sexta-feira, setembro 18, 2009

A "Magá" fez um ano!!!

Andávamos um pouco "atordoados" ainda com o nascimento de mais um neto, nesta caso, uma neta, a Madalena, a contar meses, e já o nosso Filho nos telefonava:
- Embora não seja fim dia de semana, não querem vir cá, a Lisboa, soprar a vela e cantar-lhe os parabéns do aninho?
- Sim! - apenas podia ser a resposta pronta e feliz.
Aproveitámos a viagem para irmos reflectindo na rapidez com que o tempo passara e na expectativa de mais uma visita.
O encontro com a menina da festa foi, da parte da bebé, como de costume: uma certa reserva - com a mais velhinha as coisas são mais fáceis! - o abrir das prendas - a Avó é uma "mãos largas" - as "palavrinhas doces" e "miminhos", o pegar ao colo e a festa fica pronta, num instante. Depois, o entusiasmado cantar do "parabéns a você!", o soprar da vela, que sobra para a mana, aliás a que, realmente, deu verdadeira "importância" ao acto.
Ruivinha como a mais velha, as duas são a maior novidade da Família. Calada e persistente, gatinha de um lado para o outro e nada lhe escapa. Consegue, normalmente, o que deseja, sem incomodar ninguém. Pela calada. O que havia de desejar mais, de preferência? Uma peça verde do Lego que fora dado à maninha. Sorrateiramente e... "já cá canta"! Está na mão dela. Em cima!
Começa a escurecer e são horas de regressarmos. Sentimo-nos felizes nestes encontros com as duas Irmãs. A mais crescida fala, fala, fala e canta. Aquele T está complicado.
- Olha, os avós têm de ir embora.
- Po'quê?! - interroga, curiosa e interessada.
Sempre o "po´quê" e o "não quero"...
A resposta foi fácil e convincente. Já é de noite e os avós precisam de ir para a cama. Não será bem assim, mas, nesta idade, "ir para a cama", depois do Sol escurecer, é indiscutível.

terça-feira, setembro 15, 2009

À nossa Mãe



~~~ Quem és ?... ~~~

Quem és tu, ser meu idolatrado,
Que só em sonhos te vejo, se te recordo?!...
Porém, só te sonho, quando acordado,
E só te recordo, se do meu sonho não acordo.

Quem és?! Pergunto à terra, ao céu, ao mar,
Ao vento forte e à leve aragem…
Quem és, e não me canso de perguntar,
Tu que na minha solidão me dás coragem?

Vejo-te, às vezes, na luz da madrugada,
Mais ainda na saudade do sol poente...
Quem és tu, afinal, meu tudo e nada,
Para assim te recordar constantemente?!

Eu creio que tu sabes bem quem eu sou.
E quem tu és, sei-o melhor do que ninguém.
Eu sou a dor no poema que aqui te dou,
E tu, minha força e meu alento, a minha mãe.


Aranhas, 3 de Maio de 2005
Fernando de Almeida Serrano
(Com vénia!)

quarta-feira, setembro 09, 2009

Festa na Aldeia - 2009

8 de Setembro. O Sol já aparecera por detrás da serra das "Pedriças" havia horas. Não era fácil sair do aconchego do quarto protegido da dureza dos seus raios pela grossura das paredes de granito. Levanto, não levanto ... mas o dever venceu a preguiça. Uma devoção firme a Nossa Senhora da Graça ali me levara e havia de ser cumprida. Já na véspera se dera início à celebração da festa da Natividade de Maria com a procissão das velas e a recitação do Rosário. Muita devoção, presença razoável de fiéis. Com a direcção do Pároco, o nosso P. José Joaquim, entusiasta, simpático, delicado na sua alegria de viver. A Banda a acompanhar, sempre com o Povo e o Povo com a Banda. Esta paixão está em todos nós.
A Missa solene havia de ser às 11 horas. Segui atrás da banda, que me passou à porta, até á nossa pequena "catedral". Tantas recordações de um tempo que não mais voltará.
Quis o destino que, lá em cima, no "coro", ocupasse o lugar onde tantas vezes se sentara o meu Pai. Terça-feira. Este apego à celebração da festa no dia próprio revela fidelidade ao calendário litúrgico, mas dá motivo a que muitos não possam estar presentes. As férias já foram, as aulas estão aí e o resultado também: pouco mais de "meia casa"...
Mas voltemos à nossa festa: Missa cantada, presidida pelo nosso Pároco e homilia, bem a propósito, pelo Arcipreste, P. Manuel Toscano. A procissão por um percurso não habitual. Uma novidade para mim. Que daria problemas, com gente menos cordata. Mas tudo bem. A Banda tocava e o Povo cantava: "Nossa Senhora da Graça/ Padroeira desta Aldeia/ A velar pelos seus filhos/ Do inimigo defendei-a." "Nossa Senhora da Graça/ Este amado Povo teu/ Quer, ó Mãe, sempre amar-te cá na Terra/ Com Amor forte e leal/ Que perdura até ao Céu".
Pois. foguetes não houve. Cães para fugirem deles também quase não vi. Nem ouvi.
De tarde, com a Banda a tocar - e bem, com muitos jovens e até crianças - teve lugar o "ramo", onde se leiloaram os frutos da generosidade dos devotos de Nossa Senhora da Graça. Alguns bem apetitosos! E a chegarem a preços bem elevados. Também generosos os que os compraram.
A tarde ia escorrendo com o Sol a escapar-se lá para as bandas da Gardunha, quando ribombaram os primeiros trovões. Ao longe, relâmpagos e nuvens negras. Não demorou muito a cobrirem toda a Aldeia. De repente, a igreja volta a encher-se, como acontecera de manhã. A chuva aí estava. Com ela o cheiro da terra molhada, a primeira deste fim de Verão. Uma bênção para os campos ressequidos. Pelas cinco e meia da tarde, a festa acabara. Mesmo assim, a Banda ainda arranjou coragem para, ordenadamente, descer pela estrada, em direcção à sede, tocando mais uma das suas marchas. Um lindo som que não consigo esquecer.
Almocei com o meu Irmão.

Nascidos em ... 1943

Pois, é já costume. Aproveitando a celebração da festa de Nossa Senhora da Graça, os de 1943 - e foram nascidos quase meia centena - reúnem-se para mais um almoço . A Maria Amélia telefonou-me, na última semana de Agosto: "Olha que, este ano, o almoço é no dia 6, Domingo". "Ó Amélia, dá lá um jeito, que só posso ir nesse dia, à noite, ou segunda, de madrugada". "Vou falar com a malta e depois te digo".
Soube depois que a maior dificuldade fora arranjar um restaurante aberto, à 2ª. feira. Mas aconteceu que havia um, lá em Penha Garcia, "O Freixo".
A viagem durou até tarde e só pela meia-noite pude exclamar "Graças a Deus". De manhã, a Amélia foi a primeira que descobri. A euforia do costume, sempre simpática e bem falante, a pôr-me a par das "últimas" da Aldeia e do "grupo". "O Galucho não pode estar. A Maria Emília está doente". Uma falta importante, pois o meu companheiro de carteira, nos 4 anos da "escola primária", fora o animador sempre disponível das patuscadas anteriores.
Estava-se perto das 13 horas do dia 7, quando nos chegámos à mesa, debaixo de uma "latada", ali mesmo à beirinha de Penha Garcia. Bacalhau e cherne na brasa, batatas no forno, a murro, escalopes de vitela, saladas. Uma delícia de arroz doce. E tudo o mais de modo a deixar satisfeito quem não fosse demasiado exigente. Com o senão das "entradas" pelo fraco, talvez para deixar apetite para o "resto". Não faltaram quadras - ora, deixe-se a qualidade e louve-se a boa vontade!!! - para animar o encontro e até uma chamada pelo tlm. do mais notado ausente a querer, assim, estar "presente".
Nunca entrara em Penha Garcia. Desta vez, ali mesmo a jeito, foi só dispor-me a passear nas suas ruas. Uma agradável surpresa. Gosto muito de Monsanto, bem à vista. Posso dizer que fiquei hesitante em me decidir por uma destas lindas aldeias da nossa Beira.
