segunda-feira, outubro 05, 2009

Na eira 2

O Inverno acontecera puro e duro. Chuva e vento. Frio e chuva. Vento e frio. Sentiu-se alívio na Aldeia, quando o cuco anunciou a chegada da Primavera. Urgia que as terras escorressem, pois a sementeira do milho não podia falhar. Era quase o "seguro" daquela pobre gente, numa vida de horizontes bem limitados, uma vez que o centeio servia, normalmente, para pagar as rendas. Com a chegada do bom tempo, vacas à charrua e, de novo, rego após de rego, aquelas vastas áreas foram lavradas e as sementes enterradas. Nos melhores terrenos, sobretudo onde a humidade resistisse, com algum êxito, às bravuras do mês de Julho, havia de semear-se o feijão pequeno. Este só lá no mês de Maio.
Já o Sol desaparecera, quando António entrava em casa. Muitas vezes os filhos haviam adormecido. Noutras, o mais velhinho "segurava" as pálpebras para as brincadeiras do costume. Pacientes e ternas.
- Então, homem, como vão as coisas lá pelo "Vale do Homem"?
- Está quase. E vamos conseguir!
Uma oração. A ceia. Ainda uma última "visita" aos animais, à luz da laterna de azeite, não fosse uma corda mal ajustada causar uma desgraça. Aquela amigas fiéis e boas haviam já pastado, na relva, ao fim da tarde, enquanto se apanhava a "erva" para a noite, e agora, depois da comida, na manjedoura, repousavam, tranquilamente.
O dia de amanhã não seria diferente. E o outro. E o outro...
O tempo passara célere, o milho começou a despontar e aquele campo de onde a vida brotava - e dessa vida dependiam muitas outras vidas - estava o que se pode chamar "um encanto". Parecia que a Natureza se reconciliara com o Homem.
A falta de trabalho era um problema grave e não foi difícil contratar um rancho de mulheres e raparigas que quisesse tomar conta daquele milheiral, de "terças". Uma forma de o pobre explorar o outro pobre, pois o dono das terras estava de fora de todas estas maçadas. Explicaremos adiante. Lá pela segunda quinzena de Abril aquele rancho teve de sachar cada bocado daquele enorme terreno, que o rendeiro já percorrera 3 vezes, com arado e grade, e ainda havia de lá voltar para "aterrar", caule a caule, cada uma das plantas daquele milho tão bem nascido. Rezar a Deus e a Nossa Senhora da Graça para que a chuva não falhasse. A chuva! Ou a sua falta, causa de tantas e tantas rugas no rosto da minha Mãe! E depois "desbandeirar" onde o milho fosse mais alto, já com as "maçarocas" criadas. E cortar. E juntar. E carregar no carro de vacas. E transportar para junto da eira, a uns 2 quilómetros. E descamisar. A desfolhada era dos trabalhos mais felizes da nossa gente, sentados e à sombra. Com os lacraus a virem, por vezes "agarrados" aos dedos. Também "experimentei"! E estender as espigas doiradas nas lajes da eira para secarem, convenientemente. E malhar. E limpar das impurezas, com ajuda do vento, grãos atirados ao ar, pazada a pazada. Dividir. Ensacar. E levar para casa o que havia. Um verdadeiro "purgatório", que durava até Agosto. Alternando com alguns dias para tratar do feijão pequeno, ainda mais trabalhoso, apanhado vagem a vagem. Na hora da divisão, o rendeiro ficava com 2/3 do produto final e o outro terço ficava para todo o rancho dividir entre si.
E, não raro, num lamento se ouvia:
- Quase não deu para as passadas.
Mas ainda haviam arranjado forças para alegrar aqueles trabalhos tão duros, a cantar "Mondadeiras do meu milho/ Mondai o meu milho bem/ Não olheis para o caminho/ Que a merenda já lá vem." Ou "Viva o nosso ranchinho/ Viva e torne a viver/ Um ranchinho como o nosso/ Não o há nem pode haver". Em cada época e para cada trabalho aí estava a "moda" a condizer. Cantigas belas, dolentes, sofridas deixando na alma de quem as cantava e de quem as ouvia uma intensa nostalgia. De quê? De quem? De Justiça?
Retirado o milho, era tempo de o rebanho avançar para aproveitar tudo o que de comestível por lá ficasse. E não era muito.
O Verão era um tempo muito duro. Nos "intervalos" das "sachas", mondas e "aterros"" havia que assistir às hortas, às fruteiras, às vinhas. Colher e secar os figos. Homens e mulheres, grandes e pequenos, numa dobadoira imparável. Dormia-se nos campos, nas choças - raramente havia um casinhoto, quase sempre desconfortável - e ainda havia força para sacar de um pífaro de sabugueiro ou de um realejo comprado no mercado de Penamacor para alegrar a noite, quase sempre sob a luz das estrelas. As noites de luar, em Agosto, eram majestosas! Quantas "estrelas cadentes" avistei. Não se podiam contar, porque... "nascem verrugas"...
Outubro chegou, num instante!
As primeiras chuvas - se tardavam, mesmo antes delas - predispunham as terras para a sementeira dos campos, os melhores, que os mais fracos entravam "de pousio" e eram local de pastagens para os "gados".
De novo, as juntas de bois e os seus condutores voltaram a rasgar aquela terra mãe e madrasta, para as sementeira do centeio. O ano do tudo ou do nada. Outra vez à frente, atrás, adiante, vai e torna, "Ó Morena, mete ao rego", "Ó Cereja, cuidado", "Torna!!!" Uma conversa constante e íntima entre o homem e aqueles animais, mansos e vitais. Quase só eles e a vastidão do campo. E, lá mais adiante, outro conjunto. Os mesmos gestos, as mesmas palavras, as mesmas dificuldades, a mesma luta. E outro. E outro. Aqui e além os rebanhos. Conheciam-se os donos pelo chocalhar de cada um. Nestes períodos de falta de braços de uma agricultura intensiva e exploradora, os mais crescidotes eram retirados das escolas para ajudar. As sementeiras... um tormento para os professores. E para os gaiatos. E para os pais. A cooperação era uma necessidade. Para que a seara "rebentasse" com alguma simultaneidade, juntavam-se dois, três e até quatro ganhões, no mesmo trabalho, para que as sementes fossem enterradas, no tempo, com a maior proximidade possível. E depois iam para os campos do outro. E do outro...
Pelo meio-dia, apontado pelo Sol a Sul, um breve descanso para os animais comerem e o dono tomar a sua fugaz refeição, muitas vezes de pão com queijo. Um bocado de presunto ou chouriço. Umas azeitonas. Uma pinga.
- Então, António, este ano vamos ter sorte? - perguntava ela, entre a esperança e a angústia.
- Ó Carminda, está tudo a correr pelo melhor. Desta vez ficamos bem!
- Deus te oiça, homem. Não me canso de rezar a Nossa Senhora. E ao Santíssimo Sacramento. Deus tenha pena de nós e dos nossos filhos. Tanto trabalho! Mal posso com as dores no corpo. Do cansaço nem falo já... Que vida desgraçada me arranjaste. Se , ao menos, tivéssemos ido para a África...
- Ó Minda, deixa lá que agora é que vai ser!!!
Já "Os Santos" batiam à porta, quando a coisa começava a acalmar. Do castanho acinzentado dos campos iam surgindo pequenas hastes que os transformavam em verde verde. Serenava a alma camponesa - antes houvera o desassossego das vindimas e, a seguir, já aí estava o da azeitona - à noite, com as castanhas da ceia, assadas ou cozidas, regadas com a frescura dos vinhos novos. "Anda cá provar o meu". "Está aqui uma bela pinga" ou "Quiseste muito e vê no que deu. Vinho só da uva. A água da fonte só p'rós pés". E "parecia que estava forte...". Ou ainda "Tens mais olhos que barriga"...
O Sol e a Chuva iam fazendo o seu papel. A geada também. E o mês de Janeiro era altura de deitar contas à vida. Um bom agricultor começava a perceber o que o ia esperar, lá em Julho. Se a seara cobria bem a terra, se estava "forte" de mais - aqui era uma bênção para os rebanhos entrarem no "marfolho" e comerem do "bem bom" para atrasar o crescimento das searas - era a esperança. Se o "códão" provocado pelo frio intenso fazia mirrar as pequeninas plantas ou o Inverno fora "manhoso" a alma dos camponeses começava a "apertar-se". E o que se passava não era de muitas alegrias. No primeiro mês do ano, a geada quase fizera desaparecer o verde dos prados. Este Janeiro fora bem seco e frio. A fome perturbava os gados e, nas queijeiras, o leite era pouco para o que tanto se esperara: fazer queijos.
Um alívio, a Primavera. Os campos reverdesceram e foi nascendo uma nova alma na Aldeia. Podadas as vinhas, foi um encanto vê-las com os rebentos novos. Aqui e ali surgem as batateiras a despontar e as hortas vão tomando forma para gozar do bom tempo que a estação proporciona. As searas haviam ganhado força e, em Abril, chegara o encanto de vê-las "fugir" em ondas de verde empurradas pelo vento. Um espectáculo deslumbrante, inesquecível.
