quinta-feira, outubro 07, 2010

Masoquismo?!

Impiedoso perfil psicológico do povo português
Falho de espírito crítico, ávido de sensações, ignorante e pouco previdente confunde o ancestral de mândria e uma confiança estúpida nos que, por força o hão-de explorar. Indignado ao ver-se no ludíbrio é então feroz.
1 - “O português desinteressa-se colectivamente. Não vibra numa acção conjunta. Entusiasma-se facilmente, é um rastilho, mas com a mesma rapidez se aborrece. É uma faúlha. Impulsivo, ardente, consome-se como um fogueirão de palha. Para ele só existe o facto realizado. Falho de espírito crítico, ávido de sensações, ignorante e pouco previdente confunde o ancestral de mândria e uma confiança estúpida nos que, por força o hão-de explorar. Indignado ao ver-se no ludíbrio é então feroz. Pachola ante o fascinador, o intrujão, é pascácio e tolo como seu filho a quem venderam cordões de latão.
Em políticos já não acredita e hoje tem apenas um ideal à vista e outro escondido. O que mostra é ânsia de comer barato, o que oculta é o sonho de se alimentar de graça. Para o primeiro caso delicia-se na esperança de não produzir nada; fez do estado a sua providência, a sua varinha de condão. Depois de se empregar no funcionalismo levou para as repartições a mulher e os filhos e há lares onde à noite se podia dar despacho pois não faltaria nem o papel de ofício, que por via de regra também se leva para usos caseiros. Ninguém dá um passo que lhe custe. Uns porque andam descalços (é o único país da Europa onde isso se vê), outros, porque têm as botas apertadas, ao que parece.
Não são pessoas para cálculos nem para meditações. Aceitam os factos realizados, (…). Versátil por natureza, sem carácter firme, balouçando sempre entre várias opiniões como as ondas que banham as costas do país, entre os rochedos, mudando amiúde como os céus que o cobrem, desvairando rapidamente como o vento, que tão veloz ali se levanta, ele não é capaz de sustentar nem um princípio, nem um homem, quanto mais um programa.”
(Texto de Rocha Martins, figura marcante do jornalismo português da primeira metade do séc. XX, escrito em 1923, na revista Fantoches, lido na Antena um, no programa “Páginas da República”, de 8/9/2010, pelo historiador António Ventura).
2 - “Para sermos políticos, de acordo com o Oxford English Dictionary, que passamos a traduzir, devemos ser sagazes, prudentes, sensatos, oportunos, astutos e ter capacidade de planeamento. Assim sendo, o comportamento político numa organização pode ser desejável ou indesejável.
(…) Algumas pessoas acreditam realmente que utilizar meios políticos para atingir os seus objectivos beneficiará a organização e eles próprios. Há quem racionalize esta constatação e, ainda, quem tente perseguir declaradamente os seus objectivos. Este último grupo de pessoas poderá utilizar todo o seu poder de persuasão para legitimar os seus fins aos olhos dos seus colegas, mas o seu interesse próprio continua a ser prioritário. É este tipo de políticos corporativos que o Oxford English Dictionary descreve como «planeadores perspicazes, conspiradores astutos ou intrigantes». Os políticos no seio de organizações podem ser assim, manobrando nas costas das pessoas e boicotando propostas que não lhes agradam. É à custa dos outros que melhoram a sua reputação e desenvolvem sua carreira. Por outro lado, podem ser pessoas invejosas e ciumentas que agem em função disso. Em suma, são um perigo.”
(Michael Armstrong, Como Ser Ainda Melhor Gestor – Guia completo de técnicas e competências essenciais, Ed. Actual Editora, Lisboa, 2005).
3 - “Os políticos, em lugar de se ajudarem entre si e uns aos outros nesta tarefa difícil que é administrarem um país, em que se tem ao mesmo tempo que olhar o presente com todo o cuidado objectivo, e ter a maior confiança no que se pode concretizar de futuro, em lugar de os políticos se ajudarem uns aos outros, se auxiliarem, a realmente levar essa tarefa por diante, tantas vezes se entretêm, em todos os países, a lutar uns com os outros, a desacreditarem-se uns aos outros, como se isso pudesse fazer avançar seja o que for.” (Agostinho da Silva).
Por: Norberto de Oliveira Manso - (In "Jornal Cinco Quinas")

2 comentários:

Luísa Antunes disse...

Excelente, querido professor Serrano! Vou partilhar e, "quiçá", guardar (para a "reciclagem", um dia destes: novo "post", etc., etc.). Bom dia!

disse...

Que recolha maravilhosa e tão actual. Foi dito e feito há muitos anos mas é como se fosse hoje, tal a actualidade e pertinência dos textos.
Gostei destas transcrições e desta reflexão, principalmente numa altura em que o País atravessa uma das maiores crises nacionais.
Um abraço
Caldeira