domingo, fevereiro 13, 2011

Medos da Aldeia 5


Borborinhos
Eram trabalhosos, monótonos e pacíficos os dias de Verão. Ceifas, malhas, regas, pastorícia. Ar quente e abafado, quase irrespirável, lábios ressequidos, aliviados com a água fresca das minas e de poços de maior confiança, donde não pudesse vir uma febre tifóide ou, no mínimo, uma dor de barriga de deitar a correr.
A melhor água era a que jorrava das fontes graníticas ou de um ou outro chafariz aqui e ali. A fonte da Tapada do Cabeço, a Fonte dos Leitões, as fontes da Tapada da Barroca, a da Cecília, a Fonte Fria, a da Tapada da Tenda, a da Malhada da Viseira... tantas... tantas. O Povo sabia que a água bem cuidada era quase garantia de um Verão sem cuidados de maior... para além dos "sarilhos" apanhados com fruta quente ou verde. Ou verde e quente.
Pela hora do jantar e naquele espaço de tempo que dava lugar a uma pequena sesta, tão repousante quanto o calor abrasador o permitia era vulgar haver redemoinhos aqui e ali mais ou menos bravos que podiam pôr tudo de pantanas e causar prejuízos de certa gravidade numa agricultura de subsistência.
Os borborinhos, a que hoje chamamos tornados e que vemos, de vez em quando, na TV. Pois, nos anos 40 e 50, muitos e muitos borborinhos tive ocasião de ver. A superstição popular ligava aqueles movimentos "diabólicos" a "coisas do outro mundo", "almas penadas", a cumprir danada missão, com "contas por ajustar".
De maneira geral, os nossos borborinhos levantavam mais pó do que davam prejuízos para contabilizar. Que nem valeria a pena, pois ajudas de ninguém da Terra lhes viria. Rezava-se então para que aquelas "almas danadas" fossem levadas lá para bem longe de todo o ser vivo, para que de lá não viesse mal algum.
Contavam-se as histórias mais incríveis. O Vieira, guardador de rebanhos, envolvera-se à paulada com um "endemoinhado" e fazia gala de contar que o "outro" não levara a melhor, apesar de apresentar as roupas bem esfarrapadas e a cara vermelhona como se as mais valentes chapadas lhe houvessem sido aplicadas, sem dó nem piedade. Também  a da Peta, uma Maria Rapaz, pronta para todos os desafios. Estava empoleirada numa figueira, quando ali por perto se começou a formar um borborinho. Atrevida e travessa não esteve com meias medidas e toca a desafiar, a chamar nomes "feios" ao borborinho. Atrevida esta rapariga, que nenhum rapaz lhe pusesse a mão. E a figueira a abanar, a abanar, e ela a gritar, a desafiar, a praguejar. E a figueira quase a soltar-se pelas raízes e a Peta a gritar agora de medo e de raiva e quem via rezava ou ficava mudo de espanto e temor. Uma luta de fazer medo. Eis senão quando as saias da rapariga vão pelos ares - contou quem viu e ouviu!!! - e três valentes palmadas foram aplicadas naquelas nalgas roliças e juvenis que - diz quem ouviu e viu - ficaram mais vermelhas que pimentos malaguetos. A Peta até ficou gaga por uns tempos e jurava que com outros é que não queria mais brincadeiras.
Ainda um pastor, o Tó Quim, se atreveu a lutar à navalhada com um borborinho que lhe passou perto. Navalha lançada na guerra e, sem saber como, é-lhe arrebatada da mão... Pois quando mais tarde foi recuperada, suja de sangue, nunca se chegou a saber se do próprio dono, o que ele sempre negou, se da "alma de outro mundo" que ele conseguira "fazer sangrar".
Estas algumas das histórias que ouvi.
Vi borborinhos que levantaram canas de milho espalhadas. em paveias,  pelas baixas, indo cair a centenas de metros do local do "roubo". Vi levantar a palha de uma eira , ficando espalhada por aqueles campos, levada em cone medonho e fascinante.
O Povo rezava a todos os Santos do Céu e a Deus e a Nossa Senhora e ao Santíssimo Sacramento para que o Mafarrico fosse pregar partidas lá para aqueles matos maninhos. Respeitinho e medo, superstição e Fé tudo misturado num fenómeno de que ninguém sabia dar explicações.
"O Latas".
Foi o maior borborinho que vi, lá nos tempos em que andei pelas margens da nossa Ribeira.
A tarde estava quente, abafada e, de repente, quase se sentiu frio. Ali na pequena várzea, com o milho para ser apanhado, começa a formar-se um pequeno cone de poeira, terra, canas de milho. Sempre a crescer, a crescer, um barulho surdo e medonho começa a assustar a Mãe e as Crianças. Joelhos em terra, rezas fervorosas para que aquele "demónio" se vá dali. Depois vai o restolho, e os ramos  cortados e os quebrados. E as silvas espalhadas pelos valados. Um roncar atroador enche de terror e espanto os que assistem, ali na margem esquerda da Ribeira, na Tapada do Cabeço. De repente, começa a deslocar-se e leva tudo o que pode apanhar, ora numa das margens da ribeira ora na outra. Por fim,. decide-se por caminhar em direcção a Sul, seguindo para jusante. Baldes, caldeiros, latas, choças, cancelas, canas de milho, restolho, chapas de zinco, tudo a bater num estranho som, quase infernal. Por onde foi passando deixou marcas, "varrendo" ambas as margens da Ribeira, ora a esquerda, ora  a direita, num serpentear caprichoso e medonho. Depois, lá para a Tapada da Ribeira foi abrandando, a luz do sol recomeçou a clarear a tarde, os objectos voadores foram aterrando e, durante muito tempo, "o Latas", como o batizou a Ti Belarmina do "Caixa", deu que falar. Ninguém se lembrava de um borborinho assim, a tocar latas, num barulho ensurdecedor. Nem consta que viesse outro depois. Para sossego dos nossos Camponeses.
Nota: histórias ouvidas ou vividas pelo autor. Nomes quase todos imaginados. Tratamento do texto da livre criatividade do autor. Bom "As Janeiras" é porque estamos em Fevereiro....



      

2 comentários:

Jorge Passos disse...

Caro António

Hoje é dia de inspiração e por isso estás a deliciar-nos com mais uma bela história da nossa terra.Para ser sincero nunca me passou pela frente um desses borborinhos de tamanha força.Lembro-me de alguns mais comedidos,mas mesmo assim ainda fiz figas muitas vezes.
Um abraço
Jorge

Regina disse...

Sr. António,
que alegria poder continuar a usufruir de tão deliciosa escrita. Que bom que está de volta.
Regina Carreiras