quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Avô, vai falar de Aldeia...

As aulas haviam terminado pelas quatro e meia, brincadeira até depois das cinco. O Sol, pusera-se, portanto, lá para trás da Arrábida, e saímos de Setúbal para Palmela, ouvindo a Rádio Sim, a minha preferida. Que não a do Filipe. Como é costume, às quintas feiras, o meu neto aconchega-se no banco de trás e prepara-se para uma pequena soneca. Que a irmã aproveita, de forma marota, depois de "apanhada" noutra escola, para o despertar de maneira nem sempre ortodoxa.
A locutora Teresa Silva entra no ar e o meu neto salta do seu sossego:
- Avô, avô, está a falar de Aldeia!
Sorri-lhe. Alinhara num desafio daquela excelente profissional, com quem já gravara, um ano atrás, o primeiro "A minha música" que todos os domingos anima as emissões desta "Rádio do nosso tempo com músicas do seu tempo", pelas 15 horas. Desta vez o desafio era "A minha terra é a mais bonita..." Em vez de um bilhete postal, enviara-lhe, pela internet, 4 fotos da minha Aldeia, pois decidira que, mesmo gostando muito de Palmela, a nossa TERRA é só uma, aquela em que nascemos.
Estava na biblioteca de Setúbal, quando o "telelé" causou algum "frisson" naquele silêncio que deve ser próprio de todas as bibliotecas. Sabia do que se tratava, pois já houvera outras comunicações. Com pedido de desculpas, saio pela escada abaixo, alertando a Teresa de que a nossa entrevista iria ter por cenário a linda avenida Luísa Todi. E foi assim que, no meio de uma brincadeira, o Filipe ouviu o avô dizer coisas lindas da mais linda Aldeia do Mundo. Ali tudo bem justificadinho!!! "Está fora de causa discutir esta certeza, Teresa. Aqui tem de prevalecer a ditadura!!!"
Uma bem sonora gargalhada da Teresa Silva fez sair o Filipe do seu espanto e sorrir também. O caminho até Palmela foi, desta vez, mais curto. Com as explicações necessárias para o meu neto entender aquele "milagre".

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Tarde, na Aldeia...

As tardes eram curtas e frias, naquele fim de Outono, já Novembro bem adiantado. Muitas vezes chuvosas, com vento à mistura. Pelas quinze horas, a "escola" acabava e vinha então o melhor momento do dia para aquela garotada numerosa que enchia de vida e alegria as ruas, largos e becos da Aldeia. Excepto para alguns mais "infelizes” que tinham por dever ajudar os Pais na guarda dos animais, enquanto os progenitores apanhavam a "erva" para os bichos comerem durante a noite para estarem prontos a trabalhar, logo de manhã, no dia seguinte, quando o "tempo" o permitia. Outras Crianças viviam mesmo no campo e lá ... tinham de regressar. Para trabalhar, mesmo no escuro.
Deixemos, por hoje, a história destes menos afortunados e fiquemo-nos pela garotada do "Povo". Só a frequentarem a Escola eram perto de cem alunos, na maior parte rapazes. Depois do bater das três horas, no relógio da torre da igreja, pela estrada acima, dada por finda a “prisão”, chilreavam como pardais. Ia-se a casa, num instante, para largar a “bolsa” dos livros, poucos, e em busca de um pedaço de pão e mais "qualquer coisa" que podia ser só pão. Com sorte, uma talhada de queijo. Umas azeitonas. Um naco de toucinho. Julgo que nenhum de nós sabia o que era manteiga. Mas, verdadeiramente, o que interessava era a brincadeira, pois não tardaria que ficasse escuro. Não havia frio que vencesse aquela enorme vontade de brincar. Os professores haviam abandonado o edifício da escola e, apesar das recomendações de não se voltar para lá a brincar no pátio de recreio, este e
ra o nosso lugar preferido. Fazia-se um silêncio cúmplice e nenhum daqueles miúdos seria capaz de denunciar os prevaricadores. A autoridade "policial" na Aldeia era o regedor. O nosso regedor, o Ti Machado, “obrigava” que um de nós ficasse à espreita, pois ele tinha de passar ali, sem falha, de regresso do seu campo para casa. À aproximação do regedor, um magote de garotos agachava-se atrás do muro do pátio, em completo silêncio, e só se ouvia o bater dos juvenis corações acelerados pela brincadeira e pelas correrias. E ele, mansamente, no seu passo calmo de reformado da Guarda-Fiscal, ia avançando, para o centro da Aldeia. Nunca cheguei a saber se ele não nos via ou se não nos queria ver. Certo, certo é que se contentava com esta atitude de respeito daquela miudagem e também nunca nos pôs fora da brincadeira. A escola tinha o melhor espaço da povoação onde se podia jogar à bola. Se a bola assim se podia chamar. De trapo, de cortiça, de uma meia. Mas o futebol não tinha ainda lugar cativo no coração da garotada de então. Éramos muitos e o pátio da escola nunca daria espaço suficiente para tantas e tão variadas diversões. Naquele tempo, com alimentação pouco calórica e com o movimento constante, não havia crianças gordas. Então cada rua, largo ou beco tinha, pelo menos, meia dúzia de miúdos. Os outros lugares preferidos para as nossas brincadeiras, para além do já referido terreiro da escola, um pouco no limite do povoado, eram o largo do Pereiro, no coração da Aldeia, o adro da igreja, o largo do Rato, com aqueles 200 metros de estrada alcatroada, uma novidade e um "luxo" nos anos 50. Eram pontos de confluência de várias ruas e uma atracção irresistível. Naqueles locais inesquecíveis se jogava às escondidas, o pião, versões "à nica" ou ao "botafora", o descanso, o eixo corrido ou o “um por um, dois bois, três ingleses…”, o jogo do lenço, o dos polícias e ladrões, o da palmada, o do burro, simples ou corrido, o do marra, o da piorreca (com as rodas dos carrinhos de linhas), o dos botões (muitos tinham as mães que comprar e pregar), as escondidas ( 1...2...3... 20 "arredonda, arredonda,,, quem não está que se esconda... precedido do ita, ita, ita ááá!!! quem s'tá livre, livre s'táá" ou "entra o avião na escola militar, onde é que vai poisar? Lis-boa- a" "Tu vai esconder..."). Às vezes, o que ficava "a tapar" inventava e começava logo pelo "dezaum, dezadois, dezatrês, dezaquatro, dezacinco, dezasseis.... dezavinte! arredonda, arredonda..."), o "jogo da China” ou das 5 pedrinhas, o farrapo queimado, a mamã dá licença, a bilharda, o jogo das nações. O do descanso era jogado com variantes, assim como os da barra e a barra do lenço. E o do mata com aquele seu grito de “faz jogo!!!” Uma boa parte deles tinha época própria. Aqui ficam apenas alguns dos jogos participados pelos rapazes, com duas ou três excepções, pois das meninas eram mesmo "tabu" para a malta que havia de “ir às sortes”, um dia… Precisarei de ajuda amiga para entrar nas brincadeiras das nossas colegas e conterrâneas.
Faziam-se ainda corridas de arcos - de arame, destramente conduzidos com o "guiador" ou de aros de bicicletas, um luxo. As crianças faziam os seus próprios brinquedos: carros de cortiça, de madeira, de cana e até de latas de conservas... As primeiras trotinetas com rolamentos de esferas, duas tábuas de madeira articuladas por "dobradiça" metálica arrancada "a ferros" - com toda a propriedade da expressão - numa das forjas da Povoação, foram um verdadeiro achado... As tardes eram um corropio que enchia o povoado de vida e som.
Só havia ordem de estar fora de casa, na rua, até ao toque das "Ave-Marias", quase sempre ponto final para as brincadeiras de cada dia. Depois da ceia, “andar na rua” era uma regalia a que só se podia aspirar com os 18 anos feitos. Até porque ficava escuro como breu e o convite à vadiagem não era atractivo. Nem os maiores nos davam a mínima chance.
À hora daquele toque, boa parte dos adultos havia já regressado das tarefas do campo, se permitidas pelo tempo, especialmente a apanha da azeitona, o cuidar dos animais, as hortas. As mulheres acendiam os lumes, quase sempre com lenha fraca e os fumos iam saindo pelos telhados de telha vã, subindo no lusco-fusco do anoitecer, para o céu ainda azul, iluminado com os últimos raios do sol poente, adivinhado-se noite bem fria e manhã de geada. As chaminés eram uma raridade a que só os de mais posses tinham acesso. Os homens arrecadavam e acomodavam os animais nos palheiros e outros passavam pelas tabernas para mais um copo com os “amigos do copo”.
Depois do toque sagrado só se brincava à porta de casa, excepcionalmente. Ali, " à mão de semear" dos pais, era fácil juntar um grupinho de crianças vizinhas para ainda se divertir, até no escuro - e que escuro! - da noite, que caíra. Para se brincar até no frio e na noite era precisa "organização". Assim, antes, ainda com luz solar, os garotos haviam ido pelos campos limítrofes da Aldeia à procura de gravatos ou gravetos, às vezes surripiando um pouco da fraca lenha lá de casa, e faziam a sua própria fogueira ali mesmo, na rua, ao ar livre, sob o estrelado do céu, enquanto as mães, regressadas dos trabalhos do campo, acendidas as lareiras, tendo ido buscar cântaros de água à fonte e comprado qualquer coisa numa das lojas da terra, se entregavam à tarefa de cozinhar a fraca ceia, quase sempre, nesta época, "couves traçadas" com batatas e um fio de azeite. Havia, às vezes, um bocado de chicharro, 3 ou 4 por vinte e cinco tostões. Se houvera a sorte de cozer o pão, metido o peixe numa "caçola" de barro, um dente de alho, azeite e cebola e o forno da Aldeia faria o milagre de uma ceia "de reis".
Os garotos, à volta da fogueira, conversavam - Paulo de Carvalho não teria ainda nascido? Havendo alguma sorte, com o "borralho" enchiamos a braseira de uma vizinha, a troco de uma moeda de 5 tostões ou de duas laranjas... A hora da ceia chegava, num instante, e a brincadeira acabava mesmo. Depois, um ansiar pelo dia seguinte. Sem novidades. Desejado, apesar de tudo. Para ser vivido, de novo, intensamente.

domingo, janeiro 31, 2010

A Bíblia que Saramago não leu ou "Ensaio sobre a cegueira"...