E a Ascensão chegou, com os primeiros calores, a sério, o verde desaparecer e a dar lugar à linda cor das searas maduras. Mas não, não tinham aquele aspecto que todo o camponês desejava: curvadas para o chão com o peso dos grãos. Antes se apresentam "nem cá, nem lá", "não sei se me inclino, se me tenho em pé". As expectativas eram, pois, reservadas.
- Ó António, não gosto do aspecto do "pão"... As espigas não estão "gradas"...
- Ora, isso é impressão tua. Talvez os nevoeiros de Maio não tenham sido o melhor. Mas ainda engrossam mais.
- Não vejo como. Não vês a cor delas?
- Deixa lá que tudo se há-de ajeitar.
- Deus queira!
Era preciso contratar quem ceifasse. E ainda ter o sentido da oportunidade. Tudo quer o seu tempo. E as searas não são excepção. Para os rendeiros, dificilmente se encontra quem queira trabalhar ao "quinto". Só as casas ricas, que dão trabalho todo o ano. Pobre tem que pagar. Em dinheiro. A lei da oferta e da procura também na Aldeia. Com direito almoço, antes de "pegar", a jantar (pelo meio dia), merenda (4 da tarde) e ceia (8 horas). Uma pobre e jovem mulher, na flor da vida, fazendo comida, carregando comida, estendendo comida para uma dezena de bocas esfomeadas. Uma distância enorme a percorrer com o cesto à cabeça. Todos os dias. Quase duas semanas. Um penoso, um doloroso sofrer. A mais cruel exploração de pobres por pobres, em proveito de uma meia dúzia, que fazia vida de luxo. Uma engrenagem bem montada, obra, com certeza, do Inferno.
Homens ao "corte" era sempre a ceifar, ceifar. Aquelas foices manejadas por mãos quase sempre hábeis, iam deixando atrás montes de "pão" acabadinho de cortar. As "paveias". Depois, em cada entardecer, era atá-las em molhos, formar os "rilheiros" dispersos pelo "restolho", pequenas obras de arte, onde a água não entraria, se houvesse a sorte de chover. Para os milhos, claro. Os rebanhos voltavam a ocupar o lugar em que crescera a seara, à procura de matar a fome.
Depois a "acarreja", que juntava aquelas centenas, talvez milhares de molhos, produto do trabalho de um ano, numa eira, mais perto da Aldeia, com o de outros rendeiros, cada um com sua "meda", deixando um intervalo no meio, onde havia de entrar a "malhadeira". Frequentemente, era debulhado, manualmente, com o "mangual", 3, 4 ou 5 ... malhadores de cada lado, encharcando as pobres roupas com o suor que saltava daqueles corpos magros, a ponto de se conhecer o sal nas camisas, depois de as enxugarem. E ainda arranjavam forças para cantar, com alguma brejeirice: "Coradinha já morreu/ Foi metida no caixão/ Deixaram-lhe o braço de fora/ P'ra pegar no garrafão". E o refrão sempre repetido "Vai, vai, Coradinha, vai, vai!" E os manguais pam! pam! pam! pam! faziam saltar o grão das espigas. O grão do nosso contentamento. O grão do nosso pão. E sempre a ser preciso dar de comer aquela gente heróica. E de beber. E pagar. Nem sempre havia com quê. E o recurso ao usurário... mais uma tragédia.

A malhadeira, pesadíssima, só a custo deslizava, na estrada "macadamizada", puxada por um tractor, a grande novidade deste Verão, para gáudio e espanto da garotada. Uma coisa nunca vista. Mas a maquineta era fraca para puxar o "monstro de ferro". Sempre que havia areia ou terra mole era uma "festa": as rodas derrapavam e a malhadeira nem se mexia. Lá vinham as mansas vacas e a força dos homens para que aquele "bicho" medonho avançasse e trouxesse um ar de "progresso" à vida da nossa Aldeia. Não foi sem enormes dificuldades que a máquina ficou colocada entre as "medas" de centeio. Depois foi preciso colocar-lhe as correias e ligá-la ao tractor por uma delas bem grande, que ainda "abriu" uma ou outra cabeça de alguém mais descuidado. E as histórias que se contavam destas debulhadoras. Que lá, na Terra Fria, uma rapariga solteira caíra naquele enorme alçapão por onde o cereal era introduzido e saíra aos bocados. Que para os lados da Idanha, uma outra se incendiara e ardera com toda a eira... Era mesmo um "animal" de meter respeito. Mil e um conselhos de quem pensava saber mais que os outros. Mas era um "delírio" para a "canalha", que até fugia da Escola para ir espreitar - as férias eram a 15 de Julho - e tinha de ser "encorrida". Não fosse o Diabo tecê-las...
(Vai continuar)

José Maria Fernandes Monteiro, um Amigo!

"O Verão quente de 1975 passara, deixando, em muitos, sequelas e frustrações. Para outros fora tempo de oportunidades e de oportunismos, que perduram até aos dias de hoje, frutos de uma revolução que não o chegou a ser. Na justa partilha dos bens e no aparecimento de novas mentalidades… muito continua por fazer. Começo por estas considerações, porque as ouvi repetidas vezes, da boca de um homem sábio e bom, com um conhecimento da natureza humana fora do vulgar, próprio das pessoas que muito caminharam, observaram e leram sinais nos sinais dos tempos. “O saber de experiência feito”, como nos fala Camões. Afinal, o homem, desprezados os Valores éticos e morais que o distinguem dos outros bichos, não deixa de ser um macaco. E que macaco! O Sr. Fernandes tinha razão. Infelizmente!!! A democracia que nos prometiam era boa para … os “chicos-espertos”…
Estávamos em Setembro de 1977, quando me apresentei na Escola da Azeda
, que escolhera porque se encontrava perto da casa onde eu morava, no bairro de S. Gabriel, em Setúbal. Naquele tempo, ficava fora da cidade e era constituída por dois pavilhões pré-fabricados, dentro de uma vedação, e uma sala bem desconfortável, no exterior da rede, que fora ocupada pela Comissão de Moradores, com apoio da Município, uma vez que o proprietário a abandonara, quando se ausentara para parte incerta, por força dos “ventos de Abril”. Fora destinada a ser escritório de uma firma que se propunha urbanizar os terrenos até ao farol, lá bem no alto. Os prédios haviam de chegar muito mais tarde. Não teriam nada que ver com o projecto de então passado ao esquecimento…
Éramos seis professores – a Odete Varela, a Odete Tavares, a Rita, a Margarida, a Maria Helena e eu próprio – com turmas enormes, mais de 30 alunos. Dado o abandono do meio rural e a “fuga” dos camponeses para as grandes cidades, com a consequente “explosão escolar”, ao lado ia-se erguendo um enorme e moderno edifício escolar, dos famosos "tipo P3", já em adiantado estado de construção. Era uma novidade, com salas abertas, refeitório, gabinetes, ginásio, campo de jogos. O modelo fora importado dos países nórdicos – soubemos depois que já estava por lá "fora de moda" quando, em Portugal, era o “ai Jesus” das construções escolares. Sempre "a reboque", como de costume… – e nós criávamos enormes expectativas para o ocupar, logo que possível. Aquele ano lectivo de 1977-78 decorreu num instante, mas a “certeza” de que, em Setembro próximo estaríamos "lá em cima" começou a deixar-nos enormes dúvidas. Havia sempre uma desculpa: a falta de mobiliário, a demora na entrega pelo construtor,
que impedia a ligação da água e da luz, a falta de estores, o enorme pátio cheio de entulho e ervas… uma série de contratempos. O bairro crescera, as crianças eram mais que muitas, uma escola novinha ali mesmo à mão, era um desafio. E, em Outubro seguinte, estávamos lá em cima, com a ajuda dos pais – os pais mais formidáveis que encontrei em toda a minha vida docente! – que participaram na limpeza do pátio e na do interior do edifício – já que, para todo aquele espaço, tínhamos apenas uma “contínua”, a querida D. Piedade! – que nunca poderia dar a resposta de que uma escola daquela envergadura precisava. E sabemos como os serviços oficiais são lentos para as decisões que servem, realmente, as populações. Enfim! Fechámos os antigos pavilhões e aí fomos, todos contentes, para a "casa nova", ainda longe de estar completa. Começámos sem luz eléctrica, sem estores, sem equipamento de ginásio nem de cozinha, o campo de jogos por asfaltar, bom… só com cadeiras, armários e mesas. Nada mau!
