quarta-feira, outubro 20, 2010

Medos da Aldeia 2

As Bruxas
As noites eram longas e os serões um momento de convívio e partilha das vidas de cada um e da Comunidade.
De fora, raramente chegavam notícias. Sem rádio nem TV, sem jornais nem revistas, um elevado número de analfabetos constituíam o alfobre ideal para que as bruxas aparecessem e por lá permanecessem.
As famílias reuniam-se à volta da lareira, fonte de calor e de luz, onde a ceia era cozida em panelas de ferro e também era aquecida a água para as lavagens e trato dos animais.
Acabada a ceia, o convívio estabelecia-se entre os mais velhos, as Crianças a escutar, enquanto o sono não as levasse para a cama.
Abundavam as castanhas e elas eram um sólido complemento das parcas refeições, cozidas ou assadas. De vez em quando, a Ti Vicenta entrava por ali dentro, na esperança de uma noite menos longa e também na de levar os pés quentes para a cama sem grande gasto na pouca lenha de que dispunha e também na de sair com o estômago mais confortado.
Não tendo novidades para dar, a conversa conduzia, quase sempre, à “certeza” de que havia bruxas pelo Mundo. E de que também na Aldeia elas tinham assentado arraiais. Até as conhecia. Depois… era um desfiar de histórias fascinantes e aterradoras, que faziam os gaiatos mexer-se, inquietos, nos seus assentos e sentir arrepios na espinha, enquanto se chegavam mais p’ra junto do lume crepitante da lareira.
- Estás com medo, filho?! – perguntava a jovem mãe.
- Não, Mãe, é frio… - encolhia-se o garoto armado em valente.
- Vejam bem – contava a vizinha, já sexagenária, numa voz calma e convicta – que ELA, mal entrou no forno de cima, logo o pão do tabuleiro da Angélica baixou no tabuleiro como se não tivesse levado crescente… E o Jaquim Bento apanhou-a mesmo em cima da vaca, que ficou doente e quase a morrer. Ainda hoje não sabe como entrou no palheiro. Talvez pela fechadura. Mas saiu pela porta com a vara das vacas a estalar-lhe no lombo… - rematava muito convencida.
As histórias de bruxas da Ti Vicenta, do Ti Jaquim Cabeco, da minha avó… tinham que se lhe dissesse. Não havia idoso que se considerasse digno desta sua condição que não tivesse contactado com uma bruxa, pelo menos uma vez na vida. Estávamos nos anos cinquenta!
Também conheci “bruxas”. Mulheres velhas antes do tempo, carregando um enorme peso insuportável de levar, em forma de carimbo: bruxa. Pobres, humildes, simples, cabisbaixas, olhos no chão, não fosse o “mau olhado” traí-las e complicar-lhes ainda mais uma vida já de si bem complicada. Não tinham trabalho, ninguém lhes confiava trabalho, "não fosse o Diabo tecê-las"... Sobreviviam da esmola, que não lhes era dada por solidariedade, mas por medo de que a sua recusa pudesse trazer coisa má à família.
Havia situações em que a “bruxa” podia ser um “bem”: havendo suspeita de que o bruxedo havia entrado em casa, nada melhor para o combater do que ir à “concorrência”. “Tirar os acidentes” com rezas e benzeduras e pingos de azeite em prato raso de água, defumadouros de alecrim, incenso e asperges de água benta. Muito antes de os garotos aprenderem a ler, já sabiam "fazer figas" para que as maléficas bruxas não lhes pudessem fazer mal. E, com a irreverência tão própria da infância, não "faziam figas", às escondidas, como os adultos, com as mãos escondidas nos bolsos ou debaixo do avental, antes hostilizavam as infelizes destinatárias com os punhos e dedos bem preparados para o esconjuro... e o anátema "Bruxa!"
Tudo e todos podiam ser vítimas das bruxas. Pessoa ou animal doentes… provavelmente embruxados. Cozedura de pão que corria mal por deficiências na farinha ou no amassar… embruxado, com certeza. Sementeira que não produzia o esperado… o “mau olhado” andara pelos campos.
Depois… a Escola, a Instrução e a Educação foram quase tão fatais para as bruxas como a própria Morte que as levou. Para seu e nosso descanso.
Nos tempos que correm… poucos acreditam em bruxas. Mas vendo e ouvindo os nossos políticos e governantes e tendo consciência do estado a que isto chegou havemos de exclamar:
- Mas lá havê-las… há!!!
Só por "mau olhado"!!!
(Vivências de Aldeia, com liberdade de escrita do autor. Foto e vídeo da internet)

4 comentários:

Maria Helena disse...

Ah Professor, aqui no Brasil as bruxas continuam existindo. Enquanto nas favelas populosas as crianças têm medo do "caverão", o carro da polícia, milhões de crianças espalhadas pelo país ainda têm medo da "mula sem cabeça" do "Lobisomem","a Luz misteriosa" e outras imagens que povoam imaginário infantil e adulto também. No dia seguinte procurávamos os passos que ouvíamos durante a noite, quando se fechavam as portas das casas.Mas era muito bom! Concordo que as bruxas estão perdendo o encanto, sendo substituídas por outras mais fatais, que prejudicam de verdade um povo. Que Deus me perdoe pela blasfêmia!

cmendes disse...

Eu ainda ouvi histórias de bruxas e lobisomens à minha avó, e ainda foi na década de 80, por isso veja lá quanto tempo essas superstições se mantiveram....

Prohensa, j. adolfo disse...

Como eram "mágicas" essas noites passadas à volta do lume, ouvindo histórias de bruxas, lobisomens, ...
Mas era graças a estas superstições que as pessoas das nossas aldeias resolviam muitos dos seus problemas pessoais, familiares e profissionais... nada havia que uma vizinha "prendada" não ajudasse a resolver.
Agora que acabaram as bruxas não há psiquiatra, nem psicólogo que consiga resolver metade dos problemas que vão surgindo...
Não sei porquê mas as bruxas da mina terra não se pareciam nada com a que aparece na imagem... se assim fora de certeza que não faria figas nem desatava a fugir de cada vez que me cruzava com elas na rua...

disse...

Amigo Serrano,
Adorável a sua descrição dos nossos tempos de meninos. Bem aplicado aos (des)governantes que temos a desdita de suportar, com miores malefícios do que as bruxas de então.
Há-de haver um dia em que cairão das alturas, no seu voo, com uma vassoura desconjuntada. Então será a vez de nós nos rirmos do seu bruxedo, ainda que não nos livremos de pagar a factura.
Um abraço amigo
Caldeira