1ª Carta aos Coríntios 12,31.13,1-13.
Aspirai, porém, aos melhores dons. Aliás, vou mostrar-vos um caminho que ultrapassa todos os outros. Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas, se não tiver amor, nada sou. Ainda que eu distribua todos os meus bens e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada me aproveita.

O amor é paciente, o amor é prestável, não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso, nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento. Não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

O amor jamais passará. As profecias terão o seu fim, o dom das línguas terminará e a ciência vai ser inútil. Pois o nosso conhecimento é imperfeito e também imperfeita é a nossa profecia. Mas, quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Mas, quando me tornei homem, deixei o que era próprio de criança. Agora, vemos como num espelho, de maneira confusa; depois, veremos face a face. Agora, conheço de modo imperfeito; depois, conhecerei como sou conhecido. Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor; mas a maior de todas é o amor.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Manuel Serrano, um Músico

É a única certeza que trazemos à nascença, a morte. E por muito que pareça tardar, ela chega. Assim foi com o meu primo e Amigo, Manuel Serrano. Da idade do meu Pai, aguentou-se, lúcido, até aos últimos momentos, somando quase um século. Tanto! E tão pouco!
O Ti Manel não tinha inimigos, mas uma "infinidade" de admiradores. Naturalmente simpático e alegre, com uma educação daquelas que quase já não há, apesar das suas poucas habilitações académicas, Manuel Serrano era o símbolo da nossa Banda. Ele e a Banda tinham quase a mesma idade e, se exceptuarmos a infância, podemos dizer que foi músico toda a vida. Mesmo quando a procura de melhor sorte o levou para as Minas da Panasqueira, não deixou de se dedicar à sua Arte. Que teve este músico de diferente, para além dos muitos e muitos anos em que actuou para encantamento dos seus admiradores? É que, nas suas mãos, o bombardino, como sempre ouvi chamar aquele instrumento fascinante, produzia um som que nos transportava para outra dimensão, quase como se despegássemos do resto da Banda. Gosto muito de ouvir bandas. Sem menosprezo pela nossa querida Banda de Aldeia, as grandes bandas militares, as grandes marchas militares enchem-me de encanto. Se viajar sozinho até à nossa Beira, chego a fazer todo o percurso com este tipo de música nos ouvidos. Os clarinetes e os cornetins, os contra-baixos e os saxofones, as flautas e as requintas, os trombones e as trompas, o bombo, as caixas e os pratos... que mais? - sob a batuta de um bom maestro, transportam-me a um mundo que só quem nele viveu, mal acabadinho de nascer, poderá entender. E é preciso gostar p'ra valer. Há muitas marchas militares e de muita qualidade. Lindas, mesmo. John Philip de Sousa, um luso-americano, nos USA, compôs algumas bem extraordinárias. No entanto, a minha preferida, chama-se "Alte Kamaraden", "Velhos Camaradas" que muitos associam, indevidamente, ao Nazismo. Ela já existia muito antes, composta, em 1889, por Carl Teike, genial compositor alemão que, como muitos outros génios, morreu na indigência. Só que Hitler fazia desfilar as tropas nazis ao som dos seus acordes, interpretada pelas suas poderosas bandas militares. A marcha é muito popular e empolgante - a letra também é lindíssima - e Hitler um malandro e um oportunista...
Em Aldeia, no Largo do Pereiro, onde vivia o Ti Manel, eu cá em baixo e ele no balcão, lá no alto:
- Então por cá outra vez? - perguntava sempre com um sorriso bem disposto.
- Venho ver aqui o Ti Fernando. Olhe, Primo Manel, trago-lhe aqui um naipe de bombardinos que é um espanto...
- Olhe, ponha lá isso aí no seu rádio para ouvirmos...
Liguei a aparelhagem do carro e pronto. "Saiu" a marcha "Velhos Camaradas"...
- Ah! Essa também eu cá tenho... A sua aparelhagem é que é melhor...
Daqui p'ra frente, não me vai fazer "apanhar mais melões". Nem vou ouvir outra vez da sua boca serena e sorridente "Então por cá?!"
Far-me-á falta. Nesta singela homenagem, não lhe deixo "Velhos Camaradas" com tropas e guerras, mas com Povo a ouvir e a dançar, como ele tanto gostava. Oxalá chegue ao Céu, onde está. Penso que vai ficar contente, lá em cima. Eu, cá por baixo, enquanto puder, continuarei a dizer, sempre que "entrarem" os bombardinos (barítonos?) numa das tais marchas gostosas: "Ah! Ti Manel!"

segunda-feira, janeiro 18, 2010

À minha Neta Catarina

Faz, hoje, 3 anos que te vi, pela primeira vez. Grande foi a minha surpresa, pois não havia notícia de que tal houvesse acontecido, na nossa Família, em muitas décadas: uma ruivinha. E tão pequenina!
O tempo passou, num instante. De dois desconhecidos, transformámo-nos em dois Amigos: Avô e Neta. Eu fiquei muito mais velho e tu estás uma linda Garota.
Brincámos e cantámos.Tu abriste prendas com entusiasmo, sopraste as velas com energia, falaste, dançaste para nós, sorriste, meigamente. És um Docinho muito, muito querido. És linda, meu Amor, e eu quero-te muito Bem. Nós todos queremos-te muito, muito Bem, somos capazes de fazer tudo o for bom para ti.
Parabéns, querida Catarina. Que Deus te abençoe e sejas muito feliz.
Aí vai mais um grande beijo do teu Avô,
(vá, seja como tu dizes!!!)

