Havia uma semana que a chuva quase não parava, naquele princípio de Janeiro de meados do século passado. Fria, muito fria. A colheita da azeitona estava atrasada e os "ranchos" regressavam, passo largo, naquele sofrido anoitecer, encharcados e gelados. Apressadamente, caminhavam para casa. Tristes e cabisbaixos, saudavam, com soturnos "boa noite" aqueles com quem se cruzavam.Fui passando, dando conta dos meus estados de alma, relatando para a página o que vi, ouvi, saboreei, senti e cheirei ao longo de uma vida que já vai longa: angústias e alegrias, medos e fanfarronices, lazeres e trabalhos... Falei da minha vida, da minha Aldeia e da minha Beira, enfim, daquilo que amei ... mesmo que já não possa ver. Se lhe dei motivo para me revisitar, agradeço do coração o tempo que me concede.
quarta-feira, janeiro 13, 2010
Ao serão, no Inverno... 1
Havia uma semana que a chuva quase não parava, naquele princípio de Janeiro de meados do século passado. Fria, muito fria. A colheita da azeitona estava atrasada e os "ranchos" regressavam, passo largo, naquele sofrido anoitecer, encharcados e gelados. Apressadamente, caminhavam para casa. Tristes e cabisbaixos, saudavam, com soturnos "boa noite" aqueles com quem se cruzavam.segunda-feira, janeiro 11, 2010
Uma MULHER na nossa vida!!!
Ao olhar o calendário, vi "11 de Janeiro". Bateu uma saudade no meu coração! Eu disse:
Eu amo-vos muito, com o amor que os nossos pais semearam em nós.
Muitos beijinhos
Da vossa mana,
Clarinda
domingo, dezembro 20, 2009
O Conto da minha Vida!
SUAVE MILAGRENesse tempo, Jesus ainda se não afastara da Galileia e das doces, luminosas margens do lago de Tiberíade – mas a nova dos seus milagres penetrara já até Enganim, cidade rica, de muralhas fortes, entre olivais e vinhedos, no país de Issacar. Uma tarde, um homem de olhos ardentes e deslumbrados, passou no fresco vale e anunciou que um novo profeta, um rabi formoso, percorria os campos e as aldeias da Galileia, predizendo a chegada do Reino de Deus, curando todos os males humanos. E, enquanto descansava, sentado à beira da Fonte dos Vergéis, contou ainda que esse rabi, na estrada de Magdala, sarara da lepra o servo de um decurião romano, só com estender sobre ele a sombra das suas mãos; e que, noutra manhã, atravessando numa barca para a terra dos Gerasenos, onde começava a colheita do bálsamo, ressuscitara a filha de Jairo, homem considerável e douto que comentava os livros na sinagoga. E, como em redor, assombrados, seareiros, pastores e as mulheres trigueiras, com a bilha no ombro, lhe perguntassem se esse era, em verdade, o Messias da Judeia, e se diante dele refulgia a espada de fogo, e se o ladeavam, caminhando como as sombras de duas torres, as sombras de Gog e de Magog – o homem, sem mesmo beber daquela água tão fria de que bebera Josué, apanhou o cajado, sacudiu os cabelos e meteu, pensativamente, por sob o aqueduto, logo sumido na espessura das amendoeiras em flor. Mas uma esperança deliciosa como o orvalho nos meses em que canta a cigarra, refrescou as almas simples: logo, por toda a campina que verdeja até Áscalon, o arado pareceu mais brando de enterrar, mais leve de mover a pedra do lagar; as crianças, colhendo ramos de anémonas, espreitavam pelos caminhos se além da esquina do muro, ou de sob o sicômoro, não surgiria uma claridade; e, nos bancos de pedra, às portas da cidade, os velhos, correndo os dedos pelos fios das barbas, já não desenrolavam, com tão sapiente certeza, os ditames antigos. Ora então vivia em Enganim um velho, por nome Obed, de uma família pontifical de Samaria, que sacrificara nas aras do monte Ebal, senhor de fartos rebanhos e de fartas vinhas, e com o coração tão cheio de orgulho como seu celeiro de trigo. Mas um