sábado, maio 21, 2011

Ir, estar e voltar: um instante!

Estava uma tarde serena, quando aterrámos ali mesmo ao lado da bela cidade de Colónia. Lá de cima os nossos olhos encheram-se de VERDE e admiramo-nos com a ordenação das florestas alemãs, intervalando com campos cultivados, em que se destacavam, vimos depois já de perto, enormes searas de trigo e de cevada. Ora, pois, de novo, o bem querer nos levou ao Centro da Europa. Ver filhos e neto, matar as saudades deles e nossas, viver uns dias na intimidade daqueles que estão longe da nossa vista. Que não do coração.  Lá estavam os três, olhos brilhantes, sorriso nos lábios, calor nos corações que, por momentos, num abraço grande, bateram os cinco em uníssono. Depois, a caminho da sua casa, ainda o verde, sempre verde, com flores de todas as cores à mistura. É bem interessante a quantidade de árvores e arbustos que dão flor misturados na floresta que bordeja as estradas. Também junto das casas. E nas janelas, algumas bem lindas!
Tudo correu no melhor de quem se quer bem. O alvo maior de todos os mimos, o Tomás, sempre atento e disponível para a brincadeira e para nos dar e receber carinho. Com a Mãe. Com o Pai. Com os Avós.
O tempo era pouco e havia que aproveitá-lo. Como curiosidade maior desta nossa visita tenho de apontar a ida a um mercado numa das ruas da cidade de Bergheim: tendas estendidas pela rua fora, como se estivéramos numa das nossas vilas ou aldeias e ali se vendia de muito do que pode fazer falta em casa, com especial destaque para alimentos frescos recebidos da Europa do Sul e do Médio Oriente. Tal venda estava a cargo dos nossos amigos Turcos, que constituem uma das maiores comunidades de imigrantes no País da Senhora Merkel! No entanto, comi maçãs da... Nova Zelândia, uvas do... Chile e bananas da Colômbia... A Aldeia global. 
Outra grande curiosidade deste mercado de domingo é que vimos à venda muitos objectos em segunda mão, em bom estado e por bom preço, como que a dizer que os "ricos" não se podem dar ao luxo de desperdiçar...
Para nosso espanto, não sentimos frio nem chuva. Os recordes de falta de pluviosidade, na Alemanha estão mais que batidos, pois não há memória de uma Primavera tão seca. Com desgosto de "agricultor", vi searas enormes e lindas a serem "dobradas" pela sede. Que tragédia o Homem está preparando com a destruição da Natureza que em tão bom estado lhe foi entregue por Deus? O rio Reno fazia aflição com tão pouca água, a impedir a circulação normal de barcos e batelões tão úteis no transporte de mercadorias de e para o porto de Roterdão. Uma verdadeira calamidade, cujas consequências podem ser funestas para a alimentação dos Europeus... E de outros Povos que a Europa solidária não esquece.
Cinco dias é, realmente, muito pouco para o investimento que  fora feito e passaram num instante. Mas a minha agricultura, horta e jardim, não prescindiriam dos meus cuidados, não fosse a seca deitar tudo a perder. Felizmente, ao contrário do que está acontecendo na Alemanha, por aqui choveu. E bem!
O regresso aconteceu pela tentativa de o desdramatizar:  dois meses (e meio, "esquecemo-nos"!!!) passam num instante e Agosto vem já aí, para merecidas e desejadas férias no nosso Portugal.
Acordar na manhã. bem cedo, depois seguir o caminho do aeroporto. Quase uma hora de percurso, numa altura de intenso movimento. Depois... mais beijos, abraços, palavras doces, cheias de esperança.  A eles que gostaríamos de dizer? "Vinde connosco!" E eles bem desejavam exclamar "Fiquem mais uns dias!" Mas lá teve de ser o "adeus final". Passagem por segurança apertada e embarque depois da hora. Estes Alemães estão a decepcionar-me. Atraso que se recuperou na chegada quase em cima da hora a Lisboa.
O avião encurta distâncias e menos de três horas depois estávamos, de novo, em Terras de Santa Maria.
Notas:
1. Desgostou-nos a demora na entrega de bagagens, em Colónia-Bona, situação que nunca vivêramos.
2. Desgostou-nos também ver as bagagens maltratadas, na chegada a Lisboa, tudo "de pernas para o ar". Não havia necessidade. Até porque tal "acção" dificultou bastante a identificação dos volumes. Mesmo que não queiramos temos sempre de pensar "Já estamos em Portugal".
Vou protestar junto da ANA. Não, não é a minha prima...

