domingo, outubro 31, 2010

Medos na Aldeia 3

A Trovoada
Sob o calor sufocante de final do mês de Julho, as malhas estavam feitas, as palhas arrecadadas, as rendas pagas e as arcas e arcazes dos que tanto haviam trabalhado e suado as camisas de cotim, naquele ano, ficaram de maneira a alegrar o coração. O alimento dos filhos estava garantido.
 Para as sementeiras… no Outono, logo se veria...
As terras dos milheirais, sachados e aterrados e as do feijão pequeno suspiravam por água como de pão ansiavam as bocas dos pobres. Dias e dias de calor intenso e nem uma nuvem que escondesse aquele sol abrasador, que aliviasse aquele ar quente que ardia as gargantas e secava os pulmões, respiração ofegante.
Pelas festas de S. João e de S. Pedro, alguns orvalhos e umas poucas chuvas ainda trouxeram um alento àquela vida que brotava da terra, mas nada que pudesse garantir colheita capaz de “tirar a barriga de misérias”.
Também a Padroeira, Santa Maria Madalena, era amiguinha de trazer aquela chuva bem chovida por que todos suspiravam. Mas haviam passado e nada… e os renovos, vergados ao peso daquele calor tão intenso, definhavam.
Ao jantar, comera-se da farta sopa camponesa, do pão e do queijo, à sombra dos eucaliptos, lá no alto do pequeno outeiro, declives suaves, a dar para a Ribeira. Uma soberba paisagem enchia os olhos e acalmava a alma. Monsanto, Aranhas, Salvador, Medelim ali em volta, até onde a vista podia alcançar. Com as altas temperaturas, o ar tremia como se estivesse com maleitas. Sob calor intenso, aproveitaram para gozar da hora da sesta num bem merecido e pouco reparador sono, em cama improvisada sobre a terra…
Primeiro como num sopro, depois a agitar as folhas das frondosas árvores uma brisa suave e refrescante começou a correr, vinda do Sul, da campina de Idanha, e lá muito ao longe as nuvens começaram a aparecer e a deslizar sempre subindo, subindo.
Não tardou que se ouvisse, ainda longe, o ribombar dos primeiros trovões. Depois, lenta e firmemente, com ruído e com estrondo, o céu azul foi desaparecendo e as nuvens negras, ameaçadoras, ocuparam todo o espaço.
As primeiras gotas da chuva cada vez mais intensa foram abafando o pó da terra sequiosa. No ar, começou a sentir-se o agradável odor do chão molhado. Entre relâmpagos e trovões, fazia-se a contagem para calcular a distância e, de repente, foi como se o céu se abrisse e a água desatou a cair de aluvião.
Refugiados debaixo do telhado da modesta habitação, os camponeses que, ainda há pouco, bendiziam a chuva como a salvação de toda uma colheita, fechavam os olhos à luz dos relâmpagos e estremeciam com o ruído ensurdecedor dos trovões, as crianças tapando os ouvidos. As telhas não suportavam todo o caudal e aqui e ali as goteiras caíam dentro do acanhado edifício. O largo em frente estava num “lago e, pelas encostas, as torrentes de águas desenfreadas traçavam sulcos e arrancavam as plantas. Lá, na “baixa”, em poucos minutos apareceu o “mar”. Tudo coberto de água.
Nesta altura, como em tantos outras, a Fé tomou o seu lugar: “Santa Bárbara bendita nos acuda!”
A chuvada era intensa, trovões e relâmpagos não paravam. As faíscas descarregavam em direcção à terra, em sulcos de luz fascinantes e medonhos. Splash… splash! Catra-pum…pum…puumm. E mais um, e outro, ainda outro, o mundo ia acabar. O altivo sobreiro, ali a pouca distância, que durante anos crescera na beira da caminho, atingido por uma poderosa descarga eléctrica, rachou de alto a baixo. Num abrir e fechar de olhos. Nem isso.
Os camponeses caem de joelhos.
- Nossa Senhora da Graça, valei-nos! Santa Maria Madalena, rogai por nós! Santíssimo Sacramento, tende piedade de nós. Almas benditas do Purgatório, rogai por nós!
A chuva torrencial não para da cair. Os trovões e relâmpagos atormentam olhos e ouvidos. Splash… splash… splash…. Catrapum…. Catrapum…. Pum…. Pummmm….. puuummm!!!
Regatos e ribeiros, valetas e barrocas, começaram a transbordar. A Ribeira, lá ao fundo, devia estar pelo meio, “de mar a monte!” Tanta chuva há muito que se não via. E não havia maneira de abrandar. Sempre mais e mais. Relâmpagos, raios em direcção à terra, iluminavam a tarde que se fizera noite. O ribombar dos trovões atemorizava as gentes, que se sentiam ainda mais pequeninas neste afirmar de força da Natureza.
Mesmo em frente, espreitando pela porta entreaberta, o olhar de águia do Pai, mais corajoso que curiosos, ia informando o que conseguia ver do espectáculo que enchia todo o horizonte:
- O Ribeiro do Forninho está já a deitar fora. A Ribeira deve ir de “entulho”. Olha, Ribeiro começou a pular para a horta do guarda-rios…
- Santa Bárbara Bendita, levai esta trovoada lá p’ràqueles matos maninhos, onde não haja mulher com menino nem vaca com bezerrinho… Aflita cheguei à Cruz, aflita cheguei a vós, Senhora do Carmo rogai por nós! – rezava a Mãe com os garotos agarrados a ela.
- O muro da horta do guarda-rios não vai resistir. A água está e pular. Olha…. já foi o muro e a horta…. A Ribeira acaba de pular para dentro da nossa Tapada. Sorte foi termos arrancado as batatas… O resto… logo se vê… - informava o Pai conformado e calmo.
- Senhora do Carmo, rogai por nós, Senhora da Graça, valei-nos! Senhor Jesus, tende piedade. Tanta falta que a água cá fazia e agora uma coisa assim!!!! Santa Bárbara bendita, levai esta trovoada… Sagrado Coração de Jesus, nós temos confiança em Vós! Avé Maria, cheia de graça...
A chuva começou a abrandar. Os relâmpagos e trovões mais esparsos. Os campos alagados, quase não deixando ver as plantas. Os pastores, encharcados dos pés às cabeça, mesmo recolhidos na choça, muito a custo mantiveram o rebanho unido, dentro do bardo, animais também aterrorizados e encharcados. O caminho transformara-se num ribeiro com a água da enxurrada arrastando pedras e terras.
O tempo fora passando, lentamente, como sempre em ocasiões de aflição. A trovoada amainara. Da capoeira saíram as galinhas com as penas a escorrer água, aventurando-se a caminhar sob a chuva que ainda caía. Os cães voltaram do palheiro, ainda amedrontados, sacudindo a água do pêlo. Adultos e crianças vão retomando a normalidade das conversas. Pai e mãe deitam contas à vida.
- Com estará a horta?! E o melancial?! – interrogou-se o pai, em voz alta. - Olha se não temos arrecadado as batatas… Podia ser pior… - acrescentou, tentando sempre olhar as situações pelo seu lado bom.
- Ah! O milho que se salvar é que vai agradecer tanta água… - acrescentou a mãe, procurando tirar proveito de uma situação que sempre a assustava. Havia um novo “podia ser pior”... Perdurava na memória da Aldeia a nunca esquecida “trovoada do Carriço”, durante uma noite, anos atrás, em que a Ribeira transbordara, já a caminho de Medelim, e levara o rebanho, o Carriço e a família, a dormir na choça, para nunca mais…
A tempestade, lentamente, afastou-se em direcção a Norte. As carregadas nuvens escuras deram lugar a outras que foram clareando a tarde que caminhava para o fim. Lagos de azul no céu e o sol ainda a espreitar a terra agora farta e cheia de esperança. Mesmo na calamidade que levou muros e hortas. A água… esperança e desespero da nossa terra, chegara. Uma bênção de meter medo.
 


