domingo, fevereiro 20, 2011

Medos na Aldeia 7

A Guerra do Ultramar 1
As últimas guerras que haviam devastado a Europa e grande parte do Mundo iam caindo no esquecimento, a vida na Aldeia decorria monótona e sempre igual, com poucos momentos de festa e muitos de trabalho. A Criançada enchia largos e ruas e a escola nova tranbordava de garotadas a querer aprender. Os pais começavam a ter a certeza de que só a Escola livraria os filhos daquela "má vida" e faria a diferença entre um passado de servidão e um futuro com Esperança.
No alvorocer da década de 50 já o Seminário poderia ser uma porta de entrada - porque não de saída? - para uma maneira de encarar a vida que não fosse só trabalhar para os ricos.
Lá vinham as férias grandes, com o mês de Agosto/Setembro chegavam os "papa.figos" e os parentes da Aldeia, os tios e os primos, começavam a meter na cabeça que o arado e a enxada não eram tudo. Seriam até um impecilho para agarrar uma outra vida a que já aspiravam.
Com a chegada do Padre José Pedro, essse Homem de grande visão no anúncio do Evangelho e na promoção da pessoa, o ensino particular vem preencher o que o Estado não fora capaz de fazer: Escola para todos. Ou quase! A que se segue a gente a vestir melhor, calçar melhor, comer melhor. Sem luxos de espantar.
Mesmo no dealbar da década de 60 há dois acontecimentos que serão fracturantes e determinantes no futuro da(s) Aldeia (s): o início da Guerra do Ultramar e a Emigração.
Embora a Emigração tenha mudado de maneira muito acentuada a vida das gentes do nosso Interior, levando ao estado em que hoje se encontra, abandonado e desértico, as remesssas dos emigrantes permitiram que o aspecto dos nossos povoados mudasse radicalmente, nem sempre da melhor maneira e que as pessoas se habituassem a um nível de vida nunca antes sequer sonhado, pois dinheiro não faltava, mas a economia definhava, para chegar ao estado em que hoje a encontramos: morta.
No entanto, se o medo de emigrar bateu a muitas portas, normalmente levado de vencida, não é sobre este que vou reflectir, pois as consquências da Emigração foram mais positivas que negativas no desejo de se alcançar uma vida melhor para quem trabalhava e para os filhos.
Mas a guerrra!!! A guerra, um dos maiores flagelos que em todo o tempo vem afligindo a Humanidade!
De costas para a Europa, Salazar acreditava ser possível construir uma sociedade multirracial e pluricontinental que fosse do Minho a Timor. Era-nos ensinado, na Escola Primária, que a maior altitude de Portugal se chamava Ramelau, lá por terras da Oceânia e que o maior rio a regar terra portuguesa se chamava Zambeze. Qualquer menino ou menina para fazer exame da 4ª. Classe, nos seus 11 aninhos, tinha de saber rios, serras, afluentes, caminhos de ferro, capitaias, limites, cidades, produções, climas, montanhas, distritos, províncias, portos e praias e tanto se lhes pedia que os localizasse da Europa como na Ásia, na Áfria ou na Oceânia. E ainda com uma passagem pelas Américas, de onde se devia saber, pelo menos, que no Brasil se falava Português, que fora descoberto por Pedro Álvares Cabral, que a capital era o Rio de Janeiro, cidade onde habitara a Corte e até tivera Imperador...
Ainda hoje fico impressionado com o saber das nossas Crianças em dia de exame da 4ª. classe. Lá em Penamacor.
Portanto, "politicamente", a Nação estava preparada para se manter una e indivisível, quando se estava mesmo a ver que nem era una nem era indivisível.
Chegara a altura de as grandes potência coloniais começarem a dar a independência às suas colónias, normalmente colocando no poder governantes quase sempre de confiança dos ex-colonizadores, com grande apoio militar, político e técnico das antigas metrópoles. Quase sempre esses governantes se tornaram em tiranetes e ditadores, perpetuando-se no poder até à morte ou sendo apeados em golpes de força militar. Nalguns casos- Biafra, Katanga... - os interesses africanos nada tinham a ver com os dos imperialismos que ali se degladiavam pelos seus interessses estratégicos e económicos.
Não só perante a desgraça que se via nos novos paises "independentes" de África, mas também por cegueira política e falta de capacidade de diálogo com os movimentos independentistas das agora chamadas Províncias Ultramarinas, Salazar e a sua "corte" decidem que as novas independências eram inogociáveis e que Portugal seria sempre do Minho a Timor, como se vinha ensinando segundo o Programa Oficial para as Escolas. Decisão que, menos de duas décadas depois, se havia de revelar uma enorme desgraça. Homens como Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Eduardo Mondelane teriam que ser pedras basilares para que tanto a longa guerra e as consequentes sequelas pós 25 de Abril fossem evitadas e Angola e Moçambique, em ponto grande, as restantes Províncias, em ponto pequeno, se tornassem, verdadeiramente sociedades multirraciais justas e fraternas.
Mas o destino fora traçado, em 1961, 4 de Fevererio, com a eclosão do "terrorismo", em Angola, início da guerra colonial e anexação de Goa, Damão e Diu pela União Indiana, em Dezembro seguinte.
Fixemo-nos no que vai doer mais e era perfeitamente evitável, a Guerra Colonial.
De repente, jovens que haviam crescido sem a mínima ajuda do Estado Português, a não ser, para uma minoria, o acesso à Escola, em condições mais que deficientes, vê-se mobilizada, com uma fraca preparação militar de 3 ou 4 meses para uma luta de guerrilha, e embarcada, nas piores condições, com destino a terras que não conheciam nem queriam conhecer, lançados em matas quase impenetráveis, no meio das piores condições de sobrevivência e num grande sofrimento. Com a morte de muitos, do "nosso" lado e do lado "deles". Aos que caíram, de ambos os lados, sem saberem porquê nem para quê. E aos que sabiam porquê e e para quê deixo a minha homenagem neste  pungente toque de silêncio. (Para continuar)


1 comentário:

Prohensa, j. adolfo disse...

Há uma imagem que permanece ainda hoje bem viva na minha memória: a população de Proença em peso, à entrada da freguesia, aguardando a chegada do corpo de um militar morto na guerra do ultramar, o meu primo Raul Robalo; o cortejo até à Igreja e depois ao cemitério, e os gritos de dor da mãe, do pai, dos familiares e dos amigos... a guarda-de-honra militar e a salva de tiros no cemitério...
Quantos, como o Raul, perderam a vida, na flor da mocidade, numa guerra sem sentido!!!