Recomendo, vivamente, uma visita. Linda, mesmo, esta Penha Garcia.
De regresso, tomei um caminho de modo a beber água numa fonte que me "viu" "andar de gatas", por ali. Fora recentemente canalizada para um parque de merendas, à beira da ribeira. Olhem, estava quente e soube-me - não, não, não foi "a pouco"!!! - soube-me a ... plástico...

sábado, agosto 22, 2009

Um dos meus netos

Passava um pouco das 13 horas. Dia 6 de Agosto. Aeroporto de Lisboa. Sala de desembarque. A espera foi maior do que é habitual. Por fim, surgiram os três, pais e filho. O nosso neto. O Tomás. Só nos víramos meses atrás, presencialmente, ainda bebezinho, numa visita destes avós, pois nascera, pelo Natal passado, lá na disciplinada e bela Alemanha.
Confesso que estava um tanto ansioso por este frente a frente. A Internet ia-nos dando ocasião de nos "vermos", "conversarmos" e estabelecermos laços afectivos. Mas a dúvida permanecia: ele é tão pequenino!!!
Não podia ter corrido melhor. Chegado ao fundo da rampa, nós, os avós, tomámos conta do nosso neto. Foi como se sempre tivéssemos vivido juntos: sorridente, bem disposto, lindo, sociável, uma Criança maravilhosa. Desde aquele momento demos início a um convívio quase permanente. Com os Pais, está cá em casa e é um verdadeiro encanto. Quase não dá trabalho. Nunca conheci uma Criança assim: come, ri, brinca. dorme. É feliz e torna-nos felizes. Estes dias passaram num instante e estão quase a terminar. O Tomás vai diferente. Para melhor. Cresceu por dentro e por fora. Ligeiramente bronzeado - nisso e em tudo os pais são muito cuidadosos - o Tomás cresceu por dentro e por fora. A maneira como ele nos olha, tentando ler dentro de nós, a forma como reage aos nossos mimos, a alegria com que come, toma banho e vai para a cama. E se levanta. E vai passear. E volta para casa. Sempre contente, sempre feliz. Sem dúvida que este Menino "vai à bola comigo". E eu "vou à bola com ele". Neste momento, dorme, sossegadamente, ao nosso cuidado, na sua caminha. Como sempre, preparando-se para um sono de mais de 10 horas. Nunca imaginei ver um "fenómeno" assim. Mas, alegrias quase passadas, surgem as primeiras inquietações: Para quem vou assobiar, na próxima semana? Para quem vai a tua avó cantar e bater palmas? De quem me há-de vir o sorriso mais lindo do mundo???
As saudades já são mais que muitas. Que Deus te abençoe, meu Menino. Até breve, querido Tomás!!!
Para ti, de quem canta muito melhor do que eu... o Zeca. Hás-de ouvir falar dele!!! Canção de embalar...

quinta-feira, julho 23, 2009

A meu Pai


Era já noite cerrada, quando aquele jovem camponês entrava na casa iluminada pela luz da lareira e a de um candeeiro de petróleo. Lavava a cara bonita e viril, as mãos fortes e calosas, os braços robustos e sentava-se no "seu" canto, à lareira. Trabalhara o dia inteiro, desde antes de o sol nascer até depois de se ter escondido, atrás da serra. As vacas, suas amigas e companheiras, haviam sido tratadas e recolhidas, porque o dia seguinte voltaria a ser como o de hoje, o de ontem, sempre a trabalhar aquela terra dura e falsa, que nunca seria a sua. A sua jovem esposa adormecera já o bebé e ia entretendo aquele menino, a caminho dos 4 anos, para que a ceia fosse saboreada pelos três, para que o contacto do Pai com o filho fosse o momento forte de um dia que acabava. O Homem sentava-se no seu banco (tripeça) de cortiça, estendia as mãos para o lume que crepitava no lar, contavam-se as "novidades" de um dia sempre igual a tantos outros, os sorrisos e as palavras tão ansiadas surgiam, invariavelmente:
- Venha cá o meu "Troquenitas!" - era a frase chave de um envolvimento breve mas profundo entre duas pessoas que se amavam, verdadeiramente.
A Criança, como que impelida por mola invisível, saltava do seu assento e ia colocar-se entre os joelhos, já prontos para esta missão, daquele que todo o dia se afadigara para que o essencial não faltasse naquela casa. Num esforço hercúleo, de mãos dadas com aquela jovem Mulher, que fora preparando a refeição que partilhariam, dentro de instantes.
O Garoto apoiava os seus cotovelos nas pernas musculadas do Pai e por ali se ficava, ora sentando-se na esquerda, ora na direita, depois balançando-se, acariciando aquela barba dura e negra, beijando aquele rosto rude e queimado pelo frio, pelo calor, pelo vento de muitos jornadas, ao ar livre, naquela Aldeia da Beira Interior. Piruetas com piruetas, beijos com beijos, voltas e mais voltas tudo aquele jovem Pai suportava, deliciado e compensado de um dia que, desta maneira, assim, deixaria de "ser para esquecer".
- Então, "Troquenitas", portaste-te bem? Brincaste com o mano?
Não havia rádio nem TV. Em Família, conversava-se. Mesmo com as crianças. Era um despejar de perguntas, com respostas espontâneas ou sugeridas, um mostrar de habilidades, um partilhar de carinhos que a Mãe, interrompia:
- Bom, são horas de cear. Deixa o Pai em paz... Já é noite e depois temos de ir para a cama. O Pai tem de se levantar cedo para deitar de comer às vacas. E amanhã é para trabalhar.
Nunca naquela casa se comia sem agradecer a Deus e pedir a Sua Bênção. Ao comer. Ao deitar. Ao levantar. Às Avé-Marias... Pelos que estava, pelos que faltavam, pelos que precisassem...
Feita a sentida oração, era pois tempo de dar forças ao corpo. Ela lavava a loiça, abrindo um espaço pequeno para mais umas mais umas brincadeira . "Vamos deitar que já é tarde, o relógio já bateu as 9" - decidia a Mãe
O Homem acendia então a lanterna de azeite "para ir ao palheiro ver se as vacas estavam bem deitadas"... "não fosse acontecer algum azar com aquelas cordas"...
Quando regressava já a Criança dormia. As Crianças. Duas. Até mais de dez anos depois.
No dia seguinte, as cenas repetir-se-iam. Por poucos anos. O outro, o Amigo e o Rival, preparava-se já, a gatinhar, para ocupar o lugar. Para deleite do Pai. A meninice é sempre fugitiva.
Se o Pai fosse vivo, faria anos HOJE. Muitos. Muitas mais são as saudades de uma infância feliz. Até nas dificuldades. Ali tinha a certeza de que "o dinheiro não dá a Felicidade"... Muito pelo querer deste Homem. O meu único herói.
Obrigado, Pai.

segunda-feira, julho 13, 2009

Na eira - 1

- Ó António, então e ... o pão?
- Olha, Carminda, paguei as rendas - gaguejou ele, que desde o almoço temera aquele "confronto". - Não devemos nada a ninguém...
Primeiro, seguiu-se um silêncio de estupefacção. Depois, a dor, o inconformismo, mesmo a revolta tomaram asas e foi "o fim do mundo". Gritos de desespero, braços ao Céu, num clamor confrangedor, aflitivo, dolorido...
- Que vou dar de comer aos meus filhos?! Que vai ser de nós?! Para onde foi tanto suor?! Tanto trabalho?! Tanto sofrimento!!! Meu Deus! que vai ser de nós? Nossa Senhora da Graça, valei-nos... Ai! Jesus!!! Porque não me levais?!