segunda-feira, maio 02, 2011

Cenas da vida militar 1

"- Não bejo nada!
A Primavera ia adiantada naquele já distante ano de 1965. A célebre frase de Salazar "Para Angola e em força" lançara uma verdadeira calamidade entre as Famílias de Portugal que, de repente, se viam privadas da sua maior riqueza, os Filhos.
Mais de quatro anos de guerra declarada pelas insurreições dos independistas de Angola haviam passado e mais duas frentes se tinham aberto, em Moçambique e na Guiné, qual delas a menos desejada por esta "Juventude louca, ingénua e generosa". Em toda a parte, de Norte a Sul da Metrópole e por várias cidades do então chamado Ultramar se haviam organizado "Centros de Instrução" que "fabricavam" oficiais, sargentos e praças que pudessem anular, muitas vezes "carne para canhão", as operações de guerrilha dos chamados "terroristas" de modo a aguentar, por tempo indeterminado, uma política insustentável, ao arrepio dos ventos da História, num esforço desmedido em homens, armas e materiais que ninguém suspeitara estarem ao alcance de um tão pequeno País.
Foi assim que, nas Caldas da Rainha, no RI 5, se abriu o primeiro turno de Instrução de Sargentos Milicianos, com seis companhias ou dezoito pelotões para preparar, cujo prazo seria de três meses de recruta básica, com mais três de "especialização" de que se falará noutra ocasião.
Com a alvorada às seis e meia e formatura para o "café" às sete, meia hora depois iniciava-se a Instrução, que tanto podia ser para adquirir uma razoável forma física, como aprender a marchar certinho, com ou sem espingarda Mauser - onde nós ainda estávamos!!! - "aplicação militar", corridas de obstáculos com equipamento de combate, patrulhas nocturnas, desmontar, limpar e montar material militar, carreira de tiro para disparar espingardas, pistolas e metralhadoras, lançamento de granadas, formar, destroçar, sentido, descansar, virar à esquerda, virar à direita, ombro arma, descansar arma, firme, sentido, apresentar armas, etc. etc.
Se para a maior parte daquela "malta", salvo o receio da quase certa mobilização para uma das frentes de guerra, aquilo até se ia levando com uma perna às costas, havia alguns dos nossos compatriotas que não estavam minimamente fadados para tão "altas cavalarias": gordos, com a visão muito deficiente, pés e pernas incapazes de aguentar tamanha estopada, problemas de audição, de cabeça... Havia-os tão gordos ou tão magrinhos que nenhuma farda lhes servia e lá tinha de se recorrer às Oficinas Gerais de Fardamento para que se resolvesse a questão para os "maiores" e para os "menores"- o que poderia demorar duas ou três semanas. Como fora dito no dia das "sortes" e se escreveu já neste blog o apuramento para o Serviço Militar Obrigatório era quase geral e depois, na recruta, se havia de ver quem "baixava" ao Hospital Militar e, em Junta Médica, "pulava" para os "serviços auxiliares" ou mesmo, casos muito raros, se "passava à disponibilidade".
Estava-se no 1º. Pelotão da 6ª. Companhia, em plena Instrução, duas semanas, meados de Maio e um dos mancebos dera já nas vistas pela espessura das lentes dos óculos mal encavalitados na ponta do nariz. Se o Sargento Nogueira, o Cabo Miliciano Luz, mesmo à voz do Aspirante  Alves Henriques ordenavam "virar à esquerda" o Rodrigues tanto podia ir em frente como virar à direita. Quando se lhe chamava à atenção para as "falhas" constantes, quase provocatórias , muito sério, este nosso amigo de Viseu só se justificava
- Eu não bejo nada! Eu quero ir p'ra casa! Lá em "Bijeu" sou um senhor...
A situação começou a dar que falar. No campo de obstáculos nunca pulou um deles, pois o derrubava, se fosse móvel, e chegava a magoar-se, se estivesse fixo.
Na espaçosa parada do RI 5, se fosse o caso, aproveitava para ir chocando com o pessoal, de preferência que fosse oficial, quanto mais "alto" melhor. E, à reprimenda certa, sempre a mesma resposta:
- Eu não bejo nada! Eu quero ir p'ra casa. Lá em "Bijeu" eu sou um senhor...
Depois das muitas risadas do Pelotão, em dado momento, começou a gerar-se uma certa admiração por aquela estranha forma de luta e o pessoal vá de tratar o camarada por "senhor Rodrigues".
"Senhor" Rodrigues p'raqui, "senhor" Rodrigues p'rali, mas não havia maneira de convencer o médico da Unidade a dar-lhe saída para a Junta Médica, o grande desejo do nosso amigo que, diga-se, nada aproveitava da Instrução que era dada aos restantes quase mil companheiros de "desgraça". E a "coisa" foi sendo adiada, como acontece muito ainda hoje neste nosso querido Portugal.
Quando a Direcção da Instrução achou por bem que aquela rapaziada estava pronta para começar aos tiros com a velha Mauser, depois de muito marcar passo e ordem unida, aí vai a tropa, atravessando a linda cidade das Caldas da Rainha, peito p'ra fora e barriga p'ra dentro, a cantar "Ó Laurindinha" ou "Ó meninas cá das Caldas...", a marchar uns bons 6 Kms, pela recta da Tornada fora, até à carreira de tiro. Um esticão e tantos. E era preciso voltar para o quartel, lá pela tarde. E o "senhor" Rodrigues, com muitas dificuldades e ainda maior teimosia dos Instrutores, também alcançou o objectivo, a carreira de tiro das Caldas da Rainha.
Já se havia aprendido a meter o carregador na arma com balas de pólvora seca mas, naquele dia, a coisa era a sério. Um carregador cheio, só metido na arma depois de cada um se colocar no seu local de disparo "Nunca se vira a espingarda para ninguém" "Espingarda sempre virada para cima", recomendações mil vezes repetidas e hoje de forma bem enfática sob a vigilância atenta dos Instrutores. E um outro carregador para substituir o primeiro. Duas salvas, em suma, para começar. Ia ser a primeira "prova de fogo" da maior parte daqueles rapazes, cuja maior apreensão era o recuo de tiro da arma "que até podia fazer nódoas negras". No perigo de uma bala perdida nem sequer se pensava. Aparentemente, tudo presumia que tal não acontecesse.
Quinze posições de tiro e ali está metade do Pelotão deitada de barriga para baixo, alvo lá bem longe, cada um tentando fazer o melhor possível. Afinal, mesmo no SMO todos - ou quase - queriam fazer boa figura.
Dois carregadores "despachados" por recruta, depois a contagem de pontos no alvo e lá se anunciava o resultado conseguido por cada um. Dois ou três muito bons, satisfatórios os restantes, como no caso do autor.
Seguiu-se a restante parte do Pelotão, que incluía o "senhor" Rodrigues. Uma "fita" para pegar na espingarda e carregá-la. Persistência e paciência do Sargento Nogueira, que consegue instalar e acalmar o jovem recruta que não cessava de proclamar:
- Eu não bejo nada. Eu quero ir p'ra casa...
A frase, de tanto repetida, ia perdendo efeito. Era preciso mesmo formar sargentos - cabos-milicianos, os "sargentos" mais baratos da Europa, "renegados" pelas praças por serem "sargentos", cujos serviços, aliás, desempenhavam, e recusados pelos sargentos por serem... "praças" - para as três frentes de guerra o recruta Rodrigues não ia escapar-se com aquela cantilena.
Cada recruta instalado no seu cubículo, à ordem de "fogo!" algo de espantoso aconteceu. As balas de uma das espingardas estavam a espetar-se no terreno metros à frente, nas barreiras ao lado e um berro de "Cessar fogo" fez calar o tiroteio.
Averiguada a situação, rapidamente o "senhor" Rodrigues foi identificado como autor da proeza. A Mauser foi-lhe sacada das mãos sem mais aquelas e lá se ouviu a lengalenga costumeira, a responder aos berros do Alferes "Você é doido ou está a fazer-se???!!!":
- Não bejo nada. Eu quero ir p´ra casa...
O "senhor" Rodrigues não se cansava de cantar a lengalenga.
O Alferes comandante do Pelotão relata a situação ao Comandante da Companhia, que ordena o regresso imediato do recruta ao Quartel, numa das viaturas de apoio. "Este assunto vai ser tratado, fica descansado!" garantiu o Oficial, rosto severo, cara de poucos amigos.
Pela tarde, a Companhia voltou ao quatel. A esperá-la, à porta da caserna, o Rodriques, óculos encavalitados no nariz, sorriso indecifrável, talvez manhoso.
No dia seguinte já não participou na instrução. Conseguira a tão desejada "guia de marcha" para se apresentar à Junta Médica Militar, lá no Hospital da Estrela.
Ainda estávamos no RI 5 quando voltámos a ouvir falar do "senhor" Rodriques. Segundo os seus conterrâneos, passeava-se, "numa boa" pelas ruas de Viseu. Da Junta Médica conseguira mais do que passar aos "serviços auxiliares". Ficava, então, a fazer parte das "tropas territoriais", numa situação parecida, na prática, com a disponibilidade. Melhor... com a Liberdade.
Muitos de nós só lá chegaríamos daí a cerca de três anos. Alguns, ainda menos afortunados, nem isso...
Que descansem em Paz. Não tiveram culpa e pagaram por erros de outros.
Texto baseado na memória das vivências do autor com nomes supostos e factos reais.
Fotos da Internet. Em baixo,
"Ó Laurindinha"
http://youtu.be/bdivJ1fD9s8

quarta-feira, abril 20, 2011

A Semana Santa... nos anos 50...