Pode dizer-se que, nessa altura, a escola ficava fora da Cidade. Assim, dada a abundância de espaço, cá fora, deram-nos aquele enorme pátio, quase um hectare, com 3 ou 4 oliveiras, 2 choupos, recém plantados, à entrada, e areia, muita areia. Um terreno assim, à volta de uma escola primária, era novidade. Nem na nossa Cidade nem nos arredores havia algo que se lhe parecesse. Não se podia chamar “terra” àquilo que ficou depois de todo aquele campo haver sido revolteado com as pesadas máquina, antes da implantação do belo edifício. Mais belo do que funcional, como rapidamente nos demos conta, com 3 turmas a funcionar em espaço aberto, cada uma delas a fazer trabalho diferente e em diferentes níveis de escolaridade. Uma confusão!!! Que saudades dos desconfortáveis pavilhões “lá em baixo”…
Bom, a partir de agora vamos deixar os problemas do edifício, que foram muitos, e cingirmo-nos, o mais possível, à “quinta”… Logo nas reuniões de pais, que foram muitas, se começou a pensar no que fazer daquele “enorme deserto”. A minha veia de camponês, “dizia-me” que aquilo ainda havia de ser um jardim. E uma quinta. E um pomar. Um sítio onde valesse a pena viver. E aprender. Afinal, o espaço “dava para tudo”.
Em 1978, eu tinha 35 anos e as forças que só são nossas naquela idade. O senhor Fernandes poderia ser meu pai, nos seus 74 anos. Mas ninguém o diria. A sua casa era a que mais perto ficava da escola. A D. Piedade trabalhava já lá como funcionária. “Uma trabalheira dos diabos”, primeiro, sozinha, com aquele enorme espaço interior e exterior para tratar. Sozinha, não, pois a presença e ajuda do marido, senhor Fernandes, era constante, sempre que as folgas e os intervalos do seu trabalho diário, lá numa das Empresas da zona industrial, o permitiam. Com 74 anos ainda trabalhava, por conta de outrem, todos os dias??? Ora, outros tempos, outras atitudes, outras maneiras de ser… Este é o Homem de quem vou passar a falar. Ambos Beirões. Ele “alto” e eu “baixo”. Naturais de concelhos limítrofes. Ele do Sabugal e eu de Penamacor. Rapidamente se estabeleceu, entre nós, uma corrente de simpatia que iria crescer, crescer até se transformar numa enorme e inapagável Amizade.
Eu tinha uma grande apetência pelas coisas da terra. Nascera nela e nela crescera. A directora, naquele ano lectivo, Prof. Odete Varela, era da Cidade e não tinha grande “queda” para estas coisas do campo. No entanto, “deu-me” “carta branca” para realizar o sonho que começara a crescer na minha cabeça. O Senhor Fernandes despertara-me a ideia, ao pedir licença para ali, naquele vasto espaço, lhe ser ”dado” um canto para fazer um pedaço de horta. Licença que lhe foi concedida e mais que merecida, pelo empenho no trabalho, pela ajuda que dava nas limpezas e arrumações e por ser um guarda dedicado e fiel de tudo aquilo que, de outro modo, ficaria ao abandono. E as Crianças poderiam assistir e participar do saber que o amanho da terra proporciona. O Sr. Fernandes, mesmo que o cansaço fosse muito, mal o seu cão ladrava, ali perto da escola, dando sinal de que algo poderia estar errado “lá em cima”, saltava da cama e “dava a volta”, apenas sossegando quando tinha a certeza de que tudo estaria bem.
Mas retomemos o fio à meada. Nas reuniões de pais e professores assentara-se que aquele espaço teria de mudar de aspecto. Feitos contactos com Alcácer do Sal, foi-nos oferecida “planta” que deu para colocar uma sebe, ao longo da vedação de rede, em toda a volta. Também com ajuda da Câmara Municipal de Setúbal. Estávamos em Janeiro de 1979. Logo a seguir, pedindo aqui e ali, foi a vez do enorme laranjal, com as Crianças a plantarem a sua própria laranjeira, que acompanhariam no seu crescimento e desenvolvimento. Depois, o espalhar árvores de sombra, por todo aquele espaço, foi obra de semanas. O aspecto daquele terreno modificara-se, Logo para a entrada do enorme pátio, ladeando a rampa de acesso, foi desenhado um jardim, com canteiros e um “lago” para serem construídos pelos pais, nos sábados, domingos de manhã e feriados. Outros aproveitavam mesmo as folgas para darem a sua parte. Que pais!!! - repito… Trabalhavam e arranjavam os materiais. Foi um desatino e, nesse memorável ano lectivo, a escola da Azeda ficou diferente, muito diferente, para melhor. Centenas de plantas, todas pequeninas…
Pois é … aqui é que a “porca torce o rabo”. O entusiasmo inicial esfriava, na medida em que as coisas funcionavam, de molde a tranquilizar os pais; aos sábados éramos cada vez menos e o último canteiro foi acabado já só por dois: eu e o José Godinho, um querido e também grande Amigo meu e da Escola, que a morte tão tragicamente nos roubou.
As plantas estavam lá. Pela experiência vivida noutras escolas, sabia que o Verão, com as férias, era fatal para elas. E o deserto aí estaria, de novo, em Setembro seguinte. Apesar da colocação de mais uma contínua, mesmo com a ajuda das Crianças, sabia-se que manobrar aquela enorme mangueira, 50 metros de plástico de uma polegada de diâmetro, tinha de ser obra de “gigantes”. Já se experimentara isso, quando a Primavera chegara, sobretudo nos meses de Maio e Junho… Sem rega, tudo morreria e nunca se passaria da “cepa torta”…
O nosso Amigo já dera mostras de ser a pessoa de quem a Escola precisava. Sempre que podia, aparecia e colaborava, desinteressadamente. Foi o senhor Fernandes que nos valeu, que me valeu. Eu decidira que aquelas plantas não morreriam. E ele “chegou-se à frente”. Com a esposa, a D. Piedade, sempre a não contar os minutos, as horas, os dias, as semanas que deram à Escola. No ano lectivo seguinte, fui eleito director, cargo que desempenhei até ser destacado no ME. O senhor Fernandes teve um papel fundamental no crescimento e embelezamento daquela Escola. Os canteiros encheram-se de roseiras, malmequeres e flores diversas, que estavam por todo o lado. As laranjeiras cresceram e deram frutos. Frutos abundantes e deliciosos. Ali se “fez” uma bela figueira que dava figos como nunca comi antes. Nêsperas bem doces. Até lá provei uma banana “maçã” que já não via, desde África. Bananeira que a “esperteza saloia” de quem queria fazer uma horta, sem nunca ter mexido na terra, arrancara. A ignorância, a presunção e a inveja juntas dão resultados desastrosos. Foi difícil perdoar esta barbaridade de uma colega…
Por todo o lado as árvores de sombra foram dando o que tinham para dar. Mimosas, pinheiros, plátanos, choupos, palmeiras. Já nem me lembro de todos os nomes… E o senhor Fernandes, sempre presente. As minhas poucas e breves ausência não eram notadas, pois nada ali falhava. Os cuidados eram sempre os mesmos, como se a Escola fosse a sua própria casa: regar, mondar, cavar, adubar, podar, estrumar… proteger, defender. Ele era o grande amigo de toda aquela vida vegetal. Hastear e retirar a Bandeira Nacional, nos domingos e feriados. Acender e apagar as luzes, ao anoitecer e de manhã, como se a conta da luz fosse paga do seu próprio bolso. Manter aquele espaço com aspecto agradável. A celebração da Missa, na Escola, um serviço à Comunidade Católica, uma ideia sua, que acolhi com agrado. Sempre o salão polivalente, à 2ª. feira, estava como se nada lá tivesse acontecido, no dia anterior. Uma Comunidade bem responsável, a da Azeda. A vigilância e defesa da Escola sempre activa. Quantos desacatos e prejuízos o senhor Fernandes lá evitou. Um homem decidido. Um cidadão respeitado.
Então os anos passavam e ele não envelhecia? Não, homens como ele são "eternos".
Já falei do amigo da Escola… E do meu Amigo?
Costuma-se dizer que, depois de mortos, todos são bons… Não gostaria que se pensasse isso daquilo que vão ler…
Conhecer este Homem grande foi para mim uma sorte e uma dádiva de Deus. A obra que realizei naquela Escola, a certa altura “ex-libris” da Cidade, visitada por professores e educadores de várias nacionalidade, mesmo do Japão, sem o Senhor Fernandes seria impossível. Foi meu braço direito, meu braço esquerdo. Substituiu-me, quase sempre com vantagens, nos trabalhos exteriores, como homem do campo que se orgulhava de ser, para que aquele belo jardim fosse realidade. Com a mangueira, com a enxada, com o sacho, com o ancinho, aquelas belas plantas foram suas filhas. Sempre que nos encontrávamos, o trato era sereno e afável. Dava gosto conversar com ele. Tinha sempre uma história para contar, uma frase para incentivar, um bom conselho para dar. Fui seu confidente. Foi meu confidente, quase um pai. Às seis e meia, fosse qual fosse o trabalho a fazer, aí ele largava tudo, “A minha Maria está à espera para rezarmos o terço”. Homem de Fé, Pai amoroso, Marido extremoso. Amigo insubstituível.
