sábado, setembro 04, 2010

Medos da Aldeia... 1

A giesta
O mês de Maio, naquele final da década de 40, do século passado, não dava folga aos nossos camponeses: as regas, as mondas, as sachas, as caldas, a guarda do rebanhos, a aterra dos pés de milho...
Saía-se cedo de casa e só depois do sol posto se começava a pensar em regressar à Povoação. Dormir nas choças havia de ser dali a poucas semanas. Para ganhar tempo e "matar" ainda mais aqueles corpos sempre prontos para deitar mais uma gota de suor e para fazer mais um esforço. Era, pois, um mês decisivo na existência das nossas Gentes.
Aquele dia fora igual a tantos outros e era preciso regressar. O jovem casal ia reparando nas Crianças, dois meninos, de pouca idade, enquanto as vacas, mansamente, iam pastando na farta relva à volta da represa da Tapada do Cabeço. Ali trabalhavam, de renda, desde o seu casamento, fizera meia dúzia de anos.
- Carminda, vai andando com os Garotos, que eu já carrego os molhos de erva, ponho as vacas a caminho e apanho-te, num instante. Vai ficar noite, não tarda...
Cesto a transbordar à cabeça, cesta de verga enfiada no braço, dá a mão ao mais pequeno e diz para o mais velhinho:
- Vamos, Filhos, está a fazer-se tarde. Vá! Vamos depressa.
Até casa poderiam gastar o que restava de luz dos longos entardeceres da Primavera. Fora mesmo um dia e tantos!
Mãe e filhos meteram-se a andar, passaram, com dificuldade, pelas "poldras" da Ribeira, onde a água ainda não faltara, saudando os já poucos que, ainda nas hortas e vinhas adjacentes ao caminho, davam também por findas as tarefas dessa jornada. Na suave encosta para a Aldeia, ali estava o "Bacelo", grande vinha, castanheiros frondosos, depois o pinhal, as sobreiras e as oliveiras pontilhando os campos ou na borda do caminho assoreado aqui e ravinado além pelas chuvas da longa invernia já distante. Não havia sombra desta ou daquela árvore, mas um crepúsculo geral que ia envolvendo toda a paisagem.
Ali, na curva da vinha do Ti Félix, começava a última ladeira, antes de se chegar a um nível em que de lá se avistaria a Aldeia.
- Ó Mãe, está ali um homem agachado... - murmurou o mais crescido dos miúdos.
A Mãe, jovem bela e desempenada, nos seus 27 anos, era um pouco assustadiça e também notara, mal chegara ao fundo do pequeno declive, que algo não estava bem, lá no cimo.
- Então, Filho, não vejo nada... - retrucou, aparentando a valentia que não sentia.
- Sim, Mãe, está ali um homem agachado à nossa espera! - teimou o pequeno, voz ténue, pernas a tremer, agarrando-se à saia materna.
O andar dos três tornou-se mais vagaroso, quase a marcar passo. Sabiam que atrás vinha o homem da casa e o "problema" poderia resolver-se "de igual para igual".
Mas, nestas coisas de medos, os minutos tornam-se eternidades e as dúvidas pequenas em certeza enormes.
Não havia mais hesitações! Estava ali um homem agachado, à espera de Mãe e filhos...
Com um nó na garganta, conseguiu clamar para o marido, que devia estar já ali mesmo atrás e não havia maneira de aparecer:
- António, ó António!!!
Nem resposta. Fosse pelo bater dos canelos dos animais nas pedras e areia do caminho, fosse porque a distância se tornara maior do que se pensara, o Pai das Crianças é que não deu resposta.
- António, ó António, onde é que tu estás, homem?!- gritou, de novo, quase em desespero, agora com a marcha interrompida.
- Que ééé, Mulheeer?! Então o que é que se passa?! Eu estou bem e já passei aqui o portão do senhor Amaral... - exclamou ele, voz forte, sabendo quanto ela era "medricas"
A voz do Pai e marido voltou a encorajar o trio, que retomou o caminhar em direcção ao Lar. Devagarinho, não fosse o "Inimigo tecê-las"...
Já sentiam o andar dos animais e a presença tranquilizadora do "chefe de família" nas suas costas, quando atingiram o cimo da rampa.
Cá estava "ele", o "autor" de tamanho susto, o "homem agachado" ali mesmo, à saída da vinha do Ti Félix, uma GIESTA "negra" que quase todos os dias viam duas vezes. Pelo menos...
- Olha... é a giesta!!!- murmuraram quase em simultâneo.
Um suspiro de alívio, um sorriso amarelo e uma gargalhada nervosa.
Depois... o retomar do caminhar apressado, em direcção à ceia parca. E à caminha.
Em memória da voz de minha Mãe.

segunda-feira, agosto 16, 2010

Baile na Aldeia 4

Baile das “Sortes”
O esplendor do Sol fez alguns catrapiscarem, enquanto o suor lhes começava a escorrer pelo rosto. Na lapela dos casacos, tirados quase de seguida, apenas um laço branco indicava que o Quim ficara livre. Outro resultado não seria possível, perante o que era evidente. Para seu mal e para seu bem, não tomaria parte na aventura que toda aquela gente nova acabava de iniciar. O lacinho vermelho, qual prenúncio, assim o garantia, “apurado para todo o serviço militar”.
A sede e a fome apertavam e na Vila havia diversas pensões e tabernas que poderiam dar a resposta que aquela rapaziada cheia de energia agora estava a pedir, de comer e de beber. Decidira-se que a Pensão Seguro era o lugar com melhor possibilidade de servir, adequadamente, em dia de tanto movimento e o seu bem gentil proprietário fora alertado, em tempo.
Grupo composto, o Tocador faz deslizar os dedos pelos teclas da concertina e aí seguem pelo Largo do Sumagral, Rua da Botica, Alto da Praça, Rua Padre Mestre, apanhando a descida na Rua de Santo Estêvão… Numa Região em que o jantar ocorria pelo meio-dia, grande parte das pessoas havia já “tratado da saúde”. Mesmo assim, o acolhimento não foi fácil. Fregueses em excesso…
Depois, o arroz de tomate, as pataniscas de bacalhau, o vinho “traçado” com pirolito do Teixeira, a cerveja, a laranjada do Soito foram acalmando o desassossego de estômagos e cabeças.
As frondosas tílias do Jardim da República acolheram tanta agitação, depois, até chegar a hora da camioneta, previdentemente “desdobrada”. A repetir-se, a situação da manhã tornar-se-ia insuportável