vento árido e abrasado, esse vento de desolação que ao mando do Senhor sopra das torvas terras de Assur, matara as reses mais gordas das suas manadas e pelas encostas, onde as suas vinhas se enroscavam ao olmo, e se estiravam na latada airosa, só deixara, em torno dos olmos e pilares despidos, sarmentos de cepas mirradas e a parra roída de crespa ferrugem. E Obed, agachado à soleira da sua porta, com a ponta do manto sobre a face, palpava a poeira, lamentava a velhice, ruminava queixumes contra Deus cruel. Apenas ouvira, porém, desse novo rabi da Galileia que alimentava as multidões, amedrontava os demónios, emendava todas as desventuras, Obed, homem lido, que viajara na Fenícia, logo pensou que Jesus seria um desses feiticeiros, tão costumados na Palestina, como Apolónio, ou rabi Ben-Dossa, ou Simão, «o Subtil». Esses, mesmo nas noites tenebrosas, conversam com as estrelas, para eles sempre claras e fáceis nos seus segredos; com uma vara afugentam de sobre as searas os moscardos gerados nos lodos do Egipto; e agarram entre os dedos as sombras das árvores, que conduzem, como toldos benéficos, para cima das eiras, à hora da sesta. Jesus da Galileia, mais novo, com magias mais viçosas decerto, se ele largamente o pagasse, sustaria a mortandade dos seus gados, reverdeceria os seus vinhedos. Então, Obed ordenou aos seus servos que partissem, procurassem por toda a Galileia o rabi novo, e com promessa de dinheiros ou alfaias o trouxessem a Enganim, no país de Issacar. Os servos apertaram os cinturões de couro e largaram pela estrada das caravanas que, costeando o lago, se estende até Damasco. Uma tarde, avistaram sobre o poente, vermelho como uma romã muito madura, as neves finas do monte Hérmon. Depois, na frescura de uma manhã macia, o lago de Tiberíade resplandeceu diante deles, transparente, coberto de silêncio, mais azul que o céu, todo orlado de prados floridos, de densos vergéis, de rochas de pórfiro e de alvos terraços, por entre os palmares, sob o voo das rolas. Um pescador que desamarrava, preguiçosamente, a sua barca de uma ponta de relva, assombreada de aloendros, escutou, sorrindo, os servos. O rabi de Nazaré? Oh! desde o mês de Ijar, o rabi descera, com os seus discípulos, para os lados para onde o Jordão leva as águas. Os servos, correndo, seguiram pelas margens do rio, até adiante do vau, onde ele se estira, num largo remanso, e descansa, e um instante dorme, imóvel e verde, à sombra dos tamarindos. Um homem da tribo dos Essénios, todo vestido de linho branco, apanhava, lentamente, ervas salutares, pela beira da água, com um cordeirinho branco ao colo. Os servos, humildemente, saudaram-no, porque o povo ama aqueles homens de coração tão limpo, e claro, e cândido como as suas vestes cada manhã levadas em tanques purificados. E sabia ele da passagem do novo rabi da Galileia que, como os Essénios, ensinava a doçura, e curava as gentes e os gados? O Essénio murmurou que o rabi atravessara o oásis de Engaddi, depois se adiantara para além...
Eça de Queiroz, Contos
sábado, dezembro 12, 2009
Parabéns a Você!!!
domingo, novembro 29, 2009
Rapazes, isto é "comunismo"!!!
Carta a um Amigo,Mas a expressão "pegou" e, durante semanas, na galhofa, a frase favorita da malta era "Rapazes, isto é comunismo!!!" Uma risada geral, inconsciente e feliz, que até ajudou a esquecer as nódoas negras dos cassetetes dos PSP. E o Dr. Catanas Diogo deve ter tapado os ouvidos muitas vezes.
Ora, meu caro Amigo, as imagens do "santuário" no caminho do Sul do nosso País, fazem-me pensar que, se o Dr. Catanas por lá passasse e fosse tão ateu como era convicto "situacionista" diria, sem dúvida, "Portuguesas e portugueses, isto é 'inquisicionismo', isto é 'vaticanismo'!!!!!!!!!!!!!!!!!"