A Grande Guerra terminara ainda não passara uma dezena de anos. A Europa levantava-se, aos solavancos, das ruínas em que a tornaram. Portugal, poupado em sangue e vidas, não o fora na fome e na miséria. Apesar da enorme mortalidade infantil - Agosto era "o mês dos anjinhos" - a garotada enchia de vida e ruído as ruas da nossa Aldeia. No Verão, dormia-se nos campos, nas choças, nas eiras ou mesmo debaixo de uma oliveira. Até ao ar livre. Para melhor "aproveitar a fresca" num trabalho sem tino nem destino. Os campos eram poucos - e mal distribuídos - para tanta força de braços e tantas bocas para alimentar. Não ficava um recanto por cultivar e a "colheita" era, muitas vezes, NADA!
Para este jovem casal a vida começara com enormes dificuldades, talvez um pouco menores do que para a grande maioria dos outros, seus conterrâneos. Os pais do António tinham umas territas e... 10 filhos. A Carminda, 4 irmãos, órfãos de pai, desde muito novos se "afeiçoaram" a fazer calos nas mãos trabalhando para os outros.
Já a primeira década do seu casamento se concluía e não "passavam da cepa torta". Ao António fora oferecido trabalho nos caminhos de ferro de Moçambique. Tinha a 5ª. classe***, uma raridade, na época, esperto para as letras e números, sem dúvida havia de fazer figura lá para as costas do Índico, desatinava-o um cunhado, casado com a meia-irmã mais velha. As lamúrias da mãe e das irmãs mais novas - eram nove, no total - e os pedidos e promessas do pai foram mais fortes que os incitamentos da Mulher, que se queria libertar, a todo o custo "daquela má vida". Havia de ficar, até à velhice, agarrado à rabiça do arado... Ela também, na sua companhia, até que a morte os separou, por 20 anos de diferença.
A tragédia daquela tarde, na eira, começara dois anos antes. As terras, poucas e mal entregues, nas mãos de meia dúzia. Terra que se visse não havia para os restantes: apenas uns quintalecos e hortejos que não tiravam ninguém da míngua. Os rebanhos eram mais que muitos, não havia pastos para tantos, e braços trabalhar não faltavam. A fome podia sempre aparecer e de subsídios nunca se ouviu falar. Nem 5 tostões para uma aspirina que aliviasse uma qualquer dor de cabeça. Nas mercearias, os escassos bens eram racionados e, às vezes, candongados. Nem giestas sobravam e qualquer carrada de codeços, estevas, rosmaninhos ou de ramos de pinho, lá no Campo Frio ou na Arrochela, da D. Carlota, a bem passar das Aranhas, podia custar 15 ou 20 escudos. Pelo melhor preço. E três "jornais": dois do forneiro, a cortar e a carregar, e o do ganhão, a acomodar no carro de vacas o que se pudesse trazer, "sempre com a morte à frente dos olhos", por aquelas ribanceiras e descampados, com a Espanha bem à vista... Os ricos... sempre a enriquecer. Até lhes pagavam para lhes limpar os terrenos e os pinhais. "Viver não custa..." Sempre foi assim, vida boa para os "espertos"!
A década de 50 já avançava para os seus meados. Correu voz na Aldeia que os P. de Matos queriam arrendar as terras do Vale do Homem, a Tapada da Tenda e a Tapada do Meio, uns 15 hectares. Lá quase a meio caminho para Monsanto... Longe que se fartava. Mas "em tempo de guerra, não se limpam armas". Foi um alarido, no Povoado. Pretendentes mais que muitos, para ganância dos proprietários. Aqueles tontos iam "queimar" as rendas... Em leilão: "Quem dá mais?" A emigração "a salto" estava ainda por descobrir!
Era já noite adiantada, quando ele "entrou pela porta adentro".
- Olha, Minda - quase sussurrou - arrendei as terras do Vale do Homem. Se queremos trabalhar, temos de ter onde! Se arranjarmos umas ovelhas e umas cabras havemos de as levar lá a pastar...
- Mas é tão longe, mais de uma hora de caminho... - falou ela, quase num sussurro.
- É a única saída. Não há mais nada. Temos os garotos e há que tratar deles...
A pergunta, ela quase se recusava a fazê-la. Mas era fatal. Como o destino.
- Então... a renda...
- A renda... - tenta ele esquivar-se. A renda.... mas que renda?
- Estás a querer fugir do importante!!! Quanto é que vamos pagar? - ganhou ela coragem para o questionar.
- Olha, acho que foi um bom negócio. Eram mais que muitos. Os irmãos Costas, o meu primo "Piorreco", que já lá mora perto, o "Baguinha", o meu primo "Batatas", o "Chequim Galucho"... Todos ao mesmo. Uns danados. Parecia que estavam doidos...
Esquecera a sua própria "doideira"...
- Ó António, quantas fanegas?
- Bom... - gagueja ele - acho que foi um preço jeitoso. Éramos muitos e tive que oferecer... tive de me chegar à frente ... 52!!!
Ela acabara de fazer 30 anos. Uma rapariga bem jeitosa, na força da vida. Ele, um pouco mais velho, cheio de energia para fazer o que sempre fizera, trabalhar. No entanto, sentiu-se um gemido de sofrimento e um silêncio embaraçoso. Que era longe, já se sabia. Que daria muito trabalho. De certeza. Que ainda devesse pagar tanto é que não havia sido programado. 52 fanegas a 4 alqueires cada uma e a 20 litros o alqueire era de mais. Os anos travessos. As nossas terras tão "pobres"...
Estava jogado. O resto se veria.
O pequeno rebanho de 40 cabeças veio pelo S. Pedro, ainda na Tapada do Cabeço. Com dinheiro emprestado. A juros. Os lobos haviam de matar 14 desses animais, logo em Fevereiro seguinte, uma mortandade de que nunca houvera notícia...
As terras eram entregues pelo S. Miguel. Estes calendários a não baterem certos... um para os gados e pastores, outro para as terras e "ganhões"...
Outubro chegou, num instante. As tapadas estava de restolho. Alquevar era preciso. Para trás e para a frente, atrás da charrua de ferro puxada pelas vacas tão meigas e valiosas.
- Aí "Morena"! Ai "Cereja". Mete ao rego. Sempre a fazer das tuas. Precisas é o corpo bem coçado. Volta!!!
Como se o seu próprio corpo e o corpo daqueles dóceis seres não estivessem já bem coçados! Mas era a conversa de dias a dias, a seguir uns aos outros, até conseguir revoltear aquela terra, parecendo pouca, para a enorme renda que havia de ser paga, em devido tempo, e muita, muita mesmo para os milhares, centenas de milhares, milhões??? de passos que iriam ser dados para a revoltear, para a seduzir, para a emprenhar, para a fazer parir o sustento da casa. E da casa dos outros. Regos, sempre regos, vai e torna, vai e torna... Um desatino. Talvez com tino.
Levar o rebanho a pastar, naquela lonjura, "mal dava para o desperdício". Arrendaram também a Tapada da Eira, essa sim, ali a dois passos do Povo, com um palheiro e um casinhoto de telha vã e condições mínimas para ser habitado, com enorme desconforto, água de um poço bem grande e a da Ribeira para regar as hortas, capoeira para as galinhas, curral para o porco, bardo para o rebanho... Ali se assentaria o "quartel-general"... Por muitos, muitos anos. Até ao fim!
- Ficas com a Tapada da Eira por ser para ti. Não me esqueço que és afilhado do Sr. José Manuel, que foi meu marido. E não me esqueço de quanto ele gostava de ti!!! - dissera a viúva, de muitas posses e sem filhos, não se esquecendo, na altura da renda, de pedir as 18 fanegas - " também por ser p'ra ti, o preço "justo" eram as 20 e muitos a queriam!!!" - ficando para benefício dela a vinha, o pomar de macieiras e pereiras, as nozes - as nogueiras quase destruíram o melhor terreno de cultura hortícola, na margem da Ribeira - a cortiça e a azeitona.
- Vá, podes apanhar a bolota - condescendeu.
Que muito jeito havia de dar. Para meu desgosto, com a sua apanha!!! Que "seca"... muitas vezes molhada!
- Ah! Os pequenos podem apanhar a fruta que caia ao chão. Não vale abanar... E não toquem nas uvas!!! Nem nos figos!!!
