segunda-feira, outubro 05, 2009

Na eira 2

O Inverno acontecera puro e duro. Chuva e vento. Frio e chuva. Vento e frio. Sentiu-se alívio na Aldeia, quando o cuco anunciou a chegada da Primavera. Urgia que as terras escorressem, pois a sementeira do milho não podia falhar. Era quase o "seguro" daquela pobre gente, numa vida de horizontes bem limitados, uma vez que o centeio servia, normalmente, para pagar as rendas. Com a chegada do bom tempo, vacas à charrua e, de novo, rego após de rego, aquelas vastas áreas foram lavradas e as sementes enterradas. Nos melhores terrenos, sobretudo onde a humidade resistisse, com algum êxito, às bravuras do mês de Julho, havia de semear-se o feijão pequeno. Este só lá no mês de Maio.
Já o Sol desaparecera, quando António entrava em casa. Muitas vezes os filhos haviam adormecido. Noutras, o mais velhinho "segurava" as pálpebras para as brincadeiras do costume. Pacientes e ternas.
- Então, homem, como vão as coisas lá pelo "Vale do Homem"?
- Está quase. E vamos conseguir!
Uma oração. A ceia. Ainda uma última "visita" aos animais, à luz da laterna de azeite, não fosse uma corda mal ajustada causar uma desgraça. Aquela amigas fiéis e boas haviam já pastado, na relva, ao fim da tarde, enquanto se apanhava a "erva" para a noite, e agora, depois da comida, na manjedoura, repousavam, tranquilamente.
O dia de amanhã não seria diferente. E o outro. E o outro...
O tempo passara célere, o milho começou a despontar e aquele campo de onde a vida brotava - e dessa vida dependiam muitas outras vidas - estava o que se pode chamar "um encanto". Parecia que a Natureza se reconciliara com o Homem.
A falta de trabalho era um problema grave e não foi difícil contratar um rancho de mulheres e raparigas que quisesse tomar conta daquele milheiral, de "terças". Uma forma de o pobre explorar o outro pobre, pois o dono das terras estava de fora de todas estas maçadas. Explicaremos adiante. Lá pela segunda quinzena de Abril aquele rancho teve de sachar cada bocado daquele enorme terreno, que o rendeiro já percorrera 3 vezes, com arado e grade, e ainda havia de lá voltar para "aterrar", caule a caule, cada uma das plantas daquele milho tão bem nascido. Rezar a Deus e a Nossa Senhora da Graça para que a chuva não falhasse. A chuva! Ou a sua falta, causa de tantas e tantas rugas no rosto da minha Mãe! E depois "desbandeirar" onde o milho fosse mais alto, já com as "maçarocas" criadas. E cortar. E juntar. E carregar no carro de vacas. E transportar para junto da eira, a uns 2 quilómetros. E descamisar. A desfolhada era dos trabalhos mais felizes da nossa gente, sentados e à sombra. Com os lacraus a virem, por vezes "agarrados" aos dedos. Também "experimentei"! E estender as espigas doiradas nas lajes da eira para secarem, convenientemente. E malhar. E limpar das impurezas, com ajuda do vento, grãos atirados ao ar, pazada a pazada. Dividir. Ensacar. E levar para casa o que havia. Um verdadeiro "purgatório", que durava até Agosto. Alternando com alguns dias para tratar do feijão pequeno, ainda mais trabalhoso, apanhado vagem a vagem. Na hora da divisão, o rendeiro ficava com 2/3 do produto final e o outro terço ficava para todo o rancho dividir entre si.
E, não raro, num lamento se ouvia:
- Quase não deu para as passadas.
Mas ainda haviam arranjado forças para alegrar aqueles trabalhos tão duros, a cantar "Mondadeiras do meu milho/ Mondai o meu milho bem/ Não olheis para o caminho/ Que a merenda já lá vem." Ou "Viva o nosso ranchinho/ Viva e torne a viver/ Um ranchinho como o nosso/ Não o há nem pode haver". Em cada época e para cada trabalho aí estava a "moda" a condizer. Cantigas belas, dolentes, sofridas deixando na alma de quem as cantava e de quem as ouvia uma intensa nostalgia. De quê? De quem? De Justiça?
Retirado o milho, era tempo de o rebanho avançar para aproveitar tudo o que de comestível por lá ficasse. E não era muito.
O Verão era um tempo muito duro. Nos "intervalos" das "sachas", mondas e "aterros"" havia que assistir às hortas, às fruteiras, às vinhas. Colher e secar os figos. Homens e mulheres, grandes e pequenos, numa dobadoira imparável. Dormia-se nos campos, nas choças - raramente havia um casinhoto, quase sempre desconfortável - e ainda havia força para sacar de um pífaro de sabugueiro ou de um realejo comprado no mercado de Penamacor para alegrar a noite, quase sempre sob a luz das estrelas. As noites de luar, em Agosto, eram majestosas! Quantas "estrelas cadentes" avistei. Não se podiam contar, porque... "nascem verrugas"...
Outubro chegou, num instante!
As primeiras chuvas - se tardavam, mesmo antes delas - predispunham as terras para a sementeira dos campos, os melhores, que os mais fracos entravam "de pousio" e eram local de pastagens para os "gados".
De novo, as juntas de bois e os seus condutores voltaram a rasgar aquela terra mãe e madrasta, para as sementeira do centeio. O ano do tudo ou do nada. Outra vez à frente, atrás, adiante, vai e torna, "Ó Morena, mete ao rego", "Ó Cereja, cuidado", "Torna!!!" Uma conversa constante e íntima entre o homem e aqueles animais, mansos e vitais. Quase só eles e a vastidão do campo. E, lá mais adiante, outro conjunto. Os mesmos gestos, as mesmas palavras, as mesmas dificuldades, a mesma luta. E outro. E outro. Aqui e além os rebanhos. Conheciam-se os donos pelo chocalhar de cada um. Nestes períodos de falta de braços de uma agricultura intensiva e exploradora, os mais crescidotes eram retirados das escolas para ajudar. As sementeiras... um tormento para os professores. E para os gaiatos. E para os pais. A cooperação era uma necessidade. Para que a seara "rebentasse" com alguma simultaneidade, juntavam-se dois, três e até quatro ganhões, no mesmo trabalho, para que as sementes fossem enterradas, no tempo, com a maior proximidade possível. E depois iam para os campos do outro. E do outro...
