quarta-feira, outubro 12, 2011

Instrução, Cultura e Informação na Aldeia 1

Numa época em que as trevas da noite tomavam conta da Aldeia logo a seguir ao pôr de sol, não era fácil descobrir preencher "espaços", depois do trabalho duro na agricultura e na pecuária, donde saía o sustento de cada dia de quase toda a nossa Gente. Regresso a casa,  comer a ceia frugal e… depois,  à volta do lume, ficar de conversa sobre "a vida", ou a contar histórias de bruxas, lobisomens e almas do outro mundo, narrar um conto tradicional ou tirado dos livros da escola, a terminar num conceito educativo, enquanto se preparava o almoço da manhã seguinte, se dava um jeito nas roupas usadas…  Havia lugar ainda para momentos de namoro arranjado ou sentido, ali, à vista de todos. Também encostados na ombreira da porta ou da janela para a rua,  “de gargarejo”… Enfim, a cama! Para a maioria era um "deitar cedo e cedo erguer..."  Deste modo o crescimento na instrução, na cultura, na moral e no civismo era assente nos valores cristãos que impregnavam, por tradição ou opção, o ambiente bem fechado em que vivia a população, por toda uma vida.
Não havia rádios, muito menos televisão, só poucos livros escolares que "deviam" passar de irmão para irmão e que podiam ali ser chamados "a desoras" para a "cópia" do dia que a brincadeira ou o trabalho da tarde descuidara. Assim mesmo, à luz de um candeeiro, quando não da fogueira, sem papel nem caneta ou lápis, na "pedra" ou "lousa" de ardósia, "ponteiro" para escrever. Tempos em que -  escutado da minha madrinha, 95 anos radiosos e inteligentes - “era uma Mocidade muito bonita em que nenhum faltava ao respeito ao outro”.
 Vou aqui fazer uma resenha tão precisa quanto possível da maneira de viver da Gente de Aldeia, nas décadas 20-50, para além da árdua tarefa de angariar “o pão nosso de cada dia”, descrita em capítulos anteriores.
 Vão elencados os principais agentes da formação e da informação ativos nesta nossa Comunidade e o papel que coube a cada um deles: a Igreja, a Escola, a Banda, a Casa de Trabalho, os Comediantes, os Cantadores ambulantes, a Imprensa e os Tocadores de concertina.
 1.  A Igreja
Competia à Igreja a formação moral e religiosa das pessoas, o ministrar dos Sacramentos e a evangelização do Povo, nem sempre no sentido da Libertação anunciada por Jesus Cristo, antes na conformação com a pobreza e com o sofrimento, na aceitação da humildade e da obediência. No entanto, a Igreja punha o Povo a cantar, trazia notícias do seu mundo restrito, fazia as celebrações, “promovia” a festa e obrigava ao descanso dominical e ao dos dias santificados.
Nestas décadas, teve influência decisiva, em várias gerações, o Padre José Maria Lopes Nogueira que, já no final da monarquia havia por aqui andado e criara a banda filarmónica.
 O mais importante serviço da Igreja era prestado à comunidade juvenil, a Catequese, frequentada por dezenas e dezenas de Crianças, onde se procurava aprofundar, completar a formação cristã de cada um, iniciada em quase todas as famílias. Dirigiu a Catequese a prof. D. Gervásia Andrade Costa, de quem se voltará a falar. Tendo decidido habitar em Aldeia e permanecer solteira, dedicou, generosamente, a sua vida a instruir, a educar e a amar a nossa mocidade. Injustamente, uma personagem esquecida no passado da nossa terra e de quem aqui quero deixar memória. Preparava as catequistas de entre as jovens da sua confiança, suas ex-alunas e frequentadoras da Casa de Trabalho. Não será de mais aqui evidenciar a sua notável influência na formação da gente nova do seu tempo.
A Catequese preparava a primeira Comunhão, pelos 7 anos; a Comunhão solene lá pelos 12 e, muito raramente, o Crisma dos adolescentes e adultos. A comunhão solene era um dos momentos mais festivos na vida da comunidade paroquial. Chegava no princípio do Outono, depois de se terem aproveitado as férias das Crianças e dos seminaristas para para um trabalho mais profundo e fecundo, embora na Catequese fossem ministradas mais fórmulas para a memória do que o estudo do Evangelho e da mensagem bíblica.  Com grande parte do cerimonial da Missa em Latim, não era fácil despertar a atenção e, sobretudo, o coração de muitos dos praticantes. O concílio Vaticano II ainda não era sequer sonhado...