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Ao serão, no Inverno... 1

Havia uma semana que a chuva quase não parava, naquele princípio de Janeiro de meados do século passado. Fria, muito fria. A colheita da azeitona estava atrasada e os "ranchos" regressavam, passo largo, naquele sofrido anoitecer, encharcados e gelados. Apressadamente, caminhavam para casa. Tristes e cabisbaixos, saudavam, com soturnos "boa noite" aqueles com quem se cruzavam.
Lá em casa, o lume seria aceso, dali a instantes. De tarde, a mãe aproveitara uma "aberta" e quase correra, à "Tapada do Cabeço", onde apanhara umas couves, na horta, para serem comidas, à ceia. As crianças, tinham saído da Escola e o resto do dia fora desagradável, nariz encostado aos vidros da janela, a ver a chuva cair e a água a deslizar, rua abaixo, rumo à ribeira, o mais longe que eram capazes de imaginar. Assim, aguardaram esta hora, com ansiedade, à espera de mais uma noite como tantas outras. Sempre iguais e tão diferentes.
Da cozinha começara a subir o fumo que se ia escapando pela "telha vã", enquanto a fogueira ia ganhando forças com a lenha arrecadada no "bom tempo" e que daria algum conforto, naquela pequena habitação. As batatas estavam descascadas para cozerem na panela de ferro, pendurada na cadeia metálica, enquanto, no caldeiro de lata, apoiado na trempe, se ia aquecendo a água para lavar a louça e preparar a vianda do porco, a grunhir, no curral, lá fora, impaciente e com fome, adivinhando, talvez, que por poucos dias mais... As galinhas, enquanto tiveram claridade, haviam percorrido, encharcadas e melancólicas, a rua de terra batida e os terrenos envolventes, afrontando o mau tempo, à procura de "comida" e estavam já acomodadas, no galinheiro. Na loja do rés-do-chão. De manhã, bem cedo, o galo seria o primeiro a acordar "em casa".
Os garotos, sentados nos tripeços de cortiça, aqueciam-se, brincando ou zaragateando um com o outro, e davam conta dos trabalhos maternos nos preparativos da ceia, enquanto a chegada do Pai era aguardada, com ansiedade. Estava ainda a tratar dos animais, o que não era tarefa que se condoesse com a chuva e o frio. Mesmo em dia de agricultura impossível, levar as vacas a pastar e cortar os molhos de erva que iriam comer durante a noite, era tarefa inadiável e difícil. Com frio ou com calor. Com chuva ou tempo seco. Naquela tarde invernosa, o mais velho dos garotos fora dispensado de "participar" na tarefa. Vantagens do mau tempo. E do amor dos pais!
Por fim, a fogueira "ganhara coragem" e, com ela, um ambiente de bem estar começou a criar-se. As "Avé-Marias" tinham sido anunciadas, ao anoitecer, e rezadas em cada lar. O lar. Assim era designada aquela enorme pedra horizontal, na cozinha, assente em dois enormes pilares verticais também de granito, enterrados no chão da loja pela outra extremidade. O lar era, por assim dizer, o coração, o ponto mais importante de cada casa da Aldeia. À sua volta, sobretudo naquelas noites, a Família sentia-se... Família. Fazendo conjunto com o lar e na vertical, havia uma outra enorme pedra, o "marão", cuja finalidade principal era proteger a parede das "fúrias" das chamas. Nesta casa, por trás desta pedra, ficava uma espécie de gruta, a "p'lheira", onde eram guardadas, em cada manhã, as cinzas em que se transformara a fogueira acolhedora da noite que passara. Numa das pontas do "marão" apoiava-se o candeeiro de petróleo, com chaminé de vidro e, na outra, um "fogão" da ferro, onde seriam "assadas" as chouriças, as morcelas, o toucinho, as "costelas"... Aromas e sabores que nunca mais voltariam.
O lugar do pai, do lado do candeeiro, de costas para o corredor que dava acesso à porta da rua, esperava pela sua chegada. Que qualquer dos gaiatos gostava de ocupar, entretanto. A mãe ficava do outro lado da fogueira. Por sinal, do lado do "fogão"... Depois, "cantos" para arrumar as tenazes, as vassouras de giesta, a pá, o espeto, uma fila de panelas de ferro... E os filhos? No meio dos pais. Nas costas dos garotos ficava a mesa da cozinha. Num dos cantos, encontrava-se uma enorme talha de barro, que era cheia, diariamente, com a água da fonte "de mergulho" pública - as febres tifóides que, ainda nessa década, haviam de lá "nascer"!!! - trazida à cabeça da "dona da casa". Num cântaro também de barro empoleirado bem no alto e uma "lata", com corda, também cheia, na mão. Ao lado, o alguidar ainda de barro, para lavar a loiça. E um outro para a escorrer. Por cima, as prateleiras, cantoneiras, fixas na parede. Quase ao fundo da cozinha, via-se a porta que dava acesso ao quarto das crianças, um canto onde se colocava a lenha bastante para cada noite. Trazida da loja. E uma grande arca de madeira. Num outro canto, o lavatório, com estrutura de ferro, bacia de esmalte e uma toalha dependurada. Na parede, um espelho. Por cima do lar, dali a uma semana, ficaria o fumeiro feito em casa, com a carne do porco criado com muito cuidado, quase carinho. Que a "dona de casa" se recusaria, sempre, a ver morrer, ausentando-se para bem longe, aonde não chegassem os "gritos de socorro" do animal a que tanto se afeiçoara. Sentimentos de que mais ninguém participaria...
- Ó Carminda, já acendeste o lume? Dá-me aí uma brasa para acender o meu... "Esqueci-me" de comprar "palitos"...
- Entre, Ti Encarnação. Apanhe aí um tição...
- Boa noite! Ai! Mulher, estás sempre disponível. Bem hajas.
Era a cena quase de cada dia. A caixa de fósforos custava, inexplicavelmente, 25+5 centavos. Com este "sofisma" lá se pagavam os "3 tostões" pelos 40 "amorfos". Três tostões nem sempre disponíveis...
A panela fervia com as batatas e as couves acabavam de ser lá metidas. Trocara de posição com o caldeiro da água e a doce fogueira aquecia, cozia e iluminava. O candeeiro de petróleo, num dos cantos da pedra da lareira, tinha, assim, o seu papel reforçado.
- Mãe, tenho sono...
- Espera, filho, o pai está a chegar e a ceia está quase pronta. , vai à sala e traz-me a "molida" nova que estive a fazer esta tarde. Julgo que está em cima da máquina de costura. Ou apalpa na mesa... Repara se a braseira ainda tem lume...
- Ó Mãe... está tão escuro. Tenho medo...
- Estás cá um medricas. Tens medo de quê?! Olha, pega no candeeiro e vai lá. Vai... que eu fico a espreitar... - enganava-o ela, com voz doce. - Tem cuidado... não deixes cair a chaminé!
A casa era pequena. A distância curta. Mas a escuridão, na sala ao lado, era "tremenda" e, em tempo de "almas do outro mundo", não se podia "facilitar". A criança "ia num pé e voltava n'outro", olhando, de esguelha, por cima do ombro. "Bruxas havia, de certeza!!!"
Já se falara de quase tudo. Da escola e das suas brincadeira. Dos jogos. Das alegrias e tristezas. Para entreter os miúdos, a mãe ia cantando uma ou outra cantiga, das que aprendera de seus pais, do seu povo, ligadas ao trabalho rural ou à vida religiosa, adequada a cada época, ou alguma outra mais moderna, trazida, de viva voz, por um ou outro dos poucos que se atreveram a demandar a Capital. Notícias do Mundo? Quase só da guerra. Ou das suas consequências. E eram dadas de boca em boca. Apenas havia 3 rádios, na Aldeia. Ligados à bateria. "O 'troucolarouco' do Sr. Soares está sempre a falar na guerra, a falar na guerra..." lamentara-se, diziam, na galhofa, a Ti "Repoupinha"...
Ou pelo "Diário de Notícias". O Ti Fixe era o "correspondente". Ou pelo "O Século". Representado, na Aldeia, pelo sr. Amaral. Uma semana depois. Chegavam, pelo correio, que vinha de comboio, até à Fatela; na "camioneta do Simões", mais tarde da Viúva Monteiro, até Penamacor; até à Aldeia, numa saca de lona fechada e selada, à cabeça da Ti Rosa Chora... Nunca falhou um dia!!! Até ser dispensada pela carreira do "Martins Évora". Desde Castelo Branco. A Ti Rosa fizera a ida e a volta, durante anos e anos. Vinte quilómetros, a pé!!!
- Mãe, quer'ir p'rá cama... Tenho sono... - repetiu o pequeno.
- Ó filho, já te disse que o pai está quase a chegar... Depois do comer, vais dormir!
O pai entrou. Por fim, a família juntava-se. Uma "festa" a cada um dos meninos com um "Correu tudo bem?". E um "Boa noite, Minda!" num sorriso acolhedor para todos
- Pronto! Vamos cear... - decidia e agia a mãe.
Mal passava das 7 da noite. Lá fora, a escuridão era total e a ventania soprava nas muitas árvores, em volta do povoado. Ao toque das "Avé-Marias", nos sinos da Aldeia, rezara-se em cada habitação, e metera-se, definitivamente, em casa, um ou outro mais corajoso que afrontara o mau tempo, até mais tarde. Poucos se atreveriam a sair à rua, depois da ceia. A não ser para um último olhar nos palheiros, à luz da lanterna de azeite, antes de cada um se enfiar nas camas com enxergas cheias de palha centeia, no último Verão; os donos sabiam quanto a vida de todos dependia do bem estar dos mansos animais! Não podia haver descuido no seu tratamento e vigilância. Também para ir às tabernas. A "força" de um "copo" e mais... ou "dois dedos de conversa". A desculpa para algumas "coitadas"... E para os filhos, muitos, das "coitadas". Tabernas que causaram muito sofrimento.
Os pratos foram servidos, directamente, da panela. O azeite novo e, para o pai, mais um dente de alho, davam gosto e cheiro à comida. Novidade não havia naquela refeição simples, igual a tantas outras, neste tempo. Um pedaço de pão e uma talhada de queijo fresco podiam servir de sobremesa... Castanhas cozidas, noutra panela, ou assadas no calor do lume eram opção, muitas vezes...
Quando terminavam, já o mais novo dava "cabeçadas", incapaz de vencer o sono. As suas castanhas seriam comidas, na manhã seguinte. Ou haveria uma filhó mergulhada em café quente e doce, acabadinho de fazer, quando acordasse, feito com o pó deitado na água a ferver? Uma fascinação, a água escura, castanha e espumosa a subir e logo "acalmada" com uma brasa de nova fogueira, mergulhada naquela "fúria"... Mas, para isso, tinha que passar a noite... Depois, a mãe trataria de tudo, de novo! Em outro dia.
A botija de folha de Flandres, obra do Ti Zé Passotas, enchera-se com água quente tirada do caldeiro e dava já algum conforto à cama, onde não tardaria a cair, em sono profundo, por toda a noite. Sem sobressaltos nem pesadelos.
Acabada a refeição, ouvia-se uma voz arrastada e frágil:
- Ó Carminda, posso entrar?
- Entre, Ti Vicenta! ...
- Boa noite... Posso ficar um pouco convosco e aquecer-me, antes de ir para a cama? Estou lá sozinha e as noites são tão compridas...
- Então, já sabe que sim...
Era um momento bem esperado pelo mais velho dos miúdos, ainda desperto. Conhecia a Tia Maria Vicenta desde que tomara consciência de si próprio. Vizinha de sempre. Viúva. Filhos e netos a viver em vários sítios da Aldeia. Quase sempre "longe", naquelas noites invernosas, frias e escuras. A criança sabia que ela era velha. De idade indefinida. Que nunca chegou a precisar. Quase uma avó. Mas muito mais velha. Até a avó Emília a tratava por ... "vocemecêi".
- Ó Ti Vicenta, olhe-me aqui pelos garotos enquanto vou ali à fonte. À loja do senhor Mendonça. Ao palheiro. À "Tapada"... Meninos, obedeçam à Ti Vicenta...
Nos seus menos de 30 anos, nunca tinha descanso, aquela jovem mãe e mulher. E por ali ficavam as crianças, sob a guarda de um só olho - a tia Vicenta cegara do outro, havia muito, sem se saber bem a causa nem nunca ter conhecido médico nem enfermeira...
A chegada da Ti Vicenta marcava o período final do serão. Alargava-se a "roda", abria-se espaço ao pé da mulher da casa que aproveitava para se levantar. Enquanto lavava a louça, arrumava a cozinha e ultimava a "comida" para o porco, a velha senhora aproveitava para quebrar a sua solidão, aquecer-se num lume que não tinha na sua pobre casa e contar histórias do "outro mundo"... Que deliciavam o garoto e o enchiam de terrores misteriosos.
E lá começava ela: "Uma vez...", momento que era desejado e temido.
- Então, Filho, estás com medo?
O arrepio percorria a espinha da criança, de alto a baixo, e puxar o tripeço para mais próximo das chamas ou agarrar-se ao adulto eram gestos irreprimíveis.
- Não, Pai, tenho frio!!! - murmurava o miúdo, fascinado e assustado, sem querer dar sinal da cobardia que sentia.
As histórias eram quase sempre as mesmas. Tratavam de cemitérios, bruxas, lobisomens. Almas do outro mundo, mortos que falavam, que se tinham levantado no caixão, vivos que fugiam assustados. E que ficavam gagos. Ou mesmo sem fala. Noutras ocasiões, vinham as aventuras dos contrabandistas. Ou de pastores que lutaram com os lobos que podiam seguir as pessoas até ao povoado. Na realidade ou na imaginação, pois o escuro daquelas noites não permitia "ver um palmo à frente do nariz". Ou da cheia que levara o Carriço, a mulher e os filhos numa noite de trovoada, a dormir lá na choça... Com todo o rebanho... "Nem acordaram, coitadinhos..."
Falava, pausadamente, mastigando a saliva na sua boca quase sem dentes. Restavam "as cravelhas", como ela dizia. Cara cheia de rugas profundas, cabelo branco e farto repuxado para a nuca e escondido atrás do lenço preto. Cativante, no entanto.
E os olhos do menino iam pesando; encostava a cabeça no joelho do Pai e acabava por adormecer.
- Então, filho... - acordava-o a Mãe - tens de ir para a cama. Anda, que o Nando já dorme...
A tia Vicenta levantara-se também, pois o ritual estava cumprido. Aos tropeções, com a candeia de azeite, que o vento apagaria, na sua mão, metendo os pés nas poças de água, lá chegaria à sua casa ainda mais humilde do que aquela que a acolhera. O miúdo, a custo, despedia-se daquele mundo atraente e de sustos. Enfiava-se, a correr, na cama já aquecida pelo irmão e com a botija lá ao fundo dos pés. Sim, dormiam os dois no mesmo leito. Em tempos que não voltaram. Antes, a custo, ainda tivera de se benzer, rezar as 3 Avé-Marias e o Santo Anjo do Senhor... Não havia dispensas nem desculpas para não rezar!
A chuva continuava a cair, sem cessar. O vento assobiava nas telhas da casa e nas frestas das portas e das janelas. O quarto, forrado com madeira de pinho, parede interior de taipa, caiado de branco, dava uma protecção acolhedora, convidando ao repouso, entre lençóis de flanela grosseira e cobertores ásperos da lã das ovelhas com mantas de farrapos. Quando as orações terminavam, mal balbuciadas, já os olhos dele estavam fechados. Para adormecer, num instante. Sem comprimidos. Por vezes, com pesadelos. Quase sempre até às 8 horas do dia seguinte.
Ainda não havia muito, o relógio, na torre da igreja, batera as 9 horas daquela noite, quando já o dia se fora, há muito.
Na Aldeia, quase todos repousavam. A última taberna fechara as portas. O dia seguinte continuaria a não ser fácil. Com chuva ou sem ela. Talvez com mau tempo, pois as dores, nos ossos da Ti Vicenta, assim o anunciavam...