Perguntar-se-á, com razão: “Então a vossa relação era tão perfeita que estavam sempre de acordo?” No que respeita aos interesses da Escola, posso dizer que sim. Como seriam melhor realizados ou conseguidos, nem sempre. Uma pequena história, para ilustrar. No espaço que existe ao fundo dos canteiros, que tantas vezes nos deliciarem com a beleza e cheiro das suas rosas, pensei, um dia, fazer um pequeno recanto de pinheiros mansos. Mesmo atrás do actual gabinete de recepção. Comprei os pinhões, falei com o senhor Fernandes e a sementeira lá se fez. As leis da natureza cumpriram-se, os pinheiros nasceram, lindos, lindos. Confesso que é uma árvore que me encanta. Cerca de duas dezenas, na altura de verem a luz do sol. O tempo foi passando, um ano … dois anos, eles cada vez maiores. Um dia, reparei que teria desaparecido uma meia dúzia deles. Chamei o Senhor Fernandes e perguntei-lhe o que tinha acontecido. “Estavam muito bastos e é preciso desmatá-los”. “Senhor Fernandes, vemo-nos todos os dias, sou o director da escola e devia ter falado comigo”. “Pensei que não fosse preciso…” “Mas é…” No entanto, para arrelia minha, de vez em quando mais um, dois ou três pinheiros “perdiam-se em combate”. Eu quase desesperava, com este desafio. “Ainda há-de ter pinheiros de sobra” – garantia-me quando já eram menos de uma dezena. Em 1990, cessou a minha relação institucional com a Escola, por destacamento pedagógico na DREL. O meu espanto, um dia, foi grande que dei conta que já só havia dois pinheiros. Hoje só lá está um. Enorme, lindo, com uma larga copa, ocupando todo o espaço onde os irmãos nasceram. Realmente, hoje é o pinheiro justo para o tal espaço. Um dia será “pinheiro de sobra”…
José Maria Fernandes Monteiro, sem si, sem a sua ajuda, sem o seu estímulo jamais me teria sido atribuída a “Medalha de Oiro da cidade de Setúbal" pelo Bem que foi esta Escola para a nossa popuplação. Partilho-a, pois, consigo, numa homenagem mais que merecida, que a Escola da Azeda lhe ficou a dever. Muito injusta foi tal falha.
Obrigado, meu Amigo. Acompanhá-lo, à sua última morada, foi um sofrimento. Ficar sem a sua Amizade, uma perda irreparável. Tenho muitas saudades suas. Sabe que nunca o esquecerei. Felizes os filhos que tal Pai tiveram.
À D. Piedade, muito querida Amiga, já tão velhinha e tão doce, aos filhos e netos que permitiram que participasse, nesta obra, reveladora de um grande Pai que tais filhos teve, aqui fica o meu abraço, com enorme gratidão.
António Serrano, no primeiro dia da Quaresma, Quarta-feira de Cinzas de 2009."

Do livro "Um Justo Pater Familias", de Ezequiel Alves Fernandes, ontem vindo a público.

quinta-feira, outubro 01, 2009

Manuel André, um Aluno inesquecível!

Manuel,
O Outono de 1968 entrara, havia duas semanas, quando te conheci. Lá, em Penamacor. Lindo, pequenino, olhar vivo, inteligente. Sentaste-te na primeira carteira, em frente à porta, e lá ficaste nos 3 anos que frequentaste, comigo, a escola primária, da 2ª. à 4ª. classe. Quando alguém não sabia, não podia ou não era capaz o Manuel André... resolvia!
Impecável como Aluno. Excepcional como Pessoa. O filho que todos os Pais desejam criar; o aluno que todos os Professores querem ensinar; o amigo c0m que todos os Colegas sonham brincar. Juntamente com a tua irmã, a Natália, éreis, no meu entender, os melhores alunos da nossa Escola. A magnífica educação dos vossos Pais, gente humilde e boa, foi decisiva para que todos fossem teus amigos.
Mesmo a minha partida para S. Tomé, em 1971, só serviu para nos manter unidos. Regularmente, lá recebia notícias tuas, dos teus colegas, dos antigos alunos - por ti soube da morte do Adriano, tão criança, numa brincadeira com um tractor... - da nossa Vila e seu Concelho. Tinhas apenas 11-12 anos, mas já decidiras bem o que querias.
Quando voltei de África, depois do 25 de Abril, continuei a "seguir-te" e tu a "acompanhar-me". Aluno brilhante em qualquer das escolas que foste frequentando, o teu leque de amigos alargava-se sempre e sempre. Felizmente, no teu grande coração, eu ia conservando o meu lugar. Era uma festa em cada reencontro. Com que alegria me contaste que a tua mana, entrara na Faculdade de Medicina e que era também esse o teu desejo. Bem sei que a situação não ia ser fácil para os teus Pais, com tempos tão diferentes dos de hoje, mas não seria obstáculo que o seu Amor por vós não ultrapassasse. Assim foi. Findava a década de 70 e vós, os dois irmãos, os dois excelentes Alunos, as duas pessoas de Bem, éreis Colegas da mesma Faculdade, a mana no 3º ano e tu um destemido caloiro. Depois, tudo começou a "correr sobre rodas".
Mas... há sempre um mas...
Estávamos da Primavera e a Páscoa calhara a 10 de Abril. Na segunda feira, temos a grande festa do nosso Concelho, em honra de Nossa Senhora do Incenso. Digamos que, por acaso, embora não acredite muito neles, durante a Missa campal, a minha Família ficou ao lado da tua: eu, a minha mulher e os meus filhos; tu, a Natália e os vossos Pais. O coração ficou-me apertado quando reparei na tua cara, com os teus vinte e poucos anos. Falámos. Soube que os estudos estavam um tanto prejudicados. Outro aperto no coração. Não era coisa para ti.
- Ó Manelito, estás tão pálido? Que se passa, meu filho?
- Ó professor, tive aqui um problema de dentes e apanhei uma forte anemia. Mas isto já está no bom caminho. Vai ser coisa para agora passar depressa! Fique tranquilo.
Querido Amigo, tu sabias que não era caso para ficar tranquilo. Mas não quiseste dizer-mo. Sempre valente!
Dois meses depois desloquei-me lá, à nossa Beira, e encontrei o teu Pai, carregado de luto, repentinamente envelhecido, à porta do Jardim municipal.
- Então, Senhor André, quem lhe morreu? O seu Pai? A sua Mãe?
- Morreu o nosso Manuel! - ouvi num sussurro doloroso, pungente, tão sofrido.
- Não!!! - gemi , a custo.
Agarrámo-nos um ao outro e chorámos, convulsivamente. Partilhei com o teu Pai um fardo tão pesado que ele carregava, desde o anterior 25 de Abril. Foi-me dito, depois, que tu sabias que não eu te veria mais. A leucemia não te ia poupar. Duas semanas apenas te separaram da Eternidade em que Deus te quis.
Nós é que ficámos mais pobres: os teus Pais, os teus Amigos, os que seriam teus doentes. Que bem que eles haviam de dizer de ti. Ficou a Natália, a curar por ti e por ela. E por outros que se descuidam com os que tanto precisam.
Manuel, tu sabes que, antes de nos deixares, já eras o meu Aluno preferido. Depois, durante muitas dezenas de anos, foram milhares os que conheci. Lindos, encantadores, reguilas, sossegado, desinquietos, trabalhadores, preguiçosos, educados, malandrecos... Uma imensidão.
Mas tu, Manuel André, foste único para mim, como disse a raposa, no Principezinho, cativaste-me para sempre!
Assim, até ao nosso reencontro, fica a saudade, a admiração do teu velho professor,
António A. Serrano
PS. Olha, Manelito, o Zé Morgas, teu companheiro de carteira, continua um "maluco das motas" e a escrever umas coisas, no seu blog. Passo por lá, de vez em quando, mas tu sabes como ele é. Um dia destes vamos almoçar juntos. Também ele sente saudades tuas...

sexta-feira, setembro 18, 2009

A "Magá" fez um ano!!!

Andávamos um pouco "atordoados" ainda com o nascimento de mais um neto, nesta caso, uma neta, a Madalena, a contar meses, e já o nosso Filho nos telefonava:
- Embora não seja fim dia de semana, não querem vir cá, a Lisboa, soprar a vela e cantar-lhe os parabéns do aninho?
- Sim! - apenas podia ser a resposta pronta e feliz.
Aproveitámos a viagem para irmos reflectindo na rapidez com que o tempo passara e na expectativa de mais uma visita.
O encontro com a menina da festa foi, da parte da bebé, como de costume: uma certa reserva - com a mais velhinha as coisas são mais fáceis! - o abrir das prendas - a Avó é uma "mãos largas" - as "palavrinhas doces" e "miminhos", o pegar ao colo e a festa fica pronta, num instante. Depois, o entusiasmado cantar do "parabéns a você!", o soprar da vela, que sobra para a mana, aliás a que, realmente, deu verdadeira "importância" ao acto.
