sábado, março 27, 2010

Domingo de Ramos

Os ramos mais lindos das oliveiras foram guardados para este dia.
Enfeitados com as poucas flores disponíveis, na época - glicínias, lírios, perpétuas, malmequeres – que, atadas no ramo, com fios de lã, algodão ou até com as linhas de costurar, podiam acabar num encanto, uma pequena obra de arte, ou nem por isso, dependendo do bom gosto da mãe, da avó, da irmã ou até da vizinha, a acudir à confusão provocada por vários ramos a terem de sair da mesma casa. O que muitas vezes acontecia, pois as Crianças não faltavam, como hoje.
Domingo de Ramos! Era uma festividade bem desejada, como se toda a comunidade quisesse celebrar as alegrias da entrada triunfal de Jesus, em Jerusalém, e libertar-se da opressão de uma Quaresma que obrigava à meditação, ao silêncio, à penitência, à conversão.
Os sinos haviam tocado "a última" para a Missa e, a caminho da Capela do Pereiro, por todas as ruas da Aldeia, dezenas de Crianças empunhavam os ramos de oliveira, quase sempre bem alto, lá na ponta de uma cana também ela escolhida e aparada com todo o cuidado. Era quase um concurso saber quem levava o ramo o mais jeitoso e o mais bem composto. Vaidades de mães e pais, que também os gaiatos apreciavam.
Os ramos eram quase só transportados pelos Crianças, sobretudo pelos rapazes. Um ou outro adulto carregava já o seu também, se se quisesse distinguir da generalidade, com o rosmaninho ou o alecrim, pois a todos os devotos seria entregue um raminho de oliveira que o sacristão se encarregara de arranjar.
As Crianças  ajeitavam-se para junto do celebrante e os adultos enchiam o largo contíguo à capela, o coração do povoado.
No início da celebração os ramos iam passando de mão em mão até que cada um tivesse a sua parte, seguindo-se a sua bênção. Os que sobrassem seriam queimados e a cinza usar-se-ia na celebração do início da Quaresma do ano seguinte, em Quarta Feira de Cinzas.
Organizava-se a procissão em direcção à igreja paroquial. Com as leituras e orações em Latim, também os cânticos seguiam no mesmo tom:
- Lauda, Jerusalem, Dominum! Lauda Deum tuum, Sion! Hossana! Hossana! Hossana, Filio David!
- Benedictus qui venit in nomine Domini! Benedictus qui venit in nomine Domini! Hossana! Hossana! Hossana in excelsis!!! Hossana, hossana Filio Dei!!!
Era um momento de solenidade impressionante. À frente, dezenas de Crianças, abrindo o cortejo, com os seus ramos lindos. Depois, os homens, uns mais corajosamente, outros um tanto envergonhados, também com o ramo na mão, juntando as suas vozes em coro com as das mulheres, que fechavam a procissão, dirigida pelo pároco já ancião e doente, Padre José Maria Lopes Nogueira. Em frente da igreja paroquial desenrolava-se uma cena com o seu quê de mistério: a porta estava fechada, o pároco batia nela por três vezes, cantando palavras em Latim a que, de dentro, um dos paroquianos, Ti Iná, ia respondendo no seu “latim” possível. Depois as portas eram escancaradas e o templo ficava literalmente cheio. As Crianças tinham de ser acolhidas em volta do altar-mor, meninos à esquerda e meninas à direita. Não era fácil manter aquela garotada na ordem, por muito mais de uma hora, para desespero do velho Pároco. Ramo contra ramo, as pernas a “fazer comichão” por tanto tempo “em pé”. Havia sempre um mais maroto que tentava derrubar o ramo do vizinho e as coisas podiam “dar p’ró torto”. O que acontecia, de vez em quando…
Com alívio dos gaiatos e um respirar fundo do Padre José Maria lá vinha a bênção final, o rezar do “Angelus”, habitual, ao tempo, no fim da cada Missa e os sinos a repicarem, para só voltarem a tocar na meia-noite da Sábado de Aleluia.
Nota: Só muitos anos depois, já adulto e avançado em anos, tive curiosidade de conhecer o significado do “diálogo” de porta fechada, naquelas manhãs de Domingo de Ramos, tão do meu encanto. Para os interessados, aqui vai a explicação do próprio Papa Bento XVI.
“Voltemos à liturgia e à procissão dos Ramos. Nela, a liturgia prevê o canto do Salmo 24 (23), que também em Israel era um canto de procissão, utilizado para subir ao monte do templo. O Salmo interpreta a subida interior de que era imagem a subida exterior e nos explica o que significa subir com Cristo: «Quem subirá ao monte do Senhor?», pergunta o Salmo, e apresenta duas condições essenciais. Aqueles que sobem e querem chegar verdadeiramente até o cume, até a verdadeira altura, têm de ser pessoas que se perguntam por Deus. Pessoas que perscrutam ao seu redor para buscar Deus, para buscar seu Rosto. O Salmo 24 [23], que fala da subida, que termina com a liturgia de entrada diante do pórtico do templo: "Levantai, ó portas, os vossos frontais, levantai-vos, portas antigas, e entre o Rei da glória".
Na antiga liturgia do Domingo de Ramos o sacerdote, ao chegar diante da igreja, batia, com força, com a haste da cruz da procissão na porta ainda fechada que, após este bater, se abria. Era uma bonita imagem para o mistério do próprio Jesus Cristo que, com o madeiro da cruz, com a força do seu amor que se doa, bateu do lado do mundo à porta de Deus; do lado de um mundo que não conseguia encontrar o acesso para Deus. Com a Cruz, Jesus abriu, de par em par, a porta de Deus, a porta entre Deus e os homens. Agora ela está aberta".
(Na Homilia de Domingo de Ramos, 1 de Abril de 2009, XXII Jornada Mundial da Juventude)
Fotos de João Paulo Fidalgo e internet

quarta-feira, março 10, 2010

Ladainhas

1.Dos homens
A Primavera aí estava e o dia lá nos campos fora bem duro. Logo ao entrar da noite, os sinos anunciaram que a ladainha havia de sair. É Quaresma e é sexta-feira.
O relógio da torre comandava os actos da população, sem obrigar ao cumprimento rigoroso de horários do nosso tempo. A escuridão mergulhara a Aldeia num ambiente de mistério e cada retardatário apressava-se a chegar a casa para uma ceia frugal e rápida, que o tempo já não sobrava. Àqueles corpos cansados era ainda exigido mais um esforço. Generosamente dado. De graça. À procura da Graça.
Por isso, homens, rapazes e gaiatos, iluminando-se com lanternas de azeite e candeeiros de petróleo na mão, ou “apalpando” o chão empedrado, tropeçando aqui e ali, foram-se chegando ao adro da igreja, uns entrando, outros cá fora, para a tradição se cumprisse. E também a devoção e a fé.
A ladainha ia sair. As nove já se ouviram, lentamente batidas, rasgando a noite fria e estrelada, ressoando pelas quebradas da Serra.
Na igreja, começaram as primeiras invocações. O Ti Iná, O "Xequim Pataco", o Ti “Feduchas” e o ti Zé Oliveiros, “o Padre do Soito”, ano após ano, coordenavam e dirigiam este bem piedoso acontecimento.
- Senhor, Deus, misericórdia!
- Senhor, Jesus, misericórdia!
- Virgem Mãe de Deus e Mãe nossa, alcançai-nos do vosso amado Filho misericórdia!
A profunda escuridão da noite era quebrada pela luz das lanternas e de dezenas de pinhas acesas, nas mãos dos penitentes, ou enfiadas numa vara, prevenindo queimaduras. As pinhas haviam de durar para todo o percurso, acendendo-se cada uma na que se finava, para que a procissão caminhasse em paz e segurança, com respeito e recolhimento, pelas ruas da Aldeia. Às mulheres, meninas e meninas era vedado participar. O seu dia chegaria.
À saída da Cruz procissional, transportada por um dos homens, ladeada por duas lanternas, empunhadas por dois outros fiéis, os três vestidos com opas negras, os presentes tiravam chapéus e o cortejo seguia, com a invocação de anjos e santos, e pedidos de clemência e compaixão a Deus e Seu Filho. Era um acontecimento vivido, semana após semana, sem direcção do pároco que, se quisesse participar, o faria apenas na qualidade de simples penitente, como todos os outros crentes. Ao longo das ruas, espreitando atrás dos vidros das janelas ou mesmo de janelas abertas, iam aparecendo as caras femininas, ajudando a iluminar a noite com um ou outro candeeiro e juntando-se, de passagem, aos cânticos e imprecações dos homens, desfiando a ladainha dos santos, invocados-os um a um, num "Latim" de quem nunca o estudara, mas que mergulhava a celebração ainda no mais profundo misticismo:
- Sancta Maria!
- Ora pro nobis!
- Sanctus Josephus!
- Ora pro nobis!
- Sanctus Petrus!
- Ora pro nobis!
- Sancta Maria Magdalena!
- Ora pro nobis!
No percurso da procissão, caminhava-se, lentamente, arrastando os pés, quase em esforço, nas pedras irregulares da calçada. A capela do Pereiro, em casa privada, bem no coração da Aldeia, apareceu. Ali, uma paragem com repetidas invocações penitenciais, ouvindo-se os cânticos lentos, compassados, dolorosos, que dezenas de vozes masculinas, entoaram, de novo:
- Senhor, Deus, misericórdia!
- Senhor, Jesus, misericórdia!
- Virgem Mãe de Deus e Mãe nossa, alcançai-nos do vosso amado Filho misericórdia!
Todas repetidas. Por três vezes.
Renovaram-se os pedidos para o perdão dos pecados ou para se alcançarem graças materiais e espirituais, terminando cada um deles com ”... pelo Divino Amor de Deus, Padre-nosso”.
Todos rezam. O respeito é profundo. O sentimento também. A Fé é quase palpável!
A última etapa levou o grupo à igreja paroquial, por onde se começara. Templo repleto, as invocações, cantadas e rezadas, eram elevadas, uma vez última, aos Céus, em acto de contrição e penitência, implorando a clemência Divina uma vida melhor para vivos. E também para os defuntos.
Sem a bênção final, já noite fora, cada um voltava para casa, ainda à luz de pinhas que ardiam ou dos candeeiros e das lanternas. Em minutos, o silêncio e a escuridão cobriram toda a Aldeia. O dia de sábado também era para trabalhar. Até ao sol-pôr. E o descanso era urgente.
Nas sextas-feiras seguintes, até Quinta-feira Santa, voltariam.