O cuco dava sinais de que a Primavera ia avançando no seu doce caminhar, em direcção às agruras do Estio.  O mês de Abril enchia de vida a terra, as águas e os ares. No beirado da Casa Grande, dezenas e dezenas de ninhos iam sendo construídos e habitados pelo amoroso laborar das andorinhas que eram muito exigentes no locais preferidos para terem os seus filhos. Sentir-se-iam mais seguras junto dos ricos?
Nas águas dos ribeiros e da Ribeira as rãs coaxavam noite e dia e nos silvados, freixos e salgueiros das margens os rouxinóis e melros cantavam ao desafio e tratavam de renovar gerações.
Os campos. Quase não havia ponta de terra que não estivesse ao serviço da Comunidade. As searas centeeiras, por montes e vales, ondeavam ao sabor da brisa como enorme oceano verde, parecendo fugir para os campos do vizinho. Lá bem no interior, as cotovias haviam de ter os seus ninhos e criar os filhotes, com as perdizes ali por perto, sempre temerosas que alguma cobra, lagarto ou raposa lhes fosse comer os ovos ou os perdigotos. O cantar da passarada encantava os ouvidos e adoçava a vida dura e pesada dos camponeses. Nos milheirais, semeados havia semanas, os pequenos caules iam dando aos campos aquele tom verde brilhante que enchia de esperanças renovadas o coração dos camponeses:
- Este ano é que vai ser. A Primavera não podia vir melhor!!!
Nas hortas, alfaces, alhos, ervilhas e favas davam já frutos e podiam ser servidas nas ceias dos nossos Aldeões, enquanto os batatais, os feijoeiros, as aboboreiras e todas os plantações da época iam fazendo pela vida. Aqui e ali já a merecer uma rega com a água tirada dos poços e da Ribeira, à força de braços musculados e rijos, ou nos alcatruzes das poucas noras puxadas por mansas burras, num rodar contínuo, sem conseguirem sair do "eterno" circuito, um esforço que enchia a terra de vida nova.
Por todo o lado, nos campos deixados de pousio bem necessário em terras tão fracas, os muitos rebanhos de ovelhas e cabras iam pastando na fartura efémera de uma Primavera fértil, para logo à noite, serem ordenhadas e darem o leite e o queijo para consolo de muitos e algum do dinheiro que se ia conseguindo nas vendas à Comunidade e para as praças das Cidades e Vilas vizinhas. Dali a pouco mais de um mês teriam lugar as tosquias de ovelhas e carneiros, dando a venda das lãs alguma folga nas economias bem administradas de cada criador.
Calhara "alta" a Páscoa, a Festa de Flores, como se designava na nossa Aldeia, a passar de meados do mês de Abril. Desde Domingo de Passos que as imagens da igreja haviam sido tapadas com panos pretos e roxos, acentuando ainda mais o aspecto de tristeza que se havia de sentir pelos sofrimentos de Cristo, a culminar na Sexta Feira da Paixão. Diarimente, o Pároco, raramente, quase sempre alguma alma mais piedosa ia recitando com alguns devotos, pelo anoitecer, as 14 estações da Via Sacra, ao redor do interior do templo, com meditação e oração junto de cada uma das cruzes - hoje há 15 quadros para uma Via Sacra a terminar na Ressurreição - com que se lembrava o sofrimento do Salvador no seu caminho de martírio para o Calvário. Um dos poucos meios de Evangelização em Português corrente.
Passara o Domingo de Ramos com a tradição habitual, muitas Crianças empunhando lindos ramos floridos, e aí estava a Semana Santa. Os trabalhos no campo eram reduzidos a "serviços mínimos". Alfaiates e costureiras davam os últimos retoques em fatos, saias, vestidos e blusas que haviam de dar brilho no cantar dos aleluias. Os sapateiros aprontavam umas botas ou reparavam uns sapatos que, por vezes, tinham dificuldade em adaptar-se aos pés de quem os encomendar. Os latoeiros aproveitavam para acabar as latas para doces, há muito encomendadas, mas que teriam mesmo de entrar num dos dois fornos com os bolos de leite, biscoitos, esquecidos, borrachões e até o "pão leve" havia de aparecer nalgumas mesas, aquando da visita pascal, de familiares e amigos. As duas mercearias tinham então um movimento desusado: açúcar, arroz, massa, canela e até alguma flanela, chita ou riscado para uma farpela de última hora. Os ferreiros aproveitavam a pausa do campo para consertar as ferramentas e instrumentos agrícolas e tlan-tlan dos martelos a bater no ferro em brasa ouvia-se por toda a Povoação. A casa nova que o João encomendara, com tanto sacrifício, para estrear por estes dias, não ia ficar pronta ,apesar do esforço dos pedreiros, carpinteiros e pintores da terra. Quase... quase, mas não ia lá receber as boas festas. Até as tabernas registavam um movimento desusado, nem sempre de boas consequências.
Não raro passava uma rapariguinha, já sol posto e cabras recolhidas, a apregoar "Vamos ó lete! Vamos ó lete" na esperança de que alguém lho havia de comprar.
As habitações eram reviradas para serem lavadas, caiadas, pintadas. As escadas e balcões de granito levavam tratamento especial, pois o Inverno deixara "mossa".
Toda esta agitação era seguida pela garotada em férias com o jogo, entre outros, do "engraixar, engraixar" que havia de "arrebentar" na manhã da Ressurreição e o mais "rápido" a mandar "rezar" havia de receber as amêndoas ganhas com tanto empenho, ao longo de toda a Quaresma.
 Depois, em Quinta Feira Santa, a celebração da Missa da Ceia do Senhor, durante a qual sinos e campainhas tocavam para se calarem até às 24 de Sábado Santo, dando lugar ao triste toque das matracas, seguida da Ladainha da Mulheres, em que as ruas se apinhavam de novos e velhos, homens e mulheres. Respeitava-se, em quase silêncio,  a Sexta Feira, silêncio quebrado pelo cântico de "Os Martírios" e em que, ao bater das três da tarde, todos os trabalhos paravam, as cabeças dos homems se descobriam e, por um momento, o pensamento se juntava à lembrança da Morte de Jesus.
A manhã de Sábado Santo era das mais afadigadas, trabalhos para terminar, bolos para fazer, pão para cozer, arranjar o galo que ainda vira a descendência nascer ou a galinha que, por capricho desconhecido, não punha ovos, ou punha menos do que a dona julgava merecer - qualquer desculpa servia, que festa é festa... - a corrida aos "talhos" locais ou da vizinha Aldeia do Bispo, o jantar (meio-dia) e a merenda para a Senhora do Incenso haviam de valer por muitas poupanças e muitos trabalhos. Sim, que um dia não são dias.
Depois, às 24 horas de Sábado de Aleluia, as alvíssaras com um Povo a cantar em uníssono com a sua Banda, percorrendo as ruas da Aldeia, anunciando a boa nova de Cristo Ressuscitado.
Na manhã de Domingo, olhos ensonados, havia a visita aos padrinhos para "bicas" e amêndoas doces.
Antes da Missa do dia, tinha lugar a Procissão da Ressurreição com Jesus Sacramentado, ao som de aleluias festivos. Pelo meio-dia, o jantar, (uma sopa de grão com massa ou uma canja, um naco de carne, um arroz aprimorado e uma salada maruja ou de alface e agrião, um púcaro de vinho) antecedia as boas festas pascais, com a campainha a tocar pelas ruas repletas de gente alegre e festivaleira que se deslocava de casa em casa, para estar com amigos e familiares, e em cada lar as felicitações do Pároco, em auspiciosas exclamações de
- Boas Festas, Cristo ressuscitou! Aleluia! Aleluia!
De tarde, havia que preparar a romaria da Senhora do Incenso. Também nesse tempo as donas de casa não tinham mãos a medir. Nem hora para descansar.
Texto da responsabilidade do autor, inspirado nas suas vivências e recordações juvenis. Foto tirada da Internet e "Os Martírios" são cantados por Amália Rodrigues.