Ruivinha como a mais velha, as duas são a maior novidade da Família. Calada e persistente, gatinha de um lado para o outro e nada lhe escapa. Consegue, normalmente, o que deseja, sem incomodar ninguém. Pela calada. O que havia de desejar mais, de preferência? Uma peça verde do Lego que fora dado à maninha. Sorrateiramente e... "já cá canta"! Está na mão dela. Em cima!
Começa a escurecer e são horas de regressarmos. Sentimo-nos felizes nestes encontros com as duas Irmãs. A mais crescida fala, fala, fala e canta. Aquele T está complicado.
- Olha, os avós têm de ir embora.
- Po'quê?! - interroga, curiosa e interessada.
Sempre o "po´quê" e o "não quero"...
A resposta foi fácil e convincente. Já é de noite e os avós precisam de ir para a cama. Não será bem assim, mas, nesta idade, "ir para a cama", depois do Sol escurecer, é indiscutível.

terça-feira, setembro 15, 2009

À nossa Mãe



~~~ Quem és ?... ~~~

Quem és tu, ser meu idolatrado,
Que só em sonhos te vejo, se te recordo?!...
Porém, só te sonho, quando acordado,
E só te recordo, se do meu sonho não acordo.

Quem és?! Pergunto à terra, ao céu, ao mar,
Ao vento forte e à leve aragem…
Quem és, e não me canso de perguntar,
Tu que na minha solidão me dás coragem?

Vejo-te, às vezes, na luz da madrugada,
Mais ainda na saudade do sol poente...
Quem és tu, afinal, meu tudo e nada,
Para assim te recordar constantemente?!

Eu creio que tu sabes bem quem eu sou.
E quem tu és, sei-o melhor do que ninguém.
Eu sou a dor no poema que aqui te dou,
E tu, minha força e meu alento, a minha mãe.


Aranhas, 3 de Maio de 2005
Fernando de Almeida Serrano
(Com vénia!)

quarta-feira, setembro 09, 2009

Festa na Aldeia - 2009

8 de Setembro. O Sol já aparecera por detrás da serra das "Pedriças" havia horas. Não era fácil sair do aconchego do quarto protegido da dureza dos seus raios pela grossura das paredes de granito. Levanto, não levanto ... mas o dever venceu a preguiça. Uma devoção firme a Nossa Senhora da Graça ali me levara e havia de ser cumprida. Já na véspera se dera início à celebração da festa da Natividade de Maria com a procissão das velas e a recitação do Rosário. Muita devoção, presença razoável de fiéis. Com a direcção do Pároco, o nosso P. José Joaquim, entusiasta, simpático, delicado na sua alegria de viver. A Banda a acompanhar, sempre com o Povo e o Povo com a Banda. Esta paixão está em todos nós.
A Missa solene havia de ser às 11 horas. Segui atrás da banda, que me passou à porta, até á nossa pequena "catedral". Tantas recordações de um tempo que não mais voltará.
Quis o destino que, lá em cima, no "coro", ocupasse o lugar onde tantas vezes se sentara o meu Pai. Terça-feira. Este apego à celebração da festa no dia próprio revela fidelidade ao calendário litúrgico, mas dá motivo a que muitos não possam estar presentes. As férias já foram, as aulas estão aí e o resultado também: pouco mais de "meia casa"...
Mas voltemos à nossa festa: Missa cantada, presidida pelo nosso Pároco e homilia, bem a propósito, pelo Arcipreste, P. Manuel Toscano. A procissão por um percurso não habitual. Uma novidade para mim. Que daria problemas, com gente menos cordata. Mas tudo bem. A Banda tocava e o Povo cantava: "Nossa Senhora da Graça/ Padroeira desta Aldeia/ A velar pelos seus filhos/ Do inimigo defendei-a." "Nossa Senhora da Graça/ Este amado Povo teu/ Quer, ó Mãe, sempre amar-te cá na Terra/ Com Amor forte e leal/ Que perdura até ao Céu".
Pois. foguetes não houve. Cães para fugirem deles também quase não vi. Nem ouvi.
De tarde, com a Banda a tocar - e bem, com muitos jovens e até crianças - teve lugar o "ramo", onde se leiloaram os frutos da generosidade dos devotos de Nossa Senhora da Graça. Alguns bem apetitosos! E a chegarem a preços bem elevados. Também generosos os que os compraram.
A tarde ia escorrendo com o Sol a escapar-se lá para as bandas da Gardunha, quando ribombaram os primeiros trovões. Ao longe, relâmpagos e nuvens negras. Não demorou muito a cobrirem toda a Aldeia. De repente, a igreja volta a encher-se, como acontecera de manhã. A chuva aí estava. Com ela o cheiro da terra molhada, a primeira deste fim de Verão. Uma bênção para os campos ressequidos. Pelas cinco e meia da tarde, a festa acabara. Mesmo assim, a Banda ainda arranjou coragem para, ordenadamente, descer pela estrada, em direcção à sede, tocando mais uma das suas marchas. Um lindo som que não consigo esquecer.
Almocei com o meu Irmão.

Nascidos em ... 1943

Pois, é já costume. Aproveitando a celebração da festa de Nossa Senhora da Graça, os de 1943 - e foram nascidos quase meia centena - reúnem-se para mais um almoço . A Maria Amélia telefonou-me, na última semana de Agosto: "Olha que, este ano, o almoço é no dia 6, Domingo". "Ó Amélia, dá lá um jeito, que só posso ir nesse dia, à noite, ou segunda, de madrugada". "Vou falar com a malta e depois te digo".
Soube depois que a maior dificuldade fora arranjar um restaurante aberto, à 2ª. feira. Mas aconteceu que havia um, lá em Penha Garcia, "O Freixo".
A viagem durou até tarde e só pela meia-noite pude exclamar "Graças a Deus". De manhã, a Amélia foi a primeira que descobri. A euforia do costume, sempre simpática e bem falante, a pôr-me a par das "últimas" da Aldeia e do "grupo". "O Galucho não pode estar. A Maria Emília está doente". Uma falta importante, pois o meu companheiro de carteira, nos 4 anos da "escola primária", fora o animador sempre disponível das patuscadas anteriores.
Estava-se perto das 13 horas do dia 7, quando nos chegámos à mesa, debaixo de uma "latada", ali mesmo à beirinha de Penha Garcia. Bacalhau e cherne na brasa, batatas no forno, a murro, escalopes de vitela, saladas. Uma delícia de arroz doce. E tudo o mais de modo a deixar satisfeito quem não fosse demasiado exigente. Com o senão das "entradas" pelo fraco, talvez para deixar apetite para o "resto". Não faltaram quadras - ora, deixe-se a qualidade e louve-se a boa vontade!!! - para animar o encontro e até uma chamada pelo tlm. do mais notado ausente a querer, assim, estar "presente".
Nunca entrara em Penha Garcia. Desta vez, ali mesmo a jeito, foi só dispor-me a passear nas suas ruas. Uma agradável surpresa. Gosto muito de Monsanto, bem à vista. Posso dizer que fiquei hesitante em me decidir por uma destas lindas aldeias da nossa Beira.
Recomendo, vivamente, uma visita. Linda, mesmo, esta Penha Garcia.
De regresso, tomei um caminho de modo a beber água numa fonte que me "viu" "andar de gatas", por ali. Fora recentemente canalizada para um parque de merendas, à beira da ribeira. Olhem, estava quente e soube-me - não, não, não foi "a pouco"!!! - soube-me a ... plástico...

sábado, agosto 22, 2009

Um dos meus netos

Passava um pouco das 13 horas. Dia 6 de Agosto. Aeroporto de Lisboa. Sala de desembarque. A espera foi maior do que é habitual. Por fim, surgiram os três, pais e filho. O nosso neto. O Tomás. Só nos víramos meses atrás, presencialmente, ainda bebezinho, numa visita destes avós, pois nascera, pelo Natal passado, lá na disciplinada e bela Alemanha.
Confesso que estava um tanto ansioso por este frente a frente. A Internet ia-nos dando ocasião de nos "vermos", "conversarmos" e estabelecermos laços afectivos. Mas a dúvida permanecia: ele é tão pequenino!!!
