
Seguiu-se a primeira "arruada" da Banda e, mal o sol nascia, já ninguém estava na cama.
Dos armários e baús sairam as roupas mais bonitas e garridas. Foi mesmo dia de estreia de coisas n
Pelo meio-dia, a Missa festiva, concelebrada, o jovem Pároco, os padres nascidos em de Aldeia eram 3 de 4. (Sobrevive, hoje, o senhor Padre Agostinho, quase cem anos, comovente vê-lo no altar!). Vieram os convidados das Paróquias vizinhas. A igreja a rebentar pelas costuras, sem bancadas, mal se conseguindo respirar, suor a escorrer da cara de quase todos. Não raro acontecia um “chilique” aqui e ali, um copo de água "fria" para reanimar. Mulheres no corpo da igreja e homens na capela-mor ou no coro, lá no alto. Fiéis houve que não couberam no templo e, portas abertas, acompanharam a celebração, devotamente, cá de fora, com respeito e atenção. Ao sermão, lá do alto púlpito, o padre César Fatela, voz poderosa, verbo eloquente, proclamou as excelsas virtudes da Mãe de Jesus, nossa Mãe adoptiva e nosso Exemplo. Fez chorar mulheres. E pensar homens.
Repicavam os sinos tocados, com destreza e arte, pelas mãos do sacristão ou de uns tantos ajudantes voluntários e a procissão, quase interminável, percorreu as ruas do Povoado, cânticos melodiosos, nos intervalos do desempenho da Banda. Os “guiões” desfraldados, de cores vivas, eram empunhados e dominados pelos mais valentes dos nossos rapazes, pulsos firmes e braços fortes, membros de corpos esguios, musculados pelo trabalho de cada dia, entroncados, barrigas ausentes. Não havia jovens gordos...
Homens à
frente, em duas filas, andores com as imagens de S. Miguel, de S. Sebastião, de Nossa Senhora da Graça, esta sempre transportada em ombros de rapazes solteiros, opas brancas, seguidos dos sacerdotes, sob o pálio, varas seguras por homens, opas vermelhas sobre os "fatos de ver a Deus". O Ti Iná, opa e bordão vermelhos, encarregava-se da boa ordem no cortejo. A única "autoridade" presente!

Na metade posterior do cortejo seguiam as mulheres, as jovens e as meninas, de lenço na cabeça, o xaile pelos ombros das casadas, vela acesa numa das mãos e o terço, devotamente, na outra.
De vez em quando, o estralejar de um foguete ou o ribombar de um morteiro, anunciava a progressão da caminhada pelas ruas engalanadas com colchas e colgaduras nas janelas e varandas, até o cortejo reentrar na igreja paroquial. Uma mancheia de foguetes, subiu e estoirou, lá no alto, e anunciou o recolher da procissão. Andores arrumados, uma bênção final. O consolo espiritual fora conseguido.
Chegou ao tempo de tratar dos corpos. Este jantar de festa quis-se melhora
do. Um dia não eram dias. E Nossa Senhora da Graça, merecendo a veneração durante todo o ano, havia de ser festejada também em casa de cada um. Para sacrifício e privação sobravam muitas ocasiões.

Na altura, raramente os homens metiam o nariz na cozinha. Trabalho de mulheres, com todas as consequências, para o elogio de um banquete bem conseguido e para o desagrado de um pouco de sal a mais ou de um esturro que fizera tanto esforço saber a queimado. Todos se sentaram à mesa e os petiscos cuidadosamente preparados ali estavam. Ninguém se fez rogado. Cada um por si. A Mãe por todos! Especialmente atenta aos mais velhos e às Crianças! E a que nada faltasse.
Davam-se as últimas dentadas num jantar bem diferente do habitual, servido muito depois do meio-dia, e já os sinos repicavam, os foguetes subiam e rebentavam e a Banda – como é que raio os músicos comeram tão depressa?! – desfilava, rua da Torre acima, na direcção da igreja, para que a festa continuasse lá nas imediações.
Davam-se as últimas dentadas num jantar bem diferente do habitual, servido muito depois do meio-dia, e já os sinos repicavam, os foguetes subiam e rebentavam e a Banda – como é que raio os músicos comeram tão depressa?! – desfilava, rua da Torre acima, na direcção da igreja, para que a festa continuasse lá nas imediações.
A tarde pareceria pequena nesse sábado ameno de fim de Verão, com festa "de encher o olho". Chegara gente como nunca. A quermesse, sob os ramos de uma das árvore da "horta de cima", a deitar para a rua, ali na beira da estrada. A “barraca de chá”, à sombra do lagar da Casa Grande e com a orientação das Senhoras havia de dar que falar. A caminho do "ramo" de oferendas, vinha de quase tudo o que de melhor o suor da Aldeia havia produzido: frutas, bolos, travessas de arroz-doce, enchidos, queijos, vinho, azeitonas, nozes e amêndoas, jeropiga, figos secos, feijão, centeio, milho… Gente de enorme e generoso coração. O leiloeiro não se cansava de apregoar “Cinco escudos por este "pão leve"… seis escudos... dez escudos… quem dá mais?!” E as oferendas iam sendo "arrematadas" com maior ou menor "despique"... Nos intervalos, a Banda tocava. E então, a maior parte daquela nossa gentes, ocupava o alcatrão da estrada e dançava, dançava. Sem
dúvida o maior baile do ano. A Banda. O Povo. Em sintonia perfeita.
Atraídos pelos foguetes e pela música, das aldeias vizinhas e da Vila apareciam os visitantes. Muitos. Engravatadinhos alguns. Os "carros de praça" lá de Penamacor não paravam. Trazendo e levando. A "carreira" das quatro chegara carregadinha. Também soldados. Soldados?! Sim, da 1ª. Companhia Disciplinar. Só muitos anos depois tive ocasião de saber quem eram os “corrécios” que, domingo a domingo ou noutros dias festivos, passeavam nas nossas ruas, tentando dançar com as nossas raparigas, sem nunca o conseguirem. Com alguns muito poucos desacatos, que a nossa rapaziada era pacífica, por natureza…
E o leilão sempre a "despique" - "50 escudos uma... 50 escudos duas... ninguém dá mais... três... arrematado!" - toda a gente sabia da qualidade e genuidades do que era ali entregue e posto à venda, mas raramente se chegava a uma nota de 50. O salário de um trabalhador, "de sol a sol"... era de dez escudos!

Atraídos pelos foguetes e pela música, das aldeias vizinhas e da Vila apareciam os visitantes. Muitos. Engravatadinhos alguns. Os "carros de praça" lá de Penamacor não paravam. Trazendo e levando. A "carreira" das quatro chegara carregadinha. Também soldados. Soldados?! Sim, da 1ª. Companhia Disciplinar. Só muitos anos depois tive ocasião de saber quem eram os “corrécios” que, domingo a domingo ou noutros dias festivos, passeavam nas nossas ruas, tentando dançar com as nossas raparigas, sem nunca o conseguirem. Com alguns muito poucos desacatos, que a nossa rapaziada era pacífica, por natureza…
E o leilão sempre a "despique" - "50 escudos uma... 50 escudos duas... ninguém dá mais... três... arrematado!" - toda a gente sabia da qualidade e genuidades do que era ali entregue e posto à venda, mas raramente se chegava a uma nota de 50. O salário de um trabalhador, "de sol a sol"... era de dez escudos!
Na “barraca de chá”, as nossas Meninas serviam lanches bem apetitosos a quem tivesse dinheiro para ali se sentar. Que não a enorme parte dos aldeões, quase só os visitantes. Na quermesse, as prendas iam sendo rifadas. A Banda tocava e o Povo dançava. Dançava esquecido de toda a semana, de todo um Verão, de todo um ano de trabalho intenso. Coisas da festa! Via-se alegria nos olhos, pressentia-se a agitação nos corpos.
A camioneta da tarde levara para a Vila muitos dos que de lá tinham vindo. O tempo voara e era forçoso regressar. Com alguma pena, pois tinha fama esta nossa festa. E a daquele ano saíra bem conseguida.
O Sol escondera-se atrás da “Serra” e o crepúsculo começou a cobrir toda a Aldeia. Aconteceu uma última marcha tocada pela Banda, um revoltear
de pares que desejaram que o dia não terminasse. Ou mesmo que continuasse noutro sítio.
Uma derradeira “descarga de fogo” anunciou que a festa acabara. A Banda, estrada abaixo, marchou, tocando ainda um “ordinário”, a caminho da sua Sede, mesmo em frente da Escola, deixando no ouvido de cada um o som dos acordes de um encanto que se manteve por décadas e décadas. Mais de um século.
Depois... o silêncio foi caindo, restou o trabalho dos que deviam arrumar, conferir, fazer contas. A Aldeia ceou e sossegou. Por fim, adormeceu, com a certeza de que cada um dos que descansavam poderia deixar a chave na porta, ou até mesmo descansar, em sossego, com ela escancarada.
A manhã seguinte seria o domingo. Depois a vida retomaria o seu ritmo: trabalhar, trabalhar... mesmo para muitos dos que tinham chegado para “férias”. As hortas, as vindimas, a secagem dos figos... O tempo urgia e a necessidade era grande.
A camioneta da tarde levara para a Vila muitos dos que de lá tinham vindo. O tempo voara e era forçoso regressar. Com alguma pena, pois tinha fama esta nossa festa. E a daquele ano saíra bem conseguida.
O Sol escondera-se atrás da “Serra” e o crepúsculo começou a cobrir toda a Aldeia. Aconteceu uma última marcha tocada pela Banda, um revoltear
Uma derradeira “descarga de fogo” anunciou que a festa acabara. A Banda, estrada abaixo, marchou, tocando ainda um “ordinário”, a caminho da sua Sede, mesmo em frente da Escola, deixando no ouvido de cada um o som dos acordes de um encanto que se manteve por décadas e décadas. Mais de um século.
Depois... o silêncio foi caindo, restou o trabalho dos que deviam arrumar, conferir, fazer contas. A Aldeia ceou e sossegou. Por fim, adormeceu, com a certeza de que cada um dos que descansavam poderia deixar a chave na porta, ou até mesmo descansar, em sossego, com ela escancarada.
A manhã seguinte seria o domingo. Depois a vida retomaria o seu ritmo: trabalhar, trabalhar... mesmo para muitos dos que tinham chegado para “férias”. As hortas, as vindimas, a secagem dos figos... O tempo urgia e a necessidade era grande.
Para BAILE já chega! Voltaremos com os "medos da Aldeia"!