segunda-feira, março 08, 2010

Serrar a velha

As geadas de Inverno haviam levantado e era grande a azáfama nos campos. As oliveiras e videiras estavam podadas, cavavam-se os terrenos das hortas e preparavam-se os campos para as sementeiras. As andorinhas haviam retornado, o chilrear da passarada alegrava os trabalhos bem duros de uma vida sempre recomeçada. O mês de Março avançara e aí estava a chegar a Primavera, onde o sonoro e feliz canto do cuco sazonal se juntava aos dolentes e tristes cantares da “Encomendação das almas” ou dos “Martírios do Senhor”, na voz dos “Cucos” residentes que, à medida que a Quaresma ia ganhando dias, sentiam que toda a Natureza tomava força para celebrar as alegrias de uma Ressurreição salvadora.
No povoado, só ficavam os velhos velhos, quase sempre avós, e as Crianças que tinham a sorte de andar na Escola. A maior parte dos "artistas", donos de pequena oficina - ferreiros, sapateiros, latoeiros, alfaiates, carpinteiros, ferradores… - só por lá trabalhavam, se fosse urgente, ou de manhã, muito cedo, ou à noitinha, depois do regresso dos campos, pois a exigência de um mundo que rebentava em novas flores e folhas e plantas novas clamava por todos os braços capazes de fazer que o renascer da Primavera valesse a pena. As bocas para alimentar todos os dias assim o exigiam. Mesmo as tabernas fechavam portas, até para depois do pôr-do-sol e só as duas lojas de comércio, onde de quase tudo se vendia, desde o petróleo e o sabão até às chitas e flanelas, linhas e fósforos, mantinham as portas abertas, muitas vezes apenas para, lá de longe em longe, se atender um freguês descuidado ou apressado.
Os rebanhos estendiam-se por todo o termo da Aldeia, levando o suave tinir dos chocalhos e campainhas a juntar-se ao alegre pipilar dos passarinhos, tornando menos infelizes os pastores, alguns deles a dever estar na escola, que ansiavam por novas oportunidades e outros horizontes. Até porque não havia rapariga que quisesse namorar… pastor. Vida “leve”, mas bem ingrata e mal querida.
Perto dos pastores, cotovias, melros, perdizes, milharucos, rouxinóis, pintassilgos, picanços, felosas, toutinegras, milheirinhas, carriças, pardais… também corvos, peneireiros, cegonhas e milhafres, tomados de amores, completavam os seus ninhos e apregoavam a esperança.
Na escola, os professores mantinham, na ordem, os alunos que mal cabiam na sala de aula, distribuídos por quatro classes, quase sempre com ajuda da régua de pinho a deixar bem vermelhas as mãos dos mais desajeitados nas contas, na leitura ou na escrita ou da cana Índia a deixar galos nas cabeças mais “levantadas” que se esqueciam de que, entre as nove e as três horas, aquilo bem “fino fiava”…
A quarta feira da quarta semana depois das Cinzas era um dos dias bem desejados por toda aquela miudagem ali acantonada nas “velhas” carteiras de uma escola nova. O edifício, pelo menos. A Quaresma “partia-se” ao meio e, quebrando o recolhimento da época, havia que ir bater latas e latões à porta das "novas" ou das já velhas avós. Era uma verdadeira “guerra ecológica”. E psicológica!
Logo a seguir ao Carnaval, cada um começava a procurar nos campos ou pelos cantos das casas, nos palheiros ou nos quintais tudo o que pudesse fazer barulho nessa quarta feira de alegria para muitos e de enorme aflição para uns poucos. A época dos plásticos ainda não alvorecera. Nesse tempo, as vasilhas eram feitas de vidro, lata, barro, esmalte, estanho e até latão ou cobre. Também de ferro, sobretudo as panelas. O alumínio ensaiava a sua aparição, mas a lata ou folha cromada e a folha-de-flandres tinham uma vasta aplicação em cântaros, baldes e caldeiros, no vasilhame dos lagares de azeite ou de vinho… Embora os profissionais do remendo fossem prolongando a “vida” dos objectos então usados com pingos de solda de estanho, “rebites” de alumínio ou lata ali feitos, na hora, e outros artifícios que a habilidade de alguns inventava, a troco de umas moeda que tinham de ser pequenas e sempre regateadas – quem não se lembra do amola-tesouras, com o seu "assobio" a "adivinhar a chuva" e a empurrar o seu pitoresco carrinho, que também arranjava guarda-chuvas, “agrafava” e "colava" pratos e alguidares de barro e afiava e encabava facas? - havia um dia em que tinham de “ir fora”, por excesso de uso e de "baixa" evidente. Um cântaro, uma braseira, um alguidar ou um caldeiro de chapa e “fora de prazo” eram, na ocasião, um “tesouro” a usar no dia de “serrar a velha".
O caminho da escola, na manhã daquela sempre desejada 4ª. Feira, tinha o seu quê de curioso. E de cómico. Um bom número de gaiatos arrastava, atrás de si, “tudo” o que pudera juntar e que fizesse barulho, amarrado num cordel ou num arame. Outros, com medo dos “saques”, deixavam as “ferramentas” em casa, ou num recanto, ao abrigo de olhares cobiçosos. Depois… só tinha de se esperar pela saída da escola.
Era como se todos os diabretes tivessem fugido do inferno para atormentar almas santas. Primeiro, as que estivessem no Povo. Depois as que fossem regressando dos campos. Latas e latões, pelas trelas dos miúdos, às vezes já grandotes, iam percorrendo as ruas de Aldeia com a monótona cantilena “Serrar minha avó, que dá ponto sem nó” e “Serrar minha madrinha que dá ponto sem linha”. Com breve paragem em frente das casas de avós e de madrinhas, toda aquela latoaria troava, batida ou arrastada nas pedras da rua ou até nos degraus das escadarias de granito que davam acesso a muitas habitações. Assim se corria toda a povoação, em alegre algazarra, para gáudio da pequenada e também de alguns adultos, que passavam ou voltavam para casa e se reviam naquela “festa”, com alguma nostalgia.
Mas...
Já todos sabiam que a Ti Perpétua, ali junto ao Largo do Rato, lhes atirava copos de água. Se a coisa fosse “bem-feita” até podia vir cântaro e água. Então era um “cruel” “ram-ram” com gritos de “serrar a velha…” “serrar minha avó…” até que a habitualmente simpática velhinha se “passasse” e ficasse sem gota da água que tanto lhe custara a trazer da fonte. E lá seguia a algazarra...
Não era “coisa” dos miúdos dos anos 50. Contava-me o meu Pai que, no “seu tempo” o Ti “Saias” atirava a tranca da porta e, depois, bem clamava para aquela doida garotada “Ai, rapazes, não me levem a minha tranca! Ai, rapazes, dêem-me a tranca da minha porta!!!”
Na essência, o “serrar a velha” era destinado a avós e madrinhas, mas se se descobrisse homem “capaz de levar à certa”… este não teria maneira de escapar à assuada dos gaiatos, que não o deixavam enquanto não o fizessem “passar do sério”. Se bem lembro… o “Tonho Caleco” não foi casado nem teve filhos e era “vítima” certa e sabida daquele dia de “brincadeira” quase sem sentido. Sim, o “desde quando?” e o “porquê?” é que eu nunca os descobri…
“Não há gaiatos maus”, garantiu o Padre Américo. Não há garotos “bons”, pois “garoto que não dá pedrada num gato… não é garoto”- garantia, numa gargalhada, o meu Pai.
O “serrar da velha” terminava com o anoitecer. O toque das Ave Marias tinha toda a força do “recolher obrigatório”. Cada um levava, atrás de si, a “lata” que juntara, agora já sem força nem efeito. Para meter em qualquer canto. Quem sabe se para usar dali a um ano…
Em Palmela, no “serrar a velha” de 2010.

