terça-feira, fevereiro 16, 2010

Vamos "deitar uma `cacada`"???

Pronto, eu confesso! Não gosto, nunca gostei do Carnaval. Por "simpatia" fica-se logo a perceber que não gosto, nunca gostei de "brincadeiras de Carnaval". Pregar uma "boa" "partida de Carnaval" dá trabalho, é preciso pensar muito e a maior parte dos foliões não está p'raí virada. Isto de envolver a "vítima" de tal modo que ela própria ria - e se a vítima não achar graça também, o efeito perdeu-se, porque só os alarves riram do seu sofrimento - tem que revelar muita imaginação e, sobretudo, muita inteligência. Então rir dos pobres, dos humilhados, dos ofendidos, dos desprezados da vida... é, em meu modesto entender, desumanidade, bestialidade. Muita gente se divertiu no Carnaval. Um número incontável de pessoas sofreu... no Carnaval. Vou esquecer-me desta palavra.
Em Aldeia, o Entrudo era mais dado a festas do que a partidas. As 5ªs feiras de comadres e de compadres, as imediatamente anteriores a Terça Feira Gorda, davam motivos a confecção de doces - o inigualável arroz-doce nunca falhava - ao assar de umas peças de enchido do fumeiro ainda fresco e, não raro, a um ou outro bailarico. Lá pelo meio da festa sorteavam-se os "compadres" e as "comadres", ficando cada um a saber a quem teria de comprar as amêndoas no Dia de Páscoa, o mais tardar na 2ª. feira da Senhora do Incenso. Escusado será dizer que nem sempre as "sortes" eram "legítimas" e "justas" - como as eleições em certas partes do Mundo, dava-se o jeito para se "albardar o burro (ou a burra) à vontade do dono (ou da dona)". Salvo seja! Mais havia sorrisos cúmplices que valiam aquela batota. E quem é que nunca teve 20 anos? A minha neta, aqui ao lado, diz que ela nunca teve. Lá chegará, se Deus quiser, mais depressa do que pensa!
Mesmo no dia de Entrudo, como já acontecera nos domingos anteriores, as raparigas vestiam os seus saiotes plissados, de cores garridas, as blusas bordadas, punham os lenços bem lindos ao pescoço ou atados na cabeça e passeavam-se pelas ruas da Aldeia, estrada abaixo, estrada acima, de braço dado, ou entravam em modas de roda, cantando e dançando. Iam-se juntando os rapazes mais "corajosos", a ponto de quase só haver "pares perfeitos". Alegria a rodos. Os tocadores de concertina, por estes dias, eram sempre difíceis de contratar. Maior a procura do que a oferta. Se havia um "habilidoso" que se dispusesse a tocar num realejo, era mais que certo que o baile estava armado. Muitas vezes, ali no alcatrão da estrada. Outras no salão de "A União". Mas o baile na Aldeia há-de merecer uma página especial. Hoje é de Entrudo que se trata. E era tanta a gente nova, nos dias de descanso, também nessa Terça-Feira, que cheguei a ver três rodas a dançar, num espaço de 200 metros, a extensão do alcatrão, nos anos 50. Bailava-se até que a claridade do dia o permitisse. Se a diversão fosse na estrada. Onde só muito raramente passava um automóvel. Os dançarinos nem precisavam de parar. Um pequeno desvio para a beira, com grande admiração dos "passantes". Ah! Quanto a alcatrão ... hei-de contar a aquela do dia em que me tornei "preto"...
Toda esta conversa para chegar... às "partidas" de Entrudo.
Ficou dito que não eram muitas. Nem variadas, portanto. Escrever cartas anónimas, dizer "mentiras" para enganar quem caísse nelas, carregar "a pedra de afiar as agulhas", mandar encomendas com qualquer "porcaria" lá dentro, fazer umas quadras de "escárnio e maldizer", as "proclamas de casamento" feitas pelo Ti "Bila" - "Estão aqui p´ra se casar/ Estes dois grandes animais/A uma falta a albarda/E a outro... os atafais" e outras brincadeiras com que ele, no seu andar desengonçado, meio coxo, alto e magro ia fazendo rir o pessoal... pouco ou nada que magoasse, seriamente, "os destinatários"... No entanto, a mais temida e, às vezes, a desejada das "partidas" era a "cacada". De CACOS!!!
Naquela escuridão, era difícil distinguir, fora de portas, a quem se abria a porta. Mas todos se conheciam "pela voz". As pessoas desconfiavam que a muita ou a pouca "sorte" lhe podia bater à porta, por uma daquelas frias noites de Fevereiro. À cautela, nunca se expunham, sem saber a quem. E mesmo assim... a "cacada" podia entrar. O Entrudo já andaria lá pela "Terra Fria"...
Podia-se receber uma "cacada" de rebuçados. De castanhas. De bolotas. De bugalhos. Ou mesmo de cacos... Quase sempre!
A rapaziada "autorizada" a vaguear pelas ruas, entre a ceia e o deitar, questionava-se:
- Vamos deitar uma "cacada" a X?
Estudava-se a maneira de "atacar". Havia lá rapariga jeitosa? Estava por ali algum a "piscar-lhe o olho"? Um saco de rebuçados - 3 por um tostão, de fruta apenas 2 - ou daqueles chocolates pequeninos e deliciosos como nunca mais me soube nenhum assim tão bem. E lá se dirigia o grupo para o "alvo" escolhido. Batia-se à porta, conversa e mais conversa, "abra", "não abro", "o que é que queres?"... Com alguma insegurança a porta entreabria-se e, num gesto mais ou menos desajeitado, lá entrava o "petisco" pelo corredor fora, onde seria apanhado unidade por unidade. Que sorte! Até podiam ser castanhas. Ou amêndoas.
Mas o destino podia ser diferente para outros "alvos". Se fossem bugalhos... não seria mau de todo. Nem sempre a porta se franqueava. Se se convencesse o dono a casa a abri-la, podia entrar por ela dentro várias mancheias de areia, pedras, cacos. "Rais t'a partira!" era o praguejar mais suave que a malta, em fuga desordenada, tinha, então, ocasião de ouvir.
Por vezes, a porta não era mesmo aberta. Escolhia-se, então, uma que tivesse aquele buraco por onde passavam os gatos. Às vezes, as galinhas. Havia também, naquele tempo, outras portas que ficavam "no trinco" ou mesmo só encostadas ao batente. Vítimas fáceis, não de assaltantes violentos e malfeitores, mas daquele mocidade "louca, ingénua, generosa"... E lá se fazia passar aquele "entulho" com que os habitantes da casa eram presenteados. Nada que não se pudesse "pagar". Na mesma moeda. Era só esperar a ocasião. Embora as "escutas" e a espionagem fossem mais difíceis que nos dias que correm. Não havia telemóveis. Nem sequer telefone. Nem telefonia. Nem TV. Nem luz eléctrica.
"Ó Avô, mas isso passava-se Antes de Cristo? "Não filha, já o teu avô era grandote..."
Notas:
1. Por tradição, na casa de meus Pais, comia-se a "bexiga" do porco, que fora cheia com partes especiais do corpo deste "bendito" animal, primeiro bem curtidas e depois secas nas varas do fumeiro: o rabo bem "migado", um pouquinho de orelha, "ossos tenrinhos" e outras gostosuras que a minha Mãe sabia. A sua "morte" era certa; ou no Domingo Gordo ou na terça-feira de Entrudo. Arroz com aquele acompanhamento... nunca mais! E se se houvessem salvado algumas pequenas alfaces dos gelos do Inverno que já dava sinais de partir... seria primeira e a melhor salada do ano.
2. Tornava-se difícil conseguir podadores, pois a época era propícia a ganhar-se "algum" dos que podiam pagar. Então, os mais pobres organizavam-se em regime de cooperação: trabalho retribuía-se com trabalho. Lá se arranjavam um ou dois Amigos para que a pequena vinha fosse "atesourada" em... Terça-Feira Gorda.
- Ó Carminda, parece que a vinha está fraca... - diria o meu Pai lá para Julho.
- Que é que querias? Podada em dia de Entrudo!!! - respondia a minha Mãe, com um riso bem travesso.