Uma "mãos largas". Nem sempre os "pequenos" foram tão sérios como o eram os Pais. Mas só se é Criança uma vez!!! E aos Pais não se podia dizer tudo. Arranjariam um sarilho dos antigos!
*** Artº. 3º. nº. 11: O Ensino Primário (...) será obrigatório e gratuito. Da 1ª. Constituição Republicana, de 1911.
Em 12.05.1922, Leonardo Coimbra, ministro da Instrução, elabora a 2ª. Reforma do Ensino e decreta o Ensino Primário obrigatório de 5 anos. António aproveitou da melhor maneira esta "abertura" republicana. O Estado Novo passou a Instrução Primária para 4 anos. Para os rapazes. Às Meninas "bastaria" a 3ª. classe!!!
Em 21 de Junho de 1923, o então ministro da Instrução, João José da Conceição Camoesas, apresenta à Câmara dos Deputados uma proposta de reforma do ensino que assentava em 24 bases e o dividia em 3 categorias: Geral, Especial e Superior. A esta proposta deu o nome de Estatuto da Educação Nacional. Nada foi deixado ao acaso e o espírito democrático que professava este político e os ideais de cultivar o espírito, treinar as inteligências, educação para todos, etc., iam de encontro às ideias de António Sérgio, que apoiou, incondicionalmente, esta proposta de reforma e que se opôs aos protestos que surgiram contra ela. São suas as palavras: "Quem conspira contra a reforma medite bem no que vai fazer; porque assume perante o povo a mais tremenda das responsabilidades. Um dia a nação nos há-de julgar.", Carvalho, Rómulo de, História do Ensino em Portugal, Lx, !985, p.p. 703.
(Continua)

quinta-feira, julho 09, 2009

Há cada PADRE!!!

O edifício da que já foi uma Escola frequentada por centenas de Crianças e o da Sede de "A UNIÃO de Aldeia de João Pires" ficam em frente um do outro, com a estrada de permeio, na saída Sul da povoação, em direcção ao concelho de Idanha. Ontem à tarde, de passagem para Medelim, foi grande o meu espanto, ao avistar um bom grupo dos meus conterrâneos - "de certeza" os que ainda se podem mexer, mesmo que com ajuda da bengala, calmamente sentados, à sombra, dando ideia de que algo de diferente estava a acontecer ou ia acontecer. Na brincadeira, digo para a minha Mulher:
- Olha, os "Cucos" ainda estão a festejar os 100 anos da Banda!!!
Com a aproximação, dei-me conta das muitas caras conhecidas e, devido ao meu feitio, não resisti: encostei o carro, saltei para a berma da estrada, cumprimentos para aqui e para ali e perguntei:
- Ó Lai, que "pagode" é este?
Em jeito de explicação, esta Lai era uma das primas favoritas da minha Mãe - e minha também é - andou comigo ao colo e ainda hoje não me atrevo a tratá-la por TU! Respeito grande, Amizade muito maior! Uma grande Mulher, que a vida duramente experimentou. Sempre fiel! Valente, mesmo!!!
- Olha, estamos à espera do Padre Zé Joaquim para a aula de ginástica!!!
"Segurem-me, senão eu caio!!! Padre José Joaquim!!! Aula de ginástica!!! Atletas quase todos mais velhos do que eu!!! Alguns encostados à bengala..." - pensei comigo.
- Ó Prima, deixe-se de brincadeiras e conte-me lá que festa é esta?
- É como te digo! Só não começámos ainda, porque ele foi fazer um funeral à Idanha e deve estar a chegar. Mas ninguém arranca pé.
- Ó Lai, tem de me contar. Esta só mesmo à vista!!!
Conheci o Padre José Joaquim no dia de Páscoa de 2006. Umas semanas antes, constara-me, que após uma longa interrupção, íamos ter as "boas-festas" da Ressurreição. A casa onde nasci fora reinaugurada tempos atrás e a perspectiva de reviver uma cerimónia em que tantas vezes participara, agradava-me sobremaneira e, nessa condição, nos deslocámos para lá. Foi uma tarde inteira de espera ansiosa. A minha Mulher esmerou-se para receber o cortejo pascal com uns miminhos. E "nunca mais era meio-dia", isto é, nunca mais chegava a nossa hora!
Já o Sol desaparecia por detrás do "Barroco Gordo", quando nos passa pela porta de entrada um calmeirão que teve de curvar-se para entrar no nosso Lar. Vira-o na Missa da Ressurreição, mas agora, a nosso lado, era bem maior. Risonho, simpático, bem disposto, desprendia-se dele uma cativante simplicidade, quase infantil, no melhor sentido que esta palavra possa ter. O cortejo há muito que "dera o que tinha para dar". Os mais velhos não aguentaram e os novos não estavam para sacrifícios. Só o Pároco e um acompanhante - que também já "entrara" "na segunda parte" - com a Cruz para dar o Senhor a beijar. Sabíamos que tinha os segundos contados, que não iria comer nem beber nada, mas quis informar-se de quem éramos nós e donde vínhamos e depois "ala, que se faz tarde". Ficou no ar um "incenso" de juventude e bondade - a caldeirinha de água benta já desistira também - quase deixando saudades. Foi um momento único, inesquecível, pela pessoa, pelo gesto, pelo desapego, pelo sacrifício. Pela "ressurreição" de coisas já "enterrradas". Que eu vivera bem por dentro. Estava numa privilegiada posição para avaliar o significado de tal acontecimento. Fiquei-lhe grato. Ficamos-lhe gratos.
Continuei a ouvir falar dele, do Padre José Joaquim. Quase sempre pelas melhores razões, mas por esta eu não esperava. Não esperava mesmo!
- Então ouve! - continuou a minha Prima. O Padre José Joaquim está a tirar o Mestrado em Educação Física. Há uns meses, apresentou lá na Universidade um projecto que era pôr esta gente toda a mexer. Assim, logo que ele chegue, entramos no salão da Banda e é uma festa. Como vês, o interesse é muito e já temos até a promessa de que isto vai continuar, depois do seu Mestrado, se o Senhor Bispo não nos "pregar uma partida". E olha que também venho à Escola, à noite, aprender aquilo para que não tive tempo, quando era mais nova.
Havia um brilho de juvenil encanto nos olhos da minha Lai. Também nos olhos daqueles meus Amigos e conterrâneos, perto de 40. Na sua maioria, Senhoras! Algumas barrigas, mais nos homens, a do meu Amigo Romão quase a ganhar-me. Mas todos com o seu Padre. O seu Padre com todos eles.
Tinha mesmo de seguir em busca de umas "lambarices" da "nossa" terra para fazer mal ao colesterol. Se calhar... fazer "bem". E aos diabetes. Diabretes... um nome mais apropriado. É sempre assim: o que é bom... ou faz mal... ou é pecado!!! Seguia ainda um pouco atordoado com o que vira e ouvira e, um quilómetro percorrido, em sentido contrário, lá na grande curva da primeira ponte, entra, "a matar", "prego a fundo", um pequeno "comercial" branco, de 2 lugares. Mal cabendo lá dentro, ainda reconheço o Padre Zé Joaquim. Ele devia saber que ninguém arredaria pé, aguardando o tempo que fosse preciso. CATIVARA-OS!!! Mas quem gosta de chegar atrasado?!
Ele há cada PADRE!!! Graças a Deus!
PS: No próximo Sábado será o dia da AVALIAÇÃO. UI! A palavra terror dos professores! Estes Alunos briosos e valentes, não vá o diabo tecê-las e "dar chumbo" - afinal há lá coxos e "marrecos" - já estão a preparar o banquete. Com o Professor! De boca doce, claro! Uma sugestão para a Ministra...

sábado, julho 04, 2009

José Afonso, o Silêncio que fala!!!

"O prémio espanhol Memorial LiberPress foi atribuído, este ano, a José Afonso e vai ser entregue, amanhã, numa cerimónia simbólica, na campa do cantor e compositor, no Cemitério da Nossa Senhora da Piedade, em Setúbal.