quarta-feira, março 03, 2010

Um Padre na minha Juventude

Já nos meados dos anos 50, o estado de saúde do Padre José Maria Lopes Nogueira se agravara, a ponto de lhe ser fixada residência em Aldeia de João Pires, na nossa enorme casa paroquial, esta depois de muitos anos sem utilização de maior. O Padre José Maria andara por ali dezenas de anos – fundara a Banda, em 1908, fugira das iras republicanas e regressara, nos anos 20, para ficar até ao fim da vida terrena. Foi na nossa Aldeia que soltou o último suspiro e na ala central do nosso cemitério espera a ressurreição final, entre os paroquianos a quem se devotou.
Os tempos eram bem diferentes. A população das aldeias... muito densa. Os casais tinham vários filhos. Havia muitas crianças e muitos jovens e as dificuldades do dia-a-dia surgiam debaixo dos pés. A igreja, quase nova, após a reconstrução, em 1935, ficava sempre cheia, nas celebrações. Às vezes, sem capacidade de acolhimentos dos fiéis, sobretudo nas grandes festividades. As “turmas” de catequese – “vais à doutrina...”, como nos era dito – eram leccionadas, nos domingos, à tarde, para “desgosto” dos gaiatos, retirados durante uma hora, das suas brincadeiras, formando grupos repartidos pelos diversos cantos da igreja. Nem sei como era possível, mas funcionava. Não era uma catequese muito exigente no que tocava à aquisição de conhecimentos e à reflexão religiosa, mas apenas – e já não era pouco, dadas as condições de trabalho, a quantidade de catecúmenos e a “fraca” preparação dos catequistas – se cingia à memorização de fórmulas definidas pelo catecismo de S. Pio X: Credo, Pai-Nosso, Ave-Maria, Salve Rainha, Bem-Aventuranças, Confissão, Acto de Contrição, Virtudes, Dons do Espírito Santo, Mandamentos da Lei de Deus… A segunda parte deste catecismo era composta de perguntas e respostas de memorização obrigatória para quem quisesse ser considerado bom cristão. Recordo agora que, num Congresso Eucarístico concelhio, em Penamacor, no dia 14 de Maio de 1954, tendo eu apenas 11 anos, fui escolhido para representar a nossa Catequese, numa sabatina de conhecimentos religiosos, lá no Terreiro de Santo António. Quando o meu nome foi chamado para defrontar uma menina do então Vale de Lobo, subindo para junto do altar, localizado na escadaria que dá acesso ao convento de Santo António, ao avistar aquela multidão e a ter de falar para um microfone que nunca vira antes, fiquei de tal modo assustado que apenas abri a boca para... gaguejar. E “levei uma banhada”… Durante muitos anos aquela situação foi-me deveras confrangedora...
Era, pois, um adolescente, quando ao jovem padre José Martins Gonçalves Pedro, foi entregue a responsabilidade pastoral de Aldeia do Bispo, primeiro, e de Aldeia de João Pires, pouco tempo depois, já que a idade e o estado de saúde do seu antecessor tornaram a assunção das duas paróquias como inevitável.
Muito jovem, bonito, alegre e simpático fazia uma grande diferença do tipo de padres a que estávamos habituados. Entre o “mulherio” aquilo foi um sucesso e não havia quem não gostasse do novo presbítero. A entrada foi, pois, como se costuma dizer, “em grande”. Com pequenos atritos pelo meio, pois os dias finais do velhinho e muito doente Padre José Maria não deixaram de levantar alguns problemas e imposições para que “morresse em paz” e “para salvação da sua alma”.
Coincidindo com o princípio dos meus estudos em Castelo Branco, as minhas recordações da instalação do Padre José Pedro são mais que vagas e limitam-se aos contactos esporádicos, nas férias escolares. Há que salientar, neste período, a celebração das “bodas de ouro” de “A UNIÃO de Aldeia de João Pires”, em 1958, cuja vertente mais importante era (e é) a existência e manutenção da Banda Filarmónica, momento bem alto na vida da Aldeia, pelos recursos disponibilizados e actividades realizadas. O Padre José Maria falecera, pouco antes, sendo evocada a sua memória e homenageado com o descerramento de uma placa no largo que, desde então, ostenta o seu nome. Mas que, por ironia do destino, continua a ser chamado de “largo do rato”…
O Padre José Pedro, homem de ideias largas e generosas, deve ter ficado chocado com a realidade que encontrou nas duas aldeias que o Bispo da Guarda lhe confiara. Excesso de população, falta de meios, muita pobreza e, sobretudo, um enorme grupo de crianças e jovens sem esperança nem futuro. Na melhor das hipóteses, poderiam aspirar a ser guarda, bombeiro, militar ou marinheiro de “tarimba”, polícia, costureira, criada de servir… Falhando as raras alternativas, trabalhar na terra dos outros, até que a morte libertadora aliviasse a situação de quase escravatura em que se vivia, seria a única saída. Sem direito a sonhar. O Prof. Teodósio, desde 1950, vinha dizendo aos pais dos mais atilados nas contas e nas leituras e escritas “Ponha-o a estudar…” “Mas como, senhor Professor? Não vê a nossa pobreza?” À parte um ou outro garoto que a família achasse que “tinha jeito para ser padre…” de Aldeia era impossível que uma Criança adquirisse cultura fora da escola primária. E, no tempo do P. José Maria, foram 4 os jovens que “cantaram Missa Nova”, na nossa igreja paroquial. E mais um 5º. recebeu a ordenação sacerdotal, pouco depois da sua morte, com “Missa Nova” em 1959. Portanto, a única preocupação, ao tempo, com a formação dos jovens seria para dar padres à Igreja. Mesmo esse grande Homem do nosso Concelho, o Prof. Dr. António Martins da Cruz – para quando a homenagem que lhe devemos? depois de morto… aí todos serão bons!!! – começou a sua libertação pelo… seminário!
Estava destinado que seria o Padre José Pedro a dar o pontapé na “má sorte” da nossa gente. O clero do Arciprestado, quase todo nascido na década de 20 ou antes, alguns dos seus membros até já vinham do séc. XIX, não mostrara, salvo raras excepções, grandes motivações para uma pastoral de promoção social das ovelhas dos seus rebanhos. Em Aldeia, a fundação de “A União” fora uma feliz excepção à regra quase generalizada. E esta "União" tinha mais a ver com a vertente cultural do que com a social. Que interagem na construção do Homem! Com a proximidade dos anos 60, em Aldeia do Bispo, nasceu, de forma incipiente, o Colégio de S. Bartolomeu. Sem edifício próprio nem quaisquer estruturas. Não as havia. Davam-se aulas nas próprias casas de residência ou alugaram-se e emprestaram-se salas para o efeito. No ano lectivo de 1958-59, havia já umas dezenas de alunos, numa mescla bastante heterogénea de idades e proveniências, que, sob a batuta do jovem padre, em trabalho conjunto com o Prof. Joaquim Landeiro, o “Pardalito”, um “perseguido” da ditadura, iam preparando, sobretudo para os exames do 2º e 5º anos – nas duas secções – aqueles que, na generalidade, muito dificilmente se libertariam da “escravidão” em que haviam nascido. A vontade de vencer os obstáculos era muito forte e assim havia de ser. Os mais ricos começaram a ficar alarmados e as más vontades surgiram de muitos lados. Com queixas para todos com razão ou sem ela. Para o próprio bispo da Guarda. Uma rivalidade desenfreada com o Colégio de Nossa Senhora do Incenso, em Penamacor. Dois padres, à frente de dois projectos, com o mesmo objectivo. Só que os destinatários bem diferentes: para o da Vila iriam os filhos da pequena burguesia e servidores da sede de concelho e arredores; para o de S. Bartolomeu os dos camponeses, assalariados e pequenos burgueses das freguesias rurais. Houve truques e atitudes, por palavras e por obras, que ficariam muito mal em qualquer um e muito mais em pessoas que foram preparadas para anunciar e espalhar o Amor de Deus.
Mas a obra do Padre José Pedro não podia ficar só pelo Colégio. Que, aliás, tinha de ter uma entidade que o “suportasse” nas condições mais favoráveis. Assim, nasceram o Centro Paroquial de Assistência e Formação Social de Aldeia do Bispo e o Centro Paroquial de Assistência e Formação Social de Aldeia de João Pires. Com médico e consultas. Com enfermagem e tratamentos. Uma novidade, na época e na região. Aldeia do Bispo, como pólo de desenvolvimento do Sul do Concelho, é dotada com uma farmácia e um farmacêutico, que criou postos de farmácia no Salvador e no Pedrógão, um alto benefício para as populações que, antes, até por uma aspirina tinham de deslocar-se a Penamacor. Não devo andar longe da verdade se disser que, à sombra destas iniciativas e de outras, a região conheceu o período mais próspero da sua existência, que viria a "descambar" com a emigração e a guerra colonial.
O ano de 1961 foi decisivo para o projecto do nosso sacerdote. Pela força das circunstâncias, o Colégio teve de mudar de concelho, mesmo no limite, para Medelim, com o nome de Colégio de Nosso Senhor do Calvário. Com ajuda de pessoas generosas, destacando-se o Dr. António Martins da Cruz e a Família Pires Marques. Compraram-se carrinhas – numa imaginei que uma carrinha VW de 9 lugares pudesse levar tanta gente! – e depois dois autocarros, que faziam chegar a Medelim, todas as manhãs, crianças, adolescentes e jovens vindos desde a Benquerença e Penha Garcia, até Idanha e S. Miguel d’Acha. Uma coisa nunca vista nem esperada. Desta cruzada saíram muitos com novas perspectivas de vida e puderam ser professores, educadoras, enfermeiros, engenheiros, juízes, advogados, médicos... Muitos outros se juntaram para que o projecto vingasse, mas o “motor”, o cérebro, a força esteve no Padre José Martins Gonçalves Pedro. E isto, por muitas voltas que o Mundo tivesse dado depois, é que nunca poderá ser esquecido. Por ninguém, especialmente pelos beneficiados.
Exactamente em Outubro de 1961, com 18 anos, fui colocado na Escola Masculina de Aldeia do Bispo, ao tempo com 5 professores e perto de 150 alunos. Assim, tive ocasião de conhecer relativamente bem o Padre Pedro e alguns dos seus familiares. Um autêntico “furacão” na vida daquelas terras e das nossas gentes. Querido pela maior parte. Mas inimigos não lhe faltaram.
Tinha uma visão diferente e progressista do que era estar à frente de duas paróquias, com pessoas ultra-conservadoras e resistentes a qualquer mudança. Embora se vivessem tempos de Concílio, de João XXIII e de “Pacem in terris”. Este sacerdote vivia uma perspectiva inovadora – revolucionária? – das coisas, das pessoas, da Doutrina e da própria Igreja. Também de Jesus Cristo. Muito aprendi com ele. Embora não gostasse da maneira como ele conduzia o “Ford Anglia Fascinante”, primeiro, e o Mercedes depois. Sempre apressado, entrava “a matar”, na curva do lagar para virar para a igreja. Quantas galinhas foram vítimas das suas pressas. Só ELE era capaz de fazer abrir um corredor, em tempo “record”, entre os bêbedos e sóbrios que “estacionavam”, na estrada, frente às tabernas do Ti Fatela e do Ti Chico Miguel, em Aldeia do Bispo, nos domingos à tarde.
Nas aldeias, as 3 “autoridades” eram o padre, o regedor e o professor. Nunca cheguei a sê-lo, pois era um novato, enquanto andei pelas aldeias. E na cidade já a “música” era outra…
Não foi difícil, porém, tornar-me amigo do Padre Pedro. Nem posso dizer que, da sua parte, houvesse a correspondente amizade para comigo. Não era homem para isso. Estava acima de nós. Talvez sentisse por mim alguma estima e a certeza de que me encontraria disponível para colaborar com ele, lealmente e sem encargo, em qualquer missão me entregasse.
O Centro Paroquial fora criado e havia que instalá-lo. A Banda estava “de rastos” e era preciso reerguê-la. Sob a sua batuta, na sede de “A União” foram executadas obras de vulto, de forma a dotá-la com um 1º. andar. Para servir de nova sede. O rés-do-chão ficou ao serviço do Centro. Pela primeira vez um edifício do Povo, na nossa Aldeia, teve instalações sanitárias ao alcance de todos.
A vinda do Mestre Carlos Osório fez a Banda conhecer respeito e fama até antes nunca imaginados. Acontecer a publicação de um jornal, mensalmente, em meios tão pequenos? Pois, sim, tivemos o “Aldeias Unidas”, impresso lá na tipografia, em Aldeia do Bispo. Com informação e formação.
Nos seus 30 anos, admirei-o como homem e como padre. Por sua causa, eu também quis ser padre. Um segredo só de poucos mais que nós dois. “Já falei ao Senhor Bispo para se estudar a sua entrada no seminário maior, considerando a sua idade e habilitações” – disse-me numa tarde de cavaqueira e gargalhadas, ambos sentados no "Anglia". Sim, com ele aprendi as primeiras anedotas que metiam freiras. Ou padres. “Estranho” que fosse uma aluna do Colégio, "descoberta" pelo próprio Padre Pedro, que me fez mudar de ideias. Até hoje. Graças a Deus!
“A democracia barrocal” – assim classificou o povo de Aldeia do Bispo, quando discutimos a maneira de ser dos seus paroquianos de lá e de cá: era mais estimado em AJP, mas ele preferia a maneira menos subserviente e indócil dos “tchendros”. Com desgosto meu. Hoje compreendo-o melhor! “Os bispos portugueses traíram o Santo Padre”, proclamou do arco da igreja, por ocasião da ida de Paulo VI ao Congresso Eucarístico de Bombaim, de 2 a 5 de Dezembro de 1964. Era a segunda vez que um Papa saía da Europa, em 2000 anos - na primeira, também em 1964, Paulo VI fora à Terra Santa – e o P. José Pedro dera-se conta que a comunicação social portuguesa, por força da Censura, ocultara um facto que fora grande notícia em todo o Mundo livre. E o episcopado nacional “agachara-se” perante a fúria de Salazar, ainda a remoer a “queda” recente de Goa, Damão e Diu. Aquele Papa viria a Fátima, em Maio de 1967. “O sacristão de Lavacolhos”, troçava, sem qualquer caridade cristã, de um outro padre do nosso Concelho também metido em “sarilhos” de colégio. “Tenho vontade de lhe negar a comunhão”, acerca de uma senhora latifundiária que tinha varandim privativo na igreja paroquial… “Deixe lá, somos as maiores cabeças do Concelho…”, “consolava”-me pelo meu relato da dificuldade em encontrar chapéu que me servisse… Não cabem neste espaço as muitas memórias que tenho deste homem que aqui recordo e que apenas quero homenagear de maneira simples e bem sentida. Quase todas boas lembranças.
Ao fim de quatro anos, com a minha ida para o serviço militar e mobilização para o Ultramar, perdi o contacto com o Padre Pedro e com a sua Família. Estimei-os, de verdade. Algumas vezes, almocei com o Padre José Pedro, em sua casa, pois só na hora do almoço tinha algum “espaço” para lhe dar conta das obras do Centro Paroquial e das necessidades a que urgia responder. Quase sempre dinheiro. Que escasseava, como hoje! Os Pais eram uma doçura, o Senhor Jerónimo, a D. Maria Adelaide. Os irmãos Augusto, Julieta, António. Também a mais velha que pouco vi e de quem não fixei o nome. Com pena.
“Ai este filho, este filho! Nunca pára! Aquela cabeça nunca descansa”- ainda ouvi de uma Mãe, notando-lhe, na voz meiga e serena, um misto de orgulho e ansiedade. Ansiedade, sim. O coração de mãe nunca se engana. Adivinha tudo!
Por ocasião dos 100 anos da Banda, aqui descrevi a decepção que senti porque este Homem grande e frágil não foi então lembrado. Em meu entender, uma injustiça, pois a obra que fez entre nós muito o justificava. Não quiseram! “Malhas que o império tece…” ou a “memória dos homens é curta”?
Exactamente no dia seguinte ao da sua morte, em 27 de Janeiro passado, por um daqueles imprevistos inexplicáveis, soube que descansava, enfim, lá em Leon, fora do seu País e das suas terras. Do Sabugal, onde nascera. Das “Aldeias Unidas”, como ele as quis e engrandeceu. Na honra e no proveito.
Curioso! Não lhe devendo nada de material, sinto que lhe ficarei a dever muito na minha certeza de continuar a ser cristão. A minha maior riqueza.
Obrigado, Padre José Pedro. Nunca o esqueci. Agora sei que nunca o esquecerei. Um destes dias vamos encontrar-nos. Desta vez será para sempre.