Pelo meio-dia, apontado pelo Sol a Sul, um breve descanso para os animais comerem e o dono tomar a sua fugaz refeição, muitas vezes de pão com queijo. Um bocado de presunto ou chouriço. Umas azeitonas. Uma pinga.
- Então, António, este ano vamos ter sorte? - perguntava ela, entre a esperança e a angústia.
- Ó Carminda, está tudo a correr pelo melhor. Desta vez ficamos bem!
- Deus te oiça, homem. Não me canso de rezar a Nossa Senhora. E ao Santíssimo Sacramento. Deus tenha pena de nós e dos nossos filhos. Tanto trabalho! Mal posso com as dores no corpo. Do cansaço nem falo já... Que vida desgraçada me arranjaste. Se , ao menos, tivéssemos ido para a África...
- Ó Minda, deixa lá que agora é que vai ser!!!
Já "Os Santos" batiam à porta, quando a coisa começava a acalmar. Do castanho acinzentado dos campos iam surgindo pequenas hastes que os transformavam em verde verde. Serenava a alma camponesa - antes houvera o desassossego das vindimas e, a seguir, já aí estava o da azeitona - à noite, com as castanhas da ceia, assadas ou cozidas, regadas com a frescura dos vinhos novos. "Anda cá provar o meu". "Está aqui uma bela pinga" ou "Quiseste muito e vê no que deu. Vinho só da uva. A água da fonte só p'rós pés". E "parecia que estava forte...". Ou ainda "Tens mais olhos que barriga"...
O Sol e a Chuva iam fazendo o seu papel. A geada também. E o mês de Janeiro era altura de deitar contas à vida. Um bom agricultor começava a perceber o que o ia esperar, lá em Julho. Se a seara cobria bem a terra, se estava "forte" de mais - aqui era uma bênção para os rebanhos entrarem no "marfolho" e comerem do "bem bom" para atrasar o crescimento das searas - era a esperança. Se o "códão" provocado pelo frio intenso fazia mirrar as pequeninas plantas ou o Inverno fora "manhoso" a alma dos camponeses começava a "apertar-se". E o que se passava não era de muitas alegrias. No primeiro mês do ano, a geada quase fizera desaparecer o verde dos prados. Este Janeiro fora bem seco e frio. A fome perturbava os gados e, nas queijeiras, o leite era pouco para o que tanto se esperara: fazer queijos.
Um alívio, a Primavera. Os campos reverdesceram e foi nascendo uma nova alma na Aldeia. Podadas as vinhas, foi um encanto vê-las com os rebentos novos. Aqui e ali surgem as batateiras a despontar e as hortas vão tomando forma para gozar do bom tempo que a estação proporciona. As searas haviam ganhado força e, em Abril, chegara o encanto de vê-las "fugir" em ondas de verde empurradas pelo vento. Um espectáculo deslumbrante, inesquecível.
E a Ascensão chegou, com os primeiros calores, a sério, o verde desaparecer e a dar lugar à linda cor das searas maduras. Mas não, não tinham aquele aspecto que todo o camponês desejava: curvadas para o chão com o peso dos grãos. Antes se apresentam "nem cá, nem lá", "não sei se me inclino, se me tenho em pé". As expectativas eram, pois, reservadas.
- Ó António, não gosto do aspecto do "pão"... As espigas não estão "gradas"...
- Ora, isso é impressão tua. Talvez os nevoeiros de Maio não tenham sido o melhor. Mas ainda engrossam mais.
- Não vejo como. Não vês a cor delas?
- Deixa lá que tudo se há-de ajeitar.
- Deus queira!
Era preciso contratar quem ceifasse. E ainda ter o sentido da oportunidade. Tudo quer o seu tempo. E as searas não são excepção. Para os rendeiros, dificilmente se encontra quem queira trabalhar ao "quinto". Só as casas ricas, que dão trabalho todo o ano. Pobre tem que pagar. Em dinheiro. A lei da oferta e da procura também na Aldeia. Com direito almoço, antes de "pegar", a jantar (pelo meio dia), merenda (4 da tarde) e ceia (8 horas). Uma pobre e jovem mulher, na flor da vida, fazendo comida, carregando comida, estendendo comida para uma dezena de bocas esfomeadas. Uma distância enorme a percorrer com o cesto à cabeça. Todos os dias. Quase duas semanas. Um penoso, um doloroso sofrer. A mais cruel exploração de pobres por pobres, em proveito de uma meia dúzia, que fazia vida de luxo. Uma engrenagem bem montada, obra, com certeza, do Inferno.
Homens ao "corte" era sempre a ceifar, ceifar. Aquelas foices manejadas por mãos quase sempre hábeis, iam deixando atrás montes de "pão" acabadinho de cortar. As "paveias". Depois, em cada entardecer, era atá-las em molhos, formar os "rilheiros" dispersos pelo "restolho", pequenas obras de arte, onde a água não entraria, se houvesse a sorte de chover. Para os milhos, claro. Os rebanhos voltavam a ocupar o lugar em que crescera a seara, à procura de matar a fome.
Depois a "acarreja", que juntava aquelas centenas, talvez milhares de molhos, produto do trabalho de um ano, numa eira, mais perto da Aldeia, com o de outros rendeiros, cada um com sua "meda", deixando um intervalo no meio, onde havia de entrar a "malhadeira". Frequentemente, era debulhado, manualmente, com o "mangual", 3, 4 ou 5 ... malhadores de cada lado, encharcando as pobres roupas com o suor que saltava daqueles corpos magros, a ponto de se conhecer o sal nas camisas, depois de as enxugarem. E ainda arranjavam forças para cantar, com alguma brejeirice: "Coradinha já morreu/ Foi metida no caixão/ Deixaram-lhe o braço de fora/ P'ra pegar no garrafão". E o refrão sempre repetido "Vai, vai, Coradinha, vai, vai!" E os manguais pam! pam! pam! pam! faziam saltar o grão das espigas. O grão do nosso contentamento. O grão do nosso pão. E sempre a ser preciso dar de comer aquela gente heróica. E de beber. E pagar. Nem sempre havia com quê. E o recurso ao usurário... mais uma tragédia.