Não podia ter corrido melhor. Chegado ao fundo da rampa, nós, os avós, tomámos conta do nosso neto. Foi como se sempre tivéssemos vivido juntos: sorridente, bem disposto, lindo, sociável, uma Criança maravilhosa. Desde aquele momento demos início a um convívio quase permanente. Com os Pais, está cá em casa e é um verdadeiro encanto. Quase não dá trabalho. Nunca conheci uma Criança assim: come, ri, brinca. dorme. É feliz e torna-nos felizes. Estes dias passaram num instante e estão quase a terminar. O Tomás vai diferente. Para melhor. Cresceu por dentro e por fora. Ligeiramente bronzeado - nisso e em tudo os pais são muito cuidadosos - o Tomás cresceu por dentro e por fora. A maneira como ele nos olha, tentando ler dentro de nós, a forma como reage aos nossos mimos, a alegria com que come, toma banho e vai para a cama. E se levanta. E vai passear. E volta para casa. Sempre contente, sempre feliz. Sem dúvida que este Menino "vai à bola comigo". E eu "vou à bola com ele". Neste momento, dorme, sossegadamente, ao nosso cuidado, na sua caminha. Como sempre, preparando-se para um sono de mais de 10 horas. Nunca imaginei ver um "fenómeno" assim. Mas, alegrias quase passadas, surgem as primeiras inquietações: Para quem vou assobiar, na próxima semana? Para quem vai a tua avó cantar e bater palmas? De quem me há-de vir o sorriso mais lindo do mundo???
As saudades já são mais que muitas. Que Deus te abençoe, meu Menino. Até breve, querido Tomás!!!
Para ti, de quem canta muito melhor do que eu... o Zeca. Hás-de ouvir falar dele!!! Canção de embalar...

quinta-feira, julho 23, 2009

A meu Pai


Era já noite cerrada, quando aquele jovem camponês entrava na casa iluminada pela luz da lareira e a de um candeeiro de petróleo. Lavava a cara bonita e viril, as mãos fortes e calosas, os braços robustos e sentava-se no "seu" canto, à lareira. Trabalhara o dia inteiro, desde antes de o sol nascer até depois de se ter escondido, atrás da serra. As vacas, suas amigas e companheiras, haviam sido tratadas e recolhidas, porque o dia seguinte voltaria a ser como o de hoje, o de ontem, sempre a trabalhar aquela terra dura e falsa, que nunca seria a sua. A sua jovem esposa adormecera já o bebé e ia entretendo aquele menino, a caminho dos 4 anos, para que a ceia fosse saboreada pelos três, para que o contacto do Pai com o filho fosse o momento forte de um dia que acabava. O Homem sentava-se no seu banco (tripeça) de cortiça, estendia as mãos para o lume que crepitava no lar, contavam-se as "novidades" de um dia sempre igual a tantos outros, os sorrisos e as palavras tão ansiadas surgiam, invariavelmente:
- Venha cá o meu "Troquenitas!" - era a frase chave de um envolvimento breve mas profundo entre duas pessoas que se amavam, verdadeiramente.
A Criança, como que impelida por mola invisível, saltava do seu assento e ia colocar-se entre os joelhos, já prontos para esta missão, daquele que todo o dia se afadigara para que o essencial não faltasse naquela casa. Num esforço hercúleo, de mãos dadas com aquela jovem Mulher, que fora preparando a refeição que partilhariam, dentro de instantes.
O Garoto apoiava os seus cotovelos nas pernas musculadas do Pai e por ali se ficava, ora sentando-se na esquerda, ora na direita, depois balançando-se, acariciando aquela barba dura e negra, beijando aquele rosto rude e queimado pelo frio, pelo calor, pelo vento de muitos jornadas, ao ar livre, naquela Aldeia da Beira Interior. Piruetas com piruetas, beijos com beijos, voltas e mais voltas tudo aquele jovem Pai suportava, deliciado e compensado de um dia que, desta maneira, assim, deixaria de "ser para esquecer".
- Então, "Troquenitas", portaste-te bem? Brincaste com o mano?
Não havia rádio nem TV. Em Família, conversava-se. Mesmo com as crianças. Era um despejar de perguntas, com respostas espontâneas ou sugeridas, um mostrar de habilidades, um partilhar de carinhos que a Mãe, interrompia:
- Bom, são horas de cear. Deixa o Pai em paz... Já é noite e depois temos de ir para a cama. O Pai tem de se levantar cedo para deitar de comer às vacas. E amanhã é para trabalhar.
Nunca naquela casa se comia sem agradecer a Deus e pedir a Sua Bênção. Ao comer. Ao deitar. Ao levantar. Às Avé-Marias... Pelos que estava, pelos que faltavam, pelos que precisassem...
Feita a sentida oração, era pois tempo de dar forças ao corpo. Ela lavava a loiça, abrindo um espaço pequeno para mais umas mais umas brincadeira . "Vamos deitar que já é tarde, o relógio já bateu as 9" - decidia a Mãe
O Homem acendia então a lanterna de azeite "para ir ao palheiro ver se as vacas estavam bem deitadas"... "não fosse acontecer algum azar com aquelas cordas"...
Quando regressava já a Criança dormia. As Crianças. Duas. Até mais de dez anos depois.
No dia seguinte, as cenas repetir-se-iam. Por poucos anos. O outro, o Amigo e o Rival, preparava-se já, a gatinhar, para ocupar o lugar. Para deleite do Pai. A meninice é sempre fugitiva.
Se o Pai fosse vivo, faria anos HOJE. Muitos. Muitas mais são as saudades de uma infância feliz. Até nas dificuldades. Ali tinha a certeza de que "o dinheiro não dá a Felicidade"... Muito pelo querer deste Homem. O meu único herói.
Obrigado, Pai.

segunda-feira, julho 13, 2009

Na eira - 1

- Ó António, então e ... o pão?
- Olha, Carminda, paguei as rendas - gaguejou ele, que desde o almoço temera aquele "confronto". - Não devemos nada a ninguém...
Primeiro, seguiu-se um silêncio de estupefacção. Depois, a dor, o inconformismo, mesmo a revolta tomaram asas e foi "o fim do mundo". Gritos de desespero, braços ao Céu, num clamor confrangedor, aflitivo, dolorido...
- Que vou dar de comer aos meus filhos?! Que vai ser de nós?! Para onde foi tanto suor?! Tanto trabalho?! Tanto sofrimento!!! Meu Deus! que vai ser de nós? Nossa Senhora da Graça, valei-nos... Ai! Jesus!!! Porque não me levais?!
A Grande Guerra terminara ainda não passara uma dezena de anos. A Europa levantava-se, aos solavancos, das ruínas em que a tornaram. Portugal, poupado em sangue e vidas, não o fora na fome e na miséria. Apesar da enorme mortalidade infantil - Agosto era "o mês dos anjinhos" - a garotada enchia de vida e ruído as ruas da nossa Aldeia. No Verão, dormia-se nos campos, nas choças, nas eiras ou mesmo debaixo de uma oliveira. Até ao ar livre. Para melhor "aproveitar a fresca" num trabalho sem tino nem destino. Os campos eram poucos - e mal distribuídos - para tanta força de braços e tantas bocas para alimentar. Não ficava um recanto por cultivar e a "colheita" era, muitas vezes, NADA!
Para este jovem casal a vida começara com enormes dificuldades, talvez um pouco menores do que para a grande maioria dos outros, seus conterrâneos. Os pais do António tinham umas territas e... 10 filhos. A Carminda, 4 irmãos, órfãos de pai, desde muito novos se "afeiçoaram" a fazer calos nas mãos trabalhando para os outros.
Já a primeira década do seu casamento se concluía e não "passavam da cepa torta". Ao António fora oferecido trabalho nos caminhos de ferro de Moçambique. Tinha a 5ª. classe***, uma raridade, na época, esperto para as letras e números, sem dúvida havia de fazer figura lá para as costas do Índico, desatinava-o um cunhado, casado com a meia-irmã mais velha. As lamúrias da mãe e das irmãs mais novas - eram nove, no total - e os pedidos e promessas do pai foram mais fortes que os incitamentos da Mulher, que se queria libertar, a todo o custo "daquela má vida". Havia de ficar, até à velhice, agarrado à rabiça do arado... Ela também, na sua companhia, até que a morte os separou, por 20 anos de diferença.
A tragédia daquela tarde, na eira, começara dois anos antes. As terras, poucas e mal entregues, nas mãos de meia dúzia. Terra que se visse não havia para os restantes: apenas uns quintalecos e hortejos que não tiravam ninguém da míngua. Os rebanhos eram mais que muitos, não havia pastos para tantos, e braços trabalhar não faltavam. A fome podia sempre aparecer e de subsídios nunca se ouviu falar. Nem 5 tostões para uma aspirina que aliviasse uma qualquer dor de cabeça. Nas mercearias, os escassos bens eram racionados e, às vezes, candongados. Nem giestas sobravam e qualquer carrada de codeços, estevas, rosmaninhos ou de ramos de pinho, lá no Campo Frio ou na Arrochela, da D. Carlota, a bem passar das Aranhas, podia custar 15 ou 20 escudos. Pelo melhor preço. E três "jornais": dois do forneiro, a cortar e a carregar, e o do ganhão, a acomodar no carro de vacas o que se pudesse trazer, "sempre com a morte à frente dos olhos", por aquelas ribanceiras e descampados, com a Espanha bem à vista... Os ricos... sempre a enriquecer. Até lhes pagavam para lhes limpar os terrenos e os pinhais. "Viver não custa..." Sempre foi assim, vida boa para os "espertos"!