terça-feira, março 29, 2011

Abril

Meu país de Abril,
Minha terra amarga com sabor a mel,
Onde penhasco é fraga e também alcantil,
E o Cão da Serra, o amigo mais fiel.
Meu mês de Abril, de esperanças mil,
Que em seu ventre gerou a revolução,
Quando um soldado, só ao Povo servil,
Ergueu a voz e num brado disse: - Não.
Águias e falcões sonharam no vento,
As leves andorinhas nos seus beirais,
Um novo querer, um novo pensamento,
Sem servos nem amos só homens iguais.
Ontem era a fantasia, hoje o desencanto,
Um pesadelo se fez o que era quimera.
Já não sei se canto, se choro o teu pranto,
Pois um frio inverno engoliu a primavera.
Quando se esperava um fulgente verão,
Que trouxesse o pão ao faminto Povo,
Mudaram os ventos e um gelado nevão
Pôs a nobre gente a mendigar de novo.
Homem da Serra



segunda-feira, março 28, 2011

A Bíblia em todo o seu esplendor: Jesus e a Samaritana


Evangelho segundo S. João 4,5-42.
Chegou, pois, a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacob tinha dado ao seu filho José. Ficava ali o poço de Jacob.
Então Jesus, cansado da caminhada, sentou-se, sem mais, na borda do poço. Era por volta do meio-dia.
Entretanto, chegou certa mulher samaritana para tirar água. Disse-lhe Jesus:
- Dá-me de beber.
Os seus discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos.
Disse-lhe então a samaritana:
- Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber a mim que sou samaritana?
 É que os judeus não se dão bem com os samaritanos.
Respondeu-lhe Jesus:
- Se conhecesses o dom que Deus tem para dar e quem é que te diz: 'dá-me de beber', tu é que lhe pedirias, e Ele havia de dar-te água viva!
Disse-lhe a mulher:
- Senhor, não tens sequer um balde e o poço é fundo... Onde consegues, então, a água viva? Porventura és mais do que o nosso patriarca Jacob, que nos deu este poço donde beberam ele, os seus filhos e os seus rebanhos?
Replicou-lhe Jesus:
- Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede; mas, quem beber da água que Eu lhe der, nunca mais terá sede: a água que Eu lhe der há-de tornar-se nele em fonte de água que dá a vida eterna.
Disse-lhe a mulher:
- Senhor, dá-me dessa água, para eu não ter sede, nem ter de vir cá tirá-la.
Respondeu-lhe Jesus:
- Vai, chama o teu marido e volta cá.
A mulher retorquiu-lhe:
- Eu não tenho marido.
 Declarou-lhe Jesus:
- Disseste bem: 'não tenho marido', pois tiveste cinco e o que tens agora não é teu marido. Nisto falaste verdade.
Disse-lhe a mulher: 
 - Senhor, vejo que és um profeta! Os nossos antepassados adoraram a Deus neste monte, e vós dizeis que o lugar onde se deve adorar está em Jerusalém.
Jesus declarou-lhe:
- Mulher, acredita em mim: chegou a hora em que, nem neste monte, nem em Jerusalém, haveis de adorar o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. Mas chega a hora e é já em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são assim os adoradores que o Pai pretende. Deus é espírito; por isso, os que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade.
Disse-lhe a mulher:
- Eu sei que o Messias, que é chamado Cristo, está para vir. Quando vier, há-de fazer-nos saber todas as coisas.
Jesus respondeu-lhe:
- Sou Eu, que estou a falar contigo.
Nisto chegaram os seus discípulos e ficaram admirados de Ele estar a falar com uma mulher. Mas nenhum perguntou: 'Que procuras?', ou: 'De que estás a falar com ela?'
Então a mulher deixou o seu cântaro, foi à cidade e disse àquela gente:
- Eia! Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz! Não será Ele o Messias?
Eles saíram da cidade e foram ter com Jesus.
Entretanto, os discípulos insistiam com Ele, dizendo: «Rabi, come.»
Mas Ele disse-lhes:
- Eu tenho um alimento para comer, que vós não conheceis.
Então os discípulos começaram a dizer entre si: «Será que alguém lhe trouxe de comer?»
Declarou-lhes Jesus:
- O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra. Não dizeis vós: 'Mais quatro meses e vem a ceifa'? Pois Eu digo-vos: Levantai os olhos e vede os campos que estão doirados para a ceifa. Já o ceifeiro recebe o seu salário e recolhe o fruto em ordem à vida eterna, de modo que se alegram ao mesmo tempo aquele que semeia e o que ceifa. Nisto, porém, é verdadeiro o ditado: 'um é o que semeia e outro o que ceifa'. Porque Eu enviei-vos a ceifar o que não trabalhastes; outros se cansaram a trabalhar, e vós ficastes com o proveito da sua fadiga.
Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram nele devido às palavras da mulher, que testemunhava: 
- Ele disse-me tudo o que eu fiz.
Por isso, quando os samaritanos foram ter com Jesus, começaram a pedir-lhe que ficasse com eles.
E ficou lá dois dias. Então muitos mais acreditaram nele por causa da sua pregação, e diziam à mulher:
- Já não é pelas tuas palavras que acreditamos; nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo.