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Reflexão em 4ª. Feira de Cinzas

"Lembra-te, ó homem, que és pó e ao pó hás-de tornar!"
"Arrependei-vos e acreditai no Evangelho!"
Isaías 58, 1-10:
Grita, em voz alta, sem te cansares. Levanta a tua voz como uma trombeta. Denuncia ao meu povo as suas faltas, aos descendentes de Jacob os seus pecados.
Consultam-me, dia após dia, mostram desejos de conhecer o meu caminho, como se fosse um povo que praticasse a justiça e não abandonasse a Lei de Deus. Pedem-me sentenças justas, querem aproximar-se de Deus. Dizem-me "Para quê jejuar, se Vós não fazeis caso? Para quê humilhar-nos, se não prestais atenção?"
É porque no dia vosso jejum só cuidais dos vossos negócios e maltratais os vossos trabalhadores. Jejuais entre rixas e disputas, dando bofetadas sem dó nem piedade. Não jejueis como tendes feito até hoje, se quereis que a vossa voz seja ouvida no alto. Acaso é esse o jejum que me agrada, no dia em que o homem se mortifica? Curvar a cabeça como um junco, deitar-se sobre sacos de cinza? Podeis chamar a isto jejum e dia agradável ao Senhor? O jejum que me agrada é este: libertar os que foram presos injustamente, livrá-los do jugo que levam às costas, pôr em liberdade os oprimidos, quebrar toda a espécie de opressão, repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão. Então, a tua luz surgirá como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se. A tua justiça irá à tua frente e a glória do Senhor atrás de ti. Então invocarás o Senhor e ele te atenderá, pedirás auxílio e te dirá "Aqui estou!"
Se retirares da tua vida toda a opressão, o gesto ameaçador e o falar ofensivo, se repartires o teu pão com o faminto e matares a fome ao pobre, a tua luz brilhará na tua escuridão e as tuas trevas tornar-se-ão como o meio-dia.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Vamos "deitar uma `cacada`"???