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Uma MULHER na nossa vida!!!

Queridos manos,
Ao olhar o calendário, vi "11 de Janeiro". Bateu uma saudade no meu coração! Eu disse:

- Meu DEUS, obrigada pela Mãe que um dia me deste. Eu sei que ela está Contigo, mas isso não impede que as lágrimas corram pelo meu rosto. É a saudade e a incapacidade de lhe pedir perdão. Mas como JESUS não veio ao mundo para me condenar eu pedi: "SENHOR JESUS por favor dá um beijinho de parabéns à minha Mãe e diz-lhe que eu a amo muito".
Eu amo-vos muito, com o amor que os nossos pais semearam em nós.
Muitos beijinhos
Da vossa mana,
Clarinda

domingo, dezembro 20, 2009

O Conto da minha Vida!

SUAVE MILAGRE
Nesse tempo, Jesus ainda se não afastara da Galileia e das doces, luminosas margens do lago de Tiberíade – mas a nova dos seus milagres penetrara já até Enganim, cidade rica, de muralhas fortes, entre olivais e vinhedos, no país de Issacar. Uma tarde, um homem de olhos ardentes e deslumbrados, passou no fresco vale e anunciou que um novo profeta, um rabi formoso, percorria os campos e as aldeias da Galileia, predizendo a chegada do Reino de Deus, curando todos os males humanos. E, enquanto descansava, sentado à beira da Fonte dos Vergéis, contou ainda que esse rabi, na estrada de Magdala, sarara da lepra o servo de um decurião romano, só com estender sobre ele a sombra das suas mãos; e que, noutra manhã, atravessando numa barca para a terra dos Gerasenos, onde começava a colheita do bálsamo, ressuscitara a filha de Jairo, homem considerável e douto que comentava os livros na sinagoga. E, como em redor, assombrados, seareiros, pastores e as mulheres trigueiras, com a bilha no ombro, lhe perguntassem se esse era, em verdade, o Messias da Judeia, e se diante dele refulgia a espada de fogo, e se o ladeavam, caminhando como as sombras de duas torres, as sombras de Gog e de Magog – o homem, sem mesmo beber daquela água tão fria de que bebera Josué, apanhou o cajado, sacudiu os cabelos e meteu, pensativamente, por sob o aqueduto, logo sumido na espessura das amendoeiras em flor. Mas uma esperança deliciosa como o orvalho nos meses em que canta a cigarra, refrescou as almas simples: logo, por toda a campina que verdeja até Áscalon, o arado pareceu mais brando de enterrar, mais leve de mover a pedra do lagar; as crianças, colhendo ramos de anémonas, espreitavam pelos caminhos se além da esquina do muro, ou de sob o sicômoro, não surgiria uma claridade; e, nos bancos de pedra, às portas da cidade, os velhos, correndo os dedos pelos fios das barbas, já não desenrolavam, com tão sapiente certeza, os ditames antigos. Ora então vivia em Enganim um velho, por nome Obed, de uma família pontifical de Samaria, que sacrificara nas aras do monte Ebal, senhor de fartos rebanhos e de fartas vinhas, e com o coração tão cheio de orgulho como seu celeiro de trigo. Mas um vento árido e abrasado, esse vento de desolação que ao mando do Senhor sopra das torvas terras de Assur, matara as reses mais gordas das suas manadas e pelas encostas, onde as suas vinhas se enroscavam ao olmo, e se estiravam na latada airosa, só deixara, em torno dos olmos e pilares despidos, sarmentos de cepas mirradas e a parra roída de crespa ferrugem. E Obed, agachado à soleira da sua porta, com a ponta do manto sobre a face, palpava a poeira, lamentava a velhice, ruminava queixumes contra Deus cruel. Apenas ouvira, porém, desse novo rabi da Galileia que alimentava as multidões, amedrontava os demónios, emendava todas as desventuras, Obed, homem lido, que viajara na Fenícia, logo pensou que Jesus seria um desses feiticeiros, tão costumados na Palestina, como Apolónio, ou rabi Ben-Dossa, ou Simão, «o Subtil». Esses, mesmo nas noites tenebrosas, conversam com as estrelas, para eles sempre claras e fáceis nos seus segredos; com uma vara afugentam de sobre as searas os moscardos gerados nos lodos do Egipto; e agarram entre os dedos as sombras das árvores, que conduzem, como toldos benéficos, para cima das eiras, à hora da sesta. Jesus da Galileia, mais novo, com magias mais viçosas decerto, se ele largamente o pagasse, sustaria a mortandade dos seus gados, reverdeceria os seus vinhedos. Então, Obed ordenou aos seus servos que partissem, procurassem por toda a Galileia o rabi novo, e com promessa de dinheiros ou alfaias o trouxessem a Enganim, no país de Issacar. Os servos apertaram os cinturões de couro e largaram pela estrada das caravanas que, costeando o lago, se estende até Damasco. Uma tarde, avistaram sobre o poente, vermelho como uma romã muito madura, as neves finas do monte Hérmon. Depois, na frescura de uma manhã macia, o lago de Tiberíade resplandeceu diante deles, transparente, coberto de silêncio, mais azul que o céu, todo orlado de prados floridos, de densos vergéis, de rochas de pórfiro e de alvos terraços, por entre os palmares, sob o voo das rolas. Um pescador que desamarrava, preguiçosamente, a sua barca de uma ponta de relva, assombreada de aloendros, escutou, sorrindo, os servos. O rabi de Nazaré? Oh! desde o mês de Ijar, o rabi descera, com os seus discípulos, para os lados para onde o Jordão leva as águas. Os servos, correndo, seguiram pelas margens do rio, até adiante do vau, onde ele se estira, num largo remanso, e descansa, e um instante dorme, imóvel e verde, à sombra dos tamarindos. Um homem da tribo dos Essénios, todo vestido de linho branco, apanhava, lentamente, ervas salutares, pela beira da água, com um cordeirinho branco ao colo. Os servos, humildemente, saudaram-no, porque o povo ama aqueles homens de coração tão limpo, e claro, e cândido como as suas vestes cada manhã levadas em tanques purificados. E sabia ele da passagem do novo rabi da Galileia que, como os Essénios, ensinava a doçura, e curava as gentes e os gados? O Essénio murmurou que o rabi atravessara o oásis de Engaddi, depois se adiantara para além...
– Mas onde, além?
Movendo um ramo de flores roxas que colhera, o Essénio mostrou as terras de além-Jordão, a planície de Moab. Os servos vadearam o rio e debalde procuravam Jesus, arquejando pelos rudes trilhos, até às fragas onde se ergue a cidadela sinistra de Makaur... No Poço de Jacob repousava uma larga caravana, que conduzia para o Egipto mirra, especiarias e bálsamos de Gilead, e os cameleiros, tirando a água com os baldes de couro, contaram aos servos de Obed que em Gadara, pela lua nova, um rabi maravilhoso, maior que David ou Isaías, arrancara sete demónios do peito de uma tecedeira e que, à sua voz, um homem degolado pelo salteador Barrabás se erguera da sua sepultura e recolhera ao seu horto. Os servos, esperançados, subiram logo, açodadamente, pelo caminho dos peregrinos até Gadara, cidade de altas torres, e ainda mais longe até às nascentes de Amalha... Mas Jesus, nessa madrugada, seguido por um povo que cantava e sacudia ramos de mimosa, embarcara no lago, num batel de pesca e, à vela, navegara para Magdala. E os servos de Obed, descoroçoados, de novo passavam o Jordão, na Ponte das Filhas de Jacob. Um dia, já com as sandálias rotas dos longos caminhos, pisando já as terras da Judeia Romana, cruzaram um fariseu sombrio, que recolhia a Efraim, montado na sua mula. Com devota reverência detiveram o homem da Lei. Encontrara ele, por acaso, esse profeta novo da Galileia que, como um deus passeando na Terra, semeava milagres? A adunca face do fariseu escureceu enrugada e a sua cólera retumbou como um tambor orgulhoso:
– Oh escravos pagãos! Oh blasfemos! Onde ouvistes que existissem profetas ou milagres fora de Jerusalém? Só Jeová tem força no seu Templo. De Galileia surgem os néscios e os impostores...
E, como os servos recuavam ante o seu punho erguido, todo enrodilhado de dísticos sagrados, o furioso doutor saltou da mula e, com as pedras da estrada, apedrejou os servos de Obed, uivando «Racca! Racca!» e todos os anátemas rituais. Os servos fugiram para Enganim. E grande foi a desconsolação de Obed, porque os seus gados morriam, as suas vinhas secavam e, todavia, radiantemente, como uma alvorada por detrás de serras, crescia, consoladora e cheia de promessas divinas, a fama de Jesus da Galileia.