8 comentários:

Rita Loureiro disse...

Não há nada que chegue a uma trovoada do interior!
Ainda bem que Deus de vez em quando se zanga heheheh

António Serrano disse...

Ritinha,
Obrigado por teres vindo!

jorge passos disse...

Mais uma maravilhosa descrição da tua e minha menenice. Por momentos também eu me imaginei debaixo do mesmo tecto,lá na Tapada,seguindo convosco as peripécias desses momentos,sempre complicados para todos e, de um modo muito especial, para as crianças.
Depois,terminado o ribombar dos trovões, os flash dos relâmpagos e com a acalmia das fortes chuvadas,seguia-se a "festa da garotada".Todos queriam ver a Ribeira de "mar a monte" e esquecer os medos passados.
Parabéns por mais esta bela descrição.Abraça-te o amigo Jorge

Prohensa, j. adolfo disse...

Terríveis estas trovoadas de Verão! Tenho na memória uma, na minha juventude, que vitimou uma mulher que andava na ceifa. Tinham parado de ceifar e ela colocou a foice sobre o ombro, uma raio atingiu-a e matou-a...
São justificados os medos relativos às trovoadas e daí as rezas a São Jerónimo e a Santa Bárbara Bendita...
Obrigado por mais um excelente texto.

Anónimo disse...

Bela narrativa , António !
Conseguiste colocar-me no centro dos acontecimentos, dando-me a ilusão de vivê -los .
Um abraço , caro António .

Maria Helena disse...

Esta é uma experiência de todos nós. Preocupante às vezes, aterrorizante outras vezes

Anónimo disse...

Lindo e real Sr. Professor.
Mas também devem ter rezado:
Santo Bárbara Bendita
Que no Céu está escrita
Com raminhos de água benta
Livrai-me Senhora desta tormenta.
Anónima

Plinio Ghirello disse...

Amigo Professor António Serrano!
já vai alguns meses de amizade, e recebendo um selo, muito comum aqui no Brasil, estamos repassando para si. Vemos nesse hábito partilha e confraternização, ficamos muito honrado com sua presença em nossa família. Aqui já se fala de um amigo de Portugal. PAz Luz e Amizade!