Pronto, eu confesso! Não gosto, nunca gostei do Carnaval. Por "simpatia" fica-se logo a perceber que não gosto, nunca gostei de "brincadeiras de Carnaval". Pregar uma "boa" "partida de Carnaval" dá trabalho, é preciso pensar muito e a maior parte dos foliões não está p'raí virada. Isto de envolver a "vítima" de tal modo que ela própria ria - e se a vítima não achar graça também, o efeito perdeu-se, porque só os alarves riram do seu sofrimento - tem que revelar muita imaginação e, sobretudo, muita inteligência. Então rir dos pobres, dos humilhados, dos ofendidos, dos desprezados da vida... é, em meu modesto entender, desumanidade, bestialidade. Muita gente se divertiu no Carnaval. Um número incontável de pessoas sofreu... no Carnaval. Vou esquecer-me desta palavra.
Em Aldeia, o Entrudo era mais dado a festas do que a partidas. As 5ªs feiras de comadres e de compadres, as imediatamente anteriores a Terça Feira Gorda, davam motivos a confecção de doces - o inigualável arroz-doce nunca falhava - ao assar de umas peças de enchido do fumeiro ainda fresco e, não raro, a um ou outro bailarico. Lá pelo meio da festa sorteavam-se os "compadres" e as "comadres", ficando cada um a saber a quem teria de comprar as amêndoas no Dia de Páscoa, o mais tardar na 2ª. feira da Senhora do Incenso. Escusado será dizer que nem sempre as "sortes" eram "legítimas" e "justas" - como as eleições em certas partes do Mundo, dava-se o jeito para se "albardar o burro (ou a burra) à vontade do dono (ou da dona)". Salvo seja! Mais havia sorrisos cúmplices que valiam aquela batota. E quem é que nunca teve 20 anos? A minha neta, aqui ao lado, diz que ela nunca teve. Lá chegará, se Deus quiser, mais depressa do que pensa!
Mesmo no dia de Entrudo, como já acontecera nos domingos anteriores, as raparigas vestiam os seus saiotes plissados, de cores garridas, as blusas bordadas, punham os lenços bem lindos ao pescoço ou atados na cabeça e passeavam-se pelas ruas da Aldeia, estrada abaixo, estrada acima, de braço dado, ou entravam em modas de roda, cantando e dançando. Iam-se juntando os rapazes mais "corajosos", a ponto de quase só haver "pares perfeitos". Alegria a rodos. Os tocadores de concertina, por estes dias, eram sempre difíceis de contratar. Maior a procura do que a oferta. Se havia um "habilidoso" que se dispusesse a tocar num realejo, era mais que certo que o baile estava armado. Muitas vezes, ali no alcatrão da estrada. Outras no salão de "A União". Mas o baile na Aldeia há-de merecer uma página especial. Hoje é de Entrudo que se trata. E era tanta a gente nova, nos dias de descanso, também nessa Terça-Feira, que cheguei a ver três rodas a dançar, num espaço de 200 metros, a extensão do alcatrão, nos anos 50. Bailava-se até que a claridade do dia o permitisse. Se a diversão fosse na estrada. Onde só muito raramente passava um automóvel. Os dançarinos nem precisavam de parar. Um pequeno desvio para a beira, com grande admiração dos "passantes". Ah! Quanto a alcatrão ... hei-de contar a aquela do dia em que me tornei "preto"...
Toda esta conversa para chegar... às "partidas" de Entrudo.
Ficou dito que não eram muitas. Nem variadas, portanto. Escrever cartas anónimas, dizer "mentiras" para enganar quem caísse nelas, carregar "a pedra de afiar as agulhas", mandar encomendas com qualquer "porcaria" lá dentro, fazer umas quadras de "escárnio e maldizer", as "proclamas de casamento" feitas pelo Ti "Bila" - "Estão aqui p´ra se casar/ Estes dois grandes animais/A uma falta a albarda/E a outro... os atafais" e outras brincadeiras com que ele, no seu andar desengonçado, meio coxo, alto e magro ia fazendo rir o pessoal... pouco ou nada que magoasse, seriamente, "os destinatários"... No entanto, a mais temida e, às vezes, a desejada das "partidas" era a "cacada". De CACOS!!!
Naquela escuridão, era difícil distinguir, fora de portas, a quem se abria a porta. Mas todos se conheciam "pela voz". As pessoas desconfiavam que a muita ou a pouca "sorte" lhe podia bater à porta, por uma daquelas frias noites de Fevereiro. À cautela, nunca se expunham, sem saber a quem. E mesmo assim... a "cacada" podia entrar. O Entrudo já andaria lá pela "Terra Fria"...
Podia-se receber uma "cacada" de rebuçados. De castanhas. De bolotas. De bugalhos. Ou mesmo de cacos... Quase sempre!
A rapaziada "autorizada" a vaguear pelas ruas, entre a ceia e o deitar, questionava-se:
- Vamos deitar uma "cacada" a X?
Estudava-se a maneira de "atacar". Havia lá rapariga jeitosa? Estava por ali algum a "piscar-lhe o olho"? Um saco de rebuçados - 3 por um tostão, de fruta apenas 2 - ou daqueles chocolates pequeninos e deliciosos como nunca mais me soube nenhum assim tão bem. E lá se dirigia o grupo para o "alvo" escolhido. Batia-se à porta, conversa e mais conversa, "abra", "não abro", "o que é que queres?"... Com alguma insegurança a porta entreabria-se e, num gesto mais ou menos desajeitado, lá entrava o "petisco" pelo corredor fora, onde seria apanhado unidade por unidade. Que sorte! Até podiam ser castanhas. Ou amêndoas.
Mas o destino podia ser diferente para outros "alvos". Se fossem bugalhos... não seria mau de todo. Nem sempre a porta se franqueava. Se se convencesse o dono a casa a abri-la, podia entrar por ela dentro várias mancheias de areia, pedras, cacos. "Rais t'a partira!" era o praguejar mais suave que a malta, em fuga desordenada, tinha, então, ocasião de ouvir.
Por vezes, a porta não era mesmo aberta. Escolhia-se, então, uma que tivesse aquele buraco por onde passavam os gatos. Às vezes, as galinhas. Havia também, naquele tempo, outras portas que ficavam "no trinco" ou mesmo só encostadas ao batente. Vítimas fáceis, não de assaltantes violentos e malfeitores, mas daquele mocidade "louca, ingénua, generosa"... E lá se fazia passar aquele "entulho" com que os habitantes da casa eram presenteados. Nada que não se pudesse "pagar". Na mesma moeda. Era só esperar a ocasião. Embora as "escutas" e a espionagem fossem mais difíceis que nos dias que correm. Não havia telemóveis. Nem sequer telefone. Nem telefonia. Nem TV. Nem luz eléctrica.
"Ó Avô, mas isso passava-se Antes de Cristo? "Não filha, já o teu avô era grandote..."
Notas:
1. Por tradição, na casa de meus Pais, comia-se a "bexiga" do porco, que fora cheia com partes especiais do corpo deste "bendito" animal, primeiro bem curtidas e depois secas nas varas do fumeiro: o rabo bem "migado", um pouquinho de orelha, "ossos tenrinhos" e outras gostosuras que a minha Mãe sabia. A sua "morte" era certa; ou no Domingo Gordo ou na terça-feira de Entrudo. Arroz com aquele acompanhamento... nunca mais! E se se houvessem salvado algumas pequenas alfaces dos gelos do Inverno que já dava sinais de partir... seria primeira e a melhor salada do ano.
2. Tornava-se difícil conseguir podadores, pois a época era propícia a ganhar-se "algum" dos que podiam pagar. Então, os mais pobres organizavam-se em regime de cooperação: trabalho retribuía-se com trabalho. Lá se arranjavam um ou dois Amigos para que a pequena vinha fosse "atesourada" em... Terça-Feira Gorda.
- Ó Carminda, parece que a vinha está fraca... - diria o meu Pai lá para Julho.
- Que é que querias? Podada em dia de Entrudo!!! - respondia a minha Mãe, com um riso bem travesso.

sábado, fevereiro 13, 2010

A Bíblia que Saramago não leu ou "Ensaio sobre a cegueira"...

Gálatas 5
Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da servidão. Eis que eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará. E de novo protesto a todo o homem, que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei. Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído. Porque nós pelo Espírito da fé aguardamos a esperança da justiça. Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor. Corríeis bem; quem vos impediu, para que não obedeçais à verdade? Esta persuasão não vem daquele que vos chamou. Um pouco de fermento leveda toda a massa. Confio de vós, no Senhor, que nenhuma outra coisa sentireis; mas aquele que vos inquieta, seja ele quem for, sofrerá a condenação. Eu, porém, irmãos, se prego ainda a circuncisão, por que sou, pois, perseguido? Logo o escândalo da cruz está aniquilado. Eu quereria que fossem cortados aqueles que vos andam inquietando. Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis então da liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor. Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede não vos consumais também uns aos outros. Digo, porém: Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne. Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis. Mas, se sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da lei. Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, Invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus. Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. Contra estas coisas não há lei. E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito. Não sejamos cobiçosos de vanglórias, irritando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Avô, vai falar de Aldeia...

As aulas haviam terminado pelas quatro e meia, brincadeira até depois das cinco. O Sol, pusera-se, portanto, lá para trás da Arrábida, e saímos de Setúbal para Palmela, ouvindo a Rádio Sim, a minha preferida. Que não a do Filipe. Como é costume, às quintas feiras, o meu neto aconchega-se no banco de trás e prepara-se para uma pequena soneca. Que a irmã aproveita, de forma marota, depois de "apanhada" noutra escola, para o despertar de maneira nem sempre ortodoxa.
A locutora Teresa Silva entra no ar e o meu neto salta do seu sossego:
- Avô, avô, está a falar de Aldeia!
Sorri-lhe. Alinhara num desafio daquela excelente profissional, com quem já gravara, um ano atrás, o primeiro "A minha música" que todos os domingos anima as emissões desta "Rádio do nosso tempo com músicas do seu tempo", pelas 15 horas. Desta vez o desafio era "A minha terra é a mais bonita..." Em vez de um bilhete postal, enviara-lhe, pela internet, 4 fotos da minha Aldeia, pois decidira que, mesmo gostando muito de Palmela, a nossa TERRA é só uma, aquela em que nascemos.
Estava na biblioteca de Setúbal, quando o "telelé" causou algum "frisson" naquele silêncio que deve ser próprio de todas as bibliotecas. Sabia do que se tratava, pois já houvera outras comunicações. Com pedido de desculpas, saio pela escada abaixo, alertando a Teresa de que a nossa entrevista iria ter por cenário a linda avenida Luísa Todi. E foi assim que, no meio de uma brincadeira, o Filipe ouviu o avô dizer coisas lindas da mais linda Aldeia do Mundo. Ali tudo bem justificadinho!!! "Está fora de causa discutir esta certeza, Teresa. Aqui tem de prevalecer a ditadura!!!"
Uma bem sonora gargalhada da Teresa Silva fez sair o Filipe do seu espanto e sorrir também. O caminho até Palmela foi, desta vez, mais curto. Com as explicações necessárias para o meu neto entender aquele "milagre".

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Tarde, na Aldeia...