Por esse tempo, um centurião romano, Públio Sétimo, comandava o forte que domina o vale de Cesareia, até à cidade e ao mar. Públio, homem áspero, veterano da campanha de Tibério contra os Partos, enriquecera durante a revolta de Samaria com presas e saques, possuía minas na Ática e gozava, como favor supremo dos deuses, a amizade de Flaco, legado imperial da Síria. Mas uma dor roía a sua prosperidade muito poderosa como um verme rói um fruto muito suculento. Sua filha única, para ele mais amada que vida ou bens, definhava com um mal subtil e lento, estranho mesmo ao saber dos esculápios e mágicos que ele mandara consultar a Sídon e a Tiro. Branca e triste como a lua num cemitério, sem um queixume, sorrindo, palidamente, a seu pai definhava, sentada na alta esplanada do forte, sob um velário, alongando saudosamente os negros olhos tristes pelo azul do mar de Tiro, por onde ela navegara de Itália, numa galera enfestoada. Ao seu lado, por vezes, um legionário, entre as ameias, apontava, vagarosamente, ao alto, a flecha, e varava uma grande águia, voando de asa serena, no céu rutilante. A filha de Sétimo seguia um momento a ave torneando até bater morta sobre as rochas; depois, mais triste, com um suspiro, e mais pálida, recomeçava a olhar para o mar. Então, Sétimo, ouvindo contar, a mercadores de Chorazim, deste rabi admirável, tão potente sobre os espíritos, que sarava os males tenebrosos da alma, destacou três decúrias de soldados para que o procurassem por Galileia, e por todas as cidades da Decápole, até à costa e até Áscalon. Os soldados enfiaram os escudos nos sacos de lona, espetaram nos elmos ramos de oliveira, e as suas sandálias ferradas apressadamente se afastaram, ressoando sobre as lajes de basalto da estrada romana que desde Cesareia até ao lago corta toda a tetrarquia de Herodes. As suas armas, de noite, brilhavam no topo das colinas, por entre a chama ondeante dos archotes erguidos. De dia, invadiam os casais, rebuscavam a espessura dos pomares, esfuracavam com a ponta das lanças a palha das medas; e as mulheres, assustadas, para os amansar, logo acudiam com bolos de mel, figos novos e malgas cheias de vinho, que eles bebiam, de um trago, sentados à sombra dos sicômoros. Assim correram a Baixa Galileia e, do rabi, só encontraram o sulco luminoso nos corações. Enfastiados com as inúteis marchas, desconfiando que os Judeus sonegassem o seu feiticeiro para que os Romanos não aproveitassem do superior feitiço, derramavam com tumulto a sua cólera, através da piedosa terra submissa. À entrada das aldeias pobres detinham os peregrinos, gritando o nome do rabi, rasgando os véus às virgens. E, à hora em que os cântaros se enchem nas cisternas, invadiam as ruas estreitas dos burgos, penetravam nas sinagogas, e batiam, sacrilegamente, com os punhos das espadas nas Thebahs, os santos armários de cedro que continham os Livros Sagrados. Nas cercanias de Hébron, arrastaram os solitários pelas barbas para fora das grutas, para lhes arrancar o nome do deserto ou do palmar em que se ocultava o rabi; e dois mercadores fenícios que vinham de Jope com uma carga de malobatro, e a quem nunca chegara o nome de Jesus, pagaram por esse delito cem dracmas a cada decurião. Já a gente dos campos, mesmos os bravios pastores de Idumeia, que levam as reses brancas para o Templo, fugiam espavoridos para as serranias, apenas luziam, nalguma volta do caminho, as armas do bando violento. E da beira dos eirados, as velhas sacudiam como taleigos a ponta dos cabelos desgrenhados e arrogavam sobre eles as Más Sortes, invocando a vingança de Elias. Assim, tumultuosamente, erraram até Áscalon: não encontraram Jesus: e retrocederam, ao longo da costa, enterrando as sandálias nas areias ardentes. Uma madrugada, perto de Cesareia, marchando num vale, avistaram sobre um outeiro um verde-negro bosque de loureiros, onde alvejava, recolhidamente, o fino e claro pórtico de um templo. Um velho, de compridas barbas brancas, coroado de folhas de louro, vestido com uma túnica cor de açafrão, segurando uma curta lira de três cordas, esperava, gravemente, sobre os degraus de mármore, a aparição do Sol. Debaixo, agitando um ramo de oliveira, os soldados bradaram pelo sacerdote. Conhecia ele um novo profeta que surgira na Galileia e tão destro em milagres que ressuscitava os mortos e mudava a água em vinho? Serenamente, alargando os braços, o sereno velho exclamou por sobre a rociada verdura do vale:
– Oh romanos! pois acreditais que em Galileia ou Judeia apareçam profetas consumando milagres? Como pode um bárbaro alterar a ordem instituída por Zeus?... Mágicos e feiticeiros são vendilhões, que murmuram palavras ocas, para arrebatar a espórtula dos simples... Sem a permissão dos imortais nem um galho seco pode tombar da árvore, nem seca folha pode ser sacudida na árvore. Não há profetas, não há milagres... Só Apolo Délfico conhece o segredo das coisas!
Então, devagar, com a cabeça derrubada, como numa tarde de derrota, os soldados recolheram à fortaleza de Cesareia. E grande foi o desespero de Sétimo, porque sua filha morria, sem um queixume, olhando o mar de Tiro; e todavia a fama de Jesus, curador dos lânguidos males, crescia, sempre mais consoladora e fresca, como a aragem da tarde que sopra do Hérmon e, através dos hortos, reanima e levanta as açucenas pendidas.
Ora entre Enganim e Cesareia, num casebre desgarrado, sumido na prega de um cerro, vivia, a esse tempo, uma viúva, mais desgraçada mulher que todas as mulheres de Israel. O seu filhinho único, todo aleijado, passara do magro peito a que ela o criara para os farrapos de enxerga apodrecida, onde jazera, sete anos passados, mirrando e gemendo. Também a ela a doença a engelhara dentro dos trapos nunca mudados, mais escura e torcida que uma cepa arrancada. E, sobre ambos, espessamente, a miséria cresceu como o bolor sobre cacos perdidos num ermo. Até na lâmpada de barro vermelho secara, há muito, o azeite. Dentro da arca pintada não restava grão ou côdea. No Estio, sem pasto, a cabra morrera. Depois, no quinteiro, secara a figueira. Tão longe do povoado, nunca esmola de pão ou mel entrava o portal. E só ervas apanhadas nas fendas das rochas, cozidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na Terra Escolhida, onde até às aves maléficas sobrava o sustento! Um dia, um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mãe amargurada e, um momento sentado na pedra da lareira, coçando as feridas das pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, esse rabi que aparecera na Galileia, e de um pão no mesmo cesto fazia sete, e amava todas as criancinhas, e enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres um grande e luminoso reino, de abundância maior que a corte de Salomão. A mulher escutava, com olhos famintos. E esse doce rabi, esperança dos tristes, onde se encontrava? O mendigo suspirou. Ah! esse doce rabi! quantos o desejavam, que se desesperançavam! A sua fama andava por sobre toda a Judeia, como o sol que até por qualquer velho muro se estende e se goza; mas, para enxergar a claridade do seu rosto, só aqueles ditosos que o seu desejo escolhia. Obed, tão rico, mandara os seus servos por toda a Galileia para que procurassem Jesus, o chamassem com promessas a Enganim; Sétimo, tão soberano, destacara os seus soldados até à costa do mar, para que buscassem Jesus o conduzissem, por seu mando, a Cesareia. Errando esmolando por tantas estradas, ele topara os servos de Obed, depois os legionários de Sétimo. E todos voltavam, como derrotados, com as sandálias rotas sem ter descoberto em que mata ou cidade, em que toca ou palácio, se escondia Jesus. A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho, entre a urze e a rocha. A mãe retomou o seu canto mais vergada, mais abandonada. E então o filhinho, num murmúrio mais débil que o roçar de uma asa, pediu à mãe que lhe trouxesse esse rabi que amava as criancinhas, ainda as mais pobres, sarava os males ainda os mais antigos. A mãe apertou a cabeça esguedelhada:
– Oh! filho e como queres que te deixe, e me meta aos caminhos à procura do rabi da Galileia? Obed é rico e tem servos, e debalde buscaram Jesus, por areais e colinas, desde Corazim até ao país de Moab. Sétimo é forte e tem soldados, e debalde correram por Jesus, desde o Hébron até ao mar! Como queres que te deixe?! Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora connosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos prende. E mesmo que o encontrasse, como convenceria eu o rabi tão desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a que descesse através das cidades até este ermo, para sarar um entrevadinho tão pobre, sobre enxerga tão rota?
A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou:
– Oh! mãe! Jesus ama todos os pequenos. E eu ainda tão pequeno e com um mal tão pesado e que tanto queria sarar!
E a mãe, em soluços:
– Oh! meu filho, como te posso deixar?! Longas são as estradas da Galileia e curta a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado e me apontaria a morada do doce rabi. Oh! filho! Talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O Céu o trouxe, o Céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.
De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou:
– Mãe, eu queria ver Jesus...
E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:
– Aqui estou.
Eça de Queiroz, Contos
Neste momento e com este conto, eu quero recordar a querida e doce Professora, D. Maria Amália que, no Liceu da Castelo Branco, me tratava por Menino. Como aos outros Meninos da cidade. Leu este conto para nós, Turma E do 1º. ano, na véspera do 10 de Junho de 1955, na última aula que tive com ela. Uma voz melodiosa, uma encantadora figura de Mãe, sem ter filhos naturais. Nunca a esqueci! Soube, depois, que também me recordou, por muitos anos, aqui pela Grande Lisboa.
Feliz Natal! Jesus nasce!!!