Pois bem: o meu querido Amigo é uma pessoa inteligente e sabe perfeitamente que há, por sinal, "inquisição" em Portugal, mas não é a da Igreja. O Sócrates é testemunha e "vitima". E também tem a certeza de que, no Vaticano, nem sabem onde fica o Alentejo, quanto mais o referido "santuário". Assim, só por "cegueira saramaguiana" se pode ver, naquilo que nos que mostrou nas suas simplórias imagens, a mão da Igreja. Como a cegueira que levou o Dr. Catanas Diogo, distinto membro da LP e da MP, a ver "comunistas" nos alegres estudantes do Liceu D. Nuno Álvares Pereira, que brincavam com bolas de neve.
Só lhe agradeço ter-me avivado a memória e, assim, no meu blog, vai ser acrescentada uma nova mensagem de um assunto divertido, que andava pelo esquecimento.
Abração deste que o estima, mas que tem o "defeito" de não estar sempre de acordo consigo, pois tudo tem limites e do direito à diferença eu não abdico. Arda o que arder. Haverá que apontar ao Vaticano coisas bem mais graves, mas não o patrocínio dessa simplória crendice dos populares lá das bandas do sul do Alentejo, a entrar no Algarve. Ou será já no Algarve? Acho exagerado os adjectivos por si aplicados aos "crentes", pois a Liberdade tem consequências. Uma delas é, fortemente, a tolerância para os "desvios" dos outros - e quem os não tem?! - que melhor se "converterão" a quem discordar do que fazem ou do que que crêem com diálogo do que com "chavões" vanguardistas.
António Serrano
quinta-feira, novembro 26, 2009
A corja
Na fragilidade de um poemaFeito com versos de vento e água,
Desfaço em pedaços mil dilemas,
Liberto minha revolta e mágoa.
Como quem descrê no que acredita,
Por já não crer em nada e ninguém,
Dou meus frutos, sou árvore maldita,
À corja, oxalá a envenenem bem.
Perguntei ao vento: - Aonde me levas?
Olhou-me com dor e disse a sorrir:
- Levo-te de volta à noite das trevas,
Onde não há presente nem porvir.
- Que lugar é esse, que noite é essa
Onde tu, ó vento, me queres levar?!
- É o reino das falsas promessas
E mentiras, de quem quer governar.
Não vi rosmaninho nem alfazema,
Das rosas só restavam os espinhos.
Não vi a poesia, menos poemas,
Só tojos, urzes e outros maninhos.
Não vi sorrir o rosto das crianças,
Só velhos com tristeza no olhar,
E loucos e doutos sem esperança,
Nem sol d’ Abril nem Lua ou luar.
Não vi rios nem as verdes campinas,
Nem ouvi os rouxinóis no arvoredo…
Por entre uma fria e densa neblina,
Só se ouviam pragas e gritos de medo.
Perguntei ao vento que me guiava:
- Diz-me, meu amigo, quem grita assim?!
Porém ele não falava, calava
A verdade por ter pena de mim.
Mas perante a minha insistência
O vento acabou por me dizer:
- Amigo, os lobos não têm clemência
Quando está em causa o poder.
E de súbito, da neblina cerrada
Saiu a mais faminta alcateia…
Mil lobos, de fauces escancaradas,
Que devoraram mil anhos à ceia.
Eram lobos anafados, lustrosos.
Era uma insaciável alcateia…
Arrotando forte os mais poderosos,
E uivando os mais fracos por ceia.
Eis um poema só de raiva feito
Onde vos dou versos como poção…
Antídoto algum lhe tire o efeito,
Morram os lobos que nem lobos são.
São só versos de amarga revolta…
Malditos sejam se os lerdes em vão.
Deixo a minha raiva correr à solta,
Ergo a voz e à corja digo: - Não.
Saramago, esse desconhecido...
Fernanda Leitão
SEM COMPLEXOS NEM PRECONCEITOS
Seguramente, foi em 1959 que assentei arraiais na Brasileira do Chiado, no grupo pontificado por Tomaz de Figueiredo, Jorge Barradas, Abel Manta e Almada-Negreiros, onde fui dar pela mão de artistas plásticos cujo vasto atelier passou a ser, também, meu poiso habitual.Meu de muitas outras pessoas.