As tardes eram curtas e frias, naquele fim de Outono, já Novembro bem adiantado. Muitas vezes chuvosas, com vento à mistura. Pelas quinze horas, a "escola" acabava e vinha então o melhor momento do dia para aquela garotada numerosa que enchia de vida e alegria as ruas, largos e becos da Aldeia. Excepto para alguns mais "infelizes” que tinham por dever ajudar os Pais na guarda dos animais, enquanto os progenitores apanhavam a "erva" para os bichos comerem durante a noite para estarem prontos a trabalhar, logo de manhã, no dia seguinte, quando o "tempo" o permitia. Outras Crianças viviam mesmo no campo e lá ... tinham de regressar. Para trabalhar, mesmo no escuro.
Deixemos, por hoje, a história destes menos afortunados e fiquemo-nos pela garotada do "Povo". Só a frequentarem a Escola eram perto de cem alunos, na maior parte rapazes. Depois do bater das três horas, no relógio da torre da igreja, pela estrada acima, dada por finda a “prisão”, chilreavam como pardais. Ia-se a casa, num instante, para largar a “bolsa” dos livros, poucos, e em busca de um pedaço de pão e mais "qualquer coisa" que podia ser só pão. Com sorte, uma talhada de queijo. Umas azeitonas. Um naco de toucinho. Julgo que nenhum de nós sabia o que era manteiga. Mas, verdadeiramente, o que interessava era a brincadeira, pois não tardaria que ficasse escuro. Não havia frio que vencesse aquela enorme vontade de brincar. Os professores haviam abandonado o edifício da escola e, apesar das recomendações de não se voltar para lá a brincar no pátio de recreio, este e
ra o nosso lugar preferido. Fazia-se um silêncio cúmplice e nenhum daqueles miúdos seria capaz de denunciar os prevaricadores. A autoridade "policial" na Aldeia era o regedor. O nosso regedor, o Ti Machado, “obrigava” que um de nós ficasse à espreita, pois ele tinha de passar ali, sem falha, de regresso do seu campo para casa. À aproximação do regedor, um magote de garotos agachava-se atrás do muro do pátio, em completo silêncio, e só se ouvia o bater dos juvenis corações acelerados pela brincadeira e pelas correrias. E ele, mansamente, no seu passo calmo de reformado da Guarda-Fiscal, ia avançando, para o centro da Aldeia. Nunca cheguei a saber se ele não nos via ou se não nos queria ver. Certo, certo é que se contentava com esta atitude de respeito daquela miudagem e também nunca nos pôs fora da brincadeira. A escola tinha o melhor espaço da povoação onde se podia jogar à bola. Se a bola assim se podia chamar. De trapo, de cortiça, de uma meia. Mas o futebol não tinha ainda lugar cativo no coração da garotada de então. Éramos muitos e o pátio da escola nunca daria espaço suficiente para tantas e tão variadas diversões. Naquele tempo, com alimentação pouco calórica e com o movimento constante, não havia crianças gordas. Então cada rua, largo ou beco tinha, pelo menos, meia dúzia de miúdos. Os outros lugares preferidos para as nossas brincadeiras, para além do já referido terreiro da escola, um pouco no limite do povoado, eram o largo do Pereiro, no coração da Aldeia, o adro da igreja, o largo do Rato, com aqueles 200 metros de estrada alcatroada, uma novidade e um "luxo" nos anos 50. Eram pontos de confluência de várias ruas e uma atracção irresistível. Naqueles locais inesquecíveis se jogava às escondidas, o pião, versões "à nica" ou ao "botafora", o descanso, o eixo corrido ou o “um por um, dois bois, três ingleses…”, o jogo do lenço, o dos polícias e ladrões, o da palmada, o do burro, simples ou corrido, o do marra, o da piorreca (com as rodas dos carrinhos de linhas), o dos botões (muitos tinham as mães que comprar e pregar), as escondidas ( 1...2...3... 20 "arredonda, arredonda,,, quem não está que se esconda... precedido do ita, ita, ita ááá!!! quem s'tá livre, livre s'táá" ou "entra o avião na escola militar, onde é que vai poisar? Lis-boa- a" "Tu vai esconder..."). Às vezes, o que ficava "a tapar" inventava e começava logo pelo "dezaum, dezadois, dezatrês, dezaquatro, dezacinco, dezasseis.... dezavinte! arredonda, arredonda..."), o "jogo da China” ou das 5 pedrinhas, o farrapo queimado, a mamã dá licença, a bilharda, o jogo das nações. O do descanso era jogado com variantes, assim como os da barra e a barra do lenço. E o do mata com aquele seu grito de “faz jogo!!!” Uma boa parte deles tinha época própria. Aqui ficam apenas alguns dos jogos participados pelos rapazes, com duas ou três excepções, pois das meninas eram mesmo "tabu" para a malta que havia de “ir às sortes”, um dia… Precisarei de ajuda amiga para entrar nas brincadeiras das nossas colegas e conterrâneas.
Faziam-se ainda corridas de arcos - de arame, destramente conduzidos com o "guiador" ou de aros de bicicletas, um luxo. As crianças faziam os seus próprios brinquedos: carros de cortiça, de madeira, de cana e até de latas de conservas... As primeiras trotinetas com rolamentos de esferas, duas tábuas de madeira articuladas por "dobradiça" metálica arrancada "a ferros" - com toda a propriedade da expressão - numa das forjas da Povoação, foram um verdadeiro achado... As tardes eram um corropio que enchia o povoado de vida e som.
Só havia ordem de estar fora de casa, na rua, até ao toque das "Ave-Marias", quase sempre ponto final para as brincadeiras de cada dia. Depois da ceia, “andar na rua” era uma regalia a que só se podia aspirar com os 18 anos feitos. Até porque ficava escuro como breu e o convite à vadiagem não era atractivo. Nem os maiores nos davam a mínima chance.
À hora daquele toque, boa parte dos adultos havia já regressado das tarefas do campo, se permitidas pelo tempo, especialmente a apanha da azeitona, o cuidar dos animais, as hortas. As mulheres acendiam os lumes, quase sempre com lenha fraca e os fumos iam saindo pelos telhados de telha vã, subindo no lusco-fusco do anoitecer, para o céu ainda azul, iluminado com os últimos raios do sol poente, adivinhado-se noite bem fria e manhã de geada. As chaminés eram uma raridade a que só os de mais posses tinham acesso. Os homens arrecadavam e acomodavam os animais nos palheiros e outros passavam pelas tabernas para mais um copo com os “amigos do copo”.
Depois do toque sagrado só se brincava à porta de casa, excepcionalmente. Ali, " à mão de semear" dos pais, era fácil juntar um grupinho de crianças vizinhas para ainda se divertir, até no escuro - e que escuro! - da noite, que caíra. Para se brincar até no frio e na noite era precisa "organização". Assim, antes, ainda com luz solar, os garotos haviam ido pelos campos limítrofes da Aldeia à procura de gravatos ou gravetos, às vezes surripiando um pouco da fraca lenha lá de casa, e faziam a sua própria fogueira ali mesmo, na rua, ao ar livre, sob o estrelado do céu, enquanto as mães, regressadas dos trabalhos do campo, acendidas as lareiras, tendo ido buscar cântaros de água à fonte e comprado qualquer coisa numa das lojas da terra, se entregavam à tarefa de cozinhar a fraca ceia, quase sempre, nesta época, "couves traçadas" com batatas e um fio de azeite. Havia, às vezes, um bocado de chicharro, 3 ou 4 por vinte e cinco tostões. Se houvera a sorte de cozer o pão, metido o peixe numa "caçola" de barro, um dente de alho, azeite e cebola e o forno da Aldeia faria o milagre de uma ceia "de reis".
Os garotos, à volta da fogueira, conversavam - Paulo de Carvalho não teria ainda nascido? Havendo alguma sorte, com o "borralho" enchiamos a braseira de uma vizinha, a troco de uma moeda de 5 tostões ou de duas laranjas... A hora da ceia chegava, num instante, e a brincadeira acabava mesmo. Depois, um ansiar pelo dia seguinte. Sem novidades. Desejado, apesar de tudo. Para ser vivido, de novo, intensamente.

domingo, janeiro 31, 2010

A Bíblia que Saramago não leu ou "Ensaio sobre a cegueira"...

1ª Carta aos Coríntios 12,31.13,1-13.
Aspirai, porém, aos melhores dons. Aliás, vou mostrar-vos um caminho que ultrapassa todos os outros. Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas, se não tiver amor, nada sou. Ainda que eu distribua todos os meus bens e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada me aproveita.

O amor é paciente, o amor é prestável, não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso, nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento. Não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

O amor jamais passará. As profecias terão o seu fim, o dom das línguas terminará e a ciência vai ser inútil. Pois o nosso conhecimento é imperfeito e também imperfeita é a nossa profecia. Mas, quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Mas, quando me tornei homem, deixei o que era próprio de criança. Agora, vemos como num espelho, de maneira confusa; depois, veremos face a face. Agora, conheço de modo imperfeito; depois, conhecerei como sou conhecido. Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor; mas a maior de todas é o amor.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Manuel Serrano, um Músico