A malhadeira, pesadíssima, só a custo deslizava, na estrada "macadamizada", puxada por um tractor, a grande novidade deste Verão, para gáudio e espanto da garotada. Uma coisa nunca vista. Mas a maquineta era fraca para puxar o "monstro de ferro". Sempre que havia areia ou terra mole era uma "festa": as rodas derrapavam e a malhadeira nem se mexia. Lá vinham as mansas vacas e a força dos homens para que aquele "bicho" medonho avançasse e trouxesse um ar de "progresso" à vida da nossa Aldeia. Não foi sem enormes dificuldades que a máquina ficou colocada entre as "medas" de centeio. Depois foi preciso colocar-lhe as correias e ligá-la ao tractor por uma delas bem grande, que ainda "abriu" uma ou outra cabeça de alguém mais descuidado. E as histórias que se contavam destas debulhadoras. Que lá, na Terra Fria, uma rapariga solteira caíra naquele enorme alçapão por onde o cereal era introduzido e saíra aos bocados. Que para os lados da Idanha, uma outra se incendiara e ardera com toda a eira... Era mesmo um "animal" de meter respeito. Mil e um conselhos de quem pensava saber mais que os outros. Mas era um "delírio" para a "canalha", que até fugia da Escola para ir espreitar - as férias eram a 15 de Julho - e tinha de ser "encorrida". Não fosse o Diabo tecê-las...
(Vai continuar)

2 comentários:

Sandra disse...

Leitura tão simples mas tao cheia de verdade e realidade.
Sem preocupações nem pretensões de ser um exlibris da literatura, é uma cronica mundana e vivida que lhe confere um sabor tão mais genuíno.
Parabens ao pai de quem muito admiro.

António Serrano disse...

Obrigado, Sandra!
Não sei com quem falo e, por isso, ainda lhe fico mais devedor.
Todavia, o Mundo é pequeno e talvez um dia nos encontremos. Já me têm acontecido coisas mais inesperadas e "impossíveis". Pelo menos já sabemos que existimos... O que é, só por isso, uma Graça!