sábado, dezembro 12, 2009

Parabéns a Você!!!

Tomás, nosso Neto,
Para nós o ano passou num instante. Na nossa idade, os dias fogem, em louca correria. Para ti e para os teus Papás, o tempo parece coxo: deste algum trabalho, eles criaram expectativas a ver quando é que tu fazias isto ou aquilo; a ansiar pelo primeiro dentinho e depois mais outro e outro; a desejar que tu alcançasses mais este ou aquele patamar dos muitos que enriqueceram estes primeiros 365 dias da tua vida. Resumindo, não lhes deste pausas, pois todos os teus momentos lhes encheram a sua vida. E da nossa também ficaste a fazer parte muito importante, aqui bem juntinho de nós, ou aí, bem longe. Mas, para quem se quer bem, "do longe se faz perto" e nós conseguimo-lo, de verdade, em momentos bem queridos.
Ora, aqui estão os avós com conversa que tu não entendes, mas que poderás ler daqui a uns aninhos mais, quem sabe, quando já não te pudermos falar.
Porém, o dia é de festa e aqui vão os nossos parabéns, com pedidos ao Pai do Céu para que te abençoe e te cumule de muitas graças, para alegria e felicidade da tua Mamã e do teu Papá. E também nossa!
Parabéns, Tomás.
Mil e um beijinhos dos que gostam muito, muito de ti.
Avós,
Leonilde e António

domingo, novembro 29, 2009

Rapazes, isto é "comunismo"!!!

Carta a um Amigo,
Decorria o ano de 1960 e, em Castelo Branco, no mês de Fevereiro, se bem me lembro, caiu um belo nevão. Cidade fria, como bem sabe, era mais dada a geadas do que à neve, pelo que a malta, à saída do Liceu, aproveitou para fazer umas bolas da dita cuja para atirar aos outros, nomeadamente às garinas. A PSP, que tinha muito menos que fazer do que hoje, pois havia muito menos bandidos, aproveitou para avançar em "cima" dos estudantes, sob o pretexto de que "estavam" a perturbar a ordem pública e afincou, nalguns rapazes, uma belas bordoadas. O Reitor, Dr. José Catanas Diogo, é que também não esteve com meias medidas e toca arengar ao pessoal "Rapazes, isto é COMUNISMO! Isto é COMUNISMO!!!" Julgo que nem ele sabia o que era Comunismo e a malta ainda ficou a saber menos. Na certeza de que, se o "comunismo" era atirar bolas de neve às gaiatas, então todos queríamos ser "comunistas"!!!
Mas a expressão "pegou" e, durante semanas, na galhofa, a frase favorita da malta era "Rapazes, isto é comunismo!!!" Uma risada geral, inconsciente e feliz, que até ajudou a esquecer as nódoas negras dos cassetetes dos PSP. E o Dr. Catanas Diogo deve ter tapado os ouvidos muitas vezes.
Ora, meu caro Amigo, as imagens do "santuário" no caminho do Sul do nosso País, fazem-me pensar que, se o Dr. Catanas por lá passasse e fosse tão ateu como era convicto "situacionista" diria, sem dúvida, "Portuguesas e portugueses, isto é 'inquisicionismo', isto é 'vaticanismo'!!!!!!!!!!!!!!!!!"
Pois bem: o meu querido Amigo é uma pessoa inteligente e sabe perfeitamente que há, por sinal, "inquisição" em Portugal, mas não é a da Igreja. O Sócrates é testemunha e "vitima". E também tem a certeza de que, no Vaticano, nem sabem onde fica o Alentejo, quanto mais o referido "santuário". Assim, só por "cegueira saramaguiana" se pode ver, naquilo que nos que mostrou nas suas simplórias imagens, a mão da Igreja. Como a cegueira que levou o Dr. Catanas Diogo, distinto membro da LP e da MP, a ver "comunistas" nos alegres estudantes do Liceu D. Nuno Álvares Pereira, que brincavam com bolas de neve.
Só lhe agradeço ter-me avivado a memória e, assim, no meu blog, vai ser acrescentada uma nova mensagem de um assunto divertido, que andava pelo esquecimento.
Abração deste que o estima, mas que tem o "defeito" de não estar sempre de acordo consigo, pois tudo tem limites e do direito à diferença eu não abdico. Arda o que arder. Haverá que apontar ao Vaticano coisas bem mais graves, mas não o patrocínio dessa simplória crendice dos populares lá das bandas do sul do Alentejo, a entrar no Algarve. Ou será já no Algarve? Acho exagerado os adjectivos por si aplicados aos "crentes", pois a Liberdade tem consequências. Uma delas é, fortemente, a tolerância para os "desvios" dos outros - e quem os não tem?! - que melhor se "converterão" a quem discordar do que fazem ou do que que crêem com diálogo do que com "chavões" vanguardistas.
Seu Amigo dedicado,
António Serrano

quinta-feira, novembro 26, 2009

A corja

Na fragilidade de um poema
Feito com versos de vento e água,
Desfaço em pedaços mil dilemas,
Liberto minha revolta e mágoa.
Como quem descrê no que acredita,
Por já não crer em nada e ninguém,
Dou meus frutos, sou árvore maldita,
À corja, oxalá a envenenem bem.
Perguntei ao vento: - Aonde me levas?
Olhou-me com dor e disse a sorrir:
- Levo-te de volta à noite das trevas,
Onde não há presente nem porvir.
- Que lugar é esse, que noite é essa
Onde tu, ó vento, me queres levar?!
- É o reino das falsas promessas
E mentiras, de quem quer governar.