É a única certeza que trazemos à nascença, a morte. E por muito que pareça tardar, ela chega. Assim foi com o meu primo e Amigo, Manuel Serrano. Da idade do meu Pai, aguentou-se, lúcido, até aos últimos momentos, somando quase um século. Tanto! E tão pouco!
O Ti Manel não tinha inimigos, mas uma "infinidade" de admiradores. Naturalmente simpático e alegre, com uma educação daquelas que quase já não há, apesar das suas poucas habilitações académicas, Manuel Serrano era o símbolo da nossa Banda. Ele e a Banda tinham quase a mesma idade e, se exceptuarmos a infância, podemos dizer que foi músico toda a vida. Mesmo quando a procura de melhor sorte o levou para as Minas da Panasqueira, não deixou de se dedicar à sua Arte. Que teve este músico de diferente, para além dos muitos e muitos anos em que actuou para encantamento dos seus admiradores? É que, nas suas mãos, o bombardino, como sempre ouvi chamar aquele instrumento fascinante, produzia um som que nos transportava para outra dimensão, quase como se despegássemos do resto da Banda. Gosto muito de ouvir bandas. Sem menosprezo pela nossa querida Banda de Aldeia, as grandes bandas militares, as grandes marchas militares enchem-me de encanto. Se viajar sozinho até à nossa Beira, chego a fazer todo o percurso com este tipo de música nos ouvidos. Os clarinetes e os cornetins, os contra-baixos e os saxofones, as flautas e as requintas, os trombones e as trompas, o bombo, as caixas e os pratos... que mais? - sob a batuta de um bom maestro, transportam-me a um mundo que só quem nele viveu, mal acabadinho de nascer, poderá entender. E é preciso gostar p'ra valer. Há muitas marchas militares e de muita qualidade. Lindas, mesmo. John Philip de Sousa, um luso-americano, nos USA, compôs algumas bem extraordinárias. No entanto, a minha preferida, chama-se "Alte Kamaraden", "Velhos Camaradas" que muitos associam, indevidamente, ao Nazismo. Ela já existia muito antes, composta, em 1889, por Carl Teike, genial compositor alemão que, como muitos outros génios, morreu na indigência. Só que Hitler fazia desfilar as tropas nazis ao som dos seus acordes, interpretada pelas suas poderosas bandas militares. A marcha é muito popular e empolgante - a letra também é lindíssima - e Hitler um malandro e um oportunista...
Em Aldeia, no Largo do Pereiro, onde vivia o Ti Manel, eu cá em baixo e ele no balcão, lá no alto:
- Então por cá outra vez? - perguntava sempre com um sorriso bem disposto.
- Venho ver aqui o Ti Fernando. Olhe, Primo Manel, trago-lhe aqui um naipe de bombardinos que é um espanto...
- Olhe, ponha lá isso aí no seu rádio para ouvirmos...
Liguei a aparelhagem do carro e pronto. "Saiu" a marcha "Velhos Camaradas"...
- Ah! Essa também eu cá tenho... A sua aparelhagem é que é melhor...
Daqui p'ra frente, não me vai fazer "apanhar mais melões". Nem vou ouvir outra vez da sua boca serena e sorridente "Então por cá?!"
Far-me-á falta. Nesta singela homenagem, não lhe deixo "Velhos Camaradas" com tropas e guerras, mas com Povo a ouvir e a dançar, como ele tanto gostava. Oxalá chegue ao Céu, onde está. Penso que vai ficar contente, lá em cima. Eu, cá por baixo, enquanto puder, continuarei a dizer, sempre que "entrarem" os bombardinos (barítonos?) numa das tais marchas gostosas: "Ah! Ti Manel!"

segunda-feira, janeiro 18, 2010

À minha Neta Catarina

Faz, hoje, 3 anos que te vi, pela primeira vez. Grande foi a minha surpresa, pois não havia notícia de que tal houvesse acontecido, na nossa Família, em muitas décadas: uma ruivinha. E tão pequenina!
O tempo passou, num instante. De dois desconhecidos, transformámo-nos em dois Amigos: Avô e Neta. Eu fiquei muito mais velho e tu estás uma linda Garota.
Brincámos e cantámos.Tu abriste prendas com entusiasmo, sopraste as velas com energia, falaste, dançaste para nós, sorriste, meigamente. És um Docinho muito, muito querido. És linda, meu Amor, e eu quero-te muito Bem. Nós todos queremos-te muito, muito Bem, somos capazes de fazer tudo o for bom para ti.
Parabéns, querida Catarina. Que Deus te abençoe e sejas muito feliz.
Aí vai mais um grande beijo do teu Avô,
Tó (vá, seja como tu dizes!!!)

