domingo, agosto 09, 2015

Cenas da vida militar 2

Tinha acabado a tropa?!
Agosto de 1965. A primeira fase da recruta, com o “juramento de Bandeira” lá no “hotel” das Caldas da Rainha era já uma saudade  e chegáramos a Tavira ainda “revoltados” de não nos ter sido dado o fim de semana de folga com que tanto sonháramos e que era quase obrigatório, no final de cada ciclo de instrução. “Não, ninguém vai a casa, isto agora é tropa a valer”! O CMDT poderia ter tido problemas com a mulher nessa noite, assim pensava a rapaziada sempre descomprometida.
Encatrafiados, à molhada, num comboio de muitas e velhas carruagens, mesmo assim insuficientes para acomodar tantos passageiros, pela tarde – os movimentos da “tropa” eram feitos de noite, por motivos cada vez mais óbvios – aí vamos nós a caminho de umas “merecidas férias”, no Algarve, então uma região pobre e quase desconhecida de portugueses e estrangeiros. Eram poucas e fugidias as pessoas que se cruzavam com aquela massa humana, fardada a preceito, a marcar passo, na baixa de Lisboa, da estação do Rossio à do Terreiro do Paço, estação Sul e Sueste, de onde se haviam de  acomodar, “em molhada”, no barco da CP que os deixaria de costas para a velha capital do Império, navegando para a “outra margem”. No percurso fluvial, avistavam-se, confusamente, na escuridão da noite aliviada pelas luzes de Lisboa e Almada, os gigantescos pilares que haviam de suportar a nova e tão falada ponte a inaugurar dali a um ano.

Cortando o negrume da noite avançada,  a potente locomotiva diesel, uma novidade nas nossas estradas de ferro, ia galgando milhas e milhas pela vasta campina alentejana, em direcção ao Sul,  rebocando  velhas e desconfortáveis carruagens superlotadas com centenas de jovens recrutas acomodados da melhor maneira que podiam em bancos de madeira ou no chão, iluminados por fracas e poucas lâmpadas acesas. O calor daquele quente mês de Agosto entrava pelas janelas escancaradas e, enquanto alguns dormitavam, a maior parte, sem pregar olho, falava, jogava ou pensava no sem presente sombrio e num futuro próximo angustiante. O desconhecido estava à sua espera.
A um canto, acabrunhado, António revia o filme dos últimos dias passados lá no “hotel” das Caldas, o RI 5.
O “juramento de bandeira” na vasta esplanada do quartel, o rancho melhorado, a tarde livre, depois da grande decepção pela notícia de que, contra o habitual, não havia fim-de-semana prolongado para ninguém. Nem prolongado nem curto, “surpresas” com que “domavam” aquela juventude inquieta e generosa.
 No dia seguinte ao do juramento, afixadas as listas de especialidades e colocação, formação de novas unidades por destinos, dando pulos de satisfação com a “sorte” que lhe calhara: analista de informação transmissões, lá no BRT, soube depois, ali na Trafaria, mesmo à beirinha de Lisboa. Que só seria muito tempo depois. Era "preciso "trabalhar" mais o corpo e a alma...
Cabendo à maior parte ter por “abrigo” o CISMI, lá bem no Sul de Portugal. quartel de má fama pela dureza dos instrutores que, como havia de ser provado, tinham por missão preparar para a guerra, fazer  a guerra e sobreviver. Uma Unidade especializada na formação de gente para combater, o Centro de Instrução de Sargentos Milicianos de Infantaria. E lá iam parar os futuros sargentos da Infantaria e especialidades de apoio: das Transmissões, das Minas e Armadilhas, dos Morteiros... Ficariam depois a saber que haviam decidido acrescentar à sua formação e treino mais três de Instrução geral para preparar aqueles que seriam a espinha do Exército combatente em África, em guerras cada vez mais difíceis e desastrosas, os Sargentos Milicianos.

Deitados nos beliches das velhas camaratas daquele velho quartel, os que iam abrindo os olhos nem queriam acreditar. Acabara a tropa? Estremunhados, olhavam para os relógios. Seis e meia, a hora do toque de alvorada, tempo de levantar, preparar, rapidamente, barba bem rapadinha; formar para o café seria logo a seguir e logo depois a formatura para o dia de instrução militar… Sempre fora, assim, na rotina dos últimos três meses. “I can’t stop loving you” com Ray Charles ouvia-se, distinta e "carinhosamente". 
Então… não estou na tropa; a tropa acabou!!!! E a tentação de dar a volta para o outro lado e continuar a dormir foi pronta! 
 Nisto, feito pesadelo, um vozeirão: “Olá, "meninos", queriam caminha, hein?! Toca a levantar que aqui a tropa não é de brincadeira” ! Os mimadinhos das Caldas!!! Agora é que vão saber o que é instrução. Toca a levantar, rápido!!!”, gritou o sargento que, soubemos depois, ser o Loureiro, lá de Chaves.
O sono e o sonho foram-se, num instante! 
Mas com o Ray Charles continuou, todos os dias, por três meses, às seis horas e meia. Em ponto. 
I CAN STOP LOVING YOU!!!

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