A década de 50 já avançava para os seus meados. Correu voz na Aldeia que os P. de Matos queriam arrendar as terras do Vale do Homem, a Tapada da Tenda e a Tapada do Meio, uns 15 hectares. Lá quase a meio caminho para Monsanto... Longe que se fartava. Mas "em tempo de guerra, não se limpam armas". Foi um alarido, no Povoado. Pretendentes mais que muitos, para ganância dos proprietários. Aqueles tontos iam "queimar" as rendas... Em leilão: "Quem dá mais?" A emigração "a salto" estava ainda por descobrir!
Era já noite adiantada, quando ele "entrou pela porta adentro".
- Olha, Minda - quase sussurrou - arrendei as terras do Vale do Homem. Se queremos trabalhar, temos de ter onde! Se arranjarmos umas ovelhas e umas cabras havemos de as levar lá a pastar...
- Mas é tão longe, mais de uma hora de caminho... - falou ela, quase num sussurro.
- É a única saída. Não há mais nada. Temos os garotos e há que tratar deles...
A pergunta, ela quase se recusava a fazê-la. Mas era fatal. Como o destino.
- Então... a renda...
- A renda... - tenta ele esquivar-se. A renda.... mas que renda?
- Estás a querer fugir do importante!!! Quanto é que vamos pagar? - ganhou ela coragem para o questionar.
- Olha, acho que foi um bom negócio. Eram mais que muitos. Os irmãos Costas, o meu primo "Piorreco", que já lá mora perto, o "Baguinha", o meu primo "Batatas", o "Chequim Galucho"... Todos ao mesmo. Uns danados. Parecia que estavam doidos...
Esquecera a sua própria "doideira"...
- Ó António, quantas fanegas?
- Bom... - gagueja ele - acho que foi um preço jeitoso. Éramos muitos e tive que oferecer... tive de me chegar à frente ... 52!!!
Ela acabara de fazer 30 anos. Uma rapariga bem jeitosa, na força da vida. Ele, um pouco mais velho, cheio de energia para fazer o que sempre fizera, trabalhar. No entanto, sentiu-se um gemido de sofrimento e um silêncio embaraçoso. Que era longe, já se sabia. Que daria muito trabalho. De certeza. Que ainda devesse pagar tanto é que não havia sido programado. 52 fanegas a 4 alqueires cada uma e a 20 litros o alqueire era de mais. Os anos travessos. As nossas terras tão "pobres"...
Estava jogado. O resto se veria.
O pequeno rebanho de 40 cabeças veio pelo S. Pedro, ainda na Tapada do Cabeço. Com dinheiro emprestado. A juros. Os lobos haviam de matar 14 desses animais, logo em Fevereiro seguinte, uma mortandade de que nunca houvera notícia...
As terras eram entregues pelo S. Miguel. Estes calendários a não baterem certos... um para os gados e pastores, outro para as terras e "ganhões"...
Outubro chegou, num instante. As tapadas estava de restolho. Alquevar era preciso. Para trás e para a frente, atrás da charrua de ferro puxada pelas vacas tão meigas e valiosas.
- Aí "Morena"! Ai "Cereja". Mete ao rego. Sempre a fazer das tuas. Precisas é o corpo bem coçado. Volta!!!
Como se o seu próprio corpo e o corpo daqueles dóceis seres não estivessem já bem coçados! Mas era a conversa de dias a dias, a seguir uns aos outros, até conseguir revoltear aquela terra, parecendo pouca, para a enorme renda que havia de ser paga, em devido tempo, e muita, muita mesmo para os milhares, centenas de milhares, milhões??? de passos que iriam ser dados para a revoltear, para a seduzir, para a emprenhar, para a fazer parir o sustento da casa. E da casa dos outros. Regos, sempre regos, vai e torna, vai e torna... Um desatino. Talvez com tino.
Levar o rebanho a pastar, naquela lonjura, "mal dava para o desperdício". Arrendaram também a Tapada da Eira, essa sim, ali a dois passos do Povo, com um palheiro e um casinhoto de telha vã e condições mínimas para ser habitado, com enorme desconforto, água de um poço bem grande e a da Ribeira para regar as hortas, capoeira para as galinhas, curral para o porco, bardo para o rebanho... Ali se assentaria o "quartel-general"... Por muitos, muitos anos. Até ao fim!
- Ficas com a Tapada da Eira por ser para ti. Não me esqueço que és afilhado do Sr. José Manuel, que foi meu marido. E não me esqueço de quanto ele gostava de ti!!! - dissera a viúva, de muitas posses e sem filhos, não se esquecendo, na altura da renda, de pedir as 18 fanegas - " também por ser p'ra ti, o preço "justo" eram as 20 e muitos a queriam!!!" - ficando para benefício dela a vinha, o pomar de macieiras e pereiras, as nozes - as nogueiras quase destruíram o melhor terreno de cultura hortícola, na margem da Ribeira - a cortiça e a azeitona.
- Vá, podes apanhar a bolota - condescendeu.
Que muito jeito havia de dar. Para meu desgosto, com a sua apanha!!! Que "seca"... muitas vezes molhada!
- Ah! Os pequenos podem apanhar a fruta que caia ao chão. Não vale abanar... E não toquem nas uvas!!! Nem nos figos!!!
Uma "mãos largas". Nem sempre os "pequenos" foram tão sérios como o eram os Pais. Mas só se é Criança uma vez!!! E aos Pais não se podia dizer tudo. Arranjariam um sarilho dos antigos!
*** Artº. 3º. nº. 11: O Ensino Primário (...) será obrigatório e gratuito. Da 1ª. Constituição Republicana, de 1911.
Em 12.05.1922, Leonardo Coimbra, ministro da Instrução, elabora a 2ª. Reforma do Ensino e decreta o Ensino Primário obrigatório de 5 anos. António aproveitou da melhor maneira esta "abertura" republicana. O Estado Novo passou a Instrução Primária para 4 anos. Para os rapazes. Às Meninas "bastaria" a 3ª. classe!!!
Em 21 de Junho de 1923, o então ministro da Instrução, João José da Conceição Camoesas, apresenta à Câmara dos Deputados uma proposta de reforma do ensino que assentava em 24 bases e o dividia em 3 categorias: Geral, Especial e Superior. A esta proposta deu o nome de Estatuto da Educação Nacional. Nada foi deixado ao acaso e o espírito democrático que professava este político e os ideais de cultivar o espírito, treinar as inteligências, educação para todos, etc., iam de encontro às ideias de António Sérgio, que apoiou, incondicionalmente, esta proposta de reforma e que se opôs aos protestos que surgiram contra ela. São suas as palavras: "Quem conspira contra a reforma medite bem no que vai fazer; porque assume perante o povo a mais tremenda das responsabilidades. Um dia a nação nos há-de julgar.", Carvalho, Rómulo de, História do Ensino em Portugal, Lx, !985, p.p. 703.
(Continua)

quinta-feira, julho 09, 2009

Há cada PADRE!!!

O edifício da que já foi uma Escola frequentada por centenas de Crianças e o da Sede de "A UNIÃO de Aldeia de João Pires" ficam em frente um do outro, com a estrada de permeio, na saída Sul da povoação, em direcção ao concelho de Idanha. Ontem à tarde, de passagem para Medelim, foi grande o meu espanto, ao avistar um bom grupo dos meus conterrâneos - "de certeza" os que ainda se podem mexer, mesmo que com ajuda da bengala, calmamente sentados, à sombra, dando ideia de que algo de diferente estava a acontecer ou ia acontecer. Na brincadeira, digo para a minha Mulher:
- Olha, os "Cucos" ainda estão a festejar os 100 anos da Banda!!!
Com a aproximação, dei-me conta das muitas caras conhecidas e, devido ao meu feitio, não resisti: encostei o carro, saltei para a berma da estrada, cumprimentos para aqui e para ali e perguntei:
- Ó Lai, que "pagode" é este?
Em jeito de explicação, esta Lai era uma das primas favoritas da minha Mãe - e minha também é - andou comigo ao colo e ainda hoje não me atrevo a tratá-la por TU! Respeito grande, Amizade muito maior! Uma grande Mulher, que a vida duramente experimentou. Sempre fiel! Valente, mesmo!!!
- Olha, estamos à espera do Padre Zé Joaquim para a aula de ginástica!!!
"Segurem-me, senão eu caio!!! Padre José Joaquim!!! Aula de ginástica!!! Atletas quase todos mais velhos do que eu!!! Alguns encostados à bengala..." - pensei comigo.
- Ó Prima, deixe-se de brincadeiras e conte-me lá que festa é esta?
- É como te digo! Só não começámos ainda, porque ele foi fazer um funeral à Idanha e deve estar a chegar. Mas ninguém arranca pé.
- Ó Lai, tem de me contar. Esta só mesmo à vista!!!