O prémio é atribuído, desde o ano passado, pela Asociacion LiberPress, com sede em Girona, Espanha, distinguindo, a título póstumo, uma personalidade que tenha lutado pela dignidade e os direitos humanos e cujo percurso de vida possa servir de exemplo à sociedade.
Fonte próxima da Associação disse, hoje, à Lusa que a iniciativa da cerimónia tem a colaboração da Associação José Afonso e da presidência da Câmara de Setúbal, e terá lugar às 11h00.
O acto simbólico de homenagem a José Afonso contará com as presenças de uma delegação da LiberPress, chefiada pelo seu presidente, Carles McCragh, do presidente da Deputation de Girona - que engloba 220 municípios - Enric Vilert, e da presidente da Câmara de Setúbal, Maria das Dores Meira. Também estarão presentes o vice-reitor da Universidade de Aveiro, Manuel Assunção, o presidente da Associação José Afonso, Francisco Fanhais, o jornalista Adelino Gomes, a filha de José Afonso, Helena Afonso, e amigos do cantor.
O prémio Memorial LiberPress é representado por uma placa que será, mais tarde, colocada na Universidade de Aveiro, num pequeno jardim anexo a um edifício onde existe uma livraria e uma sala de espectáculos e exposições.
O cantor e compositor José Afonso, nascido em Aveiro em 1929 e falecido em Setúbal, em 1987, ficou para sempre associado à música popular portuguesa e de intervenção contra a ditadura do Estado Novo.
Com carácter não-governamental, humanitário e sem fins lucrativos, a Associação LiberPress foi criada em Girona, em 1999, para promover a cultura de solidariedade, e procura envolver os meios de comunicação social nesse movimento realizando conferências, debates, exposições e jornadas.
Criado em 2008, o Prémio Memorial LiberPress foi então atribuído à jornalista e fotógrafa de guerra Gerda Taro, uma alemã de origem judia, que morreu num acidente, em 1937, perto de Madrid, durante a retirada das tropas republicanas, quando fazia a cobertura da Guerra Civil de Espanha".
Jornal Público de 03 JUL 2009.
Pois! Convocado pelo noticiário regional da "Rádio Sim", do seu estúdio em Palmela, não poderia deixar de comparecer. A manhã estava quente, ali em baixo a frescura do Rio Azul e, mais longe, a Serra da Arrábida, em todo o seu esplendor.
Conheço o caminho. Cemitério quase deserto, em completo sossego, fácil foi chegar à campa. Parecia ainda mais humilde, com os cravos vermelhos sempre presentes. Fui o primeiro. "Nuestros hermanos" nem parecia que tinham vindo de longe, de tão longe. Logo a seguir. Todos nos entendemos, diversas as línguas utilizadas: português, catalão, castelhano, francês, inglês. Não consegui fazer-me compreender - ou não percebi a resposta... - indagando a forma como surgiu o Zeca indigitado para o Prémio Memorial. Logo no seu 2º. ano. Dedicado aos que morreram. Há outros prémios LiberPress para os que vivem: poesia, fotografia, direitos humanos... Pessoas que se tenham distinguido a tornar o "mundo melhor". Dos Estatutos! Já atribuídos, desde 1999. A Filha de José Afonso, a doce Helena, deu as boas vindas aos presentes e agradeceu mais esta homenagem "ao Zeca"! O Presidente da Associação catalã falou, em Português, de José Afonso. Do significado do seu Silêncio tão expressivo, actual e actuante no que nos escreveu e cantou. O Vice-Reitor da Universidade de Aveiro, cidade onde o Zeca nasceu, a justificar a deslocação da placa comemorativa, ali presente, alusiva ao Prémio, para aquela Escola Superior. José Afonso é o futuro. As duas Tunas académicas da UA acolhem-no e cantam-no. As palavras sentidas, sinceras de Adelino Gomes a evocar o Homem, o Poeta, o Cantor, o Amigo. Falou pela "Associação José Afonso", AJA. A emoção de Francisco Fanhais, o Presidente, não garantia que conseguisse levar as suas palavras até ao fim! Maria de Lurdes Meira, a Presidente do Município setubalense, sábias palavras. Zeca não é de Aveiro, por lá ter nascido, nem é de Setúbal, por aqui ter morrido. José Afonso é cidadão do Mundo.
Não éramos muitos, menos de 40. Poucos para tanto Valor a homenagear. Firmemente, sob a voz sempre linda de Francisco Fanhais, todos cantaram, como podiam e sabiam, mas de coração ao alto, "Grândola, Vila Morena". Grândola, que não quis ou não pode estar presente! Mas devia!!!

domingo, junho 28, 2009

Em nome de Jesus Cristo


O ano catequético chegou ao fim. Na companhia de algumas Crianças de 6 e 7 anos propus-me andar à procura do caminho que nos conduza a Jesus Cristo. Não foi, não é, nunca será fácil encontrá-l'O. Ele mesmo nos vai desafiando a encontrarmos a "porta estreita", a agir no "toma a tua cruz e segue-Me", a praticar o "amai-vos uns aos outros como Eu vos amei", a aceitar o "quem quiser ser o primeiro torne-se servo dos seus irmãos", a acreditar que "Deus não quer holocaustos, mas misericórdia"... Todo um projecto de vida fecunda e feliz em favor dos outros, em permanente oposição ao nosso egoísmo e paixões.
Pedem os pais um milagre aos catequistas: que os substituamos junto dos seus filhos, em vez de formarmos uma parceria para carregarmos a cativante e difícil missão de levarmos a Criança à descoberta de si própria, do seu irmão e de Deus Pai por intermédio de Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida, garantia da nossa felicidade terrena e da vida eterna. E eles deitam-se de fora deste projecto magnífico. Ora, se o caminho em parceria já seria difícil, com a demissão dos pais torna-se uma carga demasiado pesada para os ombros tão humanos quanto frágeis do catequista para tão ingente tarefa. Alguns deles não têm mesmo qualquer preocupação, por mínima que seja, para dar uma ajuda em tão maravilhosa descoberta. Pouca Fé ou nenhuma, às vezes ali deixam os filhos para irem ... descansados ao supermercado fazer compras. Nem mais! Quase sempre nem se preocupam em informar-se da presença ou ausência do catequista. Salvam-se honrosas excepções.
Ora ficar ali, em cada Domingo, durante uma hora, a descobrir o caminho do transcendente com estes pequeninos seres não é tarefa a que alguém se atire sem confiar, sem espaço para dúvidas, que tal missão não depende de si, mas de Deus. E temos de agir como se tudo dependesse de nós, acreditando como se tudo dependesse de Deus. Espírito Santo, enchei o meu coração; enchei o coração destes pequeninos que me confiastes.
Olhando para o que os olhos da carne conseguem ver... vejo nada. Acreditando que tudo podeis, espero tudo.
Senhor, eu fiz o que podia. Agora, Senhor, actua neles. São Teus filhos. Tão peqeninos, tão inocentes, tão indefesos!
Senhor, tende Piedade!

Pontes de Esperança

Vieram de todo o lado, ontem! Unidos num só objectivo: semear a Esperança, matando a fome, dando a educação, promovendo e defendendo a vida, a solidariedade e a paz. Há seis anos, num almoço de voluntário da Cáritas com o seu Presidente, agora também aqui connosco, foi lançada a semente para uma campanha de angariação de "padrinhos" para que, à custa de uma pequena renúncia mensal, se pudesse proporcionar uma vida nova, uma vida com Esperança, àquelas Crianças que lá, nas Ilhas do meio do Mundo, pudessem necessitar de ajuda. Concebeu-se como ajuda mínima a importância mensal de 10 €uros. Com este dinheiro o "afilhado" ou a "afilhada" poderia, desfrutar de um bem-estar mínimo. Em cooperação com a Cáritas de S. Tomé foi dado o tiro de partida para a instalação de uma casa que acolhesse bebés, às vezes abandonados na rua, ou à porta de uma instituição e até junto dos caixotes do lixo. Não há muito tempo foi "apanhado" um menino a gatinhar na praia, com cerca de 8 meses... Esta casa está sempre cheia, mas o conforto e o essencial não falta, incluindo a muita dedicação dos responsáveis e trabalhadores.