quinta-feira, março 24, 2011

Medos na Aldeia 9

Almas do outro mundo...
Os gados eram recolhidos nos bardos, nos currais e nos palheiros, os últimos camponeses regressavam das tarefas campestres agora que o Inverno findava e os campos começavam a deixar-se trabalhar para as sementeiras e rebentação da Primavera: cavas, sachas, mondas, podas, lavras... lavar a roupa na Ribeira. Nas ruas, com a derradeira claridade da tarde que se finava, em sereno anoitecer, as Crianças brincavam e jogavam, até que o toque das Avé-Marias as metesse em casa, a rezar, em Família, muitas vezes quase "a deitar os bofes pela boca". O preceito havia que ser cumprido.
Por entre as telhas mouriscas das coberturas das casas saía o fumo das lareiras acesas com as vides e ramos das podas recentes, para a preparação das ceias, aquecimento e iluminação das cozinhas. A noite vinha caindo e, em breve, um escuro de breu havia de cobrir toda a povoação. Escuro de não se ver um palmo à frente do nariz. Depois... a pouca circulação nas ruas da Aldeia fazia-se tacteando o piso empedrado das ruas, adivinhando as esquinas e quase só por instinto e uma memória adquirida ao longo dos anos se caminhava, também com uma ou outra lanterna de azeite, candeeiro de petróleo, às vezes entre os rapazes uma ou outra lanterna de pilhas eléctricas. Ah! A electricidade. Lá se espreitava na Vila e em Aldeia do Bispo, deficiente qualidade, mesmo assim a valer mais que esta escuridão profunda e cheia de medos. Escuro nas ruas, escuro nas casas.
Pela hora da ceia já a escuridão era completa e os medos baixavam com ela.
Reunidos em volta da fogueira, refeição comida, o momento das conversas, a que muitas vezes se juntava a Ti Vicenta, a das "histórias do outro mundo".
Uma porta que rangia, "passos" num corredor que ninguém sabia explicar, um estrondo num forro de casa, o "gemer" de um barrote do telhado, de que se não estava à espera, um vulto que se conseguia vislumbrar na escuridão em que "nada" poderia ser visto, luzes a tremeluzir lá para os lados do cemitério, vozes e sons que não se sabia produzidos por quem nem por quê, palavras sempre palavras que a não terem explicação nos lobisomens nem nas bruxas - se é que havia explicação para estes, sempre mais "palpáveis" e "próximos"- então haviam de ser transferidos para a designação genérica de "almas do outro mundo". Sabia-se de quem tivesse tido com "elas" mesmo "contactos imediatos", de resultados mais que extra-terrestres. Tais histórias, sempre ouvidas com uma "certeza céptica", causavam respeito nos adultos e arrepios na espinha da garotada. Num mundo fechado e escuro  era melhor não arriscar: como nas bruxas, não se acreditava em almas do outro mundo, mas havê-las ... talvez houvesse.
Nem a opinião do António "Serraninho" desfazia a maior parte das dúvidas:
- Filhos, sempre que é preciso, ando por fora a qualquer hora da noite e nunca vi nada que não pudesse ser visto ou de que tivesse medo!
Mas, com aquela escuridão, como é que o Pai havia de poder ver TUDO?!
Talvez venha a propósito contar duas ou três histórias passadas no percurso entre as duas Aldeias vizinhas e que o Padre José Pedro, enquanto por aqui andou, quis que fossem "Aldeias Unidas", pelo menos no nome do jornal que fazia publicar, de dois em dois meses, ficando os cemitérios "velho" e  "novo" quase na berma da estrada que as une. Então vamos lá ver se conseguimos criar a "atmosfera" em que se vivia nos meados do século passado.
1. Era muito difícil que um rapaz da nossa Aldeia arranjasse namorada na de lá, pois a coisa podia "dar para o torto" e os Xendros não eram para brincadeiras. No entanto, lá se ia conseguindo um ou outro namorico, como aconteceu com o Tó Flor, que havia de acabar em casamento.
Ora numa noite mais escura que alcatrão, o nosso apaixonado, com o coração aos pulos, como sempre acontecia ao passar pelo cemitério, no regresso do namoro, com espanto, primeito, depois com verdadeiro susto, dá conta que das portas fechadas saíam chamas e clarões nunca antes  vistos. Afastando-se o mais possível para a berma contrária da estrada, "deu às de vila de Diogo", e só parou, a arfar e sem fala, entre os irmãos, na cama da modesta casa em que habitava, lá no Bairro de S. Miguel. E nem os carvões lá encontrados, à luz do dia, o conseguiram convencer de que não tivera um encontro com alguma coisa do outro mundo...
Motivo de risota, durante algum tempo, não se sabendo se a brincadeira esteve a cargo de algum Xendro despeitado - não creio nesta suposição, pois o resultado seria diferente... -  ou de algum "Cuco" amigo da brincadeira...
2. Em pleno Verão, após as ceifas, era famosa a colheita de trigo, no Vale Feitoso, lá para os lados de Penha Garcia. A única forma de o levar até à estação da Fatela - uns bons 50 kms. - para ser despachado em comboios de mercadorias, eram os carros de vacas e bois, lá pelo mês de Julho ... Agosto adiante. Entre os ganhões que entravam em tão espinhosa missão encontravam-se alguns desta Aldeia, que aproveitavam fazer as deslocações durante a noite, pela fresca, com os carros a levarem toda a carrada que os animais fossem capazes de deslocar. Um tormento, pois alguns tinham "mais olhos que barriga"... Não raro, ou eram os animais que não conseguiam ultrapassar as rampas da Fatela, cansados, já no fim de tão espinhosa jornada, ou era uma roda que já não aguentava mais. Enormes feitos de solidariedade aconteciam. Bons tempos, sob este aspecto!
De regresso, na noite seguinte, haviam de carregar os sacos de adubo com que as terras seriam fertilizadas, no Outono que lá vinha. Tempos bem difíceis para afugentar se ter algum dinheiro.
Dos vários itinerários possíveis, um atravessava a nossa Aldeia, pelo que o cemitério lhes ficava ali mesmo ao lado da estrada. De que se havia de lembrar um dos "Cucos"  para que a travessia fosse menos monótona e ganhasse alguma emoção? Embrulhado num lençol, em noites de luar,  quando os ganhões e o "carreto" iam passando no troço fronteiro ao "campo santo", vinha de lá  e ia pulando, estrada fora, de modo a causar algums "frisson" na caravana, até que desaparecia por entre o arvoredo. A situação repetia-se em cada noite e o "atrevido"  foi ganhando confiança até ficar bem perto dos que procuravam "ganhar o pão com o suor do seu rosto" e tinham pouca vontade para brincadeiras.
Ora numa dessas noites, um dos intervenientes, sorrateiramente, na "sombra" das vacas, foi-se aproximando "anda lá, Morena", "Ó Cereja, não tenhas medo" até que o "comediante" ficou ao alcance da vara com que cada ganhão conduzia a sua junta, na ponta da qual se encontrava um aguilhão de ferro bem afiado. Quando o "figurão" se pôs a jeito, o nosso António ferra-lhe a anca com força. O brincalhão deu um berro e desapareceu muito mais rapidamente do que aparecera. A situação ficou esclarecida, quando nos dias seguintes, o Zé Espanhol apareceu a coxear, nas ruas da Aldeia.
"Então eras tu?" ao que o brincalhão retorquiu "Então foste tu? Ferraste-me a anca com tal força que o sangue escorreu até ao calcanhar".
Durante muito tempo, o segredo ficou com os dois, selado num copo bebido ali na taberna do Ti Domingos.
3. Com a chegada da electricidade a Aldeia do Bispo, rapidamente apareceram por lá os primeiros cafés e a TV começou a estar ao alcance da nossa rapaziada, desde que se dispusessem a percorrer os 2 kms os "clientes" do objectivo.
Foi, pois, frequente, acontecer que os nossos jovens e adolescentes, em grupo, com Lua ou sem ela, fossem até AB para aprenderem a gostar de cerveja, quase sempre pouco fresca, e para tomarem contacto com um mundo novo que a televisão, ainda de má qualidade e com muitas interrupções, lhes vinha  pôr ao alcance. Foi assim que aproveitaram para ver, sem sectarismos, o Benfica ganhar duas taças europeias, ao Barcelona e ao Real Madrid.
Diga-se, pois,  que, sobretudo com bom tempo, a malta se habituou e estes passeios se tornaram frequentes. Durante 5 anos. A passagem pelo cemitério era obrigatória e de respeito e o silêncio prevalecia. Não fosse o alegre vozear daquela malta acordar quem estava a descansar...
Aconteceu que já o cemitério fora ultrapassado, a meia noite batera no relógio da torre quando, ali junto ao chafariz, sob as enormes faias que balizavam a estrada,  um se lembra de perguntar:
- Quantos anos terá o cemitério "novo"?
- É pá! 25, talvez. Mas a data está lá escrita...
As opiniões dividiam-se até que o Nando, dos mais novos, se oferece:
- Pronto! Para tira-teimas eu vou lá ver a data que está na porta. Agora mesmo!
- Não és capaz! E ainda te empresto a minha pilha. - diz um dos companheiros.
- E eu pago-te um pirolito! - garante o Jorge.
- Deixa ver a pilha. Que o pirolito já está ganho! - garantiu.
- Mas só mesmo para leres a data... - explicitou o da lanterna.
- Está prometido.
O Nando volta atrás e o resto do grupo, em manifesta falta de solidariedade, mas também para ver do que o rapazinho era capaz, seguiu para a Aldeia.
Frente à fonte, onde o grupo se  detivera para esperar o resultado, são apanhados pelo Nando, que nem se dera ao trabalho de vir em grande correria.
- A data que está lá escrita é... 1931!!! Tem 29 anos, portanto...
Na manhã seguinte ainda havia quem tivesse dúvidas e lá foram tirá-las.
O Nando ganhara o pirolito. E o Jorge, esá bem de ver, pagou.
Notas: "Erva cidreira" também é nossa, bem interpretada por um Rancho ribatejano; a foto é da colecção do FB de AJP, de José Luís Caria Santo. O texto narra situações escutadas ou vividas pelo autor, com personagens autênticas ou inventadas, com o tratamento que entendeu por bem dar-lhe.

