

Fui passando, dando conta dos meus estados de alma, relatando para a página o que vi, ouvi, saboreei, senti e cheirei ao longo de uma vida que já vai longa: angústias e alegrias, medos e fanfarronices, lazeres e trabalhos... Falei da minha vida, da minha Aldeia e da minha Beira, enfim, daquilo que amei ... mesmo que já não possa ver. Se lhe dei motivo para me revisitar, agradeço do coração o tempo que me concede.




Passava-se há muitos anos. As noites eram frias, escuras, muitas vezes molhadas. As festas de Natal já haviam passado, sem o "brilho" dos "natais" de hoje, mas com muito mais encanto e espiritualidade, sim, espiritualidade que adensava o encanto de um Deus que quis ser Menino para nos tornar irmãos. A passagem do ano novo, quase não tinha significado para a grande maioria da população, a não ser que, por causa do "dia santo", não iria passar pelas agruras da apanha da azeitona. Contudo, não seria pago tal descanso! Pelo dia de Reis, santificado e de preceito também, ocasionalmente até antes, era dada a "partida" para o cantar das Janeiras que, durante dias, umas vezes de forma improvisada, outras com alguma organização e até acompanhamento instrumental, iam aqui e ali, a pedir qualquer coisa que se comesse ou bebesse... Uns faziam-no para se divertirem; outros, "à cata" de um "mimo" que "consolasse" ou até ajudasse a mitigar a fome. Eis um aspecto que ainda nunca encontrei focado no que tenho visto, lido e ouvido. Os jovens, na nossa Aldeia, casados e solteiros e também as crianças existiam em quantidades inimagináveis para os que hoje por lá passam, se tiverem menos de 40 anos. Era assim que, não raro, apareciam vários grupos que, à luz de lanternas de azeite ou candeeiros de petróleo - ou até na mais completa escuridão - iam percorrendo as ruas da Aldeia, detendo-se nas casas onde se podia sentir um pouco de capacidade material e generosidade de coração - nem sempre unidas - para partilhar as filhós restantes de uma Consoada já longínqua, uns figos secos, um naco de pão com queijo, um copo de vinho... Uma chouriça, morcela ou um bocado de toucinho seria quase um acertar no "euro milhões"... Tal situação só para amigos e/ou familiares, numa forma de prolongar o serão em noites bem longas...
Cantava-se "São chegados os 3 Reis magos/Das bandas do Oriente/Adorar o Deus Menino/Senhor Deus, Omnipotente". Ouvia-se também, já com outra música, a criar receptividade nos donos da casa "Inda agora aqui cheguei/Logo pus o pé na escada/Logo meu coração disse/Aqui mora gente honrada". E ainda "De quem é o "pentem" d'ouro/Qu'além está dependurado/É do menino "José"/Que Deus o faça um cravo". Depois era dedicada uma quadra a cada um dos que poderiam estar dentro da casa, o que levava o seu tempo. Em casa dos meus avós paternos contavam-se 10, sem os netos... E não eram os "campeões" lá da terra... Mais "Venha-nos dar as Janeiras/ Se as tem para nos dar/Somos daqui muito longe/Temos muito para andar". Uns momentos de silêncio em que se decidia o tudo ou o nada!!! Abrindo-se a porta, lá vinham os votos de bom ano, um ou outro petisco, um "copo"... se houvesse autorização para entrar. De outra forma, podia vir uma mão-cheia de figos secos ou de castanhas... que iam "p'ró saco", para despachar... Correndo tudo bem, isto é, se valera a pena o esforço e o empenho, lá vinha mais uma quadra o agradecimento final. Se os de dentro "faziam ouvidos de mercador" era certo e sabido que a despedida era sempre a mesma: "O toucinho é bom alto/E a faca não quer cortar/ Esta "barba de farelo"/ Não tem nada p'ra nos dar." E a procissão lá seguia a tentar a sorte noutras bandas ...
Tenho de esclarecer que a "barba de farelo" nem sempre se justificava, pois quando se sabia que em tal casa o acolhimento era fraterno a "cantilena" era mais que muita... E dar sempre também "cansa"...
Era a festa mais desejada. Jesus ia nascer. Tudo nos falava d'Ele: os cânticos, as filhós, o madeiro, a prendinha (pequenina) no sapato ou na bota.
Maravilhosa "invenção" de S. Francisco de Assis que, em 1223, teria montado o primeiro presépio, na floresta de Greccio, para que, assim, os camponeses, seus conterrâneos e contemporâneos, compreendessem melhor o nascimento de Jesus. O acto ganhou raízes, espalhou-se pelo mundo cristão e chegou à minha Aldeia. Quando nasci, já lá estava. E é desse(s) que venho falar! O primeiro presépio que eu vi era pequenino, pobre e simples como as gentes a quem se destinara. É uma das mais remotas lembranças da minha vida. "Aparecia" no altar dedicado a Nossa Senhora da Graça e ali ficava até ao Dia de Reis. O grande "salto" dá-se pelo meus 8 ou 9 anos e foi uma das maiores surpresas da minha vida!!!
Era um som lúgubre, estranho, "atroando" as madrugadas frias, chuvosas, escuras do mês de Dezembro da minha infância. O toque do búzio. Ou dos búzios. Que cada rancho tinha o seu. E era reconhecido por cada um, sem grande margem para dúvidas. Foram difíceis, muito duros aqueles anos de meados do século XX. As guerras haviam terminado - a do Franco e a do Hitler - com todo o rasto de misérias que também nos tocaram, das quais a fome não esteve ausente. Excesso de população, a terra mal distribuída, umas centenas trabalhando para meia dúzia "deles", "à jorna" quando não de arrendamentos. Uma exploração desenfreada e sem vergonha. Há quem pense que o roubo do suor de quem trabalha é de hoje. Mais velho que a invenção da escrita... Na minha Aldeia, os tenentes da propriedade que valesse a pena contavam-se pelos dedos de uma das mãos: A "Casa FF", com a parte do leão, a "Casa OM", a "Casa PM", a "Casa D.A", e a "Casa PA"... Depois ainda uma meia dúzia de remediados, com umas oliveiritas, dando para a sua família e pouco mais. Os restantes, umas centenas, tinham de viver à custa de muito curvar a cabeça e aguentar, aguentar, aguentar... De mais!!!



Da tropa ... só gosto mesmo é da música!!! E eles dão-me o que eu quero. E "no aproveitar é que está o ganho"! Já por aí "vi" e ouvi várias interpretações deste Aleluia. Uma delas é mesmo sublime. Mas "quem quiser enganar-se ... engane-se com o que é bom" - ouvi dizer muitas vezes, lá na minha Aldeia, vozes que não escutarei mais. Ah! Como apreciariam ouvir e cantar o que em baixo se "clica". Estes novos verbos!!! Aí vai música!!! E da boa!!! 