É neste período que seis sacerdotes são ordenados e são "cantadas" seis "missas novas". Os nomes, para que conste: Padres Agostinho, Alberto, Artur, Jaime, José Joaquim e Gama.  
 2.  A Escola
 Há notícia do funcionamento da escola e de existência de professores, desde o último quartel do séc. XIX. No que se refere ao período em apreço, são mais evidentes os papéis dos professores D. Gervásia, Justino, Moreira, Teodósio e D. Celeste. Muitos foram os alunos que passaram pelas suas aulas. Na década de 20  lecciona-se aqui o ensino até à 6ª. Classe, situação que se degradou com o advento do Estado Novo.
A prof. D. Gervásia passou a maior parte da sua vida docente nesta Aldeia e aqui chegou ao fim da sua caminhada terrena. Um marco notável entre nós, muito querida, mesmo amada de todos, foi justamente homenageada no fim da sua carreira docente, festa que coincidiu com a inauguração da escola nova do Plano dos Centenários, no dobrar do século XX.
Foi com mágoa que toda a população sentiu a oposição dos familiares a que ficasse sepultada aqui. Em vida sentira-se uma de nós! Aldeia está a dever-lhe, ainda hoje, uma outra homenagem que perpetue a sua memória e a faça recordar pelos que depois dela vieram.
3.  A União
Fundada a nossa Banda ainda antes da implantação da República, com o mérito da população bem dinamizada pelo então pároco, padre José Maria Lopes Nogueira, teve de se assumir com “a prata da casa” e ir vivendo, com altos e baixos, quando aquele sacerdote fugiu da perseguição republicana às suas ideias monárquicas.
Ao longo de mais de um século, centenas e centenas de jovens aqui fizeram a sua aprendizagem musical, enveredando muitos pela profissionalização nas bandas das forças armadas e de segurança. Ao redor da Banda, o Povo ia construindo a sua União. Mesmo os não executantes iam apurando o ouvido e a voz, quer cantando em conjunto com a Banda, quer em grupo ou individualmente. A Banda desenvolveu o espírito de equipa, disciplina, solidariedade  e cooperação, bem patentes no nosso Povo na construção da sua sede, na reconstrução da igreja paroquial e na do centro social. A população revia-se na Banda e por ela se sentia educada e feliz. De entre os Mestres que conheci, para além do padre José Maria, tenho de salientar o Ti ´Stonho, a “tapar buracos” quando outros falhavam; o Ti Matos, excelente músico da minha infância, que tanto admirei, anos e anos, nos seus gestos exuberantes e no levantar das sobrancelhas farfalhudas, quando as coisas não lhe corriam bem nos ensaios ou nas exibições públicas; o 1º. Sargento Músico Jaime Rei, um apaixonado pela Música e por Aldeia, membro de uma família melómana e de grande dedicação à Banda. 
 Na sede da Banda chegou a realizar-se teatro de revista com a gente moça de Aldeia que, às vezes, sem saber ler ou mal entendendo o que lia, subia ao palco lá construído para alegria da população. Fez história um espetáculo levado à cena, em que uma das canções tinha a letra apanhando quase todos os "apelidos" ou alcunhas de Aldeia e que começava assim: “Rin-tin-tin cá na terra sou o Pechim, mas se me chamam Piorreco, respondo que sou o Feco…!” Obra do Mestre Jaime Rei,
Além dos ensaios da Banda, na sua sede realizaram-se centenas de bailes, alguns espetáculos de “comédias” – falaremos adiante – fizeram-se projeções cinematográficas. Vi o primeiro “filme” da minha vida, o casamento da rainha Isabel II… “Espetáculo” foi também ver as pessoas a gritar com medo que as rodas do coche saltassem do coche...
Assistir aos ensaios da Banda era uma das atividades preferidas dos nossos homens e rapazes e forma de os tirar da taberna; adormecer ao som dos instrumentos a tocar nos  ensaios era uma boa maneira dispensar os calmantes e dar bons sonhos à restante população.
Para a História: Os Estatutos da União foram aprovados por alvará do Governo Civil de 15.01.1924, tendo por sócios fundadores os senhores Jaime d'Aguilar Simões, Luís Leitão Mendes, José Joaquim Moreira e Tenentes António Manuel Ribeiro e  Domingos Antunes. 
Constituíram  a primeira Direcção formal os senhores Jaime d'Aguilar Simões (Presidente), José Joaquim Moreira (Tesoureiro) e Luís Leitão Mendes (Secretário). (Alguns dados históricos recolhidos em "O Concelho de Penamacor na História, na Tradição e na Lenda" de J. Manuel Landeiro, e em  "Banda filarmónica de Aldeia de João Pires" de M. Lopes Marcelo
Fim da 1ª. parte)

