terça-feira, dezembro 06, 2011

A saúde na Aldeia 2

- Maria, então o burro? Já deste de comer ao burro!!! 
Foi assim que, no dealbar da segunda metade do século XX, a população, a beber água de fontes e poços contaminados, se encontrou vítima de uma epidemia de febre tifoide, que só não causou uma calamidade porque os antibióticos estava a chegar ao nosso Concelho e ao seu Hospital de Santo António.
- Ai, filho, esta febre não é normal. Trinta e nove graus!!! Mas que fizeste tu…
- Tanto frio, Mãe. Ponha-me mais um cobertor…
A noite foi longa e mal passada. A custo se pôs de pé. A Mãe “esqueceu” o trabalho e a camioneta da manhã levou-os até à Vila.
Ouvida a história da “excursão” do dia anterior, o médico tentou não dramatizar a situação. "Aquele calor, aquela água fria,  esta rapaziada não ganha juizo, pode ser uma pneumonia…"
- Tenho o hospital cheio e não te posso internar, mas isso vai passar; és novo e p´rá semana já andas a correr e saltar. Lá vão quatro injeções de 300.000 UI de Penicilina…
– Penicilina?!  O que é isso?! As injeções doem? Quem é que vai dar?
- Lá na Aldeia, a Menina Maria Adelaide parece que sabe alguma coisa… - adianta a Mãe.
- Quanto é Sr. Doutor?
- São "só" vinte escudos.
Receita aviada:
- São "só" trinta escudos...
 Regresso de táxi:
-  São "só" vinte e cinco escudos…
A Menina Maria Adelaide Simões era um anjo na nossa Aldeia. Catequista e "enfermeira". Gratuitamente, tratava de tudo e de todos: cabeças partidas, cortes de faca ou de podoa, pensos, unhas encravadas, calos dolorosos... lá ia o pessoal em procura de cuidado. Com o aparecimento das primeiras injeções também ela quis "aprender a dar" e lá tinha a sua caixa de seringas e agulhas que, fervidas, serviam para toda a gente. Embora, nesta área, a “clientela” não fosse muita. Injeção, traseiro à mosta, "antes morrer"...
E tanto fazia o seu trabalho em casa de sua mãe, onde vivia, como nas humildes moradas dos doentes, se a deslocação destes se tornava muito difícil.
Quatro dias e quatro doses de Penicilina depois a situação não deu sinais de melhorar… A febre atenuava, mas voltava. Sempre alta…
Era forçosa nova ida ao médico. Que, ao ver o doente, fez "cara feia" e torceu o nariz. No entanto, nova receita, novo acreditar no que "estava errado" e, com idas ao médico e vindas do médico, se esgotam quase duas sofridas semanas. 
- Não há volta a dar... tenho de te internar. Ficas deitado numa maca e depois logo se vê. Vamos tirar sangue e e recolher fezes para mandar para Castelo Branco para fazerem análises e termos a certeza do que tens... É capaz de ser o tifo. Anda por aí e tenho lá vários doentes… Quando houver vaga… terás uma cama… Para já vais comer muito pouco: aguinha de canja e nada de alimentos sólidos… Muito gelo na barriga. De três em três horas o saco de borracha tem de ser mudado.
Não foi fácil a separação da mãe e do filho. Coração de mãe adivinha sempre!
Feitas as recolhas para as análises, enviadas pelo correio, com resposta a ser dada também pelo correio. Podia demorar oito dias. Em casos de gravidade comprovada quatro ou cinco. Pelo telefone.
Já numa cama da “enfermaria dos homens”, um enorme salão com duas filas de quinze a vinte camas, cabeceiras encostadas às grossas paredes, enormes janelas envidraçadas,  a privacidade nos tratamentos era conseguida com a colocação de biombos.
O estado do doente piorava, desesperadamente. Nada detinha aquele febrão. Na ausência de medicação adequada por dúvidas no diagnóstico… o "estado de coma" não se fez esperar três ou quatro dias depois. Aquela mãe, sem falhar uma hora da “visita a doentes” sente que só Deus e ela podem salvar um dos filhos do seu coração. O idoso enfermeiro não tinha condições para cumprir as mudanças regulares do gelo sobre a barriga do paciente. Conseguiu autorização desesperada para pernoitar junto da cama do enfermo. Numa cadeira. De três em três lá vai à “casa do gelo” encher o saco de borracha. Sem falhar, passando pela “casa mortuária", apesar do “medo dos mortos" que sempre apregoou. De Castelo Branco os resultados das análises são dados pelo telefone. Febre tifoide em estado de enorme gravidade. Era preciso “atacar”… Um novo antibiótico, o Cloranfenicol, é aplicado com regularidade, apesar e por causa da situação do doente. Antibiótico de oito em oito horas  e gelo de três em três . Ninguém desiste, mas o estado comatoso não se altera. Só um milagre. Que era pedido com insistência. Com Fé. Com Esperança…
Ao sexto dia “ausência” o jovem abre os olhos e ouve-se num leve murmúrio:
- Mãe, onde estou?!
Depois o milagre, a juventude e o querer viver fazem o resto. Emparado, reaprende a caminhar e foi um longo período de recuperação. Mais de um mês.
- Maria, então o burro?! Dá de comer ao burro!!!
A exclamação de desespero ouvia-se por toda a enfermaria, despertando sorrisos compassivos ou comentários cínicos.
- Quem é?! Que quer ele?!
Um idoso de Pedrógão havia sido internado, dias antes, em estado grave. Pela doença e pela idade.
No entanto, fruto de uma convivência de muitos anos de trabalhos e cumplicidades não havia de  esquecer o velho e fiel amigo, naquela hora difícil.
- Maria, então o burro? Já deste de comer ao burro? – ainda se ouviu durante uns poucos dias, a voz cada vez mais frágil. O amigo ainda e sempre a não esquecer o seu amigo. Os sorrisos trocistas foram-se acomodando e aquela gente que vivia, muitas vezes sobrevivia, do trabalho e companhia de tão manso animal, acabou por sentir a mágoa daquele homem e foi-se-lhe associando num misto de ternura e cumplicidade, agora sem os sorrisos de mofa.
- Ó Maria, então o burro? Dá de comer ao burro… - ouviu-o ainda no anoitecer daquele dia de fim de Verão.
Depois teria a certeza de que o Ti Cardoso levara a lembrança do seu burro até ao último minuto da sua consciência.
E o ti Cardoso lá foi. De forma diferente daquela como entrara, já tão débil. Agora sem dores nem saudades do seu burro...
O jovem ainda por ali ficou, até ao princípio de Outubro. Recorda, até hoje,  o carinho das gentes de Penamacor, da visita em quase romaria ao seu hospital, aos seus doentes, todos os domingos, após a saída da Missa do meio-dia, com um sorriso nos lábios, a perguntar de cama em cama:
- Então, está melhor?!
Outros tempo de solidariedade e Caridade!!!
E, convictamente, o comentário de “coitado, tão jovem, não escapa…” a transformar-se num sorriso de ”olha... temos homem!; do que tu te livraste!”…

