quinta-feira, março 24, 2011

Medos na Aldeia 9

Almas do outro mundo...
Os gados eram recolhidos nos bardos, nos currais e nos palheiros, os últimos camponeses regressavam das tarefas campestres agora que o Inverno findava e os campos começavam a deixar-se trabalhar para as sementeiras e rebentação da Primavera: cavas, sachas, mondas, podas, lavras... lavar a roupa na Ribeira. Nas ruas, com a derradeira claridade da tarde que se finava, em sereno anoitecer, as Crianças brincavam e jogavam, até que o toque das Avé-Marias as metesse em casa, a rezar, em Família, muitas vezes quase "a deitar os bofes pela boca". O preceito havia que ser cumprido.
Por entre as telhas mouriscas das coberturas das casas saía o fumo das lareiras acesas com as vides e ramos das podas recentes, para a preparação das ceias, aquecimento e iluminação das cozinhas. A noite vinha caindo e, em breve, um escuro de breu havia de cobrir toda a povoação. Escuro de não se ver um palmo à frente do nariz. Depois... a pouca circulação nas ruas da Aldeia fazia-se tacteando o piso empedrado das ruas, adivinhando as esquinas e quase só por instinto e uma memória adquirida ao longo dos anos se caminhava, também com uma ou outra lanterna de azeite, candeeiro de petróleo, às vezes entre os rapazes uma ou outra lanterna de pilhas eléctricas. Ah! A electricidade. Lá se espreitava na Vila e em Aldeia do Bispo, deficiente qualidade, mesmo assim a valer mais que esta escuridão profunda e cheia de medos. Escuro nas ruas, escuro nas casas.
Pela hora da ceia já a escuridão era completa e os medos baixavam com ela.
Reunidos em volta da fogueira, refeição comida, o momento das conversas, a que muitas vezes se juntava a Ti Vicenta, a das "histórias do outro mundo".
Uma porta que rangia, "passos" num corredor que ninguém sabia explicar, um estrondo num forro de casa, o "gemer" de um barrote do telhado, de que se não estava à espera, um vulto que se conseguia vislumbrar na escuridão em que "nada" poderia ser visto, luzes a tremeluzir lá para os lados do cemitério, vozes e sons que não se sabia produzidos por quem nem por quê, palavras sempre palavras que a não terem explicação nos lobisomens nem nas bruxas - se é que havia explicação para estes, sempre mais "palpáveis" e "próximos"- então haviam de ser transferidos para a designação genérica de "almas do outro mundo". Sabia-se de quem tivesse tido com "elas" mesmo "contactos imediatos", de resultados mais que extra-terrestres. Tais histórias, sempre ouvidas com uma "certeza céptica", causavam respeito nos adultos e arrepios na espinha da garotada. Num mundo fechado e escuro  era melhor não arriscar: como nas bruxas, não se acreditava em almas do outro mundo, mas havê-las ... talvez houvesse.
Nem a opinião do António "Serraninho" desfazia a maior parte das dúvidas:
- Filhos, sempre que é preciso, ando por fora a qualquer hora da noite e nunca vi nada que não pudesse ser visto ou de que tivesse medo!
Mas, com aquela escuridão, como é que o Pai havia de poder ver TUDO?!
Talvez venha a propósito contar duas ou três histórias passadas no percurso entre as duas Aldeias vizinhas e que o Padre José Pedro, enquanto por aqui andou, quis que fossem "Aldeias Unidas", pelo menos no nome do jornal que fazia publicar, de dois em dois meses, ficando os cemitérios "velho" e  "novo" quase na berma da estrada que as une. Então vamos lá ver se conseguimos criar a "atmosfera" em que se vivia nos meados do século passado.
1. Era muito difícil que um rapaz da nossa Aldeia arranjasse namorada na de lá, pois a coisa podia "dar para o torto" e os Xendros não eram para brincadeiras. No entanto, lá se ia conseguindo um ou outro namorico, como aconteceu com o Tó Flor, que havia de acabar em casamento.
Ora numa noite mais escura que alcatrão, o nosso apaixonado, com o coração aos pulos, como sempre acontecia ao passar pelo cemitério, no regresso do namoro, com espanto, primeito, depois com verdadeiro susto, dá conta que das portas fechadas saíam chamas e clarões nunca antes  vistos. Afastando-se o mais possível para a berma contrária da estrada, "deu às de vila de Diogo", e só parou, a arfar e sem fala, entre os irmãos, na cama da modesta casa em que habitava, lá no Bairro de S. Miguel. E nem os carvões lá encontrados, à luz do dia, o conseguiram convencer de que não tivera um encontro com alguma coisa do outro mundo...
Motivo de risota, durante algum tempo, não se sabendo se a brincadeira esteve a cargo de algum Xendro despeitado - não creio nesta suposição, pois o resultado seria diferente... -  ou de algum "Cuco" amigo da brincadeira...