Em tardes de inverno, com a lareira acesa e tomando chá, por ali passava a dizer poemas Vasco Lima Couto e, a inundar o espaço com a sua voz inesquecível, Eunice Muñoz. Gente do teatro, do cinema, da música, das artes plásticas, do jornalismo, das letras, ali conviviam com serenidade e gosto.
A escritora Isabel da Nóbrega começou a ser habitual e depressa se tornou uma amiga dos donos do atelier. Senhora de bom berço e fino trato, inteligente e culta, bem instalada na vida, caíu numa cilada do demónio. Apaixonou-se por um zé ninguém, nem sequer bonito, muito menos simpático e bem educado, que olhava tudo e todos de nariz empinado, numa pseudo-superioridade de quem tem contas a ajustar com a vida, quezilento e muito chato. Falava como um pregador de feira e era intragável. Mas, em atenção à Isabel, lá íamos aturando o José Saramago.
Para mim, que sou péssima, foi ponto assente: aquele não a ia fazer limpa, era um depósito de ódio recalcado. Foi por isso que não me admirei nada quando o vi director do Diário de Notícias, a mando do Partido Comunista, onde, da noite para o dia, lançou ao desemprego 24 jornalistas, dos da velha escola, dos que escrevem com pontos e vírgulas, deixando-os, e às famílias, sem pão. Tambem não fiquei minimamente surpreendida quando soube que abandonou Isabel da Nóbrega, que tanto fez por ele, para alvoroçadamente casar com uma espanhola que foi freira e tem vastos conhecimentos no mundo da política e das letras. Para mim, estava tudo a condizer com a figura.
Cá de longe soube que publicava livros e vendia muito. Não me aqueceu nem arrefeceu, porque nunca li nada escrito por ele nem tenciono perder tempo com isso. Não me apetece, e está tudo dito. Nem o Nobel que lhe deram me impressionou, porque já vi o Nobel ser dado sem critério algumas vezes. Acho mesmo que o prémio está a ficar muito por baixo.
E agora, o homenzinho da Golegã a chamar nomes a Deus, a insultar a Bíblia nuns raciocínios primários de operário em roda de tasca. Dizem que o fez por golpe publicitário. Talvez. Acho que é capaz disso e de muito mais. No entanto, creio que, no meio do aranzel, apenas houve uma pessoa que lhe fez o diagnóstico certo: António Lobo Antunes, numa magistral entrevista dada à RTP, há dias, respondeu a Judite de Sousa, que o interrogava sobre as tiradas de Saramago, que essas vociferações contra Deus lhe tinham feito medo. E adiantou: “tenho medo de chegar à idade dele assim, sem senso crítico”. Está tudo dito. É mais um como há tantos anciãos de tino perdido em Portugal. É deixá-lo andar. A mim tanto se me dá.
segunda-feira, novembro 23, 2009
Momento de poesia: Musa Beiroa
As Musas antigas e modernas também,
Discutem, fervorosamente, se sim ou não,
Me fazem poeta ou só Zé-ninguém.
Vindas de Norte, Sul, Oeste e de Leste,
Gregas, troianas, bretãs, até romanas,
Nunca foi visto concílio como este
Para discutir uma causa Lusitana.
Quiseram as Tágides, mais as do Mondego,
E a pastoril Beiroa, todas simples mas belas,
Avisarem-me baixinho, quase em segredo,
Que não seria fácil a guerra com elas.
Começou Euterpe, a rainha do canto,
Falas melodiosas, muito engraçada:
- Nada lhe darei, digo, por enquanto:
Nem lira, nem harpa, nem voz bem timbrada.
Logo a bela Serrana se ergueu por mim,
Simples resposta, excelente intervenção...
- Desculpai, Senhora, não será só assim
Por ele ser apenas um pobre beirão?!
- Não vos amofineis, insensata donzela,
Mas vejo a coisa de maneira diferente...
É preciso ter muito siso e cautela
Se desconhecemos quem temos em frente.
As Ninfas e as Tágides ficaram caladas;
Mal me conhecem, não ousam falar.
Mas a pastoril Beirã não cede por nada,
E a dona da música teve que se calar.
Diz Melpómene, em tom conciliador:
- Não façamos disto uma grega tragédia...
