In illo tempore…
Não havia relógios, nem rádios, nem TV’s, nem jornais, nem bordas
d’água, nem automóveis, nem camioneta da carreira sequer. A estrada ainda havia
de ser construída, primeiro de terra batida, depois macadamizada… Muitos,
muitos anos depois alcatroada. A Missa era em Latim, padre de costas para
o Povo, todos virados para Jerusalém… Aqui as pessoas nasciam, cresciam, viviam
e morriam sem outros horizontes que não fosse ver as aldeias em redor, muito
raramente pôr os pés na Vila. A pé. Descalços pelo caminho, quantas vezes.
Ouvia-se
falar que o comboio já passava lá na Fatela, muitas horas de esforço por
caminhos intransitáveis que um ou outro mais afoito se atrevia a calcorrear e a
ir espreitar, para depois, olhos
esbugalhados, contar: “Medonho”! “Muito
feio”…
Pela altura
do sol se sabiam as horas, com a chegada das andorinhas se sabia que era tempo
de semear. Dias e dias sempre iguais a tantos outros já vividos.
As olaias
começavam a sorrir, os domingos maiores e diz o sacristão para o velho pároco:
- Ó senhor
prior, a “festa de flores” deve estar por aí a chegar…
- Tens razão,
Manuel, as geadas já foram, as searas vão subindo, trabalho aí nos campos é o
que não falta… Olha lá, dás um salto à Vila e “assim como não quer a coisa”
vais indagando como param as modas… se a
procissão dos Passos já está na rua.
- Oh! Senhor
Prior, com tanto trabalho não me peça uma coisa dessa…
- Repara
bem, próximo no domingo é o teu dia.
Sais bem cedo, vais num pé e vens noutro…
O velho
prior sabia que não era bem assim. Duas léguas bem medidas em cada sentido,
nunca menos de duas horas para lá chegar. Mas confiava na ligeireza daquelas
pernas fortes em corpo esguio, músculos trabalhados no árduo labor de cada dia.
E usou mais um efeito bem persuasivo:
- Se cá estiveres
à saída da missa do dia… vais almoçar na casa paroquial…
Ora, que
melhor argumento podia arranjar. Todos sabiam que a irmã do prior o tratava
como se deve tratar um abade e os seus cozinhados tinham fama…
Levantara-se
bem cedo, o Manuel, naquele domingo. A tarefa nem era muito difícil, mas levava
tempo, claro.

“Ite, missa
est”, acabava de pronunciar o celebrante, quando o pobre sacristão, esbaforido,
rompe coxia central acima:
- Senhor
Prior, senhor Prior! Grande desgraça. Nem imagina o que lá vi, na Vila…
- Calma,
homem! Vá, senta-te e respira! Tragam água… Afastem-se… - conforta-o o
sacerdote, homem pouco dado a excitações sem razão.
Tinha sido
um burburinho. Os que já estavam fora, voltaram a entrar e o velho templo rebentava
pelas costuras. Na sua calma habitual, o sacerdote “dava tempo ao tempo” e, por
fim, ordenou:
-
Desembucha, homem! Que viste de tão anormal lá na Vila?
- Senhor
Prior, não vai acreditar. Eu também não, se não visse… Mas vi… na rua andava a
procissão de Domingo de Ramos… Eu vi, eu vi!
- Já domingo
de Ramos?! – comentou, na maior calma, o prior.
Hesita
breves instantes, coça a cabeça e ordena:
– Então… olha, vai tocar os sinos às aleluias
que não nos hão de ganhar!!!