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Ao serão, no Inverno... 1

Havia uma semana que a chuva quase não parava, naquele princípio de Janeiro de meados do século passado. Fria, muito fria. A colheita da azeitona estava atrasada e os "ranchos" regressavam, passo largo, naquele sofrido anoitecer, encharcados e gelados. Apressadamente, caminhavam para casa. Tristes e cabisbaixos, saudavam, com soturnos "boa noite" aqueles com quem se cruzavam.
Lá em casa, o lume seria aceso, dali a instantes. De tarde, a mãe aproveitara uma "aberta" e quase correra, à "Tapada do Cabeço", onde apanhara umas couves, na horta, para serem comidas, à ceia. As crianças, tinham saído da Escola e o resto do dia fora desagradável, nariz encostado aos vidros da janela, a ver a chuva cair e a água a deslizar, rua abaixo, rumo à ribeira, o mais longe que eram capazes de imaginar. Assim, aguardaram esta hora, com ansiedade, à espera de mais uma noite como tantas outras. Sempre iguais e tão diferentes.
Da cozinha começara a subir o fumo que se ia escapando pela "telha vã", enquanto a fogueira ia ganhando forças com a lenha arrecadada no "bom tempo" e que daria algum conforto, naquela pequena habitação. As batatas estavam descascadas para cozerem na panela de ferro, pendurada na cadeia metálica, enquanto, no caldeiro de lata, apoiado na trempe, se ia aquecendo a água para lavar a louça e preparar a vianda do porco, a grunhir, no curral, lá fora, impaciente e com fome, adivinhando, talvez, que por poucos dias mais... As galinhas, enquanto tiveram claridade, haviam percorrido, encharcadas e melancólicas, a rua de terra batida e os terrenos envolventes, afrontando o mau tempo, à procura de "comida" e estavam já acomodadas, no galinheiro. Na loja do rés-do-chão. De manhã, bem cedo, o galo seria o primeiro a acordar "em casa".
Os garotos, sentados nos tripeços de cortiça, aqueciam-se, brincando ou zaragateando um com o outro, e davam conta dos trabalhos maternos nos preparativos da ceia, enquanto a chegada do Pai era aguardada, com ansiedade. Estava ainda a tratar dos animais, o que não era tarefa que se condoesse com a chuva e o frio. Mesmo em dia de agricultura impossível, levar as vacas a pastar e cortar os molhos de erva que iriam comer durante a noite, era tarefa inadiável e difícil. Com frio ou com calor. Com chuva ou tempo seco. Naquela tarde invernosa, o mais velho dos garotos fora dispensado de "participar" na tarefa. Vantagens do mau tempo. E do amor dos pais!
Por fim, a fogueira "ganhara coragem" e, com ela, um ambiente de bem estar começou a criar-se. As "Avé-Marias" tinham sido anunciadas, ao anoitecer, e rezadas em cada lar. O lar. Assim era designada aquela enorme pedra horizontal, na cozinha, assente em dois enormes pilares verticais também de granito, enterrados no chão da loja pela outra extremidade. O lar era, por assim dizer, o coração, o ponto mais importante de cada casa da Aldeia. À sua volta, sobretudo naquelas noites, a Família sentia-se... Família. Fazendo conjunto com o lar e na vertical, havia uma outra enorme pedra, o "marão", cuja finalidade principal era proteger a parede das "fúrias" das chamas. Nesta casa, por trás desta pedra, ficava uma espécie de gruta, a "p'lheira", onde eram guardadas, em cada manhã, as cinzas em que se transformara a fogueira acolhedora da noite que passara. Numa das pontas do "marão" apoiava-se o candeeiro de petróleo, com chaminé de vidro e, na outra, um "fogão" da ferro, onde seriam "assadas" as chouriças, as morcelas, o toucinho, as "costelas"... Aromas e sabores que nunca mais voltariam.
O lugar do pai, do lado do candeeiro, de costas para o corredor que dava acesso à porta da rua, esperava pela sua chegada. Que qualquer dos gaiatos gostava de ocupar, entretanto. A mãe ficava do outro lado da fogueira. Por sinal, do lado do "fogão"... Depois, "cantos" para arrumar as tenazes, as vassouras de giesta, a pá, o espeto, uma fila de panelas de ferro... E os filhos? No meio dos pais. Nas costas dos garotos ficava a mesa da cozinha. Num dos cantos, encontrava-se uma enorme talha de barro, que era cheia, diariamente, com a água da fonte "de mergulho" pública - as febres tifóides que, ainda nessa década, haviam de lá "nascer"!!! - trazida à cabeça da "dona da casa". Num cântaro também de barro empoleirado bem no alto e uma "lata", com corda, também cheia, na mão. Ao lado, o alguidar ainda de barro, para lavar a loiça. E um outro para a escorrer. Por cima, as prateleiras, cantoneiras, fixas na parede. Quase ao fundo da cozinha, via-se a porta que dava acesso ao quarto das crianças, um canto onde se colocava a lenha bastante para cada noite. Trazida da loja. E uma grande arca de madeira. Num outro canto, o lavatório, com estrutura de ferro, bacia de esmalte e uma toalha dependurada. Na parede, um espelho. Por cima do lar, dali a uma semana, ficaria o fumeiro feito em casa, com a carne do porco criado com muito cuidado, quase carinho. Que a "dona de casa" se recusaria, sempre, a ver morrer, ausentando-se para bem longe, aonde não chegassem os "gritos de socorro" do animal a que tanto se afeiçoara. Sentimentos de que mais ninguém participaria...
- Ó Carminda, já acendeste o lume? Dá-me aí uma brasa para acender o meu... "Esqueci-me" de comprar "palitos"...
- Entre, Ti Encarnação. Apanhe aí um tição...
- Boa noite! Ai! Mulher, estás sempre disponível. Bem hajas.
Era a cena quase de cada dia. A caixa de fósforos custava, inexplicavelmente, 25+5 centavos. Com este "sofisma" lá se pagavam os "3 tostões" pelos 40 "amorfos". Três tostões nem sempre disponíveis...
A panela fervia com as batatas e as couves acabavam de ser lá metidas. Trocara de posição com o caldeiro da água e a doce fogueira aquecia, cozia e iluminava. O candeeiro de petróleo, num dos cantos da pedra da lareira, tinha, assim, o seu papel reforçado.
- Mãe, tenho sono...
- Espera, filho, o pai está a chegar e a ceia está quase pronta. Tó, vai à sala e traz-me a "molida" nova que estive a fazer esta tarde. Julgo que está em cima da máquina de costura. Ou apalpa na mesa... Repara se a braseira ainda tem lume...
- Ó Mãe... está tão escuro. Tenho medo...
- Estás cá um medricas. Tens medo de quê?! Olha, pega no candeeiro e vai lá. Vai... que eu fico a espreitar... - enganava-o ela, com voz doce. - Tem cuidado... não deixes cair a chaminé!
A casa era pequena. A distância curta. Mas a escuridão, na sala ao lado, era "tremenda" e, em tempo de "almas do outro mundo", não se podia "facilitar". A criança "ia num pé e voltava n'outro", olhando, de esguelha, por cima do ombro. "Bruxas havia, de certeza!!!"
Já se falara de quase tudo. Da escola e das suas brincadeira. Dos jogos. Das alegrias e tristezas. Para entreter os miúdos, a mãe ia cantando uma ou outra cantiga, das que aprendera de seus pais, do seu povo, ligadas ao trabalho rural ou à vida religiosa, adequada a cada época, ou alguma outra mais moderna, trazida, de viva voz, por um ou outro dos poucos que se atreveram a demandar a Capital. Notícias do Mundo? Quase só da guerra. Ou das suas consequências. E eram dadas de boca em boca. Apenas havia 3 rádios, na Aldeia. Ligados à bateria. "O 'troucolarouco' do Sr. Soares está sempre a falar na guerra, a falar na guerra..." lamentara-se, diziam, na galhofa, a Ti "Repoupinha"...
Ou pelo "Diário de Notícias". O Ti Fixe era o "correspondente". Ou pelo "O Século". Representado, na Aldeia, pelo sr. Amaral. Uma semana depois. Chegavam, pelo correio, que vinha de comboio, até à Fatela; na "camioneta do Simões", mais tarde da Viúva Monteiro, até Penamacor; até à Aldeia, numa saca de lona fechada e selada, à cabeça da Ti Rosa Chora... Nunca falhou um dia!!! Até ser dispensada pela carreira do "Martins Évora". Desde Castelo Branco. A Ti Rosa fizera a ida e a volta, durante anos e anos. Vinte quilómetros, a pé!!!
- Mãe, quer'ir p'rá cama... Tenho sono... - repetiu o pequeno.
- Ó filho, já te disse que o pai está quase a chegar... Depois do comer, vais dormir!
O pai entrou. Por fim, a família juntava-se. Uma "festa" a cada um dos meninos com um "Correu tudo bem?". E um "Boa noite, Minda!" num sorriso acolhedor para todos
- Pronto! Vamos cear... - decidia e agia a mãe.
Mal passava das 7 da noite. Lá fora, a escuridão era total e a ventania soprava nas muitas árvores, em volta do povoado. Ao toque das "Avé-Marias", nos sinos da Aldeia, rezara-se em cada habitação, e metera-se, definitivamente, em casa, um ou outro mais corajoso que afrontara o mau tempo, até mais tarde. Poucos se atreveriam a sair à rua, depois da ceia. A não ser para um último olhar nos palheiros, à luz da lanterna de azeite, antes de cada um se enfiar nas camas com enxergas cheias de palha centeia, no último Verão; os donos sabiam quanto a vida de todos dependia do bem estar dos mansos animais! Não podia haver descuido no seu tratamento e vigilância. Também para ir às tabernas. A "força" de um "copo" e mais... ou "dois dedos de conversa". A desculpa para algumas "coitadas"... E para os filhos, muitos, das "coitadas". Tabernas que causaram muito sofrimento.
Os pratos foram servidos, directamente, da panela. O azeite novo e, para o pai, mais um dente de alho, davam gosto e cheiro à comida. Novidade não havia naquela refeição simples, igual a tantas outras, neste tempo. Um pedaço de pão e uma talhada de queijo fresco podiam servir de sobremesa... Castanhas cozidas, noutra panela, ou assadas no calor do lume eram opção, muitas vezes...
Quando terminavam, já o mais novo dava "cabeçadas", incapaz de vencer o sono. As suas castanhas seriam comidas, na manhã seguinte. Ou haveria uma filhó mergulhada em café quente e doce, acabadinho de fazer, quando acordasse, feito com o pó deitado na água a ferver? Uma fascinação, a água escura, castanha e espumosa a subir e logo "acalmada" com uma brasa de nova fogueira, mergulhada naquela "fúria"... Mas, para isso, tinha que passar a noite... Depois, a mãe trataria de tudo, de novo! Em outro dia.
A botija de folha de Flandres, obra do Ti Zé Passotas, enchera-se com água quente tirada do caldeiro e dava já algum conforto à cama, onde não tardaria a cair, em sono profundo, por toda a noite. Sem sobressaltos nem pesadelos.
Acabada a refeição, ouvia-se uma voz arrastada e frágil:
- Ó Carminda, posso entrar?
- Entre, Ti Vicenta! ...
- Boa noite... Posso ficar um pouco convosco e aquecer-me, antes de ir para a cama? Estou lá sozinha e as noites são tão compridas...
- Então, já sabe que sim...
Era um momento bem esperado pelo mais velho dos miúdos, ainda desperto. Conhecia a Tia Maria Vicenta desde que tomara consciência de si próprio. Vizinha de sempre. Viúva. Filhos e netos a viver em vários sítios da Aldeia. Quase sempre "longe", naquelas noites invernosas, frias e escuras. A criança sabia que ela era velha. De idade indefinida. Que nunca chegou a precisar. Quase uma avó. Mas muito mais velha. Até a avó Emília a tratava por ... "vocemecêi".
- Ó Ti Vicenta, olhe-me aqui pelos garotos enquanto vou ali à fonte. À loja do senhor Mendonça. Ao palheiro. À "Tapada"... Meninos, obedeçam à Ti Vicenta...
Nos seus menos de 30 anos, nunca tinha descanso, aquela jovem mãe e mulher. E por ali ficavam as crianças, sob a guarda de um só olho - a tia Vicenta cegara do outro, havia muito, sem se saber bem a causa nem nunca ter conhecido médico nem enfermeira...
A chegada da Ti Vicenta marcava o período final do serão. Alargava-se a "roda", abria-se espaço ao pé da mulher da casa que aproveitava para se levantar. Enquanto lavava a louça, arrumava a cozinha e ultimava a "comida" para o porco, a velha senhora aproveitava para quebrar a sua solidão, aquecer-se num lume que não tinha na sua pobre casa e contar histórias do "outro mundo"... Que deliciavam o garoto e o enchiam de terrores misteriosos.
E lá começava ela: "Uma vez...", momento que era desejado e temido.
- Então, Filho, estás com medo?
O arrepio percorria a espinha da criança, de alto a baixo, e puxar o tripeço para mais próximo das chamas ou agarrar-se ao adulto eram gestos irreprimíveis.
- Não, Pai, tenho frio!!! - murmurava o miúdo, fascinado e assustado, sem querer dar sinal da cobardia que sentia.
As histórias eram quase sempre as mesmas. Tratavam de cemitérios, bruxas, lobisomens. Almas do outro mundo, mortos que falavam, que se tinham levantado no caixão, vivos que fugiam assustados. E que ficavam gagos. Ou mesmo sem fala. Noutras ocasiões, vinham as aventuras dos contrabandistas. Ou de pastores que lutaram com os lobos que podiam seguir as pessoas até ao povoado. Na realidade ou na imaginação, pois o escuro daquelas noites não permitia "ver um palmo à frente do nariz". Ou da cheia que levara o Carriço, a mulher e os filhos numa noite de trovoada, a dormir lá na choça... Com todo o rebanho... "Nem acordaram, coitadinhos..."
Falava, pausadamente, mastigando a saliva na sua boca quase sem dentes. Restavam "as cravelhas", como ela dizia. Cara cheia de rugas profundas, cabelo branco e farto repuxado para a nuca e escondido atrás do lenço preto. Cativante, no entanto.
E os olhos do menino iam pesando; encostava a cabeça no joelho do Pai e acabava por adormecer.
- Então, filho... - acordava-o a Mãe - tens de ir para a cama. Anda, que o Nando já dorme...
A tia Vicenta levantara-se também, pois o ritual estava cumprido. Aos tropeções, com a candeia de azeite, que o vento apagaria, na sua mão, metendo os pés nas poças de água, lá chegaria à sua casa ainda mais humilde do que aquela que a acolhera. O miúdo, a custo, despedia-se daquele mundo atraente e de sustos. Enfiava-se, a correr, na cama já aquecida pelo irmão e com a botija lá ao fundo dos pés. Sim, dormiam os dois no mesmo leito. Em tempos que não voltaram. Antes, a custo, ainda tivera de se benzer, rezar as 3 Avé-Marias e o Santo Anjo do Senhor... Não havia dispensas nem desculpas para não rezar!
A chuva continuava a cair, sem cessar. O vento assobiava nas telhas da casa e nas frestas das portas e das janelas. O quarto, forrado com madeira de pinho, parede interior de taipa, caiado de branco, dava uma protecção acolhedora, convidando ao repouso, entre lençóis de flanela grosseira e cobertores ásperos da lã das ovelhas com mantas de farrapos. Quando as orações terminavam, mal balbuciadas, já os olhos dele estavam fechados. Para adormecer, num instante. Sem comprimidos. Por vezes, com pesadelos. Quase sempre até às 8 horas do dia seguinte.
Ainda não havia muito, o relógio, na torre da igreja, batera as 9 horas daquela noite, quando já o dia se fora, há muito.
Na Aldeia, quase todos repousavam. A última taberna fechara as portas. O dia seguinte continuaria a não ser fácil. Com chuva ou sem ela. Talvez com mau tempo, pois as dores, nos ossos da Ti Vicenta, assim o anunciavam...

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Uma MULHER na nossa vida!!!

Queridos manos,
Ao olhar o calendário, vi "11 de Janeiro". Bateu uma saudade no meu coração! Eu disse:

- Meu DEUS, obrigada pela Mãe que um dia me deste. Eu sei que ela está Contigo, mas isso não impede que as lágrimas corram pelo meu rosto. É a saudade e a incapacidade de lhe pedir perdão. Mas como JESUS não veio ao mundo para me condenar eu pedi: "SENHOR JESUS por favor dá um beijinho de parabéns à minha Mãe e diz-lhe que eu a amo muito".
Eu amo-vos muito, com o amor que os nossos pais semearam em nós.
Muitos beijinhos
Da vossa mana,
Clarinda