Se o rapaz não for músico, nem cantor,
Poderá dedicar-se então à comédia!
- Quereis passá-lo para mim? - pergunta Tália
Mostrando uma grande animosidade...
- Não conheço gente que não seja de Itália;
Não tem p'rá comédia jeito nem idade.
As Ninfas e as Tágides não se contiveram
Agarrando Tália pelo longo cabelo...
- Nunca os Romanos, os Lusos venceram,
Se ainda o não sabes, vais agora sabê-lo.
Gerou-se uma balbúrdia e tal confusão!...
Umas para um lado e outras para outro...
- Senhoras meninas, que é isto?... Então?!
Tanta discussão só por causa de um louco?!
Mas não gostou minha formosa estrela,
Que a elegante Terpsícore me chamasse louco,
Levantando-se de um salto, foi-se ali a ela,
E, se a não fez dançar, faltou muito pouco.
Falou, então, Clio, mãe da eternidade,
Num tom conciliatório e até cortês:
- Façamo-lo poeta; que cante só a saudade,
O doce sentimento do Povo português.
Com blusa decotada e seio provocante,
A fascinante Erato sabe bem o que quer,
De seus olhos verdes saem raios brilhantes,
Vê-se bem que não é Musa qualquer.
Veste de maneira ousada, atrevida;
Uma mini-saia bem acima do joelho.
Não sei se meia nua, se meia vestida,
Fazendo esquecer o mais sábio conselho.
Passemos adiante, deixemo-la p'ra logo,
Falemos apenas do que aqui se passou...
Acendeu-me nos lábios desejos de fogo,
Se mais não conseguiu, foi porque não tentou.
Não porque o não quisesse, ou desejasse,
Mas sendo a brejeira, linda filha de Zeus,
Travou-me a razão, antes que me queimasse,
Evitando colar meus lábios nos seus.
Ela sabe que a sua beleza inebria,
E diz, entre gestos de luxúria lasciva:
-Vem aos meus braços, se amas a poesia,
Ou também tens medo de beijar uma diva?
Gozando com a provocante atitude:
- Tu queres ser poeta?!... Pois sê-o então.
Não te gabo a sorte, mas fiz o que pude
Ao dar-te os dons de um pateta poltrão.
Pede às Ninfas e Tágides seu auxílio,
(E fingindo beijar-me em provocação...)
- Nunca serás Homero, muito menos Virgílio,
Não passarás, meu pateta, de rude Beirão.
Ergue-se, felina, a Leoa Lusitana,
Ninfas e Tágides se lhe juntam, em protesto.
- Quem sois vós, gregas, troianas e romanas,
Senão ralé, plebe vulgar, filhas de incesto?
Querendo chamar toda a gente à razão,
Disse Calíope, com muita indulgência:
- Não, nunca será só um poeta poltrão,
Eu lhe concedo um pouco de eloquência.
Mas os ânimos não ficaram sossegados,
Porque Terpsícore de modo contrafeito
Declarou: - Vou dar-lhe pés tão pesados
Que para a dançarino nunca terá jeito.
- Desconheceis o querer e força deste Povo?
( Gritou a Beiroa, com um fulgente olhar.)
- Venceu o mundo velho, construiu um novo,
Aqui tereis que aprender e não ensinar.
Será poeta, tudo o que ele desejar:
Guerreiro, lavrador, marinheiro, pastor.
Sábio, louco e até santo do altar,
Que o Povo Lusitano não conhece senhor.
Foram-se embora as musas de outrora,
Rabo entre as pernas e o bico calado.
Certamente, já aprenderam bem agora,
Que e a estirpe Lusa não é pau-mandado.
Ninfas e Tágides, minha Musa Beiroa,
Cantai a Gente Lusa, o Povo laureado.
Calem as antigas, por muito que lhes doa,
O seu canto roufenho e tão desafinado.
Mas aquela diva de olhos fascinantes
Tirava do sério um homem qualquer...
Há lindíssimas musas em belas amantes,
E lábios de fogo em muita mulher.
A formosa Erato com sua beleza,
Deixou em mim a suave recordação...
Ao partir, deixou-me alguma tristeza,
Também algum do seu poder e condão.