16h 30. Um morteiro “clandestino” anunciou “Cá estamos, na nossa Aldeia!” Mudar aquelas roupas suadas, largar casacos, passar a cara por água fresca é uma urgência. “Liberta-se” o acordeonista para que “mate a sede” e ganhe forças numa das tabernas, num tempo em que não havia frigoríficos e os pirolitos eram “arrefecidos” mergulhados em alguidares com água da Fonte. A água da Fonte. Lá bem funda, era o máximo de “frio” possível!
Habitualmente, não havia bailes nos dias de trabalho. Este ou o de um ou outro casamento seriam a excepção.
Nos campos, os mais novos metiam pressa no acabar das canseiras deste dia, com os pais a resmungar: “Esta malta nova só quer é boa vida!”. Os que tinham ficado no Povo, vão-se achegando ao Largo da Fonte, onde a sombra do Lagar ainda escasseia e o calor aperta. Acordeonista e “rapazes das sortes” dão uma última volta pelo Povoado. Uma arca da azeitona emprestada pela Casa Grande serviu de estrado sobre o qual, numa cadeira empalhada, o Artista se acomodou. E então, naquele salão improvisado, no alcatrão da estrada, vai de dançar, dançar, corpos suados e frenéticos, a puxar para a festança. Poucas ainda, avós e mães encostam-se à parede, procurando a sombra, algumas a fazerem o gosto ao pé. A vida difícil não lhes levara a jeito! V
iras, malhões, "passo-dobles" e marchas - sempre preferidas pelos de “pés de chumbo”, "pois é só marcar passo”… - tangos, valsas, corridinhos, fandangos, … quase sem parar. Também do estrangeiro vinham músicas de Paul Anka, Roberto Carlos, Ângela Maria, Elvis, Françoise Hardy, Modugno, Rafael… O nosso Castilho, jovem e actualizado, tocava tudo o que desse para “abanar o capacete”… Com idas à Fonte, ali tão perto, ou à taberna próxima para dessedentar.
A tarde foi caindo e a sombra crescendo, cobrindo todo o Largo. Uma aragem suave vem que nem de propósito. Viva o Tocador. Viva este! Viva aquele! Viva a malta das “sortes”. Viva a Casa Grande. Ali mesmo "nas barbas" ficava "bem"...
No regresso dos campos, houve quem não resistisse a poisar o cesto no chão e “Anda cá , Maria!” ou “Anda cá Manel!” e foi numa dança. Ou até duas. Não faria grande transtorno que a ceia atrasasse um pouco.
O crepúsculo chegou, sem iluminação eléctrica. Tempo de intervalo. Para cear. A noite caiu breve.
Com as obras de adaptação da sede de “A União”, a instalar-se o Centro Social no rés-do-chão e a Banda lá para o primeiro andar, não foi fácil arranjar um espaço que acolhesse a festa nocturna, em condições razoáveis.
O Ti Leonel e a Ti Esperança, a tratarem da vida na dureza das Minas da Panasqueira, haviam arranjado a sua casa, ali no Largo do Pereiro, ficando um bonito salão, na parte baixa. A “conversa” do sobrinho foi mais que muita e, com ajuda da Prima Alcinda, a coisa ficou combinada: o baile seria lá. Até hoje, não foi esquecido.
Ceias papadas, caras relavadas, roupas mudadas, o baile da noite havia de ser só para convidados, os das “sortes”, algumas namoradas, irmãs, amigas, quase sempre do mesmo ano, de 1943. O Largo havia de ser o apoio espacial tão necessário para esta ocasião de excepção, em noite estival. À luz de um “Petromax”, um luxo, candeeiro especial, a petróleo, com uma luz especial para as ocasiões especiais.
Em volta da sala, bancos e cadeiras insuficientes, acolhiam avós e mães, sempre “com um olho no burro e outro no cigano”. “Não, que eu não quero cá abusos nem falatórios!!!” Os pais conversavam no Largo. Ou na taberna.
Rapazes para um lado, moçoilas para o outro, lá se iam entendendo de forma a que nunca faltasse quem se balançasse ao som ora suave, ora atiçado das músicas do vasto reportório do jovem Tocador, partindo a iniciativa da escolha do par aos rapazes “A Menina dança?!” ou “Queres dançar comigo?!” Como era normal, havia mais homens que mulheres e o “Bota cá licença?!” tanto podia ser recebido como um alívio ou dar origem a cenas desagradáveis, sobretudo se a jovem não queria mesmo dançar com o autor do pedido, ou se, entre aqueles que já dançavam, havia interesses “conversados” ou a “conversar”...
Era sempre um momento bem desejado dedicar uma modinha para “Damas aos pares”, em que cada uma das jovens po
dia escolher, sem recusa, o parceiro que todo o baile lhe agradara e não houvera maneira de por ela se decidir.
A noite ia avançando, ouvia-se o pedido insistente de “A Coroínha, a Coroínha!!!” e o Zé Castilho a fazer-se de surdo. "A Coroínha" era uma “moda mandada”, o culminar de qualquer baile que, na Aldeia, merecesse tal nome. Diga-se que tudo o que se dançasse antes era “os preliminares” e n’”A Coroínha” se atingiria o clímax… Depois, o baile podia continuar… mas já não era a mesma coisa.
Por fim, o Tocador cedeu. A música para “A Coroínha” aconteceu. Os pares começaram por dançar “agarrados” e, sempre sob a voz firme do “mandador”, foram desenvolvendo uma coreografia que fazia o encanto de velhos e novos. Depois, sempre a “mando”, a roda de pares, as rodas concêntricas de raparigas e rapazes, mais chegados/as “ao centro”, “à retaguarda”, “um passo à frente”, “um passo atrás”, “aos seus pares”, “bater palmas”, “estalar dedos”, “oh! virou!!!…, “aos seus lugares!”… as rodas girando na mesma direcção ou em sentidos o
postos, num agitar de braços, corpos balançando, peitos ofegantes, rostos corados, testas suadas, dedos estalando, batendo palmas, pés voando, braços agitados, pernas ligeiras, sorrisos nos lábios, olhos em fogo… até se ouvir a exclamação “À Coroínha!”. As rodas concêntricas estacaram. Homens pelo exterior. As mãos dadas, delas e deles, sem se largarem, vão passando por cima das cabeças, entrelaçando-se por baixo dos peitos e por cima das ancas. Conseguiu-se a maior “intimidade” possível, neste baile. A concertina não se cansa, “puxa” pelos dançarinos e eles não se fazem rogados. Bem entrelaçados, emparelhados, mãos bem juntas e mais apertadas, vão ainda uma vez obedecer à voz do "mandador", quase repetindo o que já fora feito, mas agora no doce enlevo de o/a ter bem juntinho. A roda mista não pára, girando num e noutro sentido. Vai à frente, vai atrás, uma fascinação, sentindo-se toda a sensualidade do momento naquelas caras rosadas, respiração apressada, corações palpitantes. Ainda o acelerar possível da melodia por mais uns minutos bem fugazes e o acordar do sonho “Cada um com seu par!!!” “A Coroínha” desfez-se, o êxtase esvaíu-se e , num instante, os pares vão desacelerando e o encanto que passou... ficou ainda no ar… a pairar.. a pairar…
Limpam-se os rostos suados, agitam-se os lenços, alguns saem para o Largo. É preciso respirar um pouco do ar da noite! É preciso acalmar. E beber, pois fome ninguém tem. De comida, pelos menos.
Aproxima-se a meia-noite. Ainda uma ou duas modinhas. Ninguém dispensará a Valsa das doze badaladas.
Novo dia, nascido na noite. A vida há-de continuar. Dura na sua realidade de todos os dias da Aldeia. O das “sortes” foi uma vez no Ano. Quem lá estaria, no ano seguinte?!

Notas:
1.Para os hipotéticos leitores brasileiros explico que o termo “rapariga”, entre nós, tem o sentido de jovem, moça, mocinha.
2.Procurando retratar uma época com a fidelidade possível, há situações que o autor descreve
de acordo com o que a imaginação lhe ditou.
3.Fotos de Zé Morgas e do Face Book de AJP, que agradeço aos autores.

quinta-feira, agosto 12, 2010

Preciso de ler ISTO!

Evangelho segundo S. Mateus 18,21-35.19,1.
Então, Pedro aproximou-se e perguntou-lhe: «Senhor, se o meu irmão me ofender, quantas vezes lhe deverei perdoar? Até sete vezes?» Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Por isso, o Reino do Céu é comparável a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. Logo ao princípio, trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos. Não tendo com que pagar, o senhor ordenou que fosse vendido com a mulher, os filhos e todos os seus bens, a fim de pagar a dívida. O servo lançou-se, então, aos seus pés, dizendo: 'Concede-me um prazo e tudo te pagarei.’ Levado pela compaixão, o senhor daquele servo mandou-o em liberdade e perdoou-lhe a dívida. Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem denários. Segurando-o, apertou-lhe o pescoço e sufocava-o, dizendo: 'Paga o que me deves!’ O seu companheiro caiu a seus pés, suplicando: 'Concede-me um prazo que eu te pagarei.’ Mas ele não concordou e mandou-o prender, até que pagasse tudo quanto lhe devia. Ao verem o que tinha acontecido, os outros companheiros, contristados, foram contá-lo ao seu senhor. O senhor mandou-o, então, chamar e disse-lhe: 'Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque assim mo suplicaste; não devias também ter piedade do teu companheiro, como eu tive de ti?’ E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos até que pagasse tudo o que devia. Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar ao seu irmão do íntimo do coração.» Quando acabou de dizer estas palavras, Jesus partiu da Galileia e veio para a região da Judeia, na outra margem do Jordão.

quarta-feira, agosto 11, 2010

Textos de sempre ... para sempre

O ESTATUÁRIO
Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e, depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão, e começa a formar um homem, - primeiro, membro a membro, e depois feição por feição, até à mais miúda; ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos; aqui desprega, ali arruga, acolá recama; e fica um homem perfeito, e talvez um santo que se pode pôr no altar.
Padre António Vieira, Sermão do Espírito Santo



domingo, julho 25, 2010

Um diálogo de que gosto...