sexta-feira, março 18, 2011

No dia do Pai


Poema para um "Ser especial"
O Enigma
Basta um minuto para fazer nascer...
Basta um olhar para se adorar...
Basta um gesto para se compreender...
Basta um sorriso para activar a esperança...
Basta um ouvir para determinar...
Bastam suas mãos para acariciar...
Basta um beijo para tudo acalmar...
Basta um "colinho" para suspirar...
Basta perceber para estar presente...
Basta um abraço para matar a saudade...
Basta acreditar para ser "Especial"...
Basta a dignidade para cantar Vitória...
Bastam três letras para se decifrar...
Basta um minuto para se saber o que é:
Ele é fado... é canção... é poema... é verdade...
é respeito... é inspiração...
 é humildade... é coragem...
Ele é simplesmente o sangue
que nos corre nas veias...
que transvaza num amor sublime...
Ele é única e simplesmente...
PAI!
Dedico este meu poema a todos os pais do Mundo
Maria de Fátima Iria
in "Jornal do Pinhal Novo" de 15mar2011 - Foto in Internet

quarta-feira, março 09, 2011

Quaresma: a caminho da Páscoa e da Ressurreição!

Quarta feira de Cinzas 1
"Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris".
"Arrependei-vos e acreditai no Evangelho!
 Amén!"
Comentário ao Evangelho do dia feito por São Pedro Crisólogo (c. 406-450), Bispo de Ravena, Doutor da Igreja.
Sermão 8.
Os exercícios da Quaresma: a esmola, a oração, o jejum.
Meus irmãos, começamos, hoje, a grande viagem da Quaresma. Levemos, pois, no navio, todas as nossas provisões de alimento e bebida, colocando sobre elas a misericórdia abundante de que teremos necessidade. Porque o nosso jejum tem fome, o nosso jejum tem sede se não se alimentar de bondade, se não se dessedentar com misericórdia. O nosso jejum tem frio, o nosso jejum desfalece se o velo da esmola não o cobrir, se a capa da compaixão não o envolver.
Irmãos, a misericórdia está para o jejum como a Primavera está para os solos: o suave vento primaveril faz florescer todos os rebentos nas planícies; a misericórdia do jejum faz brotar todas as nossas sementes até à floração, fá-las encherem-se de frutos até à colheita celeste. A bondade está para o jejum como o óleo está para o candeeiro. Tal como a matéria gorda do óleo alimenta a luz do candeeiro e, com tão pouco alimento o faz brilhar para o conforto de toda a noite, assim a bondade faz o jejum resplandecer: lança raios até atingir o brilho pleno da continência. A esmola está para o jejum como o sol está para o dia: o esplendor do sol aumenta o brilho do dia, dissipa a obscuridade das nuvens; a esmola que acompanha o jejum santifica a santidade do mesmo e, graças à luz da bondade, remove dos nossos desejos tudo o que poderia ser mortífero. Em suma, a generosidade está para o jejum como o corpo está para a alma: quando a  alma se retira do corpo, traz-lhe a morte; se a generosidade se afastar do jejum, é a morte deste.