2. Em pleno Verão, após as ceifas, era famosa a colheita de trigo, no Vale Feitoso, lá para os lados de Penha Garcia. A única forma de o levar até à estação da Fatela - uns bons 50 kms. - para ser despachado em comboios de mercadorias, eram os carros de vacas e bois, lá pelo mês de Julho ... Agosto adiante. Entre os ganhões que entravam em tão espinhosa missão encontravam-se alguns desta Aldeia, que aproveitavam fazer as deslocações durante a noite, pela fresca, com os carros a levarem toda a carrada que os animais fossem capazes de deslocar. Um tormento, pois alguns tinham "mais olhos que barriga"... Não raro, ou eram os animais que não conseguiam ultrapassar as rampas da Fatela, cansados, já no fim de tão espinhosa jornada, ou era uma roda que já não aguentava mais. Enormes feitos de solidariedade aconteciam. Bons tempos, sob este aspecto!
De regresso, na noite seguinte, haviam de carregar os sacos de adubo com que as terras seriam fertilizadas, no Outono que lá vinha. Tempos bem difíceis para afugentar se ter algum dinheiro.
Dos vários itinerários possíveis, um atravessava a nossa Aldeia, pelo que o cemitério lhes ficava ali mesmo ao lado da estrada. De que se havia de lembrar um dos "Cucos"  para que a travessia fosse menos monótona e ganhasse alguma emoção? Embrulhado num lençol, em noites de luar,  quando os ganhões e o "carreto" iam passando no troço fronteiro ao "campo santo", vinha de lá  e ia pulando, estrada fora, de modo a causar algums "frisson" na caravana, até que desaparecia por entre o arvoredo. A situação repetia-se em cada noite e o "atrevido"  foi ganhando confiança até ficar bem perto dos que procuravam "ganhar o pão com o suor do seu rosto" e tinham pouca vontade para brincadeiras.
Ora numa dessas noites, um dos intervenientes, sorrateiramente, na "sombra" das vacas, foi-se aproximando "anda lá, Morena", "Ó Cereja, não tenhas medo" até que o "comediante" ficou ao alcance da vara com que cada ganhão conduzia a sua junta, na ponta da qual se encontrava um aguilhão de ferro bem afiado. Quando o "figurão" se pôs a jeito, o nosso António ferra-lhe a anca com força. O brincalhão deu um berro e desapareceu muito mais rapidamente do que aparecera. A situação ficou esclarecida, quando nos dias seguintes, o Zé Espanhol apareceu a coxear, nas ruas da Aldeia.
"Então eras tu?" ao que o brincalhão retorquiu "Então foste tu? Ferraste-me a anca com tal força que o sangue escorreu até ao calcanhar".
Durante muito tempo, o segredo ficou com os dois, selado num copo bebido ali na taberna do Ti Domingos.
3. Com a chegada da electricidade a Aldeia do Bispo, rapidamente apareceram por lá os primeiros cafés e a TV começou a estar ao alcance da nossa rapaziada, desde que se dispusessem a percorrer os 2 kms os "clientes" do objectivo.
Foi, pois, frequente, acontecer que os nossos jovens e adolescentes, em grupo, com Lua ou sem ela, fossem até AB para aprenderem a gostar de cerveja, quase sempre pouco fresca, e para tomarem contacto com um mundo novo que a televisão, ainda de má qualidade e com muitas interrupções, lhes vinha  pôr ao alcance. Foi assim que aproveitaram para ver, sem sectarismos, o Benfica ganhar duas taças europeias, ao Barcelona e ao Real Madrid.
Diga-se, pois,  que, sobretudo com bom tempo, a malta se habituou e estes passeios se tornaram frequentes. Durante 5 anos. A passagem pelo cemitério era obrigatória e de respeito e o silêncio prevalecia. Não fosse o alegre vozear daquela malta acordar quem estava a descansar...
Aconteceu que já o cemitério fora ultrapassado, a meia noite batera no relógio da torre quando, ali junto ao chafariz, sob as enormes faias que balizavam a estrada,  um se lembra de perguntar:
- Quantos anos terá o cemitério "novo"?
- É pá! 25, talvez. Mas a data está lá escrita...
As opiniões dividiam-se até que o Nando, dos mais novos, se oferece:
- Pronto! Para tira-teimas eu vou lá ver a data que está na porta. Agora mesmo!
- Não és capaz! E ainda te empresto a minha pilha. - diz um dos companheiros.
- E eu pago-te um pirolito! - garante o Jorge.
- Deixa ver a pilha. Que o pirolito já está ganho! - garantiu.
- Mas só mesmo para leres a data... - explicitou o da lanterna.
- Está prometido.
O Nando volta atrás e o resto do grupo, em manifesta falta de solidariedade, mas também para ver do que o rapazinho era capaz, seguiu para a Aldeia.
Frente à fonte, onde o grupo se  detivera para esperar o resultado, são apanhados pelo Nando, que nem se dera ao trabalho de vir em grande correria.
- A data que está lá escrita é... 1931!!! Tem 29 anos, portanto...
Na manhã seguinte ainda havia quem tivesse dúvidas e lá foram tirá-las.
O Nando ganhara o pirolito. E o Jorge, esá bem de ver, pagou.
Notas: "Erva cidreira" também é nossa, bem interpretada por um Rancho ribatejano; a foto é da colecção do FB de AJP, de José Luís Caria Santo. O texto narra situações escutadas ou vividas pelo autor, com personagens autênticas ou inventadas, com o tratamento que entendeu por bem dar-lhe.