Livro de Génesis 18,20-32.
O Senhor acrescentou: «O clamor de Sodoma e Gomorra é imenso e o seu pecado agrava-se extremamente. Vou descer a fim de ver se, na realidade, a conduta deles corresponde ao brado que chegou até mim. E se não for assim, sabê-lo-ei.» Os homens partiram dali, e encaminharam-se para Sodoma. Abraão, porém, continuava ainda na presença do Senhor. Abraão aproximou-se e disse: «E será que vais exterminar, ao mesmo tempo, o justo com o culpado? Talvez haja cinquenta justos na cidade; matá-los-ás a todos? Não perdoarás à cidade, por causa dos cinquenta justos que nela podem existir? Longe de ti proceder assim e matar o justo com o culpado, tratando-os da mesma maneira! Longe de ti! O juiz de toda a Terra não fará justiça?» O Senhor disse: «Se encontrar em Sodoma cinquenta justos perdoarei a toda a cidade, por causa deles.» Abraão prosseguiu: «Pois que me atrevi a falar ao meu Senhor, eu que sou apenas cinza e pó, continuarei. Se, por acaso, para cinquenta justos faltarem cinco, destruirás toda a cidade, por causa desses cinco homens?» O Senhor respondeu: «Não a destruirei, se lá encontrar quarenta e cinco justos.» Abraão insistiu ainda e disse: «Talvez não se encontrem nela mais de quarenta.» O Senhor disse: «Não destruirei a cidade, em atenção a esses quarenta.» Abraão voltou a dizer: «Que o Senhor não se irrite, por eu continuar a insistir. Talvez lá se encontrem trinta justos.» O Senhor respondeu: «Se lá encontrar trinta justos, não o farei.» Abraão prosseguiu: «Perdoa, meu Senhor, a ousadia que tenho de te falar. Talvez não se encontrem lá mais de vinte justos.» O Senhor disse: «Em atenção a esses vinte justos, não a destruirei.» Abraão insistiu novamente: «Que o meu Senhor não se irrite; não falarei, porém, mais do que esta vez. Talvez lá não se encontrem senão dez.» E Deus respondeu: «Em atenção a esses dez justos, não a destruirei.»
Confio na Misericórdia do meu Senhor!

terça-feira, julho 20, 2010

Baile na Aldeia 3

O baile das “sortes”
Nem o trabalho das sementeiras ou o da apanha da azeitona esfriara o entusiasmo daqueles mancebos que, com a entrada do madeiro, a 8 de Dezembro, haviam já demonstrado que estavam ali para o que desse e viesse. Fora de arromba, os carros de vacas a não poder aguentar mais, o Zé Manel a alegrar as ruas da Aldeia e o coração da população com os acordes da sua concertina tocada com a habilidade que se lhe reconhecia. Mas a rapaziada de 1943 – não havia memória de ter nascido tanta garotada na Povoação, apesar dos canhões troarem pela velha Europa, posta a ferro e fogo, e de a Guerra Civil ter deixado a Espanha num farrapo – vinha tratando do assunto, desde os bailes do S. João. Havia de meter foguetório e um tocador que tivesse fama. Habitualmente, eram o Zé Fonseca ou Zé Manel, que animavam ali os bailes de concertina. Não sendo “especialistas”, eram da vizinha aldeia de Aranhas, tão perto, e o preço era bem mais em conta, relativamente ao Silva, do Vale, ao Alziro, da Orca , ao Arlindo ou ao Castilho, ambos de Proença, este agora muito na moda, bastante jovem, uma verdadeira coqueluche. As “coisas” tinham de ser tratadas a tempo e horas, pois quem se descuidasse era certo e sabido que “ficava a ver navios”. É que a tradição não se cumpria só nesta Aldeia, mas em todas as do Concelho. E também nos outros Concelhos em volta. Era mês de farta receita para quem soubesse tocar acordeon com algum jeito…
A “festa” era levada a cabo, em duas fases. No mês de Janeiro, os rapazes que completassem os 20 anos, nesse ano, eram convocados, por edital do DRM, para irem aos serviços da Câmara Municipal recensear-se, para efeitos de cumprimento do serviço militar obrigatório, “dar o nome”, a expressão que se usava. Era um ritual de quase iniciação à idade adulta, a culminar, em Julho, com o “ir às sortes”, “tirar o número” ou “ir à inspecção”, também por convocatória afixada com a lista dos jovens recenseados e em data fixada pelo Ministério do Exército. Lá em Penamacor. Nas instalações da PSP.
Era um quente mês de Julho. Na véspera, cada um tratara de tomar banho nos poços, nas charcas da ribeira ou nalgum tanque ou pia dos muitos que havia por aqueles campos fora. Com maior ou menor discrição, este era um dos banhos obrigatórios da vida da nossa rapaziada. A inspecção militar era já ali, no dia seguinte.
Até anos recentes, o serviço militar cumprido, em condições quase degradantes nas instalações envelhecidas dos quartéis, no medíocre serviço de “rancho” e nas incómodas fardas de cotim, com botas a que, normalmente, os pés é que tinham de se adaptar, era esperado pelos nossos rapazes quase como que uma libertação daquela bem dura vida camponesa. Com a caderneta militar em ordem podiam aspirar a servir na GNR, na PSP, nos Bombeiros, na GF… Seguir mesmo a carreira militar, desde praça “tarimbeiro” até oficial. Temos bons exemplos. Mas a “Guerra do Ultramar” estalara dois anos antes - a expulsão do “Estado da Índia” fora mesm
o consumada – e no horizonte da nossa Juventude, “louca, ingénua, generosa e faminta de ilusão…” levantavam-se nuvens ainda mais negras do que as que já lhe escureciam o seu dia a dia rotineiro e de poucas esperanças.
A abertura do Colégio, numa zona de cariz profundamente rural, fora uma aurora de esperança para uns poucos já crescidotes e muitos dos que agora andavam na Primária. Umas poucas das nossas jovens tentavam a sua sorte na costura, esperando um casamento que as tirasse dali. A maior parte dos nossos jovens trabalhava no campo, agricultura pobre e pecuária de subsistência. Com uma sociedade organizada, localmente, em que a maior parte do que produzia era para consumo interno, fazendo ainda pagamentos “em espécie”, caso das rendas, havia alguns que, à sombra de pais e familiares iam aprendendo de pedreiro, de carpinteiro, de serrador. Alfaiates, latoeiros, ferreiros e ferradores, forneiros, sapateiros… bastavam os que havia…
O aparecimento das bicicletas, no fim da década de 40, logo seguido da grande novidade das primeiras motorizadas – ah! a “Cocciolo” do saudoso e então jovem Prof. Teodósio, o alvoroço que trouxe à Aldeia! – e também o uso do ferro na construção e na agricultura, sobretudo na instalação das noras nos poços, abriu perspectivas de que novas profissões estariam a chegar, nomeadamente na mecânica e na serralharia. Aqui e ali apareciam as primeiras bombas de rega e também, mais raramente, o tractor agrícola foi ganhando o seu espaço, bem à sombra das pesadas malhadeiras. Mas quem quisesse aprender uma profissão tinha de pagar com dinheiro e com trabalho, fosse nas oficinas da Vila, nas das Aldeias ou na mais conhecida entre nós, a do Gaudêncio, em Medelim. Era mesmo assim: trabalhava-se para aprender e pagava-se ao “Mestre”.
Este fastidioso enquadramento é aqui posto para se entender o entusiasmo com que o “dia das sortes” era esperado. E vivido. Neste ano de 1963 era como que ir buscar um passaporte para África, dois anos de mal passar, nalguns casos a invalidez e a própria morte. Milhares vítimas do “nosso” lado. Também milhares de vítimas entre “o inimigo”. Tanto sofrimento injusto e desnecessário!
Estávamos a 4 de Julho de 1963, quinta-feira. Banho tomado, cabelos cortados, barbas feitas, roupas novas vestidas – aquela malta da tropa não era para brincadeiras – desde bem cedo os mais apressados se foram juntando no “Largo do Rato” – desde há 5 anos “Largo do Padre José Maria”… O ronronar da motorizada do Castilho, o tocador contratado, vindo ali dos lados da sua Proença, fez despertar um alarido de gritos e vivas. Tudo correra bem, mas um furo a despropósito poderia estragar um dia tão sonhado, desde há muito. Ali estava ele. Abraços e cumprimentos. Vivas e mais vivas. Um morteiro deitado às escondidas. Fora guardado, muito em segredo, que a GNR não era para brincadeiras.
Fazia tempo que as 7 badaladas do sino da torre haviam soado lá no alto e dali se arranca para a volta habitual ao povoado, ao som de uma das marchas mais recentes lá de Lisboa e tão bem executada pelo jovem artista. Muitos dos habitantes caminham já pelas ruas, rumo aos trabalhos, há raparigas e garotos, há velhos e novos que assomam às janelas e portas, a pensar na farra programada lá para a tarde e noite fora, e saúdam os “donos da festa”. Para os que ficavam seria um dia de trabalho, como tantos outros, só que terminaria de maneira diferente, com baile na Aldeia, e baile de concertina. Então a festa seria de todos.
A malta calcorreara as ruas da povoação e se ficara ali, junto à Taberna do Ti Domingos, pois a camioneta da carreira, que saíra de Castelo Branco pouco depois das cinco da manhã, apanhando o pessoal que viera de Lisboa, no comboio, chegaria, chovesse ou fizesse calor, como era o caso, antes das oito horas. E nela é que haviam de chegar à Vila. Saltos, gritos, mais vivas para disfarçar a ansiedade, com um entusiasmo tão próprio de quem pensa que a vida nunca acaba. Lá ao longe, pelas “Beiradas”, uma nuvem de poeira ia assinalando a progressão, em estrada macadamizada, do tão ansiado transporte. Uns minutos, que pareceram uma eternidade e aí está o ruidoso veículo, resfolegando os seus “cavalos” possantes e barulhentos.
Os de dentro quase não conseguiam sair, com a pressa de entrar dos que estavam de fora. Lá veio a voz bem disposta e divertida do senhor Martinho, “em cada esquina um amigo” , para repor um pouco de ordem:
- Calma, rapazes, que a “tropa” não foge!
Dada a partida, gerou-se alguma confusão na povoação seguinte, Aldeia do Bispo. Também o seu grupo de mancebos fora convocado para a Inspecção Militar e ainda em maior quantidade. Dada a conhecida rivalidade entre as duas povoações aquilo podia ter sido um caso sério, ah! se não fosse o
senhor Martinho. Com ele ninguém brincava, um brincalhão nato, e aos poucos e aos empurrões, couberam todos. Como? Um milagre! Sentados, de pé , uns ao colo dos outros… A força “bruta” das duas Aldeias estava ali, em todo o seu esplendor e ninguém se beliscou. Ah! Senhor Martinho, tenho saudades suas.
O roncar da camioneta atroava os ares, motor ruidoso e poderoso, as rodas saindo de um buraco para caírem noutro. Um “luxo” para todos, pois o habitual era fazer o caminho a pé ou de burro. A poeira entrava pelas janelas, mas ninguém se importava. Preciso era chegar.
A GNR não aparecera para complicar a vida ao motorista que, para se ver livre daquela malta manhosa e atiçada, parou a camioneta em frente ao Jardim. O gentil cobrador ainda teve de “cortar” alguns bilhetes com os passageiros já na rua, três escudos e dez centavos!!!
Estava a decorrer a época de exames da 4ª. classe, na sede de Concelho. Com as “sortes” e as Crianças e famílias a virem de todas as Aldeias do Concelho, a Vila ganhava uma especial animação, nesta primeira quinzena de Julho. Ainda na véspera fora o mercado quinzenal e a “animação” se mostrara ainda maior.
As 9 horas aproximavam-se, as inspecções estavam convocadas para a esquadra da PSP e havia um ritual a cumprir: cada grupo, com o tocador bem enquadrado, dedos ágeis a deslizar nos teclados, havia de lá chegar, com algazarra e festa, a algazarra dos seus gritos e vivas, a festa dos acordes das concertinas. Os de Aldeia do Bispo avançaram em direcção ao Terreiro de Santo António, seguidos, pouco depois, pelos “heróis” desta história.
À hora que lhes fora marcada, as quatro freguesias iniciadas por A – Águas, Aldeia do Bispo, Aldeia de João Pires e Aranhas - ali tinham o melhor do que haviam feito crescer nos seus domínios, perto de 100 rapazes, a quem o Estado se limitara a dar a Instrução Primária – não a todos! - e a vacina contra a Varíola, em 20 anos de vida, para deles dispor, a seu bel prazer, desde este dia, para o Bem e para o Mal.
Dois soldados e um cabo – os postos militares haviam de aprender a conhecê-los depois – chamando por Freguesias, foram metendo os jovens nas instalações policiais. Um sargento, com cara de poucos amigos, ordena:
- Em cinco minutos quero tudo “em pelo”!!!
- Sem cuecas? – pergunta alguém, timidamente.
- És surdo?! "Em pelo", ouvistes todos???!!!
A situação era confrangedora e cómica. Não que eles não estivessem habituados a andar “em pelo”, tomando banho juntos lá nos poços e tanques… Mas ali… na Esquadra da Polícia!!! Puxa, vida!!!
Olhando-se, de soslaio, botas e sapatos fora, meias, camisas, calças… ah! as cuecas…
- Então vai ou não vai?! Não podemos ficar a perder tempo. Já estamos atrasados, o “nosso major” tem pressa. Às 5 quer chegar a Castelo Branco… Vá, todos em fila aqui no corredor…
Cumprida a “dolorosa” ordem, corredor apinhado com o que faria a delícia de muita gente, lá fomos entrando, um a um, quase em fila indiana, numa sala espaçosa e onde havia de ter lugar o que parecia uma “fantasia ”, perante os quatro indivíduos sisudos que compunham a Junta de Inspecção. Ao lado, noutra sala, a mesma cena. Com outros jovens.
Começou o desempenho de cada um.
- Mete a mão nesse saco e tira um “número”…
- Vais ter sorte na tropa. Saiu-te uma capicua, o 55655…
O número que havia de me acompanhar, desde este momento, até aos 35 anos, em que passaria, realmente, à “reserva territorial”… O número mecanográfico 55655/63. Desde aquele instante seria um “número”… para defender a Pátria.
Depois, conferir os dados da ficha militar, saltar para a balança e anotar o peso, medir a altura e registá-la, espreitar a dentição, auscultação rápida da caixa torácica e a pergunta sacramental:
- Sofres de alguma doença?
- Ah! Tenho problemas de estômago…
- Ora, perguntei só por perguntar… Estás apurado para todo o serviço. Depois, se lá tiveres problemas, pedes para ir ao Hospital Militar…
Após a “inspecção” dos mancebos de cada Freguesia, estes eram todos reunidos naquela sala e prestavam o juramento solene, que lhes ia sendo ditado: “Juro ser fiel à minha Pátria, respeitar e defender a Bandeira, dar por ela todo o meu sangue…” Era um ritual que havia de ser repetido, já fardados, “apresentando armas,” meses depois, após uma instrução militar de três meses…
- Podem sair. Desçam as escadas e vão à vossa vida.
Assim, ali, desta maneira simples e prática, era traçado o destino de milhares e milhares de vidas em flor.
O Sol estava a pino. O calor quase insuportável. E aquela rapaziada cheia de sede e de fome.
Nota: A realidade social da época era a que se descreve. Algumas personagens, a localização do que se relata, no espaço e no tempo, são fruto da liberdade de expressão do autor.
Fotos de José Morgas, de Espadaxa, in br.olhares.com; meupais.free.fr/trajes e de Facebook de AJP. Com vénia.