5 comentários:

Honorato disse...

Amigo Serrano
Tenho que ler tudo o que consta no teu blog. É esta a linguagem que nos toca, porque nos leva ao que nos fez gente crescida. Gosto daquilo que já vi. Parabens pelo teu dom de exposição.
Li o teu comentário no nosso blog dos Antigos Alunos do Colégio de Medelim. A fotografia do Padre José Pedro foi-me enviada pelo Tó Pedro que dias antes me contactou a propósito dos nossos encontros.
Para um trabalho sobre o Padre José Pedro, não tem qualidade´. Eu vou tentar extrair do mail uma cópia melhor, ou, se não for possível, peço uma nova ao Tó Pedro. Depois envio-te.
Um grande abraço e, vamos conversando.

Honorato

Prohensa, j. adolfo disse...

Então o professor não gosta de Carnavais!...
Mas quanto ao Entrudo a conversa já é outra!...
Pelo menos é o que eu posso depreender pela forma como recorda os tempos de juventude lá em Aldeia.
Belas memórias doutros tempos, nas nossas Aldeias da Beira...

António Serrano disse...

Ao João Adolfo pude responder por email e já lhe dei conta da minha gratidão pela vossa participação. Quanto a ti, Honorato, a surpresa foi também muito agradável e alegro-me com a tua disponibilidade para me arranjares a foto o P. Pedro.
O João Adolfo pode fornecer-te o meu endereço de email. Se for caso disso, publico-o no Blog do Colégio por algum tempo. Mas o João vai tê-lo, pois a intervenção dele trazia essa possibilidade de lhe responder.
Abraço o dois.
Obrigado.

Maria disse...

Realmente para nós era o entrudo, carnaval era para outros lugares, que nos desconheciamos. Pois é faltava ( e ainda bem) a televisão...
Mesmo sendo repetitiva é sempre uma delícia lê-lo, um livro de crónicas, continuo à espera, nem que seja sentada, até mesmo para deixar às gerações vindouras.
Mas sempre lhe digo que os homens eram muito mais sortudos do que nós, em quase todas as festas. Não vale a pena reclamar, mas é muito bom lembrar. Obrigado

Honorato disse...

Ainda bem que se fala no Entrudo. Esse que eu conheci por algumas aldeias da nossa Beira nada tinha a ver com o Carnaval. Não era um negócio, não era importado e era divertido porque muito participado. Apesar de alguns excessos que por vezes ocorriam era genuíno. Faz-me pena ver, em alguns 'Carnavais' participações absurdas e até culturalmente deprimentes. Mas é o que temos.

Vaiu em frente, amigo Serrano.

Honorato