Mas vamos a este dia propriamente dito. Juntámo-nos no jardim da beira-rio, em Setúbal. Instalámo-nos a bordo do "Évora" e fizemos um passeio pelo "Rio Azul", admirando a Serra da Arrábida e as suas praias - Albarquel, Figueirinha, Galapos, Galapinhos, Coelhos, Portinho... - e a bela e extensa Tróia, na margem esquerda, agora tão cosmopolita e tão diferente daquela que, há 40 ou 50 anos, era a "praia do povo"... O almoço decorreu no Restaurante "Gandum´s", numa linda quinta ali para os lados de S. Paulo. Bem escolhido. Decorreu sem muitos elogios nem protestos. Chegada a oportunidade, a Drª. Madalena, a alma grande destes projectos, deu as últimas notícias. As novas valências de acolhimento de crianças e adolescentes em S. João dos Angolares e em Ribeira Afonso. Também já funcionava o Centro de acolhimento, na vila das Neves, para cerca de 200 crianças, a cargo de uma educadora, 3 vigilantes e um guarda, com o encargo salarial mensal destas cinco pessoas no valor de 450 €uros. Repito: 450 €uros para CINCO pessoas. Sem direito a Sindicato nem a protestos! E com um clima danado... O salário mensal de um professor é de 93 €uros...Não dá para beber sequer uma cerveja por dia... Em frente! As crianças são recebidas, às 6h 45m e tomam a sua primeira refeição - 3 bolachas!!! Pelas 10 horas partilham as pobres merendas que levaram de casa. Ao meio-dia tomam a única refeição quente do dia, o que nem sempre é possível, dada a escassez de meios, depois do que regressam às suas "casas". Até ao dia seguinte!
Feitas as contas e no sentido de sensibilizar os "padrinhos" e "madrinhas" para um maior esforço financeiro foram apresentados os seguintes números: o encargo mensal por cada Criança e adolescente anda entre os 8,70 e os 12,50 €uros. Há religiosas que entregam os seus magros "vencimentos" de cerca de 50 €uros para as instituições em que trabalham. Os "padrinhos" que já excederam a procura estão agora com um deficit de 49. Cada um assumiu o compromisso de divulgar os projectos pelos meios ao seu alcance. Foi-nos dada a informação de que as importâncias subscritas por cada um de nós não vai à posse das famílias, mas é gerida pelas próprias casa, de modo a que chegue para responder às necessidades básicas de cada "afilhado": livros, vestuário, calçado, material escolar, alimentos, vacinas e outros medicamentos e até a prenda para o dia mais festivo das crianças do Arquipélago, que não é o Natal, mas o seu dia 1 de Junho. Lá, o "Dia Internacional da Criança" é feriado! E é o seu grande dia de festa e das prendas!!!
Ir a S. Tomé passear e ajudar? A ideia foi lançada e pode ser realidade daqui a um ano. Começámos logo a idealizar projectos, sobretudo nas áreas do Ensino e da Saúde. Também no apoio a uma escola de pesca. E até mesmo promover a instalação de uma salina. Vivi lá cinco anos e acho difícil. Seríamos nós "a inventa a pólvora". A razão desta ideia veio da notícia de que ainda, recentemente, teriam estado 3 meses sem sal. TRÊS MESES SEM SAL???!!!! Por acaso confirmei esta notícia no portal do governo santomense...
Falou-se dos muitos, muitos dólares que por lá têm passado; da indolência dos santomenses; do abandono das roças e dos mares, chegando a haver falta de produtos de primeira necessidade e até de peixe... pasme-se! Tantas e tantas histórias de pobreza e de desperdício!!! É mesmo preciso lançar pontes de Esperança. Estou a ajudar na sua construção. Voltaria lá com Alegria!!!! Talvez Deus me conceda tal graça já daqui a um ano!
Ora, abane lá esse K7!!!

quarta-feira, junho 24, 2009

Manhã de S. João - única!


O Sol despontava atrás do mar e a impaciência ia tomando conta dos passageiros a bordo do N/M "Império", naquele 24 de Junho de 1968! A terra, a querida "Terra de Santa Maria" não tinha maneira de aparecer a nossos olhos. Fora uma viagem e tantas! 8 dias de mar, sempre mar, com aquela pequena e fugaz saída no Funchal. Bonita esta passagem pela "Pérola do Atlântico", com uma aproximação ao fim da tarde e uma saída para Lisboa, pela meia-noite. Dois aspectos surpreendentes daquela Ilha linda, de uma só penada. Estava nestas doces recordações que me levavam a regressar a Lisboa, depois de uma amarga partida haviam passado quase 25 meses, quando alguém exclama: "Olhem... terra... terra..." Um bruá por todo aquele convés. Poucos teriam ficado no resguardo dos lençóis, pois o momento seria único para a maior parte dos passageiros. Para mim, a aventura começara a 27 de Maio, dois anos antes. Tanta coisa mudara na minha vida. Partira solteiro, regressava casado; partira filho, voltava pai... Mas a mobilização já implicara estes dois pressupostos, aliás todos consequências uns dos outros. Por graça especial de Deus, imerecida de todo, estava-me destinada uma vida militar confortável e sossegada no Q.G. de Tomar, quando tive conhecimento de duas vagas para a minha especialidade, em Nampula e em S. Tomé. O nosso namoro estava já um tanto "velho" - a caminho dos 3 anos e meio - e entendíamos que casar seria um passo a dar. No entanto, a tal independência só nos viria com dinheiro que nos libertasse da tutela paterna. Mas do casamento falarei na data apropriada. "Forcei" a mobilização, opção por S. Tomé com a garantia de Paz e o resto a seu tempo se saberá. Agora vamos chegar a Lisboa. Começaram a dar-se muitos palpites sobre a zona de terra que se avistava. Milhares de pessoas, ao longo de séculos, teriam vivido aquele momento. No meu caso, bem confortavelmente a bordo de um dos nossos navios dos muitos que asseguravam a circulação de pessoas e bens entre a então Metrópole e as então Províncias Ultramarinas. Ninguém arredava pé da amurada, olhos fixos no horizonte, e as opiniões quase não divergiam: tinha de ser o Cabo da Roca e a Serra de Sintra. Um ou outro, com mais conhecimentos a Sul, ainda "apostou" no Cabo Espichel e na Serra da Arrábida. Francamente, hoje não recordo qual a resposta acertada.
A linha de costa foi vindo ao nosso encontro e, pela 8 horas já se destacava a embocadura do nosso mais que saudoso rio Tejo. Feito o alinhamento, com ajuda dos pilotos da barra, aí vamos nós, vendo a bombordo, primeiro, Cascais, Estoril, Carcavelos ... e depois, a estibordo, a Costa da Caparica, a Trafaria... pela proa, a desafiar-nos, a então Ponte Salazar, um espanto para muitos dos espectadores, que a viam pela primeira vez. Ao vivo!
A manhã estava luminosa, as águas do Tejo tranquilas e o calor apertava, suavizado, entretanto, pela brisa que varria o convés, acelerada pela deslocação do navio, em direcção ao cais. A Torre de Belém, que vira tantas vezes de bordo do "cacilheiro" Trafaria-Belém, apresentava-se de outro ângulo e, sobretudo, era vista "com outros olhos". Depois o Monumento aos Descobridores, ao fundo o Mosteiro dos Jerónimos, tantos testemunhos de uma Histórica heróica e trágica de um País que dera "mundos novos ao mundo" e que agora vivia mais um episódio bem doloroso da sua vida pluri-centenária. Lisboa espraiava-se, preguiçosamente, pelas suas colinas e o movimento, nas vias marginais, era acentuado, quando fizemos a tão desejada passagem sub-ponte. A aproximação ao cais de Alcântara deu-se com suavidade e a atracagem ocorreu com segurança. A competência dos nossos Marinheiros sempre a dar boas provas.