segunda-feira, julho 12, 2010

Na minha Aldeia



Pois!
Um Guia Turístico de Aldeia. Um convívio transfronteiriço! Uma piscina flutuante, na barragem da Meimoa. Um pouco longe de nós, mas nada é de mais para que o nosso Interior se desenvolva e anime.
Ver mais em

quarta-feira, junho 16, 2010

Baile na Aldeia 2

Primeiro duas, depois três e quatro e cinco, as raparigas corriam as ruas da Aldeia, de braço dado, desafiando-se para “Vem connosco até à Fonte”. Roupas catitas, limpas e garridas, cheirando a sabão e a lavado na água da Ribeira, meias bordadas à mão, moldando pernas bem feitas, lenços floridos atados atrás das nucas onde se adivinhavam tranças bem penteadas e apanhadas com ganchos, soltavam exclamações e risadas, num vozear alegre e feliz que enchia as nossas ruas, como o fumo tomara conta delas nas longas e frias noites de Inverno. Mas agora ali estava a Primavera, em todo o seu esplendor. Lindas. Às dúzias! Nem as casadas escapavam a esta euforia que havia de durar a tarde inteira, lá na estrada alcatroada. "Tenho de acadajar o Garoto!" - lamuriava-se uma jovem mãe, o corpo a pedir festa. "A Avó toma conta dele!"...
Na verdade, do Bairro da Mocidade, do Cimo da Aldeia, de S. Miguel, do Ferrador, do Centro … elas e eles iam chegando. A primeira roda formava-se quase a medo, só raparigas. De mãos dada lá começava uma a dar o tom e o mote:
- Raparigas cantai todas,
Rapazes cantai com elas;
Que não haja um dizer
Nem nos rapazes nem nelas.
Os rapazes, sempre mais acanhados e “brutos, iam-se entusiasmando. Batiam nas mão delas para que abrissem a roda e “deixa-me entrar”. E outro. E outro. Depois … ainda não havia casamentos “homossensuais”. Mesmo que fosse preciso dançar em pares de duas... tudo era consentido. Sem meias nem dúbias intenções nem comentários descabidos, numa sociedade que vivia quase em estado de Inocência. Pares de dois é que não. Aqui o preconceito era bem forte. Ou apenas a tradição.
Formavam-se pares de mais ou menos “interessados”, uns com vista “ao futuro”, a maior parte para aquele momento. O presente. O canto, afinado desde o nascimento de cada um pelos acordes da Banda, era ali posto à prova. E que boas provas dava. Batiam-se palmas, estalavam-se os dedos, agitavam-se e davam-se braços, passava-se de mão em mão, ou de par em par, num rodopio estonteante de corpos viçosos, cheios de vida.
- Castelo Branco é vila,
Penamacor é cidade,
Aldeia barquinho d’ouro,
Onde embarca a mocidade.
Ou
- Lá vem aurora, lá vem, lá vem….
De madrugada, que graça tem;
Lá vem aurora, lá vem lá vinha,
De madrugada que graça tinha.
Ainda aquela roda não aquecera e já, ao lado, outra se formara. Que não queria ficar atrás. E trouxera “artilharia”. Dois adufes tocados por mãos ligeiras e que punham o grupo num vendaval de movimento, cor e som. Aquele dançar “a direitos” ao som ritmado de um tam-tam, que só voltei a ouvir em África, punha os corpos suados e excitados, balançando para cá e para lá,
- Aldeia de João Pires,
Ai! Ricotão, ricotão… tão ...tão…
Lindo cantinho da Beira
Ó ai! Ó ai! Ai! Ricotão.. tão… tão … ó ai ricotão!
De entre as terras do Concelho
Ai! Ricotão, ricotão… tão ..tão
É de todas a primeira.
Ó ai! Ó ai! Ai! Ricotão.. tão… tão … ó ai ricotão!
Ou ainda outra:
- Pum-pum ao redol,
meu bem como o sol…
Canta o pintassilgo,
mais o rouxinol.