4 comentários:

Anónimo disse...

Meu caro Tó:

Tentei enviar-te um comentário há dias,repetido depois sem sucesso.
Espero que desta vez consiga chegar ao fim.


Pois é, meu caro,mais uma vez,como em tantas outras,conseguiste transportar-me aos belos tempos da nossa meninice onde tudo,ou quase nada,nos fazia felizes...Quão diferentes os dias de hoje...lá,aqui ou em qualquer parte do mundo.
Desfrutar da interioridade Beirã nesses tempos,longe de tudo e de todos,sem rádio e televisão e apenas um ou outro jornal,suportando a dureza da vida quotidiana,conseguimos viver alegres o nosso dia a dia.Assim era na catequese aturando a exigente D.Gervásia e o rabujento Padre José Maria,na prática dos jogos tradicionais de dia ou à noite sem problemas,nos ensaios da nossa Filarmónica.
Aqui deixo o meu apreço por teres lembrado os principais obreiros da Fundação da Banda Musical e sua Sede,bem como os principais agentes educativos da época...Alguns recordo-os com muita saudade,sobretudo o Prof Teodósio que iluminou o caminho a muitos onde ambos nos contamos.Esqueceste,porém,talvez de propósito,de referir o Prof Henrique Guerra, o "carrasco " para muitos dos nossos antecessores e de quem não guardam boas memórias.Nem tudo foi bom certamente,mas lá que pudemos viver uma infância e juventude sem grandes problemas,é uma realidade.
Um abraço amigo

António Serrano disse...

Jorge, meu Amigo,
São lindas as tuas palavras mais ditadas pela Amizade que nos une há tantos anos - estivemos de tal maneira perto que muitas destas memórias são também tuas, porque vividas em conjunto! - que pelo verdadeiro valor do que escrevo, revivendo um tempo que não regressa.
Esqueci-me de aqui recordar a página que tu dinamizaste no jornal "Notícias da Covilhã", que chegou a ter publicação regular de uma página do nosso Concelho com notícias que tu recolhias e enviavas e em que também escrevi uns parágrafos. Até recordo a caneta que ganhaste num concurso desse mesmo semanário sobre quais eram os países que constituíam o BENELUX... Onde nós, Europeus, já fomos parar!!!
É escusado recordar que a caneta foi para ti e a alegria foi de nós dois!

Jorge Passos disse...

Meu caro amigo Tó:

Tens uma memória previlegiada,tal como eu,felizmente e talvez por isso ou por termos vivido muito de perto a nossa infância e juventude recordamos os mesmos factos com pormenores que a muitos passariam despercebidos.A caneta do concurso do jornal Noticias da Covilhã é disso prova evidente.
Obrigado pela partilha da tua felicidade.
Um abração do Jorge

P.S. Afinal parece que já descobri o enigma do envio.Será?

Prohensa, j. adolfo disse...

Como é possível que durante a vida de uma pessoa se transforme de tal forma a vida de uma Aldeia???
Parece que o chamado desenvolvimento é sinónimo de desaparecimento para estes núcleos populacionais.
Um abraço
João Adolfo