É quase certo, mas não posso afirmar,
Não sei se é real, se só fantasia,
Mas muitas vezes sinto que ela a brincar,
Vem ensinar-me a escrever poesia.
Linda, linda como o um mar das espigas,
É ver (não sei se me cale, ou se vos conte)
A mais generosa, a mais leal das amigas,
A minha Musa Beiroa, ao voltar da fonte.
À pequenina Leonor.
Não é Beiroa, mas de lá lhe venha a beleza, porque lindas são as moças Serranas.
Do tio-avô Fernando
quarta-feira, novembro 18, 2009
Nasceu! Bem vinda!!!
A Bíblia que Saramago não leu ou "Ensaio sobre a cegueira"2
Evangelho segundo S. Lucas 19,1-10. Tendo entrado em Jericó, Jesus atravessava a cidade. Vivia ali um homem rico, chamado Zaqueu, que era chefe de cobradores de impostos. Procurava ver Jesus e não podia, por causa da multidão, pois era de pequena estatura. Correndo à frente, subiu a um sicómoro para o ver, porque Ele devia passar por ali. Quando chegou àquele local, Jesus levantou os olhos e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa.» Ele desceu imediatamente e acolheu Jesus, cheio de alegria. Ao verem aquilo, murmuravam todos entre si, dizendo que tinha ido hospedar-se em casa de um pecador. Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: «Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais.» Jesus disse-lhe: «Hoje veio a salvação a esta casa, por este ser também filho de Abraão; pois, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.» sábado, novembro 14, 2009
Obrigado, Zé!
sexta-feira, novembro 13, 2009
A Bíblia que Saramago não leu ou "Ensaio sobre a cegueira"
Livro de Sabedoria 7,22-30.8,1. terça-feira, novembro 10, 2009
A boleia
Penamacor. Final dos anos 60. As aulas terminavam pelas 16 horas e as tardes eram mais que longas. Estava decidido. A seguir à "escola" iria a Aldeia visitar os meus Pais. No Fiat 850. Um "luxo". O caminho era curto e até dava para me alegrar o resto do dia. Assim, fui nas calmas. A Primavera, já bastante adiantada, em pleno mês de Maio. Naquele tempo, todo o bocadinho de terra arável havia sido cultivado ou servia para que pudessem crescer as pastagens de que os muitos rebanhos então existentes se alimentavam. E viam-se ovelhas e cabras por aquelas quebradas, com o dlão-dlão, dlim-dlim dos seus chocalhos e campainhas, pastor atento, encostado ao cajado, o cão fiel a seu lado. Era ainda tempo de muito trabalho e pouco proveito. Aqui e além, as mondadeiras labutavam em volta dos milhos e os centeios preparavam-se para mudar do verde deslumbrante, que "fugira" a bom "fugir" por encostas e vales, no mês de Abril que se fora, para o tom "cor de palha" que os havia de levar às ceifas. As hortas precisavam de ser regadas, umas com água puxada dos poços, a pulso, no caldeiro pendurado no varal da velha "burra", outras com a água tirada nos alcatruzes, fazendo-se ouvir o "tlem-tlem" com que o bater do "travão" da nora embalava a mansa burra que, de olhos tapados, ia percorrendo o seu caminho tão curto, mas sem fim. Parei, por instantes, na ponte da ribeira das Taliscas. Um local bem aprazível, com o verde dos salgueiros, das faias, dos plátanos, dos freixos e dos choupos. Ouvia-se, a pouca distância, o "barulho" de um motor que de lá puxava ainda a água para matar a sede do batatal que, ali mesmo, na fértil margem, tanto prometia.
Embalado nestas vistas tão nostálgicas de um tempo em que eu era homem, depressa cheguei a Aldeia do Bispo, com a "Farmácia Milongo", do simpático e saudoso Dr. Ildefonso, ali mesmo, na Lameira, à beira da estrada.
Por um destes acasos que só acontecem uma vez na vida, vejo de lá sair o Ti António "Baratinho", um dos meus conterrâneos mais castiços e divertidos, a morar mesmo lá pertinho dos meus Pais. Era um tempo em que não se tinha medo de dar boleia nem de a apanhar. Em "a talhe de foice" devo dizer que fiz uns milhares de kms nos carros de outros e, ainda hoje, se for sozinho, não sou capaz de deixar alguém a pé, na berma da estrada. Tendo a consciência do que tal atitude representa...