Aquela quadra, das mais ouvidas, servia de refrão a um grande número das cantigas de roda…
- Aldeia de João Pires,
Lindo cantinho da Beira,
De entre as terras do Concelho,
É de todas a primeira.

Quando chegava o Tó do Realejo, uma nova roda se punha a girar. Das de “agarrar”. Como a “malta” preferia. Avós e mães à espreita. Quando não os pais. Aos “avanços” de algum mais “atrevido” lá se fincava o cotovelo direito da rapariga no peito do moço, que ela não “era de brincadeiras”. “Divertir sim, gozar não”. Depois era como se fosse o último baile da vida daquela gente que sentia que o corpo não era para descansar. E nem só de sacho e enxada, de charrua ou de arado se vivia na Aldeia.
E se viesse o Zé do Pífaro haveria ainda uma nova roda. Um novo baile, por onde homens e mulheres, casados e solteiros, rapazes e raparigas, garotos (que, sempre travessos, preferiam dar uma palmada ou um beliscão…) e garotas entravam, num corrupio de cantares e dançares, a fazer esquecer as agruras de uma semana que tão próxima ainda estava e de outra que já tão depressa se achegava.
- Alecrim, alecrim aos molhos….
Por causa de ti choram os meus olhos…
Ai meu amor quem te disse a ti
Que a flor do campo era o alecrim.

Lá muito de longe em longe passava um automóvel e o(s) baile(s) não parava(m). A música continuava, arredavam-se os dançarinos para a berma da estrada, os passantes arregalavam os olhos de espanto e… sorriam. Quem sabe se com vontade de também entrar na roda.
Ainda outra:
- Onde vai com seu sapatinho, olaré!
Onde vai com seu lindo pé!
Mata aranha, serranita,
Mata aranha, se tu és bonita!
Mata aranha, olaré,
Mata aranha com seu lindo pé!!!

- Ó Tio Fernando, cheguei a contar quatro bailes naquele espaço de quase 200 metros de alcatrão…
- Olha, sobrinho, e eu cheguei a ver e a dançar, ali, NUM só baile, a ocupar todo aquele espaço, embora nem todos cantassem e dançassem a mesma música… - respondeu-me o meu Tio, já este ano, nos seus 85 anos, uma das memórias vivas da nossa Terra, com um sorriso de saudade. E se ele tinha pé para a festa!
- Olha a triste viuvinha
Que anda na roda a chorar!
É bem feita, é bem feita,
Não acha com quem casar .

ou
- Viva o nosso ranchinho,
Viva e torna a viver,
Um ranchinho com’ó nosso,
Não o há nem pode haver.

E mais:
Eu pensava que a margaça.
Era nome de mulher;
A margaça é má erva,
Nem os animais a quer(em)

Ainda:
Maria da Conceição,
Ó que palavra tão doce,
Dava-te o meu coração,
Se o teu ao meu fiel fosse.

Muitos destes cantares acompanhavam os trabalhos do campo e tinham épocas próprias, coreografias adaptadas, sem grandes diferenças de localidade para localidade. Os mesmos cantares, adequadas as danças, ouviam-se pelas aldeias, em redor.
- O senhor do meio julga que é alguém…
É um macaquinho que nem barba tem…
- Valverde, Valverde, Valverde ladrão,
Rouba agora a moça que é a ocasião.
- Já cá vai roubada, já cá vai na mão,
Já cá vai metida em meu coração…
A camioneta da carreira, que marcava o aproximar das sete e meia, nem sempre dava sinal de que a festa ia acabar. No entanto, cada um dos membros desta fantástica comunidade sabia que o “vimos da festa” se aproximava, a passos largos. Melhor era voltar para casa. As “Avé-Marias” haviam tocado – um “invejoso” que não sabia dançar até o fizera “mais cedo” – o baile parara para todos rezarem, uns de verdade, outros nem por isso – e dali p’ra frente já não seria a mesma coisa. Até porque “os amigos do copo”, para quem a “festa” fora outra, nas tabernas ali à volta, começavam a dar “sinais” de si, geralmente de “má catadura” ou "com mau vinho", e melhor era ir cada um à sua vida. Coitadas das mulheres e dos filhos que haviam de os aturar.
Quanto sofrimento o “maldito vinho” causou, entre nós… Pois, nem sempre os filmes acabam bem para todos.
Cantigas e saudades? Muitas... Impossível deixá-las aqui todas.
Então… e o instrumento dos instrumentos de baile, a concertina não havia?
Ah! Era preciso pagar e não podia ser todas as semanas. E então a nossa Banda não punha o Povo a dançar? Oh! Se punha!!!
Veremos em episódios a seguir…
2 fotos por especial deferência de João Paulo Fidalgo.

