. a chorar, foi fazer as queixas ao namorado. E fez muito bem.
A coisa parecia ficar por aí, mas, de repente, o caso deu para o torto!
O Padre Fernando era encorpado, barrigona, parecendo prenhice, à frente e, atrás,
um grande, largo e gordo traseiro!
Nessa noite, depois de rezado o terço, houve alguém que, surgindo do escuro da
rua, ferra uma valente e ruidosa chumbada de flobber no gordo e avantajado rabo do
arrogante sacerdote…
- Aqui del-rei que querem matar o nosso santo padre Fernando!! – gritaram as
mulheres, ganindo a cãozoada ao mesmo tempo!
- De certeza foi o Toino Berto! – gritaram as beatas da sacristia.
- Que nada, disse o Toino, estava a ouvir o relato do Artur Agostinho, do
Sporting contra o Salgueiros, na Emissora Nacional!
Das desconfianças do autor do crime contra as gorduras traseiras do padre,
passou-se "às certezas"… Foi o Toino Berto, pronto, já está!
Feita a queixa-crime contra o rapaz, na GNR de Penamacor… que ele queria mesmo
era matar, tinha que ir para a cadeia, não se faz uma coisa dessas e logo ao
nosso querido padre, ministro de Deus!
Foi marcado o dia do julgamento, no Tribunal da Comarca em Penamacor.
Entretanto, no «hospital» da Dona Bárbara, de Penamacor, foi retirada uma boa
mão cheia de chumbinhos do bundão do padre – estou a imaginar o enfermeiro com
uma pinça procurando dentro das entremeadas as bolinhas metálicas reluzentes de
toucinho!
O padre foi instruído para arranjar testemunhas.
- Até tenho muitas ! – disse ele, com ar de vingança demoníaca, esquecendo o
perdoar das ofensas no Pai-Nosso.
Nos oito dias antes do julgamento, houve reunião diária, mas nocturna, marcada
pelo Padre Fernando, na sacristia da igreja, com meia dúzia de beatas que, assim,
orquestraram o testemunho contra o rapaz… Que sim, que viram o rapaz com a arma
na mão, que disparou contra o Padre…
No dia do julgamento, o juiz interrogou uma a uma essas testemunhas… e todas
diziam exactamente a mesma lenga-lenga, originando desconfianças. Terá
interrogado de novo cada uma das mulheres de per si para saber quem lhes tinha
ensinado aquelas respostas todas iguais.
Ingenuamente, lá foram dizendo que fora o senhor sadre Fernando que as ensinou a
responder daquela maneira, na sacristia, todas as noites, parecendo uma cantoria
em coro…
Resultado: essas testemunhas beateiras foram todas um dia-de-cana para o
xelindró a ver a Lua aos quadradinhos… e o Toino Berto foi ABSOLVIDO!
Nessa noite, na Meimoa, parecia a noite de Natal! Houve foguetes nos céus,
mandaram até vir o acordeonista do Vale e comeu-se "à la gardère" um vitelo de
churrasco, no centro da aldeia, bem regado com vinhaça da boa com que todo o Povo
se alambazou, celebrando a vitória contra a inquisição e o inquisidor local!!
Muitos chumbinhos ficaram sossegados para sempre no rabo clerical, mais valeu
isso que arriscar uma paralisia…