A maior parte dos passageiros eram civis e a convivência, a bordo, com os militares não fora famosa. Passado o período das "dores de barriga" e das crueldades de 1961, os "colonos" de Angola, dizia-se, olhavam de esguelha para a presença dos nossos soldados. Dias viriam - e não faltava muito, mas nestas coisas a "bruxaria" nunca funciona - em que voltariam a ser mais que queridos... Já sem remédio!
Dizia eu que as amizades, a bordo, não se chegaram a fazer, pelo que o desembarque se deu rápido e sem cerimónias. Interesses muito mais importantes esperavam-me cá fora. As 10 horas andavam por ali, a minha Mulher e a minha Filha também. Já as avistara, de bordo. Um sonho, uma ilusão , uma doce realidade. Finalmente, o reencontro tão desesperadamente desejado. Uma eternidade esta separação de quase dois meses.
Fora a 30 de Abril anterior que o serviço de transportes do CTI me informara: "O pedido de transporte que fez para a sua esposa e para a sua filha, pela FAP, vai ter lugar, amanhã, 1 de Maio, pelas 7 horas". Que decepção, que mágoa, que angústia. Menos de 24 horas para arrumar uma vida. "Perder" aquilo que de mais caro eu tinha assim... de repente. Nunca tal acontecera! Ter transporte exactamente para o 1º. dia do período que se requerera... Pelo contrário, os aviões vinham já completos de Luanda e só a custo se arranjava maneira dos familiares dos militares de S. Tomé irem conseguindo voltar para Portugal. Mas a vida não é só sorrisos e esta pequena provação - que nos pareceu enorme, na altura! - estava guardada para nós.
Foi, pois, com enorme emoção que desci as escadas por onde abandonei o N/M "Império". Atravessei aquela enorme largura que ia do cais ao lindo edifício da Alfândega e gradeamento envolvente. Atrás estava duas pessoas lindas e queridas, Mãe e Filha, duas das três Mulheres mais importantes da minha vida. O grande abraço caloroso, apertado, doce, muito querido e muito desejado. Depois, o que tantas vezes acontecera, lá em S. Tomé: "Vem, Amor, vem ao colo do pai!" Surpresa!!! Aquilo que sempre foram "favas contadas", o colo do pai, todos os dias, pelas 5 da tarde, com o passeio óbvio, era agora recusado. Como estava "grande" a minha Menina, 8 meses e meio! E "senhora do seu nariz"!!! Os bracinhos que tantas vezes me haviam procurado, apertavam-se agora, com força, ao redor do pescoço da Mãe. Devagarinho, de mansinho, palavras doces e ternas e o milagre vai dar-se. Espreita com um olhito, mais conversa doce, vira, suavemente, a cabecita - a Mãe a ajudar "Olha, Filha, é o papá... é o papá!" - olha de frente e... o amor vence sempre, dois bracitos que se estendem, mil beijos que lhe cobrem a cara e uma tão grande saudade ali começa a diluir-se, na esperança de outros amanhãs tão iguais a esta manhã de S. João.
Ah! Da Mãe? Do Marido e da Mulher? Ali estavam, frente a frente, juntinhos de almas e corpos, cheiinhos de saudade e de Amor e com milhões de coisas para contar. E na certeza de uma vida que ia recomeçar. Para sempre! Lado a lado! Com Deus. Graças a Deus!

segunda-feira, maio 25, 2009

Uma Coisinha boa que Deus nos deu!!!

Não, não podia ser. Faltava ainda um mês. Com certeza o jantar assentara mal e não passava de uma dor de barriga. Talvez ... um desarranjo intestinal. Voltas e mais voltas e não conseguia estar na cama. Assim se foi passando a noite, ora em pé, ora deitada, até que, pelas 4 horas, se começou a pensar que iria nascer nesse dia.
A história começara uns meses atrás. Em de Outubro de 1981, a minha Mãe - nada lhe escapava! - chega-se-me ao ouvido e sussurra-me "Ides ter outro bebé...". "Ó Mãe, nem pense nisso. Só que a Leo, hoje, está mal disposta. Agora com esta idade. Era o que faltava. Já cá temos três e bastam" E mais conversa... "!!! Ali há coisa..."
Havia. Não nos custou muito a aceitar a ideia. Deus a confrontar-nos com a nossa boa vontade. Com os nossos Ideais de vida cristã. Mais complicado foi a irmã mais velha. Na sua adolescência "tinha vergonha" da Mãe grávida. O Dr. Gil deu-nos uma boa ajuda, quando a convenceu a pedir "Mãe, posso ser a madrinha do bebé?!" E foi. E o irmão mais velho seria o Padrinho. Muito bem escolhidos, tudo em Família. Um sortudo, este menino, mesmo antes de nascer. Graças a Deus.
Mas eu sempre desejei que fosse uma menina. Já tínhamos uma e assim ficariam dois e duas. Até o nome escolhi, Margarida Isabel. E a Mãe a dizer "Olha que pode ser um rapaz". "Não, é menina, de certeza...". Ah! As certezas humanas... "Mas... e se for menino?" tornava a Mãe. Ui! O coração da Mãe até sabe coisas que os médicos desconhecem ou não querem revelar. "Ora, Deus é grande e vais ser menina", cantava eu, com toda a segurança.
O tempo passou num instante e aquela linda barriga sempre a crescer, causando já o desconforto tão próprio daquelas situações. As mães entendem isto melhor do que nós, os pais. O dia 14 de Maio de 1982, foi grande para Portugal, especialmente para a região da Grande Lisboa. João Paulo II, no auge da sua missão apostólica, quis estar na nossa Capital e o Parque Eduardo VII engalanou-se, esmerou-se para o receber. Pai e filha compareceram e lá se encontraram a rezar, a cantar, a acenar com muitos milhares de outros, crentes ou não. Um deslumbramento. Foi um choque. Na sua deslocação para a parte alta do Parque, o Sumo Pontífice passava ali, a poucos metros. Um estremecimento. Um arrepio. Uma revelação. "Vai ser menino e chamar-se-á João!" Estive na festa, até ao fim. Voltei cheio, para Setúbal. Trazia um coração a bater de contentamento e uma "certeza": "Vai ser menino e chamar-se-á João!" Passei o meu estado de espírito à Mãe. Não foi difícil convencê-la. Parece-me que até ficou aliviada. Seria João Pedro ou João Paulo? "João Paulo é capaz de haver por aí uma inflacção..." Mas ainda "faltava" mais de um mês e poderíamos ir falando. Depois se decidiria. Não faltava. Só passaram 11 dias, para nossa surpresa.
Voltando aquela manhã de há 27 anos. Eram 5 e meia e a Mãe deita-se no chão e dizer-me "Vai nascer, vai nascer. Já não consigo mexer-me!" "Ó Mulher, não me faças isso! Vá, coragem, levanta-te, vamos já para o hospital. Chego lá num instante!!!" Foi um instante que pareceu uma eternidade. Um pouco antes das 6 passámos, sem parar, pela recepção do Banco do Hospital de Setúbal e nasceu quinze minutos depois, A parteira, que não se portou nada bem, terá dito "Depressa, senão nasce aqui no corredor". Um despachado. Já estava em casa e rezava com a futura madrinha - tive de voltar para preparar os três mais velhos e levá-los às escolas - quando o telefone tocou a dar a feliz notícia: nascera um rapazão, a Mãe estava bem... Chamar-se-ia João Pedro. Para mim "a Coisinha boa que Deus nos deu".
Ainda hoje, quando já são ELES que estão à espera da sua coisinha boa. O Pai quer um rapaz, a Mãe deseja uma menina... Graças a Deus!
A festa ficou um tanto ensombrada com novo assalto à sua casa, lá em Bruxelas, o segundo em menos de um ano. Ali, a 500 m da Praça Robert Schuman. Sim, um dos fundadores "desta" Europa. Lá como cá...
Fica sem música, pela "música" que nos querem "dar". E "dão"!!!

sábado, maio 23, 2009

CART 840: Vieram de longe... também de perto. 42 anos depois..















Telefonaram-me do Colégio. Um José Pascoal queria o meu contacto. Podiam dar-lho? Deixou o dele? Sim. Então eu falo-lhe...