Conheci o Padre José Joaquim no dia de Páscoa de 2006. Umas semanas antes, constara-me, que após uma longa interrupção, íamos ter as "boas-festas" da Ressurreição. A casa onde nasci fora reinaugurada tempos atrás e a perspectiva de reviver uma cerimónia em que tantas vezes participara, agradava-me sobremaneira e, nessa condição, nos deslocámos para lá. Foi uma tarde inteira de espera ansiosa. A minha Mulher esmerou-se para receber o cortejo pascal com uns miminhos. E "nunca mais era meio-dia", isto é, nunca mais chegava a nossa hora!
Já o Sol desaparecia por detrás do "Barroco Gordo", quando nos passa pela porta de entrada um calmeirão que teve de curvar-se para entrar no nosso Lar. Vira-o na Missa da Ressurreição, mas agora, a nosso lado, era bem maior. Risonho, simpático, bem disposto, desprendia-se dele uma cativante simplicidade, quase infantil, no melhor sentido que esta palavra possa ter. O cortejo há muito que "dera o que tinha para dar". Os mais velhos não aguentaram e os novos não estavam para sacrifícios. Só o Pároco e um acompanhante - que também já "entrara" "na segunda parte" - com a Cruz para dar o Senhor a beijar. Sabíamos que tinha os segundos contados, que não iria comer nem beber nada, mas quis informar-se de quem éramos nós e donde vínhamos e depois "ala, que se faz tarde". Ficou no ar um "incenso" de juventude e bondade - a caldeirinha de água benta já desistira também - quase deixando saudades. Foi um momento único, inesquecível, pela pessoa, pelo gesto, pelo desapego, pelo sacrifício. Pela "ressurreição" de coisas já "enterrradas". Que eu vivera bem por dentro. Estava numa privilegiada posição para avaliar o significado de tal acontecimento. Fiquei-lhe grato. Ficamos-lhe gratos.
Continuei a ouvir falar dele, do Padre José Joaquim. Quase sempre pelas melhores razões, mas por esta eu não esperava. Não esperava mesmo!
- Então ouve! - continuou a minha Prima. O Padre José Joaquim está a tirar o Mestrado em Educação Física. Há uns meses, apresentou lá na Universidade um projecto que era pôr esta gente toda a mexer. Assim, logo que ele chegue, entramos no salão da Banda e é uma festa. Como vês, o interesse é muito e já temos até a promessa de que isto vai continuar, depois do seu Mestrado, se o Senhor Bispo não nos "pregar uma partida". E olha que também venho à Escola, à noite, aprender aquilo para que não tive tempo, quando era mais nova.
Havia um brilho de juvenil encanto nos olhos da minha Lai. Também nos olhos daqueles meus Amigos e conterrâneos, perto de 40. Na sua maioria, Senhoras! Algumas barrigas, mais nos homens, a do meu Amigo Romão quase a ganhar-me. Mas todos com o seu Padre. O seu Padre com todos eles.
Tinha mesmo de seguir em busca de umas "lambarices" da "nossa" terra para fazer mal ao colesterol. Se calhar... fazer "bem". E aos diabetes. Diabretes... um nome mais apropriado. É sempre assim: o que é bom... ou faz mal... ou é pecado!!! Seguia ainda um pouco atordoado com o que vira e ouvira e, um quilómetro percorrido, em sentido contrário, lá na grande curva da primeira ponte, entra, "a matar", "prego a fundo", um pequeno "comercial" branco, de 2 lugares. Mal cabendo lá dentro, ainda reconheço o Padre Zé Joaquim. Ele devia saber que ninguém arredaria pé, aguardando o tempo que fosse preciso. CATIVARA-OS!!! Mas quem gosta de chegar atrasado?!
Ele há cada PADRE!!! Graças a Deus!
PS: No próximo Sábado será o dia da AVALIAÇÃO. UI! A palavra terror dos professores! Estes Alunos briosos e valentes, não vá o diabo tecê-las e "dar chumbo" - afinal há lá coxos e "marrecos" - já estão a preparar o banquete. Com o Professor! De boca doce, claro! Uma sugestão para a Ministra...

sábado, julho 04, 2009

José Afonso, o Silêncio que fala!!!

"O prémio espanhol Memorial LiberPress foi atribuído, este ano, a José Afonso e vai ser entregue, amanhã, numa cerimónia simbólica, na campa do cantor e compositor, no Cemitério da Nossa Senhora da Piedade, em Setúbal.
O prémio é atribuído, desde o ano passado, pela Asociacion LiberPress, com sede em Girona, Espanha, distinguindo, a título póstumo, uma personalidade que tenha lutado pela dignidade e os direitos humanos e cujo percurso de vida possa servir de exemplo à sociedade.
Fonte próxima da Associação disse, hoje, à Lusa que a iniciativa da cerimónia tem a colaboração da Associação José Afonso e da presidência da Câmara de Setúbal, e terá lugar às 11h00.
O acto simbólico de homenagem a José Afonso contará com as presenças de uma delegação da LiberPress, chefiada pelo seu presidente, Carles McCragh, do presidente da Deputation de Girona - que engloba 220 municípios - Enric Vilert, e da presidente da Câmara de Setúbal, Maria das Dores Meira. Também estarão presentes o vice-reitor da Universidade de Aveiro, Manuel Assunção, o presidente da Associação José Afonso, Francisco Fanhais, o jornalista Adelino Gomes, a filha de José Afonso, Helena Afonso, e amigos do cantor.
O prémio Memorial LiberPress é representado por uma placa que será, mais tarde, colocada na Universidade de Aveiro, num pequeno jardim anexo a um edifício onde existe uma livraria e uma sala de espectáculos e exposições.
O cantor e compositor José Afonso, nascido em Aveiro em 1929 e falecido em Setúbal, em 1987, ficou para sempre associado à música popular portuguesa e de intervenção contra a ditadura do Estado Novo.
Com carácter não-governamental, humanitário e sem fins lucrativos, a Associação LiberPress foi criada em Girona, em 1999, para promover a cultura de solidariedade, e procura envolver os meios de comunicação social nesse movimento realizando conferências, debates, exposições e jornadas.
Criado em 2008, o Prémio Memorial LiberPress foi então atribuído à jornalista e fotógrafa de guerra Gerda Taro, uma alemã de origem judia, que morreu num acidente, em 1937, perto de Madrid, durante a retirada das tropas republicanas, quando fazia a cobertura da Guerra Civil de Espanha".
Jornal Público de 03 JUL 2009.
Pois! Convocado pelo noticiário regional da "Rádio Sim", do seu estúdio em Palmela, não poderia deixar de comparecer. A manhã estava quente, ali em baixo a frescura do Rio Azul e, mais longe, a Serra da Arrábida, em todo o seu esplendor.
Conheço o caminho. Cemitério quase deserto, em completo sossego, fácil foi chegar à campa. Parecia ainda mais humilde, com os cravos vermelhos sempre presentes. Fui o primeiro. "Nuestros hermanos" nem parecia que tinham vindo de longe, de tão longe. Logo a seguir. Todos nos entendemos, diversas as línguas utilizadas: português, catalão, castelhano, francês, inglês. Não consegui fazer-me compreender - ou não percebi a resposta... - indagando a forma como surgiu o Zeca indigitado para o Prémio Memorial. Logo no seu 2º. ano. Dedicado aos que morreram. Há outros prémios LiberPress para os que vivem: poesia, fotografia, direitos humanos... Pessoas que se tenham distinguido a tornar o "mundo melhor". Dos Estatutos! Já atribuídos, desde 1999. A Filha de José Afonso, a doce Helena, deu as boas vindas aos presentes e agradeceu mais esta homenagem "ao Zeca"! O Presidente da Associação catalã falou, em Português, de José Afonso. Do significado do seu Silêncio tão expressivo, actual e actuante no que nos escreveu e cantou. O Vice-Reitor da Universidade de Aveiro, cidade onde o Zeca nasceu, a justificar a deslocação da placa comemorativa, ali presente, alusiva ao Prémio, para aquela Escola Superior. José Afonso é o futuro. As duas Tunas académicas da UA acolhem-no e cantam-no. As palavras sentidas, sinceras de Adelino Gomes a evocar o Homem, o Poeta, o Cantor, o Amigo. Falou pela "Associação José Afonso", AJA. A emoção de Francisco Fanhais, o Presidente, não garantia que conseguisse levar as suas palavras até ao fim! Maria de Lurdes Meira, a Presidente do Município setubalense, sábias palavras. Zeca não é de Aveiro, por lá ter nascido, nem é de Setúbal, por aqui ter morrido. José Afonso é cidadão do Mundo.
Não éramos muitos, menos de 40. Poucos para tanto Valor a homenagear. Firmemente, sob a voz sempre linda de Francisco Fanhais, todos cantaram, como podiam e sabiam, mas de coração ao alto, "Grândola, Vila Morena". Grândola, que não quis ou não pode estar presente! Mas devia!!!