domingo, fevereiro 20, 2011

Medos na Aldeia 8

A Guerra do Ultramar 2
"Para Angola e em força", a frase proferida por Oliveira Salazar a 13 de Março de 1961, para responder aos ataques feitos sobre os colonos brancos e boa parte da população negra da maior das então Províncias Ultramarinas.
Um esforço desmesurado vai ser imposto ao País, em meios materiais e sobretudo, humanos.
Grande parte dos nossos Jovens, Adolescentes e até Crianças, naquele célebre dia daquela célebre frase, nem de longe nem de perto pôde alcançar de que maneira o seu futuro imediato e a curto e médio prazo havia de ser desenhado, sem que lhes fosse pedida qualquer opinião. Salazar mandava, o Povo não discutia, como sempre acontece nas ditaduras.
Desde Fevereiro de 1961 havia tropas mobilizadas para desembarcarem semanas depois no porto de Luanda. As condições para as receber eram de todo impróprias: nem instalações, nem armamento, nem fardamento, nem equipamento, nem preparação e treino militar. Nem motivação política ou patriótica. A grande maioria não sabia por que ia combater nem por que ia matar ou morrer. De repente, jovens lares acabavam de ser desfeitos, esposas sem marido, crianças sem pai, noivas sem noivo... parafraseando Fernando Pessoa.
Com o intensificar da guerra em Angola e a abertura das hostilidades na Guiné e em Moçambique foi imposta à Nação uma dolorosa sangria, com centenas e centenas de companhias e batalhões de combate,integrando o melhor de Portugal, a sua gente moça e generosa.
Depois de uma pequena esperança de que a guerra em Angola não passasse de pequenas escaramuças se ter esvaído, com as mobilizações para a Guiné e Moçambique, nós, os jovens e as nossas Famílias começámos a dar-nos conta de que alguém nos metera numa coisa que nenhum desejava, a quase certeza de uma mobilização geral para irmos matar ou morrer, nalguns casos as duas coisas, numa idade em que só queríamos viver,  divertir-nos, ser felizes e despreocupados. E a lutar por ideais que dificilmente percebíamos, pois ainda houve alguma esperança de a guerra fosse apenas um meio de pressão para criar condições políticas para as independência e não um tormento sem fim que ia deixando de rastos o melhor de nós, os nossos jovens.
Falo por mim e creio interpretar o sentir da grande maioria dos que foram jovens comigo: não queríamos guerra, não queríamos ir para a guerra, não queríamos matar "terroristas" nem, queríamos ser mortos por esses mesmos "terroristas" .
Com o aproximar dos 20 anos, as inspecções militares em que toda a GENTE (menos cegos, surdos e coxos) era apurada para todo o serviço militar, quer nos interessados quer nas famílias o medo da convocação para o serviço militar obrigatório era mais que evidente. Apesar de haver tropas especialistas em que apenas eram admitidos "voluntários" - comandos, rangers, paraquedistas e fuzileiros navais - era bem evidente que não queríamos a guerra e, muito menos, participar nela. Depois, findas as comissões de cerca de 24 meses, começaram a chegar menos do que foram, alguns metidos em caixões, outros com deficiência físicas e psíquicas notórias - mesmo os que aparentavam estar bem vinham marcado com sequelas que podem ter durado até aos dias de hoje. Na visão e na compreensão de tal desgraça tenho por mim que a maioria da nossa juventude temia a guerra e só participava porque era obrigada.
A certa altura, quando os mais esclarecidos começam a sentir que nada daquilo fazia sentido, sem intervenção política e negociações de paz, dá-se o princípio da deserção que, no entanto, nunca chegou a ter números verdadeiramente significativos. A grande maioria optava, contra vontade, por embarcar, sofrer, lutar e, com sorte, voltar com honra. Assim pensávamos. assim agíamos, com medo, claro, com medo corajoso, se é que faz algum sentido. Dezenas de nomes tornam-se rotineiros: Cais da Rocha Conde de Óbidos, Cais de Alcântara, navios Niassa, Índia, Infante D. Henrique, Vera Cruz, Príncipe Perfeito, Moçambique... marginal de Luanda, Grafanil, Nanbuanbongo, Pedra Preta, Negage, Marginal de Lourenço Marques, Tete, Niassa, Rovuma, Wiryamu, Dili, Bijagós, Ilhéu das Rolas... Walters, G3, Uzi's, morteiros, bazookas, napalm, lança-chamas, canhões com e sem recuo, morteiros de 60, 81..., ração de combate, "golpe de mão", catanas, canhangulos, minas... E também massacre, morte, invalidez pensões de sangue... FNLA, FRELIMO, UNITA, UPA, PAIGC... com gente muitas vezes interessada só no seu próprio interesse. Havia de ver-se!!!
Choros e gritos de dor e sofrimento nas partidas. Choros e gritos de alegria, não para todos, nas horas dos regressos e dos abraços. Para o bem - ainda havia mobilizações de "encher o olho", dois anos de férias em S. Tomé ou Cabo Verde - e para o mal: sofrer, lutar, matar, morrer, fome, sede, calor, febres, mosquitos, vacinas, aerogramas, madrinhas de guerra, fotografias, saudades, "ressuscitar", regressar. E ficar lá, vivos e mortos.
Teve a guerra um significado positivo para as populações dos territórios ultramarinos: abertura de estradas, construção de escolas e hospitais, integração de antigos combatentes que optavam por não regressar à Metrópole, desenvolvimento da economia, nomeadamente da agricultura, da pesca e de algumas indústrias.
A dada altura pensa-se que a população branca das Províncias Ultramarinas poderia rondar um milhão de pessoas, com dezenas e dezenas de milhar de mestiços e  milhões de Negros, uns "convertidos" às teses de Salazar, continuadas por M. Caetano e outros verdadeiramente comprometidos numa independência política, social e económica para as suas terras, os seus países. Independência total. Com todas as consequências até as lutas fratricidas que levaram muitos dos mais entusiastas independentistas a refugiarem-se e a acabar os seus dias na velha Metrópole, com reformas pagas pelo Estado Português. E muitos outros milhares só não fugiram porque não puderam ou não deixaram e acabar vítimas de vinganças e ódios mais violentos que a própria Guerra Colonial. 
O 25 de Abril era inevitável, como foi ou como poderia ter sido. Impossível a País pequeno e com dificuldades em encontrar "carne para canhão" que a guerra pudesse ser continuada. Treze anos de duração foi já quase um "milagre". "Milagre" doloroso!
Pena foi que a Revolução dos Cravos, à medida que o tempo passava, "descambasse" ainda em mais medo, mais mortes no velho Ultramar, mais sofrimento. Que perdura até hoje. 
E, entre nós, não garanto que a "Democracia" em que agora vivemos não nos traga mais medos que a ditadura em que fomos mandados para a guerra: despedimentos arbitrários, desemprego, pobreza, fome, medo, mentira, subserviência, oportunismo, compadrio, nepotismo, favorecimentos, corrupção descarada, Educação..., Justiça...! "E uma Juventude à Rasca", sem conseguir vislumbrar qualquer luz ao fundo do túnel...
Que nos resta hoje? Já não há o medo de ser apurado para o SMO, de ser incorporado na recruta e especialização, em terras até então desconhecidas de muitos e que tanto podiam ser Tavira, Serra da Carregueira, Lamego, Tancos, Santa Margarida, Castelo Branco, Beja, Setúbal, Santarém, Vendas Novas... como Serra do Pilar, Viseu, Mafra ou Aveiro, em cujos quartéis se formavam as companhias e batalhões com "miúdos" quase imberbes e que haviam de ser largados no vasto sertão ou no denso matagal africano. Cheios de medo, uns chorando, outros envergonhando-se de o fazer, pois "um homem não chora"...
..
De uma Juventude louca e ingénua dos anos 60 restam, hoje,  velhos alquebrados.  Ainda muitos a curtir medos e outros a sentir saudades, saudades do que viveram, saudades do que não lhes deixaram vivver, saudades dos que não voltaram, ou voltaram para não contar.
Hoje, quem compreende porque e para que se fez esta guerra? A guerra é um flagelo e quase sempre a pior escolha. Nós, os que estamos vivos, enquanto o pudermos fazer e nos deixarem fazê-lo devemos tornar viva a memória daquela vidas em flor que foram sacrificadas ainda tão cheias de esperança, mal sentindo estarem a "cumprir o seu dever". Inclinemo-nos, respeitemo-los e saibamos preservar o que de bom nos deixaram, o sentir de uma Pátria que foi grande. E hoje tão pequena quão pequena é a pequenez da alma, da moral, da competência, da ética, do sentido de Estado e de Justiça, a tempo e horas, dos seus governantes e demais responsáveis de outros órgãos de soberania.
Depois que ao toque da alvorada se ergam vivos e mortos para celebrar o esplendor de Portugal.