Baile na Aldeia 1

Aquele mês de Maio de meados da década de 50 do século XX estava a ser igual a tantos outros. Tudo o que era campo havia sido cultivado ou, em período de pousio, ocupado por rebanhos e rebanhos de ovelhas e cabras, em demanda da pouca pastagem que ainda por lá havia.
A Escola, com duas enormes salas, era insuficiente para acolher todas as Crianças da terra, que apenas poderiam começar a frequentá-la com sete anos completos no dia em que as aulas reabriam, a 7 de Outubro. Dois professores para cerca de uma centena de alunos nem era tarefa que se desejasse. Um bom número acabava por desistir e a percentagem de “chumbos” andava acima dos 30%. Não era raro ver, na Vila, rapazotes "a mudar a voz" e a fazer exame da 4ª. Classe, a caminho dos … 14 anos.
Nos campos não faltava que fazer, muito poucos trabalhando o seu próprio bocado, grande parte vivendo dos arrendamentos, e os restantes como jornaleiros das casas maiores ou dos rendeiros, numa exploração, até hoje não interrompida, do homem pelo homem.
As searas haviam deixado de “correr” pelos campos, no mês de Abril, empurradas pelos ventos suaves assemelhando-se a um mar verde a querer fugir para o terreno do vizinho e começavam a tomar o aspecto dourado, a indicar que o mês do S. João chegaria breve. Aqui e além, nos poucos trigais que se semeavam na nossa terra, um pouco mais atrasados que os centeios, as mondadeiras haviam-se esforçado por arrancar as ervas ruins, tentando que a colheita valesse a pena, enquanto entoaram os seus cantos tristes e dolentes. Agora, os milhos, semeados nos fins de Março e primeiros dias de Abril, verdejavam os campos, os mais atrasados numa primeira volta para a sacha e os mais adiantados já em fase de “aterrar” para que as raízes adventícias encontrassem o alimento que podiam dar algum sentido aquele trabalho, feito de “terças”, num esforço quase sempre ingrato e de retorno mais que incerto. Mesmo assim, aqui e ali se ia ouvindo, arrancado lá bem do fundo da alma, para que tão penoso trabalho menos penoso se tornasse, o canto de quem daquele penoso viver se não podia libertar:
- Mondadeiras do meu milho,
Mondai o meu milho bem.
Não olheis para o caminho,
Que a merenda já lá vem.
Aqui e além, nos sítios mais frescos e húmidos, pois rega não haveria, os ganhões e as suas juntas de vacas, sob a canga e puxando a charrua e a grade, iam semeando aqueles terrenos com alguma garantia de que o feijão pequeno mataria muita fome, no duro Inverno, que haveria de chegar, andasse por onde andasse. Ao longo da Ribeira e em volta dos poços que a ladeavam, pois o “sangue” daquelas terras passava muito por ali, apareciam as hortas a merecer todo o cuidado para que as alfaces, o feijão catarino e o feijão manteiga, os tomateiros, os pimenteiros, os alhos, as cebolas, as melancias, os melões e as abóboras pudessem compensar, de algum modo, o esforço que de todos era exigido. De todos mesmo, velhos e novos, homens e mulheres, quase desde o nascer ao pôr-do-sol, de segunda a sábado, com a reconfortante sesta, na hora do maior calor, ali à sombra de uma oliveira ou de um sobreiro. Quase sempre... no chão.
As hortas eram regadas de manhã ou à tardinha, os feijoeiros e tomateiros encanados, a água tirada “à burra”, raro sendo ouvir-se uma nora no seu t'lem-t'lem, puxada por mansa jumenta, a percorrer quilómetros e quilómetros, de olhos tapados com um velho casaco, ao engano, sem sair do mesmo sítio.
Os batatais ocupavam uma parte significativa do terreno de regadio. Leiras e leirões. De vez em quando, o “mal-murcho”, hoje o bem conhecido míldio, fazia das suas e lá se podia “ir ao ar” o esforço de uma época, começando-se a ter o saber de que o cobre e a cal podiam alcançar efeitos benéficos na “cura” de tão nefasto azar. Também nas belas e viçosas vinhas, que alegravam os nossos campos, à volta das quais apareciam, na época, frondosos castanheiros. Pela primeira vez, com importação da batata de semente lá das Américas, se viram batatais destruídos pelo "escaravelho da batata" a que se acudiu com o famigerado DDT, o primeiro grande atentado ecológico a vitimar os nossos campos e as nossas culturas.
O Sol escorria para detrás da Serra para as Águas, quando uma parte da população regressava ao Povoado para uma ceia frugal e um descanso merecido e necessário. Havia quem ficasse a dormir lá pelos campos, em choças e cabanas, condições bem precárias, para um melhor aproveitamento do tempo, podendo até trabalhar-se à luz da… Lua ou logo de manhã, bem cedo, pela fresca. Mas, na Aldeia, os homens, acomodados os animais, passavam pelas tabernas e os rapazes aproveitavam para umas voltas pelas ruas, provocando aqui e ali o sossego dos mais pacatos, nada que não estivesse bem dentro dos limites de um respeito que não tinha discussão: o direito de cada um descansar, em paz. As mulheres, as crianças e as jovens não tinham grande hipótese de andar fora de casa, a não ser até ao lusco-fusco para irem buscar água à fonte, passarem pela casa dos avós, ou fazerem uma compra tardia, numa das "lojas", às escondidas da Guarda.
Durante a tarde de cada dia, quase todas as Crianças, ao saírem
da Escola, se haviam dirigido aos locais de trabalho dos pais para ajudarem na guarda dos animais que pastavam, encaminharem a água nas regas, entreterem os mais pequeninos… ou nem que fosse para estarem “debaixo de olho”. Não era tempo para facilidades. Não havia drogados e os fumadores eram poucos. Quase nunca jovens. Gentes desta Aldeia na cadeia seria uma raridade e a Autoridade dos pais era aceite, quase sem discussão, para bem de miúdos e graúdos.
De segunda a sábado o tempo sucedia-se monótono, sempre igual, apenas aliviado na esperança do desejado domingo, bem diferente, o sétimo dia, aquele em que até Deus precisara de descansar.
À “última” para a Missa dominical, pelas 10 horas, como que regatos de água a confluírem para o lago, a população da Aldeia encaminhava-se para o adro da igreja, mulheres com blusa e saia de “ver a Deus”, lenço na cabeça e xaile pelos ombros e homens, barba feita, camisa e calças lavadas, casaco e chapéu, mesmo que o calor já se fizesse anunciar... A celebração não tinha aquele rigoroso cumprimento de horário dos nossos dias e começaria quando o velho padre José Maria chegasse. Vindo de Aldeia do Bispo, no seu manso e também velho cavalo.
À volta do templo, formavam-se grupos discutindo …. gados, sementeiras, hortas, pastos, searas, ajustavam-se negócios, combinavam-se trabalhos. Muitas das actividades eram feitas em acordos de “toma lá dá cá” ou “eu vou p’ra ti e tu vais p’ra mim”. A “moeda” que mais circulava era a força daqueles corpos secos e musculados, mãos calejadas, sempre prontas para mais um esforço.
Quando o sacerdote se preparava para subir ao altar, o sacristão dava um último toque de campainha para que os homens entrassem, uma vez que as mulheres já se haviam acomodado o melhor possível, apertadas e sentadas no chão, desfiando as contas do rosário. A celebração, em Latim, padre de costas para o Povo, que enchia o então pequeno templo, dava azo a que mais rosários fossem desfiados e a que os homens, lá no coro alto, fossem "passando pelas brasas" e só a homilia, o “sermão”, era ouvido e entendido com o agrado de alguns e o desagrado de muitos, pois “o padre está sempre a meter o nariz onde não é chamado…”
O jantar de pobres, pelo meio-dia, não era tão pobre como no resto da semana. A Família juntava-se à volta da mesa, se fosse caso de a haver disponível, normalmente na cozinha, acontecendo, nalguns lares, comerem todos da mesma vasilha, que podia ser um grande alguidar de barro. E era dia do feijão grande, do grão, uma talhada de farinheira ou de chouriça, um bocado de toucinho. Às vezes só um sabor a cebola sobre a pratada de feijão pequeno, azeite a fugir e umas azeitonas. Ou nem isso. Dizer “não gosto”, “não quero” ou “não me apetece” causaria tanta admiração como ouvir-se, hoje, “não gosto de gelado”, “não brinco com a consola” ou "não quero o telemóvel". À uma hora, a refeição estava despachada, muito mais vezes por defeito do que por virtude.
Fotos in Infiernitum.com e em http://www.geocaching.com/, by Diogo112, com especial pedido de deferência.
 

terça-feira, junho 01, 2010

Saldanha Sanches, um Homem, ou o Amor vence a Morte!

Despedida eterna
Zé Luís:
Começámos esta tua última viagem (tu gostavas de viagens) na cama 56 dos serviços de cirurgia 1 do Hospital de Santa Maria.
Lia-te poesia e um dia parámos neste poema da Sophia de Mello Breyner:
”Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A Força dos teus sonhos é tão forte,
Que tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias”.
Assim foi.
No teu visionário e intenso mundo, a voracidade de um cancro traiçoeiro não te consumiu a alegria, a coragem, a liberdade.Entraste pela morte dentro de olhos abertos. O mundo que habitavas era rico de ideias, de sonhos, de projectos, de honradez e carinho.Percebemos o que ia acontecer quando no fundo do teu olhar sorridente brilhava uma estrela de tristeza. Quando te deixava ao fim do dia na cama 56 e te trazia no coração enquanto descia a Alameda da Cidade Universitária a respirar o teu ar da Universidade, das aulas e dos alunos que adoravas, do futuro em que acreditavas sempre.Foste intolerável com a corrupção, com os cobardes e oportunistas. Não suportavas facilidades. Resististe à sordidez, à subserviência, à canalhice disfarçada de respeitabilidade e morreste como sempre viveste - livre.Uma palavra para aqueles que te acompanharam nesta última viagem: para os melhores médicos do mundo, para as melhores equipas de enfermagem e de apoio, num exemplo de inexcedível dedicação ao serviço médico público. Vivi com emoção diária o carinho com que te cuidaram.Uma palavra de gratidão sentida para o Professor Luis Costa e Paulo Costa. E para um velho amigo de sempre o Miguel. Também para Laura e para o Jorge e para a minha mãe e toda a família que nunca te deixou.Por fim uma palavra para aqueles amigos que inventaram uma barricada contra a morte no serviço de cirurgia 1, cama 56, e te ajudaram a escrever, a pensar, a continuar a trabalhar: o João Gama, o João Pereira e senhor Albuquerque, cada um à sua maneira.Suspiraste nos meus braços pela última vez cerca da 1,15 da madrugada do dia 14 de Maio.Vai faltar-me a tua mão a agarrar na minha enquanto passeávamos e conversávamos.Provavelmente uma saudade ridícula, perante a força do exemplo e da obra que nos deixaste e me foi trazido por todos aqueles que te homenagearam – a quem deixo a tua eterna gratidão.Tenham a coragem de continuar.
[16.05.2010 - Maria José Morgado]
A um Homem que muito admiro, pois da "lei da morte" se libertou!

terça-feira, maio 25, 2010

Ir e voltar...