E assim foi. Nesse mesmo dia liguei. Um telefone de Lisboa. Apareceu uma voz feminina. Sou o António Serrano. Minha Senhora, José Pascoal, francamente, estou com dificuldade... Ó colega, sou a Fátima e estou casada com o JOSÉ MARIA Pascoal. Com a minha irmã, a Felisbina, estivemos todos em S. Tomé... Exclamações de surpresa, o Pascoal, de St. Estêvão, colega do Magistério e camarada de armas em África. O Zé não está... blá... blá... alegre, divertido, bem disposto. A conversa com o José Maria foi nessa noite. A CART 840 ia realizar o seu 11º. convívio, se eu não queria aparecer, mas eu fui da CCS, não faz mal conheces lá muita gente... Conversas, hesitações, decisões. Hoje, 23 de Maio, lá estive. Com a Leonilde. Afinal, ela também "estivera na tropa". E o dia de hoje fez-nos ver que a decisão foi a única que faria sentido. Uma festa!!!
Estava combinado que a reunião seria junto ao Forte do Bom Sucesso, nas imediações da Torre de Belém. Arrumado o carro, pelas 11 horas, fomo-nos aproximando, a medo. A malta passara já para o interior do forte, agora Museu da Liga dos Combatentes. Num dos átrios, alguém dava as boas vindas. Eu olhava... olhava... e proponho à minha Companhia: Vamos para casa? Não reconheço ninguém... Vamos, não vamos e já nos dispúnhamos a "uma retirada estratégica", quando chega o Zé Maria e a Fátima. Grandes abraços e exclamações de alegria. Psiu!!! - insiste alguém. Têm de entrar para ver a exposição ali patente sobre Pirataria nos séculos XVIII e XIX. Tentando explicar a pirataria do séc. XX. Não, não da que temos por cá. Mas aquela lá da Somália. Afinal, os piratas até entenderam que só unindo-se e com atitudes democráticas conseguiriam sobreviver. Uma cabeça, um voto, nas grandes decisões. Fiquei parvo e não fora ver ali escrito num texto com "estes dois que a terra há-de comer" e nunca acreditaria. Impressionante!!! Os piratas de hoje têm muito que aprender. É só estudar a História. Mas, realmente, os de hoje não estão interessados na Democracia. Querem uns votos para assaltar o poder e depois... "chacun s'arranje"... "se governe" ... "embolse" ... "armazene" ... trate da SUA (dele) vida!!!
Passados ao pátio interior e começa a festa: "Então tu não me reconheces? o Amadeu...Olha-me esta foto!!!" Espanto meu, uma foto do NOSSO casamento, uma noiva lindíssima, rodeada de "magalas" à civil. "Este sou eu!" - uma criança, como havia de reconhecê-lo??? - "aqui está o Nogueira. Olha aí vem ele". O Nogueira também tinha a mesma foto. E outras. A nossa aventura de um casamento em África e na tropa marcara-os de algum modo e aquelas fotos eram uma relíquia. Também para eles. Diz a mulher do Amadeu "Há anos que o conheço e estava ansiosa por que viesse. Mas está um pouco diferente..." Que crueldade esta verdade bem dura. Mas aí vem o Sabino agarrado ao estandarte. E o Baptista, com o olhar doce daqueles tempos. Senti-o triste. Oxalá fosse apenas ideia minha. E o Gomes, que "meteu o chico", como nós dizíamos, e é hoje Ten.Coronel. Brilhante. Continua simples, como sempre. Beirão lá de S. Miguel d'Acha. Com a esposa. Vieram de Castelo Branco, no inter-cidades. Foi este mesmo Gomes - gerente da Messe - que organizou o nosso jantar nupcial e também estava nas fotos. E na festa! "Então já não te recordas de mim? Sou o Carrasco". Abraços, risadas, piadas... "Andas na mota sem capacete? Vai-se-te o cabelo e podes pagar multas". Esta "malandragem" não perdoa uma... O capitão (hoje coronel) Pancada da Silveira. As vezes que eu me ri por lá, há tantos anos, com este nome. PANCADA!!! Inventam cada uma! Continua baixo e agora um pouco mais gordo e muito mais velho. O trabalhão que me deu, nestes últimos dias, trazê-lo à memória. Mas hoje de manhã... "saltou", assim de repente. "Leonilde, lembrei-me, capitão Pancada da Silveira". "Mas não tens mais nada em que pensar?"
"O Velhinho" já em S. Tomé era caso falado. Com medo da guerra, lá pelo Interior, não fora "dar o nome" e ia escapando da "má vida" que tantas vidas ia levando. Ele fazia pela sua. Não havia "Simplex" e para ele era ... simples. Vivia feliz. Já pelos seus 30 anos deram pela "marosca". Não se sabe se queixinhas, se eficiência administrativa. Foi mesmo apanhado e grande sorte... 2 anos de boa vida em S. Tomé. Do mal o menos. Nos anos 60 notava-se a diferença de idade. Agora muito mais: "O Velhinho" está mesmo mais velhinho. E o Manuel Dias! Fomos no mesmo barco, estivemos no mesmo quartel, durante dois anos e, soubemo-lo hoje, vivêramos 35 anos quase ao pé, andáramos nas mesmas ruas de Setúbal e nunca nos víramos. Até teve duas netas na querida Escola da Azeda!!! A Fátima e o Zé têm uma daquelas histórias de amor em que "o destino marca a hora". Ela, de Bragança, com a irmã, duas lindas jovens vão à descoberta de África e o Governador Silva Sebastião "pranta" com elas no Príncipe. Ele, de Santo Estêvão, (Sabugal) também professor, com o seu Pelotão de Artilhatia, "aterra" na mesma Ilha do fim do Mundo. Estava escrito: amor para sempre. E gostei tanto do os rever!!! Ficou prometido que vamos estar mais próximos, até porque eles também têm "interesses" aqui na Península de Setúbal.
O João ouve-me falar. "Da Beira Baixa?" "Sim, Aldeia, entre Penamacor e Monsanto..." "Não se esforce. Conheço. Andei por lá. Estudei no ISA. A D. Aida, a Aidinha - nascida quando já não havia esperanças - o Dr. Palmeiro. Os Lopes Dias. Estive casado com uma Lopes Dias..." "Eu fui aluno do Dr. Joaquim... "Olhe que o pessoal do VSP tem festa, no próximo sábado..." "Eu sei, mas não vou estar". "Tenho a certeza de que já o vi antes..." Vivêramos no mesmo quartel. Um dos alferes, com cara e presença de quem está bem na vida. O Sérgio, outro dos oficiais subalternos, não teve sorte com o planeamento deste convívio. Que falta de estratégia: encontro no Forte, Missa na Igreja da Memória, almoço no Forte. Ele julgou estar numa Cidade de Interior??? Querer fazer deslocar quase duas centenas de pessoas, em Lisboa, nesta distância e com os obstáculos inerentes, só podia dar no que deu... não houve Missa. Coitado do Zé Maria que teve de "explicar" a situação ao padre... Por sorte temos os telemóveis... Há sempre fotos mal tiradas, em todas as festas.
A refeição foi uma decepção. Já escrevi ao Presidente da Liga. Aquele sítio, onde se homenageiam os Combatentes, merece melhor. Ao lado, na mesma mesa, "Então vim da Alemanha para comer disto e beber desta zurrapa?". O "chefe" do "restaurante" - afinal uma sala "arranjada" para ser usada em serviço de "catering" - quis armar-se em "chico-esperto", agressivo para com os convivas... No rótulo das garrafas, um emblema que deveria merecer respeito, o nome e a imagem do próprio Forte. Desafiei-o a abri-las ali, ao pé de nós, pois vinham já todas sem rolha, a conta gotas. Não abriu nenhuma...
Mas quase nos esquecemos de comer, quando a alma está quente. Foi com pena que vimos a roda começar a desandar. Pelas cinco da tarde. "Que bom ter-te reencontrado." "Então até p'ro ano... Se Deus quiser!!!"
Agora... vamos recordar o que foi muito bom: