segunda-feira, maio 02, 2011

Cenas da vida militar 1

"- Não bejo nada!
A Primavera ia adiantada naquele já distante ano de 1965. A célebre frase de Salazar "Para Angola e em força" lançara uma verdadeira calamidade entre as Famílias de Portugal que, de repente, se viam privadas da sua maior riqueza, os Filhos.
Mais de quatro anos de guerra declarada pelas insurreições dos independistas de Angola haviam passado e mais duas frentes se tinham aberto, em Moçambique e na Guiné, qual delas a menos desejada por esta "Juventude louca, ingénua e generosa". Em toda a parte, de Norte a Sul da Metrópole e por várias cidades do então chamado Ultramar se haviam organizado "Centros de Instrução" que "fabricavam" oficiais, sargentos e praças que pudessem anular, muitas vezes "carne para canhão", as operações de guerrilha dos chamados "terroristas" de modo a aguentar, por tempo indeterminado, uma política insustentável, ao arrepio dos ventos da História, num esforço desmedido em homens, armas e materiais que ninguém suspeitara estarem ao alcance de um tão pequeno País.
Foi assim que, nas Caldas da Rainha, no RI 5, se abriu o primeiro turno de Instrução de Sargentos Milicianos, com seis companhias ou dezoito pelotões para preparar, cujo prazo seria de três meses de recruta básica, com mais três de "especialização" de que se falará noutra ocasião.
Com a alvorada às seis e meia e formatura para o "café" às sete, meia hora depois iniciava-se a Instrução, que tanto podia ser para adquirir uma razoável forma física, como aprender a marchar certinho, com ou sem espingarda Mauser - onde nós ainda estávamos!!! - "aplicação militar", corridas de obstáculos com equipamento de combate, patrulhas nocturnas, desmontar, limpar e montar material militar, carreira de tiro para disparar espingardas, pistolas e metralhadoras, lançamento de granadas, formar, destroçar, sentido, descansar, virar à esquerda, virar à direita, ombro arma, descansar arma, firme, sentido, apresentar armas, etc. etc.
Se para a maior parte daquela "malta", salvo o receio da quase certa mobilização para uma das frentes de guerra, aquilo até se ia levando com uma perna às costas, havia alguns dos nossos compatriotas que não estavam minimamente fadados para tão "altas cavalarias": gordos, com a visão muito deficiente, pés e pernas incapazes de aguentar tamanha estopada, problemas de audição, de cabeça... Havia-os tão gordos ou tão magrinhos que nenhuma farda lhes servia e lá tinha de se recorrer às Oficinas Gerais de Fardamento para que se resolvesse a questão para os "maiores" e para os "menores"- o que poderia demorar duas ou três semanas. Como fora dito no dia das "sortes" e se escreveu já neste blog o apuramento para o Serviço Militar Obrigatório era quase geral e depois, na recruta, se havia de ver quem "baixava" ao Hospital Militar e, em Junta Médica, "pulava" para os "serviços auxiliares" ou mesmo, casos muito raros, se "passava à disponibilidade".
Estava-se no 1º. Pelotão da 6ª. Companhia, em plena Instrução, duas semanas, meados de Maio e um dos mancebos dera já nas vistas pela espessura das lentes dos óculos mal encavalitados na ponta do nariz. Se o Sargento Nogueira, o Cabo Miliciano Luz, mesmo à voz do Aspirante  Alves Henriques ordenavam "virar à esquerda" o Rodrigues tanto podia ir em frente como virar à direita. Quando se lhe chamava à atenção para as "falhas" constantes, quase provocatórias , muito sério, este nosso amigo de Viseu só se justificava
- Eu não bejo nada! Eu quero ir p'ra casa! Lá em "Bijeu" sou um senhor...
A situação começou a dar que falar. No campo de obstáculos nunca pulou um deles, pois o derrubava, se fosse móvel, e chegava a magoar-se, se estivesse fixo.
Na espaçosa parada do RI 5, se fosse o caso, aproveitava para ir chocando com o pessoal, de preferência que fosse oficial, quanto mais "alto" melhor. E, à reprimenda certa, sempre a mesma resposta:
- Eu não bejo nada! Eu quero ir p'ra casa. Lá em "Bijeu" eu sou um senhor...
Depois das muitas risadas do Pelotão, em dado momento, começou a gerar-se uma certa admiração por aquela estranha forma de luta e o pessoal vá de tratar o camarada por "senhor Rodrigues".
"Senhor" Rodrigues p'raqui, "senhor" Rodrigues p'rali, mas não havia maneira de convencer o médico da Unidade a dar-lhe saída para a Junta Médica, o grande desejo do nosso amigo que, diga-se, nada aproveitava da Instrução que era dada aos restantes quase mil companheiros de "desgraça". E a "coisa" foi sendo adiada, como acontece muito ainda hoje neste nosso querido Portugal.
Quando a Direcção da Instrução achou por bem que aquela rapaziada estava pronta para começar aos tiros com a velha Mauser, depois de muito marcar passo e ordem unida, aí vai a tropa, atravessando a linda cidade das Caldas da Rainha, peito p'ra fora e barriga p'ra dentro, a cantar "Ó Laurindinha" ou "Ó meninas cá das Caldas...", a marchar uns bons 6 Kms, pela recta da Tornada fora, até à carreira de tiro. Um esticão e tantos. E era preciso voltar para o quartel, lá pela tarde. E o "senhor" Rodrigues, com muitas dificuldades e ainda maior teimosia dos Instrutores, também alcançou o objectivo, a carreira de tiro das Caldas da Rainha.
Já se havia aprendido a meter o carregador na arma com balas de pólvora seca mas, naquele dia, a coisa era a sério. Um carregador cheio, só metido na arma depois de cada um se colocar no seu local de disparo "Nunca se vira a espingarda para ninguém" "Espingarda sempre virada para cima", recomendações mil vezes repetidas e hoje de forma bem enfática sob a vigilância atenta dos Instrutores. E um outro carregador para substituir o primeiro. Duas salvas, em suma, para começar. Ia ser a primeira "prova de fogo" da maior parte daqueles rapazes, cuja maior apreensão era o recuo de tiro da arma "que até podia fazer nódoas negras". No perigo de uma bala perdida nem sequer se pensava. Aparentemente, tudo presumia que tal não acontecesse.
Quinze posições de tiro e ali está metade do Pelotão deitada de barriga para baixo, alvo lá bem longe, cada um tentando fazer o melhor possível. Afinal, mesmo no SMO todos - ou quase - queriam fazer boa figura.
Dois carregadores "despachados" por recruta, depois a contagem de pontos no alvo e lá se anunciava o resultado conseguido por cada um. Dois ou três muito bons, satisfatórios os restantes, como no caso do autor.
Seguiu-se a restante parte do Pelotão, que incluía o "senhor" Rodrigues. Uma "fita" para pegar na espingarda e carregá-la. Persistência e paciência do Sargento Nogueira, que consegue instalar e acalmar o jovem recruta que não cessava de proclamar:
- Eu não bejo nada. Eu quero ir p'ra casa...
A frase, de tanto repetida, ia perdendo efeito. Era preciso mesmo formar sargentos - cabos-milicianos, os "sargentos" mais baratos da Europa, "renegados" pelas praças por serem "sargentos", cujos serviços, aliás, desempenhavam, e recusados pelos sargentos por serem... "praças" - para as três frentes de guerra o recruta Rodrigues não ia escapar-se com aquela cantilena.
Cada recruta instalado no seu cubículo, à ordem de "fogo!" algo de espantoso aconteceu. As balas de uma das espingardas estavam a espetar-se no terreno metros à frente, nas barreiras ao lado e um berro de "Cessar fogo" fez calar o tiroteio.
Averiguada a situação, rapidamente o "senhor" Rodrigues foi identificado como autor da proeza. A Mauser foi-lhe sacada das mãos sem mais aquelas e lá se ouviu a lengalenga costumeira, a responder aos berros do Alferes "Você é doido ou está a fazer-se???!!!":
- Não bejo nada. Eu quero ir p´ra casa...
O "senhor" Rodrigues não se cansava de cantar a lengalenga.
O Alferes comandante do Pelotão relata a situação ao Comandante da Companhia, que ordena o regresso imediato do recruta ao Quartel, numa das viaturas de apoio. "Este assunto vai ser tratado, fica descansado!" garantiu o Oficial, rosto severo, cara de poucos amigos.
Pela tarde, a Companhia voltou ao quatel. A esperá-la, à porta da caserna, o Rodriques, óculos encavalitados no nariz, sorriso indecifrável, talvez manhoso.
No dia seguinte já não participou na instrução. Conseguira a tão desejada "guia de marcha" para se apresentar à Junta Médica Militar, lá no Hospital da Estrela.
Ainda estávamos no RI 5 quando voltámos a ouvir falar do "senhor" Rodriques. Segundo os seus conterrâneos, passeava-se, "numa boa" pelas ruas de Viseu. Da Junta Médica conseguira mais do que passar aos "serviços auxiliares". Ficava, então, a fazer parte das "tropas territoriais", numa situação parecida, na prática, com a disponibilidade. Melhor... com a Liberdade.
Muitos de nós só lá chegaríamos daí a cerca de três anos. Alguns, ainda menos afortunados, nem isso...
Que descansem em Paz. Não tiveram culpa e pagaram por erros de outros.
Texto baseado na memória das vivências do autor com nomes supostos e factos reais.
Fotos da Internet. Em baixo,
"Ó Laurindinha"
http://youtu.be/bdivJ1fD9s8

3 comentários:

Vanda disse...

Bem haja por mais uma viagem no tempo onde tudo é tão bem descrito.

Que será feito do "Senhor Rodrigues"?? Daquela pelo menos conseguiu safar-se;)

Honorato disse...

Lembraste-me o também meu RI5 mas em 1969. Aquela parada enorme. A enorme caserna e a travessia das Calda ao som do tambor. E as nossas lavadeiras. E a comida por vezes horrorosa.
Mais tarde, também eu tive de dar instrução em Castelo Branco a um recruta que, parecendo ter algum atraso mental me dizia que não queria ir para a guerra com uma frase exemplar: 'Sofrer por sofrer, antes quero sofrer cá'. Talvez o atraso não fosse assim tão grande.

GRANDE é a tua crónica.

C.Mendes disse...

O meu nome é Candido Mendes e entrei no R.I.5 em Caldas da Rainha,no dia 3 de Maio de 1965,para a recruta do Curso de Sargentos Milicianos.
Foram 3 meses dos quais no que diz respeito ao serviço militar,não guardo más recordações.Gostava de encontrar alguns camaradas com quem tive o prazer de conviver.Apenas em relação a dois tive conhecimento do seu percurso,mas infelizmente já faleceram.
Recordo os nossos jantares no Restaurante Gatos Pretos,um pormenor que pode ajudar a encontrar alguém.Tenho fotos do mesmo.
Se algum ler este comentário e me quiser contactar,o meu e-mail é - candidocmendes@gmail.com