A viagem decorrera com tranquilidade, céu limpo, muito azul, lá em cima, as nuvens abaixo de nós deixando aqui e além ver pedaços dessa Europa mergulhada em crise. À aproximação do nosso destino, parecia que um mar de algodão em rama tomara conta do espaço, causando alguma tensão o penetrar da enorme aeronave naquela espuma que nos “cega” e deixa atarantados. Depois, furado o “tecto”, já o Reno nos mostra os seus meandros, misturando-se, nas suas margens, o casario bem ordenado, os campos bem tratados e o verde a cobrir quase toda a terra. Uma paisagem deslumbrante, à volta da deslumbrante cidade de Colónia.
Sabíamos que estariam lá os três,
filhos e neto, na saída, à nossa espera. Se a recepção dos mais velhos não traria novidade, generosa e pronta, o encontro com o pequeno Tomás deixava-nos alguma apreensão. Afinal, o mês de Agosto já passara. Há muito. E, esta idade, nove meses são "muita fruta".
Mas, pronto, estava jogada a sorte. Não apenas sorte, pois os contactos, via internet, haviam de dar uma ajuda. Afinal, não éramos tão desconhecidos assim, o Skype vai tornando as distância menores.
Escarrapachado no pescoço do Pai, o nosso Neto destacava-se naquele mar de gente, tão habitual nas salas de espera dos grandes aeroportos. Vimo-lo, mal entrámos no corredor de saída. Agitação dos adultos, de ambos os lados. E ele a olhar-nos, a estudar-nos, a fixar-nos. Depois… foi o milagre que só o Amor pode fazer: abraços, beijos, pegar ao colo, exclamações de alegria, como se naquela sala não houvesse mais ninguém.
Foram perto de 40 kms até ao destino, a casa dos nossos filhos. A chegada deu-se sem sobressaltos, mais campos verdes, searas a perder de vista, no meio de outras culturas. Estes Alemães não brincam em serviço. Trabalham mesmo. Assim, ver aqueles terrenos tão férteis e tão bem tratados encheram a minha alma de nostalgia. Esta veia de camponês durará enquanto tiver entendimento.
Não conhecíamos esta casa, um salto em frente dos nossos Filhos, para a grande aventura de terem casa própria. Deu para perceber, logo nas primeiras horas,
que a decisão fora bem meditada e a escolha acertada. Nos dias seguintes, com o jardim virado a Sul e com tudo o que fomos observando, quase desejámos morar também ali. Numa Aldeia alemã, tão diferente e tão parecida com as nossas aldeias. Diferente porque cheia de vida, as casas habitadas, muitas Crianças, gente que mexe e que vive, ruas planas e limpas, viaturas arrumadas, casas ajardinadas, não há campos ao abandono. Parecidas porque as pessoas são corteses, há boas relações de vizinhança, o sossego é total, sente-se a "proximidade" e até na torre da igreja os sinos vão anunciando as horas e as meias-horas e convidando à oração e à meditação, de manhã, ao meio-dia e à tarde. Fiquei impressionado com esta constatação, bem no coração da rica e laboriosa Alemanha.
O que pareceria ser uma semana normal, acabou por não acontecer. Cada dia passava mais depressa que o anterior, o envolvimento com o nosso Tomás era cada vez mais profundo e conhecê-lo, melhor, voltar a conhecê-lo foi uma experiência sempre maravilhosa, sempre renovada. Apesar de haver mais cinco Netos, cada um deles é diferente e tem espaço próprio no coração dos Avós. Nenhum substitui os outros.
Para além das refeições, a convivência era quase constante, com intervalos para dormir. Passear por estradas magníficas, visitar jardins tão bem tratados, rever as enormes searas de cevada, ajudar um pouco na reinstalação na nova moradia. E cantar ao Tomás, brincar com o Tomás, ouvir as gargalhadas do Tomás. Sempre meigo. Bem disposto. Amigo.
Os dias começaram a ficar cada vez mais curtos e a hora da despedida galopava ao nosso encontro.
Voltar ao aeroporto foi mais dever que prazer. A própria Criança sentiu isso, no abraço final, quando se “agarrou” aos Avós. Não sabemos porquê, mas ele “percebeu” que aquele adeus era diferente… Quem nunca teve de se despedir daqueles a quem quer Bem?
Todos gostamos de voltar a “nossa casa”.
A pequenina Leonor, que o Tomás ainda não conhece, estava a esperar os Avós. A sorte de ter muitos netos! Também ela não queria acreditar que os voltava a ver e passava-nos as mãozinhas pela cara para ter a certeza de que não era ilusão.
Um dia, o Tomás e a Leonor vão brincar juntos. Sob o nosso olhar! Terei de pôr-me de joelhos e exclamar:
- Obrigado, Senhor!


segunda-feira, maio 17, 2010

A merenda - 2

Todo o rebanho se encontrava à sombra das oliveiras, as cabras deitadas na terra nua e as ovelhas, de pé, focinho rente ao chão. O sol brilhante enchia o espaço e o calor abrasava. O ar “tremia” em "deslocações" contínuas. Um coelho, passou, lesto, a caminho da represa para se dessedentar. Lá bem no alto, como que a flutuar, um casal de cotovias tentava fugir do calor que a terra reflectia. Abrigado, com o bando, ali ao lado, numa moita de giestas, um perdigão dava sinais de si com o seu cantar tão conhecido das pessoas de campo. A cigarra não largava a sua cantiga, parecendo bem satisfeita com o Verão que culminava. Aqui e além, um ou outro piar das aves que se abrigavam nas sombras das figueiras e nos silvados. Nada que se comparasse com a festa da manhã…
Os garotos não deram grande importância à bolsa vazia e à merenda comida. Como o Pai lhes recomendara, a sua sombra estava bem pequena e devia ser meio-dia, pelo que o fim da tarde havia de chegar bem depressa. Então não ouviam a Avó Emília dizer-lhe que “quem não come por ter comido não tem mal de perigo”?!
Ora brincando, ora sentados nas pedras que os pastores usavam para descansar, mais inquietos que sossegados, idades próximas, raramente estavam separados e o entendimento era quase perfeito. Haviam bebido água nas fontes por onde foram passando e ali mesmo a 50 metros estava uma delas. Com o coucho, por onde todos bebiam. Um enxaguar rápido com a água fresca e cristalina e estava pronto para outro….
De vez em quando, um ou outro bando de pássaros procurava abrigo naquelas árvores, mas o “arraial” instalado depressa os fazia desandar.
As brincadeiras foram esmorecendo e até podiam aproveitar para dormir um pouco. Como lhes dissera o Pai. Lá estava a cama de fetos e restolho para ser aproveitada. Mas uma crescente inquietação começava a perturbar o dia que até nem correra mal. Ouve-se a voz do mais novo:
- Mano, tenho fome….
- Olha, a merenda acabou-se. E já falta pouco para voltarmos…
A sombra, nesse dia, nunca mais começava a crescer. Medida mais do que uma vez, mas sempre do mesmo tamanho.
- Olha lá. Também tenho fome. Se quiseres ficas com o gado e eu vou buscar de comer. - sugeriu o mais velho.
- Não posso ir eu?!
- Não que podes perder-te. Não sabes o caminho…
A fome foi o elemento decisivo para que ambos se pusessem de acordo. O mais velho ficava e o mais novo teria de percorrer, Sol a pino, em dois sentidos, o caminho que os separava da almejada refeição.
Estavam a começar a jantar, quando o Pai exclamou:
- Ó Carminda, há qualquer coisa que não corre bem. Os gaiatos separaram-se e um deles vem p’ra cá…
Do outeiro onde a casa de campo fora construída avistava-se uma área enorme e a quebra do padrão definido para aquele dia não lhe escapara. A ansiedade tomara lugar à mesa e uma eternidade se foi passando.
O gaiato, pé ligeiro, sem estar confinado ao caminho que o rebanho tinha de seguir, foi “a direito”, tanto se servindo das veredas tão típicas das nossas terras como, se fosse necessário, prosseguindo, a corta mato, por restolhos e olivais.
Ainda os adultos se interrogavam sobre o que teria acontecido e já o pequeno, rosto vermelho, "queimado" por aquela “solina” de Julho, todo suado, pulava o muro da Tapada, passando ao fundo do valado, pela figueira “preta”, rente à eira e ali estava ele, a “deitar os bofes pela boca”, impedido de responder à Mãe que, desde que o sentira próximo, não se cansava de perguntar:
- Ó filho, o que é que aconteceu???!!!
O gaiato atingira a meta. A tão grande ansiedade, apenas conseguiu responder:
- Venho buscar mais merenda!!! Estamos cheios de fome...
Primeiro sentiu-se o espanto – afinal, os garotos “nunca” tinham fome… - depois ouviu-se uma gargalhada geral, à mistura com abraços e beijos. Era só isso?! Que alívio, uff!
Dadas as explicações, era preciso voltar. Não sem que a criança "tratasse" da sua própria fome, enquanto a Mãe preparava nova remessa.
Saca aviada, aí volta ele para junto do irmão. Que, lá de longe, quase seguira, passo a passo, a caminhada do seu companheiro de trabalho: ansioso, quando desaparecia nas “baixas” ou no meio do arvoredo, aliviado quando o via reaparecer.
Não lhe escapara a chegada do mensageiro junto dos Pais e, com enorme alívio, o viu partir em sua direcção. Depois, era uma questão de esperar. Uma espera maior do que pensou, quando o irmão iniciara a sua missão.
O tempo cura tudo. Ou quase. O miúdo tinha o pé ligeiro e ali estava ele. Não resistiram a correr um para o outro. A partilha foi fraterna. Na verdade, afinal, tinham menos fome do que haviam pensado.
Satisfeitos, mais um gole de água, o Sol a cair para o lado das Águas e toca a empurrar as ovelhas e as cabras. Para completarem a volta ao pasto.
A passarada voltava a dar sinais de vida, aqui e ali ouviam-se chocalhos e campainhas de outros rebanhos. Às vezes, o assobio dos pastores, ou o ladrar furioso da canzoada. Que não havia maneira de se entender.
De vez em quando, mais um coelho saltava, assustado, desaparecendo, rapidamente, em zigezages estonteantes. Agora, as cotovias estavam mais à vontade e aqui e ali iam debicando. E cantando.
A tarde caiu vagarosamente. Sempre quente. Os miúdos matavam a sede nas fontes e os animais iam beber nas charcas. Depois, sempre avançando, sempre pastando.
Fez-se o mesmo caminho, no inverso, para o regresso. Não iam sós. Mais à frente, o Manel com os animais do Ti Bernardo e atrás, o Rui, com os do Ti Candeias. Na horta do Ti Joaquim, carregavam-se sacos de batatas para cima de uma burra e a Avó paterna regava a horta, ajudada pela filha mais nova.
- Olá, Avó! Olá Tia!
- Então hoje foi a vossa vez?
A ribeira fora atravessada no “pontão” e o destino estava ali, a dez minutos.
A poeirada era mais que muita. Pressentindo o fim da jornada, os animais aceleraram. Já a sombra dos eucaliptos e das sobreiras se estendia pelos campos, quando receberam os aplausos dos adultos que atavam os sacos e os colocavam sobre o carro de vacas que os havia de pôr a recato para matarem a fome num ano longo que ali começava.

sábado, maio 15, 2010

Adeus, Prima Otília!