Em memória da minha Mãe. E do meu Pai.  Da minha Avó Emília. Aos meus Irmãos.
Lembro ainda o Povo da minha Aldeia, sempre solidário; o Dr. António Moutinho, rezingão e teimoso, mas que soube depois "portar-se  bem"; o senhor Arciprestre P. António Baltasar, que me "ouviu" de confissão e administrou a Santa Unção e sempre que podia ali se fazia presente; o Enf. Sr. João, que faleceu pouco depois de doença que "adivinhou; a enfermeira "Menina" Lia, da "enfermaria das mulheres," mas atenta; a prof. D. Olívia e Prof. Armando, que colocaram o seu carro ao dispor e se tornaram discretamente sempre presentes; os meus jovens amigos de Aldeia que levaram a cabo a peça de teatro que vínhamos ensaiando em que o "artista principal" - diz o Jorge, "era eu"...
Ai a Juventude!!! Temos de dar um passo em frente: vida militar e vida profissional. Até qualquer dia... se Deus quiser. Obrigado por terem chegado ao fim. O história do burro foi verdadeira. Como o resto.
Fotos da internet. Uma especial do meu Amigo Zé Morgas..

4 comentários:

Jorge Passos disse...

Decorriam animadas as férias do Verão de 1959.Aproveitando a existência dos já bastantes estudantes locais,fruto da criação do Colégio local pelo saudoso Padre José Pedro,os mais avançados quiseram por à prova os seus dotes de "artistas".
Lembro muito bem todos aqueles momentos,quase diários,que passámos juntos nesse mês de Agosto,preparando ao pormenor as peças teatrais,ensaiadas ao ar livre no nosso tão querido Sobreiral,para que nada falhasse no dia 8 de Setembro...Estava tudo a correr bem...mas ,um dia,já pouco antes da "Festa"algo de anormal aconteceu.Alguém,por sinal um dos actores principais,adoeceu gravemente.O actor foi substituido à pressa...mas a saude ...
Bom,a história já tu a contaste;resta-nos,hoje,passados estes anos, recordar esses belos momentos que passámos juntos e a alegria que sentimos da tua recuperação.
Obrigado,amigo Tó,por mais esta vivência do nosso passado.Jorge

Zé Morgas disse...

Olá Prof. Serrano
O meu Obrigado pela referência á foto. Ponha e disponha à sua vontade das que por aí andam publicadas.
Votos de um Feliz e Santo Natal.
Abraço Amigo.
Zé Morgas

A.Soares Pires disse...

Curiosamente em Aldeia, onde estou de fim de semana ( com portagens... ) li esta ultima crónica. Acompanhei esse tempo, convivi com as personagens referidas,e do hospital que estava cheio com gente da nossa terra. Tamanha preocupação.
Obrigado por mais esta peça. Tó Maria

Prohensa, j. adolfo disse...

Excelente relato das vivências de outros tempos!
E quanto ao Sistema Nacional de Saúde, já o vi com melhores olhos!... com tanta "crise" vamos lá ver onde isto vai parar!
Um abraço
João Adolfo