Não vi rosmaninho nem alfazema,
Das rosas só restavam os espinhos.
Não vi a poesia, menos poemas,
tojos, urzes e outros maninhos.
Não vi sorrir o rosto das crianças,
Só velhos com tristeza no olhar,
E loucos e doutos sem esperança,
Nem sol d’ Abril nem Lua ou luar.
Não vi rios nem as verdes campinas,
Nem ouvi os rouxinóis no arvoredo…
Por entre uma fria e densa neblina,
Só se ouviam pragas e gritos de medo.

Perguntei ao vento que me guiava:
- Diz-me, meu amigo, quem grita assim?!
Porém ele não falava, calava
A verdade por ter pena de mim.
Mas perante a minha insistência
O vento acabou por me dizer:
- Amigo, os lobos não têm clemência
Quando está em causa o poder.
E de súbito, da neblina cerrada
Saiu a mais faminta alcateia…
Mil lobos, de fauces escancaradas,
Que devoraram mil anhos à ceia.
Eram lobos anafados, lustrosos.
Era uma insaciável alcateia…
Arrotando forte os mais poderosos,
E uivando os mais fracos por ceia.

Eis um poema só de raiva feito
Onde vos dou versos como poção…
Antídoto algum lhe tire o efeito,
Morram os lobos que nem lobos são.
São só versos de amarga revolta…
Malditos sejam se os lerdes em vão.
Deixo a minha raiva correr à solta,
Ergo a voz e à corja digo: - Não.


Homem da Serra
Zeca, volta, volta... "Eles comem tudo!"

Saramago, esse desconhecido...

CARTA DO CANADÁ
Fernanda Leitão

SEM COMPLEXOS NEM PRECONCEITOS

Seguramente, foi em 1959 que assentei arraiais na Brasileira do Chiado, no grupo pontificado por Tomaz de Figueiredo, Jorge Barradas, Abel Manta e Almada-Negreiros, onde fui dar pela mão de artistas plásticos cujo vasto atelier passou a ser, também, meu poiso habitual.Meu de muitas outras pessoas.
Em tardes de inverno, com a lareira acesa e tomando chá, por ali passava a dizer poemas Vasco Lima Couto e, a inundar o espaço com a sua voz inesquecível, Eunice Muñoz. Gente do teatro, do cinema, da música, das artes plásticas, do jornalismo, das letras, ali conviviam com serenidade e gosto.
A escritora Isabel da Nóbrega começou a ser habitual e depressa se tornou uma amiga dos donos do atelier. Senhora de bom berço e fino trato, inteligente e culta, bem instalada na vida, caíu numa cilada do demónio. Apaixonou-se por um zé ninguém, nem sequer bonito, muito menos simpático e bem educado, que olhava tudo e todos de nariz empinado, numa pseudo-superioridade de quem tem contas a ajustar com a vida, quezilento e muito chato. Falava como um pregador de feira e era intragável. Mas, em atenção à Isabel, lá íamos aturando o José Saramago.
Para mim, que sou péssima, foi ponto assente: aquele não a ia fazer limpa, era um depósito de ódio recalcado. Foi por isso que não me admirei nada quando o vi director do Diário de Notícias, a mando do Partido Comunista, onde, da noite para o dia, lançou ao desemprego 24 jornalistas, dos da velha escola, dos que escrevem com pontos e vírgulas, deixando-os, e às famílias, sem pão. Tambem não fiquei minimamente surpreendida quando soube que abandonou Isabel da Nóbrega, que tanto fez por ele, para alvoroçadamente casar com uma espanhola que foi freira e tem vastos conhecimentos no mundo da política e das letras. Para mim, estava tudo a condizer com a figura.
Cá de longe soube que publicava livros e vendia muito. Não me aqueceu nem arrefeceu, porque nunca li nada escrito por ele nem tenciono perder tempo com isso. Não me apetece, e está tudo dito. Nem o Nobel que lhe deram me impressionou, porque já vi o Nobel ser dado sem critério algumas vezes. Acho mesmo que o prémio está a ficar muito por baixo.
E agora, o homenzinho da Golegã a chamar nomes a Deus, a insultar a Bíblia nuns raciocínios primários de operário em roda de tasca. Dizem que o fez por golpe publicitário. Talvez. Acho que é capaz disso e de muito mais. No entanto, creio que, no meio do aranzel, apenas houve uma pessoa que lhe fez o diagnóstico certo: António Lobo Antunes, numa magistral entrevista dada à RTP, há dias, respondeu a Judite de Sousa, que o interrogava sobre as tiradas de Saramago, que essas vociferações contra Deus lhe tinham feito medo. E adiantou: “tenho medo de chegar à idade dele assim, sem senso crítico”. Está tudo dito. É mais um como há tantos anciãos de tino perdido em Portugal. É deixá-lo andar. A mim tanto se me dá.
(Com a devida vénia!!!)

segunda-feira, novembro 23, 2009

Momento de poesia: Musa Beiroa

Magna Assembleia
Reunidas em soleníssima sessão
As Musas antigas e modernas também,
Discutem, fervorosamente, se sim ou não,
Me fazem poeta ou só Zé-ninguém.

Vindas de Norte, Sul, Oeste e de Leste,
Gregas, troianas, bretãs, até romanas,
Nunca foi visto concílio como este
Para discutir uma causa Lusitana.

Quiseram as Tágides, mais as do Mondego,
E a pastoril Beiroa, todas simples mas belas,
Avisarem-me baixinho, quase em segredo,
Que não seria fácil a guerra com elas.

Começou Euterpe, a rainha do canto,
Falas melodiosas, muito engraçada:
- Nada lhe darei, digo, por enquanto:
Nem lira, nem harpa, nem voz bem timbrada.

Logo a bela Serrana se ergueu por mim,
Simples resposta, excelente intervenção...
- Desculpai, Senhora, não será só assim
Por ele ser apenas um pobre beirão?!

- Não vos amofineis, insensata donzela,
Mas vejo a coisa de maneira diferente...
É preciso ter muito siso e cautela
Se desconhecemos quem temos em frente.

As Ninfas e as Tágides ficaram caladas;
Mal me conhecem, não ousam falar.
Mas a pastoril Beirã não cede por nada,
E a dona da música teve que se calar.

Diz Melpómene, em tom conciliador:
- Não façamos disto uma grega tragédia...
Se o rapaz não for músico, nem cantor,
Poderá dedicar-se então à comédia!

- Quereis passá-lo para mim? - pergunta Tália
Mostrando uma grande animosidade...
- Não conheço gente que não seja de Itália;
Não tem p'rá comédia jeito nem idade.

As Ninfas e as Tágides não se contiveram
Agarrando Tália pelo longo cabelo...
- Nunca os Romanos, os Lusos venceram,
Se ainda o não sabes, vais agora sabê-lo.

Gerou-se uma balbúrdia e tal confusão!...
Umas para um lado e outras para outro...
- Senhoras meninas, que é isto?... Então?!
Tanta discussão só por causa de um louco?!

Mas não gostou minha formosa estrela,
Que a elegante Terpsícore me chamasse louco,
Levantando-se de um salto, foi-se ali a ela,
E, se a não fez dançar, faltou muito pouco.

Falou, então, Clio, mãe da eternidade,
Num tom conciliatório e até cortês:
- Façamo-lo poeta; que cante só a saudade,
O doce sentimento do Povo português.

Com blusa decotada e seio provocante,
A fascinante Erato sabe bem o que quer,
De seus olhos verdes saem raios brilhantes,
Vê-se bem que não é Musa qualquer.

Veste de maneira ousada, atrevida;
Uma mini-saia bem acima do joelho.
Não sei se meia nua, se meia vestida,
Fazendo esquecer o mais sábio conselho.

Passemos adiante, deixemo-la p'ra logo,
Falemos apenas do que aqui se passou...
Acendeu-me nos lábios desejos de fogo,
Se mais não conseguiu, foi porque não tentou.

Não porque o não quisesse, ou desejasse,
Mas sendo a brejeira, linda filha de Zeus,
Travou-me a razão, antes que me queimasse,
Evitando colar meus lábios nos seus.

Ela sabe que a sua beleza inebria,
E diz, entre gestos de luxúria lasciva:
-Vem aos meus braços, se amas a poesia,
Ou também tens medo de beijar uma diva?

Gozando com a provocante atitude:
- Tu queres ser poeta?!... Pois sê-o então.
Não te gabo a sorte, mas fiz o que pude
Ao dar-te os dons de um pateta poltrão.

Pede às Ninfas e Tágides seu auxílio,
(E fingindo beijar-me em provocação...)
- Nunca serás Homero, muito menos Virgílio,
Não passarás, meu pateta, de rude Beirão.

