A Trovoada

Para as sementeiras… no Outono, logo se veria...
As terras dos milheirais, sachados e aterrados e as do feijão pequeno suspiravam por água como de pão ansiavam as bocas dos pobres. Dias e dias de calor intenso e nem uma nuvem que escondesse aquele sol abrasador, que aliviasse aquele ar quente que ardia as gargantas e secava os pulmões, respiração ofegante.
Pelas festas de S. João e de S. Pedro, alguns orvalhos e umas poucas chuvas ainda trouxeram um alento àquela vida que brotava da terra, mas nada que pudesse garantir colheita capaz de “tirar a barriga de misérias”.
Também a Padroeira, Santa Maria Madalena, era amiguinha de trazer aquela chuva bem chovida por que todos suspiravam. Mas haviam passado e nada… e os renovos, vergados ao peso daquele calor tão intenso, definhavam.
Ao jantar, comera-se da farta sopa camponesa, do pão e do queijo, à sombra dos eucaliptos, lá no alto do pequeno outeiro, declives suaves, a dar para a Ribeira. Uma soberba paisagem enchia os olhos e acalmava a alma. Monsanto, Aranhas, Salvador, Medelim ali em volta, até onde a vista podia alcançar. Com as altas temperaturas, o ar tremia como se estivesse com maleitas. Sob calor intenso, aproveitaram para gozar da hora da sesta num bem merecido e pouco reparador sono, em cama improvisada sobre a terra…
Primeiro como num sopro, depois a agitar as folhas das frondosas árvores uma brisa suave e refrescante começou a correr, vinda do Sul, da campina de Idanha, e lá muito ao longe as nuvens começaram a aparecer e a deslizar sempre subindo, subindo.
Não tardou que se ouvisse, ainda longe, o ribombar dos primeiros trovões. Depois, lenta e firmemente, com ruído e com estrondo, o céu azul foi desaparecendo e as nuvens negras, ameaçadoras, ocuparam todo o espaço.
As primeiras gotas da chuva cada vez mais intensa foram abafando o pó da terra sequiosa. No ar, começou a sentir-se o agradável odor do chão molhado. Entre relâmpagos e trovões, fazia-se a contagem para calcular a distância e, de repente, foi como se o céu se abrisse e a água desatou a cair de aluvião.
Refugiados debaixo do telhado da modesta habitação, os camponeses que, ainda há pouco, bendiziam a chuva como a salvação de toda uma colheita, fechavam os olhos à luz dos relâmpagos e estremeciam com o ruído ensurdecedor dos trovões, as crianças tapando os ouvidos. As telhas não suportavam todo o caudal e aqui e ali as goteiras caíam dentro do acanhado edifício. O largo em frente estava num “lago e, pelas encostas, as torrentes de águas desenfreadas traçavam sulcos e arrancavam as plantas. Lá, na “baixa”, em poucos minutos apareceu o “mar”. Tudo coberto de água.
Nesta altura, como em tantos outras, a Fé tomou o seu lugar: “Santa Bárbara bendita nos acuda!”
A chuvada era intensa, trovões e relâmpagos não paravam. As faíscas descarregavam em direcção à terra, em sulcos de luz fascinantes e medonhos. Splash… splash! Catra-pum…pum…puumm. E mais um, e outro, ainda outro, o mundo ia acabar. O altivo sobreiro, ali a pouca distância, que durante anos crescera na beira da caminho, atingido por uma poderosa descarga eléctrica, rachou de alto a baixo. Num abrir e fechar de olhos. Nem isso.
Os camponeses caem de joelhos.
- Nossa Senhora da Graça, valei-nos! Santa Maria Madalena, rogai por nós! Santíssimo Sacramento, tende piedade de nós. Almas benditas do Purgatório, rogai por nós!
A chuva torrencial não para da cair. Os trovões e relâmpagos atormentam olhos e ouvidos. Splash… splash… splash…. Catrapum…. Catrapum…. Pum…. Pummmm….. puuummm!!!
Regatos e ribeiros, valetas e barrocas, começaram a transbordar. A Ribeira, lá ao fundo, devia estar pelo meio, “de mar a monte!” Tanta chuva há muito que se não via. E não havia maneira de abrandar. Sempre mais e mais. Relâmpagos, raios em direcção à terra, iluminavam a tarde que se fizera noite. O ribombar dos trovões atemorizava as gentes, que se sentiam ainda mais pequeninas neste afirmar de força da Natureza.
Mesmo em frente, espreitando pela porta entreaberta, o olhar de águia do Pai, mais corajoso que curiosos, ia informando o que conseguia ver do espectáculo que enchia todo o horizonte:
- O Ribeiro do Forninho está já a deitar fora. A Ribeira deve ir de “entulho”. Olha, Ribeiro começou a pular para a horta do guarda-rios…
- Santa Bárbara Bendita, levai esta trovoada lá p’ràqueles matos maninhos, onde não haja mulher com menino nem vaca com bezerrinho… Aflita cheguei à Cruz, aflita cheguei a vós, Senhora do Carmo rogai por nós! – rezava a Mãe com os garotos agarrados a ela.
- O muro da horta do guarda-rios não vai resistir. A água está e pular. Olha…. já foi o muro e a horta…. A Ribeira acaba de pular para dentro da nossa Tapada. Sorte foi termos arrancado as batatas… O resto… logo se vê… - informava o Pai conformado e calmo.
- Senhora do Carmo, rogai por nós, Senhora da Graça, valei-nos! Senhor Jesus, tende piedade. Tanta falta que a água cá fazia e agora uma coisa assim!!!! Santa Bárbara bendita, levai esta trovoada… Sagrado Coração de Jesus, nós temos confiança em Vós! Avé Maria, cheia de graça...
A chuva começou a abrandar. Os relâmpagos e trovões mais esparsos. Os campos alagados, quase não deixando ver as plantas. Os pastores, encharcados dos pés às cabeça, mesmo recolhidos na choça, muito a custo mantiveram o rebanho unido, dentro do bardo, animais também aterrorizados e encharcados. O caminho transformara-se num ribeiro com a água da enxurrada arrastando pedras e terras.
O tempo fora passando, lentamente, como sempre em ocasiões de aflição. A trovoada amainara. Da capoeira saíram as galinhas com as penas a escorrer água, aventurando-se a caminhar sob a chuva que ainda caía. Os cães voltaram do palheiro, ainda amedrontados, sacudindo a água do pêlo. Adultos e crianças vão retomando a normalidade das conversas. Pai e mãe deitam contas à vida.
- Com estará a horta?! E o melancial?! – interrogou-se o pai, em voz alta. - Olha se não temos arrecadado as batatas… Podia ser pior… - acrescentou, tentando sempre olhar as situações pelo seu lado bom.
- Ah! O milho que se salvar é que vai agradecer tanta água… - acrescentou a mãe, procurando tirar proveito de uma situação que sempre a assustava. Havia um novo “podia ser pior”... Perdurava na memória da Aldeia a nunca esquecida “trovoada do Carriço”, durante uma noite, anos atrás, em que a Ribeira transbordara, já a caminho de Medelim, e levara o rebanho, o Carriço e a família, a dormir na choça, para nunca mais…
A tempestade, lentamente, afastou-se em direcção a Norte. As carregadas nuvens escuras deram lugar a outras que foram clareando a tarde que caminhava para o fim. Lagos de azul no céu e o sol ainda a espreitar a terra agora farta e cheia de esperança. Mesmo na calamidade que levou muros e hortas. A água… esperança e desespero da nossa terra, chegara. Uma bênção de meter medo.