Medos na Aldeia 7

A Guerra do Ultramar 1
As últimas guerras que haviam devastado a Europa e grande parte do Mundo iam caindo no esquecimento, a vida na Aldeia decorria monótona e sempre igual, com poucos momentos de festa e muitos de trabalho. A Criançada enchia largos e ruas e a escola nova tranbordava de garotadas a querer aprender. Os pais começavam a ter a certeza de que só a Escola livraria os filhos daquela "má vida" e faria a diferença entre um passado de servidão e um futuro com Esperança.
No alvorocer da década de 50 já o Seminário poderia ser uma porta de entrada - porque não de saída? - para uma maneira de encarar a vida que não fosse só trabalhar para os ricos.
Lá vinham as férias grandes, com o mês de Agosto/Setembro chegavam os "papa.figos" e os parentes da Aldeia, os tios e os primos, começavam a meter na cabeça que o arado e a enxada não eram tudo. Seriam até um impecilho para agarrar uma outra vida a que já aspiravam.
Com a chegada do Padre José Pedro, essse Homem de grande visão no anúncio do Evangelho e na promoção da pessoa, o ensino particular vem preencher o que o Estado não fora capaz de fazer: Escola para todos. Ou quase! A que se segue a gente a vestir melhor, calçar melhor, comer melhor. Sem luxos de espantar.
Mesmo no dealbar da década de 60 há dois acontecimentos que serão fracturantes e determinantes no futuro da(s) Aldeia (s): o início da Guerra do Ultramar e a Emigração.
Embora a Emigração tenha mudado de maneira muito acentuada a vida das gentes do nosso Interior, levando ao estado em que hoje se encontra, abandonado e desértico, as remesssas dos emigrantes permitiram que o aspecto dos nossos povoados mudasse radicalmente, nem sempre da melhor maneira e que as pessoas se habituassem a um nível de vida nunca antes sequer sonhado, pois dinheiro não faltava, mas a economia definhava, para chegar ao estado em que hoje a encontramos: morta.
No entanto, se o medo de emigrar bateu a muitas portas, normalmente levado de vencida, não é sobre este que vou reflectir, pois as consquências da Emigração foram mais positivas que negativas no desejo de se alcançar uma vida melhor para quem trabalhava e para os filhos.
Mas a guerrra!!! A guerra, um dos maiores flagelos que em todo o tempo vem afligindo a Humanidade!
De costas para a Europa, Salazar acreditava ser possível construir uma sociedade multirracial e pluricontinental que fosse do Minho a Timor. Era-nos ensinado, na Escola Primária, que a maior altitude de Portugal se chamava Ramelau, lá por terras da Oceânia e que o maior rio a regar terra portuguesa se chamava Zambeze. Qualquer menino ou menina para fazer exame da 4ª. Classe, nos seus 11 aninhos, tinha de saber rios, serras, afluentes, caminhos de ferro, capitaias, limites, cidades, produções, climas, montanhas, distritos, províncias, portos e praias e tanto se lhes pedia que os localizasse da Europa como na Ásia, na Áfria ou na Oceânia. E ainda com uma passagem pelas Américas, de onde se devia saber, pelo menos, que no Brasil se falava Português, que fora descoberto por Pedro Álvares Cabral, que a capital era o Rio de Janeiro, cidade onde habitara a Corte e até tivera Imperador...
Ainda hoje fico impressionado com o saber das nossas Crianças em dia de exame da 4ª. classe. Lá em Penamacor.
Portanto, "politicamente", a Nação estava preparada para se manter una e indivisível, quando se estava mesmo a ver que nem era una nem era indivisível.
Chegara a altura de as grandes potência coloniais começarem a dar a independência às suas colónias, normalmente colocando no poder governantes quase sempre de confiança dos ex-colonizadores, com grande apoio militar, político e técnico das antigas metrópoles. Quase sempre esses governantes se tornaram em tiranetes e ditadores, perpetuando-se no poder até à morte ou sendo apeados em golpes de força militar. Nalguns casos- Biafra, Katanga... - os interesses africanos nada tinham a ver com os dos imperialismos que ali se degladiavam pelos seus interessses estratégicos e económicos.
Não só perante a desgraça que se via nos novos paises "independentes" de África, mas também por cegueira política e falta de capacidade de diálogo com os movimentos independentistas das agora chamadas Províncias Ultramarinas, Salazar e a sua "corte" decidem que as novas independências eram inogociáveis e que Portugal seria sempre do Minho a Timor, como se vinha ensinando segundo o Programa Oficial para as Escolas. Decisão que, menos de duas décadas depois, se havia de revelar uma enorme desgraça. Homens como Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Eduardo Mondelane teriam que ser pedras basilares para que tanto a longa guerra e as consequentes sequelas pós 25 de Abril fossem evitadas e Angola e Moçambique, em ponto grande, as restantes Províncias, em ponto pequeno, se tornassem, verdadeiramente sociedades multirraciais justas e fraternas.
Mas o destino fora traçado, em 1961, 4 de Fevererio, com a eclosão do "terrorismo", em Angola, início da guerra colonial e anexação de Goa, Damão e Diu pela União Indiana, em Dezembro seguinte.
Fixemo-nos no que vai doer mais e era perfeitamente evitável, a Guerra Colonial.
De repente, jovens que haviam crescido sem a mínima ajuda do Estado Português, a não ser, para uma minoria, o acesso à Escola, em condições mais que deficientes, vê-se mobilizada, com uma fraca preparação militar de 3 ou 4 meses para uma luta de guerrilha, e embarcada, nas piores condições, com destino a terras que não conheciam nem queriam conhecer, lançados em matas quase impenetráveis, no meio das piores condições de sobrevivência e num grande sofrimento. Com a morte de muitos, do "nosso" lado e do lado "deles". Aos que caíram, de ambos os lados, sem saberem porquê nem para quê. E aos que sabiam porquê e e para quê deixo a minha homenagem neste  pungente toque de silêncio. (Para continuar)


Histórias de outros tempos... escritas por outros 1


Corria o ano de 1954. Era dia de 5ª-Feira Santa, 15 de Abril. Eu e a maior parte dos garotos da minha idade só pensavávamos em fazer as lanternas para levarmos na "Ladainha das Mulheres".
A Ladainha é uma espécie de procissão que se realiza na Aldeia todas as 6ª-feiras da Quaresma e à qual só têm acesso os homens. As velas eram substituídas por pinhas secas a arder, espetadas num pau. Na 5ª feira Santa, realiza-se a chamada "Ladainha das Mulheres" esta aberta a toda a população. sem diferenciação de sexos.
Aqui não entravam as pinhas, mas sim as velas e as lanternas. Estas eram formadas por uma roda de cortiça, um cilindro de papel branco e uma cana. A roda servia de base ao cilindro. Na superfície lateral do cilindro eram colados os símbolos da Paixão: a cruz, a lança, os cravos, a coroa de espinhos, o cálice a hóstia. Os ornamentos eram feitos de papel vegetal colorido, geralmente tirado dos envelopes das cartas que, na altura, eram forrados.
Este material era-me fornecido, geralmente, pelas primas Lai, Irene e Arminda. ( Aqui fica a minha gratidão.)
Eu, com a ajuda do meu irmão, lá fiz a minha e se não era a mais bonita, havia verdadeiras obras de arte, não seria também a mais feia das que seguiram no cortejo nocturno.
Às 8 horas, a matraca tocava a última para ladainha e eu já «estava em pulgas», pois o pai ainda não tinha ceado e não queria chegar atrasado.
Às oito e meia, estava Igreja cheia e o ti Iná e o ti Foduchas deram início aos canticos e preces. Da igreja seguimos para o Espírito Santo e lá ia eu orgulhoso da minha lanterna.
Porém, uns mariolas dos mais velhos já tinham "lançado os dados" sobre ela e, naquele ano, a minha lanterna era  uma das que estava condenada a arder.
Entre rezas e cantos chegámos à capela. Eu estava acompanhado pelo meu pai e pelo meu padrinho.
Um dos rapazolas que estava em cima do coreto mirou o alvo, "tirou os azimutes" e disparou, mas como devia ser fraco a matemática os cálculos foram mal feitos e a pedra, em vez de acertar na lanterna, acertou no centro da testa do portador.
O sangue saíu em repuxo. A lanterna caiu no chão e ardeu, enquanto o dono era levado a casa da Srª D. Maria, onde foi sustida a hemorragia e posta uma ligadura a volta da cabeça..
Passei a Páscoa com um galo na testa.
O meu padrinho, o Sarra, afirmava que só podiam ser aqueles.
A minha mãe preferia não falar mais nisso. Nunca se soube quem fora o autor da proeza.
Estamos no ano de 2009, é 5ª-Feira Santa, dia da "Ladainha das Mulheres". Estou à conversa com uns velhos amigos e um diz-me:
- Ó Fernando, faz hoje anos que parti a cabeça ao teu irmão...
- Qual ao meu irmão?!!! Foi a mim!
- Foi a ti?! Eh pá, passei a vida convencido que tinha sido ao teu irmão.
-Já passou. Só resta um pequeno sinal na testa.
-Podia ter sido uma chatice. A malta quando é garoto não pensa.
E rimos os dois, 55 anos depois...
O «Sarra» não estava enganado, em parte. Era um dos do grupo mas não aquele em que ele pensara.
Homem da Serra