5 comentários:

Zé Morgas disse...

Olá Professor Serrano
Se acabaram os medos,o que nos trará a ausência deles?
Aguardo para saber.
Abraço Amigo
Zé Morgas

Anónimo disse...

Meu caro Tó:

Obrigado por mais este " Medos na Aldeia " que muito apreciei.
Conseguiste,mais uma vez,transportar-me aos anos 50/60 e reviver a camaradagem daqueles tempos.
As idas nocturnas a AB, em grupo,num passeio alegre e descontraido,após o jantar,para vermos TV,eram frequentes e muito agradáveis.Hoje até custa acreditar...
Não sendo benfiquistas lembro a alegria da conquista das duas taças dos Campeões Europeus a que assistimos em directo no Café do Zé.
E aquele programa do já saudoso Artur Agostinho com o Camilo de Oliveira-"O Senhor que se Segue "que não perdíamos às 2ª Feiras?!...Tempos que não voltam mais...nem mesmo com as " Almas do Outro Mundo ".
Das proezas do teu irmão,lembro-me muito bem,mas essa do pirolito...passou-me.
Um grande abraço do muito amigo Jorge

Jorge Passos disse...

Caro Tó:

Por lapso o comentário atrás saiu " Anónimo" mas tenho muito prazer inscrever o meu nome: Jorge Passos

Luísa Antunes disse...

Eu também ouvi muitas histórias de almas penadas e afins e garanto que, ainda hoje, não gosto mesmo nada... É que eu tinha medo, mesmo muito medo! À sua boleia lá recordei uma série de medos da minha infância e foi uma viagem muito agradável... É que o Prof. Serrano é um excelente contador de histórias e estórias!...
Bem haja. Abraço da Luísa

Prohensa, j. adolfo disse...

Medos... trabalhos... camaradagem ... rivalidades ... coragem... assim se faziam as histórias das aldeias da nossa beira em meados do século passado.
Uma vida dura e difícil mas que hoje se recorda com saudade...
Haverá, daqui a 100 anos, gente que recorde a vida dessas aldeias nos anos 50 do séc. XXI?
Um abraço e o meus agradecimentos por nos trazer as suas recordações.
João Adolfo