Neste momento faz a sua última viagem até à nossa Aldeia. Para ficar lá, onde estão também muitos dos que lhe quiseram bem. A quem quis bem! Acabou o sofrimento. Descanse em Paz, minha grande e querida Amiga. Por todo o bem que me fez, que nos fez aqui lhe deixo o meu sentido agradecimento, já com muitas saudades. Descanse em Paz, querida Prima Otília.
Conheci-a desde que me comecei a conhecer. Mais que Prima era a irmã que a minha Mãe não teve. E, assim, o carinho por nós foi crescendo, com toda a naturalidade. Foi a Madrinha do meu irmão e, para completar, assumiu-se também como "madrinha" da minha irmã. Lembro sempre o seu sorriso doce e sereno, ao encontrar-se comigo, ao encontrar-se connosco. O tempo foi passando, o casamento chegou e também o Marido, o Domingos, que a Morte levou cedo de mais, nos "adoptou". O nascimento da Gabi enriqueceu-os, mas a Amizade e o Carinho por nós nunca esmoreceu. Aumentou mesmo. Corações grandes, abertos, acolhedores!
Já na tropa, de passagem pela Trafaria, era a sua casa que me abrigava, na passagem por Lisboa. Ali, na Ajuda. Sempre generosos e bons.
Devo recordar que, em 27 de Maio de 1966, no Cais de Santa Apolónia, a caminho do Ultramar, no NM "Niassa", a Prima Otília ali estava, sozinha, em representação de TODA a Família, a dizer-me um "até daqui a 2 anos".
Foi ainda a sua casa que se abriu para acolher a minha filha, no princípio da sua vida universitária. Ainda hoje guarda de si também a mais doce lembrança.
As vicissitudes da vida quiseram que não estivéssemos tão perto quanto a minha gratidão e amizade impunham. No entanto, recordarei que a tivemos nesta casa ainda não há um ano. Sei que lhe foi difícil a deslocação, mas a generosidade foi mais forte. Com ajuda da Gabi e do João. Que tanto lhe quiseram. Vou partilhar a saudade com eles. E com as suas netas. E com tantos dos que ainda cá estão e lhe quiseram bem. A quem quis bem!
Foto com alguns dos Irmãos, pessoas de quem gosto muito, e da casa onde nasceu e cresceu, colocadas pelo sobrinho João Paulo, in Facebook.

quinta-feira, maio 13, 2010

O Homem Vestido de Branco

De facto, eu penso que "não é justo" que Deus peça a um Homem de 83 anos que transporte o fardo pesado fardo de "chefiar" a Igreja Católica em tempos tão conturbados, para os quais a Mensagem de Fátima nos vem preparando, desde há quase 100 anos e Jesus Cristo, desde há 2000 anos, quando nos convidou "...pega a tua cruz e segue-Me".
O nosso Papa, Bento XVI, um Homem de estudo e de reflexão, dado à espiritualidade e à contemplação, estou convencido de que desejaria não ter sido "o Escolhido". Mas foi e aceitou. Com todas as consequências, a menor das quais não será o escândalo do abuso de Crianças por sacerdotes da nossa Igreja e com que o comunicação social tem feito um enorme alarido, tomando a parte pelo todo, visto que só apontou canhões à "ponta do iceberg". Julgo que ninguém tem os olhos fechados a ponto de ignorar que o resto do iceberg é medonho e a sociedade continua a assobiar para o ar.
Como pai, como avô, como profissional da educação interrogo-me, sempre com angústia, como é possível contaminar seres tão puros e inocentes, as Crianças que, num verdadeiro Acto de Fé se entregam àqueles que se julgam dignos de tomar conta delas: os pais, os avós, os professores, os padres e qualquer outro responsável que disso seja encarregado por função do ofício que desempenhe. Abusar, de qualquer modo, de uma Criança, é crime abominável que deve ser punido à luz das leis humanas e divinas. Por determinação do próprio Jesus - "ai daquele que escandalizar um destes pequeninos; mais lhe valera que lhe pusessem uma pedra de moinho ao pescoço e o lançassem no fundo do mar" - os clérigos que cometeram tamanho pecado hão-de ser, por isso, castigados. Aqui e na outra vida. Bento XVI há-de ter mão forte e misericordiosa, pois Deus abomina o pecado e ama o pecador e, desta crise, a Igreja há-de ressurgir purificada, mais forte e dinâmica. Como ele afirmou em frase notável, os verdadeiros inimigos da Igreja estão dentro e não fora dela.
A respeito da visita devo escrever que ultrapassou todas as minhas expectativas: homilias serenas e consistentes, nada apontando para "facilidades", um homem sorridente e afável, nunca dando sinais de enfado, mesmo na sua velhice e cansaço mais que justificado. Os debitadores de idéias e preconceitos "à la carte", sem conhecerem o Homem nem a Obra "a meterem a viola no saco", de certeza enraivecidos, porque o Povo não lhes fez a vontade e saíu à rua com Entusiasmo e Alegria.
Obrigado, Santo Padre por ter querido estar connosco. Igreja Portuguesa, que sejas digna de tamanho privilégio!
Nota: Já depois de ter escrito o meu despretensioso comentário, com satisfação transcrevo do "Expresso" de 15-05-2010, da autoria de Fernando Madrinha:
"O Papa que não sorria
Este era o Papa que, segundo os seus críticos, não condenava os casos de pedofilia na Igreja Católica com a clareza necessária, apesar de já o ter feito repetidas vezes. Na viagem para Lisboa, afirmou 'O sofrimento da Igreja vem do interior da Igreja, dos pecados que existem na Igreja'. Mais 'O perdão não exclui a Justiça'. Isto para quem ainda tivesse dúvidas, ou estivesse para as inventar, sobre o modo como Bento XVI entende que devem ser tratadas as 'ervas daninhas' da sua Igreja. Este era o Papa retrógrado e fundamentalista, supostamente intolerante para com as outras religiões e os que não têm religião alguma. No Centro Cultural de Belém, disse; 'A convivência da Igreja com as outras 'verdades' e com a 'verdade' dos outros é uma aprendizagem que a própria Igreja está a fazer'. Este era o Papa enquistado na sua fé, conservador, passadista e, portanto, incapaz de promover o diálogo inter-religioso e de fomentar o ecumenismo. Afirmou, a propósito; 'O diálogo, sem ambiguidades e assente no respeito entre as partes envolvidas, é hoje uma prioridade no mundo, à qual a Igreja não se subtrai.' E ainda sobre a diversidade cultural e a relação entre culturas. 'É preciso fazer com que as pessoas não só aceitem a existência da cultura do outro, mas aspirem a enriquecer-se com ela.'
São exemplos de como, nestes dias da visita a Portugal, Bento XVI passou o tempo a desmentir os mitos, as falsidades e os juízos errados que muitos críticos encartados põem a correr sobre ele e sobre o seu pensamento.
Este era também o Papa que não sorria, incapaz de um gesto afectuoso e de estabelecer empatias com as audiências. Mas vimos como se dirigiu aos jovens na Nunciatura e como eles lhe responderam, vimos como as multidões o receberam no belíssimo palco do Terreiro do Paço, no impressionante cenário de Fátima e na Avenida dos Aliados, ou como o aplaudiram no Centro Cultural de Belém. Compreende-se que tudo isto irrite os que detestam o Papa e o que ele representa. Mas enquanto não lhes for possível o Povo, esse empecilho que trava o passo na política e nos seus esforços para derrubarem os Valores que a Igreja defende - muitas vezes de modo incoerente, é certo, e não raro contraditório com a prática de alguns dos seus membros - têm que ter paciência. Eles, que são criaturas perfeitas e exigem uma Igreja perfeita, embora só esta que combatem assanhadamente e não outras bem menos tolerantes, o que têm a fazer é meter a viola no saco."
Também Henrique Monteiro, na sua coluna de opinião, no mesmo Semanário, nos dá uma idéia dos preconceitos e das "frases feitas" que servem para atacar Bento XVI...