Ergue-se, felina, a Leoa Lusitana,
Ninfas e Tágides se lhe juntam, em protesto.
- Quem sois vós, gregas, troianas e romanas,
Senão ralé, plebe vulgar, filhas de incesto?

Querendo chamar toda a gente à razão,
Disse Calíope, com muita indulgência:
- Não, nunca será só um poeta poltrão,
Eu lhe concedo um pouco de eloquência.

Mas os ânimos não ficaram sossegados,
Porque Terpsícore de modo contrafeito
Declarou: - Vou dar-lhe pés tão pesados
Que para a dançarino nunca terá jeito.

- Desconheceis o querer e força deste Povo?
( Gritou a Beiroa, com um fulgente olhar.)
- Venceu o mundo velho, construiu um novo,
Aqui tereis que aprender e não ensinar.

Será poeta, tudo o que ele desejar:
Guerreiro, lavrador, marinheiro, pastor.
Sábio, louco e até santo do altar,
Que o Povo Lusitano não conhece senhor.

Foram-se embora as musas de outrora,
Rabo entre as pernas e o bico calado.
Certamente, já aprenderam bem agora,
Que e a estirpe Lusa não é pau-mandado.

Ninfas e Tágides, minha Musa Beiroa,
Cantai a Gente Lusa, o Povo laureado.
Calem as antigas, por muito que lhes doa,
O seu canto roufenho e tão desafinado.

Mas aquela diva de olhos fascinantes
Tirava do sério um homem qualquer...
Há lindíssimas musas em belas amantes,
E lábios de fogo em muita mulher.

A formosa Erato com sua beleza,
Deixou em mim a suave recordação...
Ao partir, deixou-me alguma tristeza,
Também algum do seu poder e condão.

É quase certo, mas não posso afirmar,
Não sei se é real, se só fantasia,
Mas muitas vezes sinto que ela a brincar,
Vem ensinar-me a escrever poesia.

Linda, linda como o um mar das espigas,
É ver (não sei se me cale, ou se vos conte)
A mais generosa, a mais leal das amigas,
A minha Musa Beiroa, ao voltar da fonte.

À pequenina Leonor.
Não é Beiroa, mas de lá lhe venha a beleza, porque lindas são as moças Serranas.
Do tio-avô Fernando

quarta-feira, novembro 18, 2009

Nasceu! Bem vinda!!!

Eram 18h 22m, quando chegaste a este Mundo, à nossa companhia. Bem vinda sejas, querida Leonor.
Os teus Pais, os teus Avós, os teus Tios, os teus Primos estão bem felizes por nos quereres alegrar, enriquecer o nosso dia a dia. Tu, linda Menina, podes ter a certeza de que tudo faremos para te tornar a vida feliz. Assim, Deus nos ajude, pois é um trabalho tão difícil que só Ele - Caminho Verdade e Vida! - nos pode dar os meios para realizarmos tão empolgante Missão. Olha, ainda não nos conheces, mas já te amamos muito. Vai ser bom convivermos e ver-te crescer. Vem! Nós ansiávamos pela tua chegada. Escolhi uma doce canção de embalar que os teus Papás vão aprender para te adormecer... quando estiveres com "insónias!!!! Ah! Ah! Ah!

A Bíblia que Saramago não leu ou "Ensaio sobre a cegueira"2

Evangelho segundo S. Lucas 19,1-10. Tendo entrado em Jericó, Jesus atravessava a cidade. Vivia ali um homem rico, chamado Zaqueu, que era chefe de cobradores de impostos. Procurava ver Jesus e não podia, por causa da multidão, pois era de pequena estatura. Correndo à frente, subiu a um sicómoro para o ver, porque Ele devia passar por ali. Quando chegou àquele local, Jesus levantou os olhos e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa.» Ele desceu imediatamente e acolheu Jesus, cheio de alegria. Ao verem aquilo, murmuravam todos entre si, dizendo que tinha ido hospedar-se em casa de um pecador. Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: «Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais.» Jesus disse-lhe: «Hoje veio a salvação a esta casa, por este ser também filho de Abraão; pois, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.»

sábado, novembro 14, 2009

Obrigado, Zé!

Meu Caro Zé,
Venho agradecer-te a maneira principesca com que me acolheste, mimaste, hoje. Que belas horas passei na tua companhia, aí por Santo André e Sines!!!
Como te disse, em meu desabono, mal conhecia essa linda zona do nosso Distrito. Apenas por aí passara duas ou três vezes, terão passado cerca de 25 anos.
Segui o itinerário que me indicaste. Gostei de atravessar uma boa parte do nosso Alentejo, onde os extensos sobreirais me fascinaram. Alguns deles bem tratados, com as terras lavradas, provavelmente para uma maior produtividade e defesa contra incêndios. De gente que entende que é preciso semear para colher, investir para receber. Já entre Grândola e Santiago me pareceu que o aspecto das árvores não era saudável, porventura em resultado da muita poluição atmosférica proveniente das indústrias instaladas nos arredores de Sines, anos atrás. O piso da estrada até Grândola está em defeciente estado, mas o percurso pelo IP8 merece elogios.
Encontrar-te, depois de tantos anos, quando foste Criança, lá em Penamacor foi uma vivência inesquecível. Passar aquelas horas na tua companhia, em contacto com a tua alegria de viver, foi um privilégio que muito te agradeço. Não merecia tanto, com sinceridade o digo.
As enguias - o ensopado e a caldeirada, que fartura!!! - estavam uma delícia. Não mais vou esquecer aquela encantadora localidade, Deixa o Resto, e a história bem engraçada que deu origem a tal designação. Mas nós não deixámos resto, não. Podem chamar-nos gulosos, mas seria um desperdício, quase um pecado. Em oposição tivemos de "sofrer" de gula...
Surpresa, surpresa foi a visita ao teu apartamento: quem diria que um solteirão pode ter uma casa tão bem arrumada e com tantas e tão boas recordações das tuas muitas viagens e aventuras por quase 50 países deste nosso Mundo?!
Aqui ficam os meus parabéns e a expressão da minha admiração. Que havia de repetir-se no apartamento de Sines, mais "despido", mas com aquela linda varanda e a soberba vista sobre o mar que aqui se pode apreciar.
A mota dos teus (e meus) encantos não podia ficar sem visita. Estupenda. Também na garagem há que ressaltar que tudo estava no seu lugar, revelando-se a arrumação como uma tua grande virtude. Ah! Meu maroto, a carrinha é que foi cá uma surpresa!!! És um verdadeiro artista, no sentido literal da palavra. Fico feliz, por ti. Mas há uma frase que não me vai esquecer e que me faz lembrar os olhos vivos e desafiadores da Criança que foi meu Aluno: "Entre ser rico e ser livre... escolhi a Liberdade". Só de ti, José Salgueiro Cunha de Almeida, eu poderia aprender mais esta. No fundo, é um caminho evangélico, pois também Jesus Cristo nos alerta para a prisão que o apego aos bens materiais constitui. No entanto, meu caro Amigo, posso dizer-te que há bens pelos quais vale a pena ser "anilhado". O Amor de uma Mulher, um deles, para exemplo...
O passeio que me ofereceste, por Sines e zona indústrial, com destaque para a enorme Empresa em que trabalhas, encheu-me de satisfação. Assim, com um cicerone tão cativante e bem-humorado, foi ver as horas a passarem, num instante. Ouvindo histórias e mais histórias de um Aventureiro generoso, um coração de oiro.
A hora da despedida chegou, com o escurecer. Fica-me na memória um gesto final que não sei como te agradecer: guiaste-me por aquelas ruas que eu nunca percorrera, chegando ao "cúmulo" de me conduzires até à estrada que havia de trazer-me a casa. Obrigado, caro Zé, meu Amigo.
Um dia destes será por aqui. Para minha enorme satisfação.
Abraça-te, com estima, aquele que te ensinou algumas coisas, quando eras Criança e a quem tu deste uma grande lição de vida e humanidade, no espaço de poucas horas.
O teu velho professor.

sexta-feira, novembro 13, 2009

A Bíblia que Saramago não leu ou "Ensaio sobre a cegueira"

Livro de Sabedoria 7,22-30.8,1.
Com efeito, há nela um espírito inteligente e santo, único, múltiplo e subtil, ágil, penetrante e puro, límpido, invulnerável, amigo do bem e perspicaz, livre, benéfico e amigo dos homens, estável, firme e sereno, que tudo pode e tudo vê, que penetra todos os espíritos, os inteligentes, os puros e os mais subtis. A sabedoria é mais ágil que todo o movimento e por sua pureza tudo atravessa e penetra. Ela é um sopro do poder de Deus, uma irradiação pura da glória do Omnipotente, pelo que nada de impuro entra nela. Ela é um reflexo da luz eterna, um espelho imaculado da actividade de Deus e uma imagem da sua bondade. Sendo uma só, tudo pode; permanecendo em si mesma, tudo renova; e, derramando-se nas almas santas de cada geração, ela forma amigos de Deus e profetas, pois Deus só ama quem vive com a sabedoria. Ela é mais radiante que o sol, e supera todas as constelações; comparada com a luz, sai vencedora, pois a luz dá lugar à noite, mas sobre a sabedoria não prevalece o mal. Ela estende-se com vigor de uma extremidade à outra e tudo governa com bondade.