Mas voltemos ao fio da história. Mal o avistei, parei e perguntei-lhe:
- Ó Ti António, então o que faz por aqui? Vou à nossa Aldeia... Quer boleia?
- Ó Professor, nem sabe quanto lhe agradeço. A minha Lurdes está doente e vim aqui buscar uns comprimidos...
- Vá, entre, que chegamos num instante!
Retomada a marcha, aí vamos nós, numa de boa disposição. Sendo uma pessoa de pouca instrução, sem saber ler nem escrever, era de uma educação e simpatia a toda a prova. Usava a L.P. com muita graça e devo confessar que ainda dei umas boas gargalhadas, pois ele sabia histórias de conterrâneos nossos, verdadeiras ou inventadas e lidava com as palavras como poucos, para as recontar as vezes que fossem precisas. Com habilidade. Talvez só igualada pela de um seu irmão, o José que, tempos depois, me fez rir um dia inteiro, quando fomos companheiros de vindima... Cá estou eu "a variar"...
Ficando na mesma rua para onde eu me dirigia, apeou-se junto da sua casa e os remédios devem ter dado o efeito para que foram comprados.
O tempo passa num instante e, dias depois, voltando a visitar os meus Pais, quem é que encontro, ali, "à mão de semear", no Largo do Rato? O Ti António "Baratinho"...
Simpatia com simpatia se paga. Parei.
- Olá, Ti António, boa tarde! Então a sua Lurdes já está boa?
Uma gargalhada, como só ele era capaz de dar, ecoou, naquele Largo. Depois, quase sem se poder conter, exclamou:
- Ó Professor.... a minha Lurdes .... já está boa. Mas a sua boleia ... é que me dá vontade de rir!!!
Francamente, eu não percebia onde ele queria chegar. E ria, ria... Depois, com alguma dificuldade, consegui entender o que ele ia dizendo:
- Então... não quer saber??? Com a vontade de andar de carrinho.... esqueci-me que tinha levado a burra e deixei-a lá ficar???!!!
Tive de sair. O insólito da situação obrigava a tal. E rimos os dois... até nos cansarmos. Para espanto de alguns "Cucos" que iam passando, sem perceberem o porquê daquele "desaforo"...
segunda-feira, novembro 02, 2009
No olival
Azeitona galeguinha,
Quando vai para o lagar,
É como a moça solteira,
Quando se vai a casar.
Ólóai... larilólela! Ólóai... larilóló!!!
Azeitona cordovil,
Deita azeite mais claro,
Para ir alumiar,
À Senhora do Rosário.Ólóai... larilólela! Ólóai... larilóloó!!!Azeitona galeguinha,
O rouxinol a devora,
Pega nela com o bico,
Bate a asa vai-se embora.
Ólóai... larilólela! Ólóai... larilóló!!!
Azeitona galeguinha,
Apanhada uma a uma,
Estes rapazes de agora,
Não têm "planta" nenhuma.
Ólóai... larilólela! Ólóai... larilóló!!!
A oliveira é paz,
A macieira ciência,
O amor fora da terra,
Faz perder a paciência.Ólóai... larilólela! Ólóai... larilóló!!!!!
A moda da azeitona era cantada pelos ranchos que, ao "quinto", com frio, chuva e muito trabalho, iam recolhendo os frutos da oliveira para encherem os enormes potes de azeite dos grandes proprietários e de que receberiam uns litros para, bem "governado", ir dando para temperar as comidas e acender as candeias.
No Jardim da República
O aspecto que pode levantar-me mais reservas refere-se ao uso do "inox" na remodelação do que foi o "lago" central. Penso que pode ter sido equacionada a possibilidade de uso de materiais da nossa região. Sobretudo na cascata central, para mim, de belo efeito. De tal maneira que me sentei, virado para o centro, sem que a água me molhasse os sapatos. Já no que respeita aos bancos circundantes, penso que não seria fácil encontrar outro material em que se pudessem "retalhar" as belas figuras e cenas alusivas às gentes que, há muitos séculos, vêm ocupando e habitando as terras de Penamacor.
