quarta-feira, junho 16, 2010

Baile na Aldeia 2

Primeiro duas, depois três e quatro e cinco, as raparigas corriam as ruas da Aldeia, de braço dado, desafiando-se para “Vem connosco até à Fonte”. Roupas catitas, limpas e garridas, cheirando a sabão e a lavado na água da Ribeira, meias bordadas à mão, moldando pernas bem feitas, lenços floridos atados atrás das nucas onde se adivinhavam tranças bem penteadas e apanhadas com ganchos, soltavam exclamações e risadas, num vozear alegre e feliz que enchia as nossas ruas, como o fumo tomara conta delas nas longas e frias noites de Inverno. Mas agora ali estava a Primavera, em todo o seu esplendor. Lindas. Às dúzias! Nem as casadas escapavam a esta euforia que havia de durar a tarde inteira, lá na estrada alcatroada. "Tenho de acadajar o Garoto!" - lamuriava-se uma jovem mãe, o corpo a pedir festa. "A Avó toma conta dele!"...
Na verdade, do Bairro da Mocidade, do Cimo da Aldeia, de S. Miguel, do Ferrador, do Centro … elas e eles iam chegando. A primeira roda formava-se quase a medo, só raparigas. De mãos dada lá começava uma a dar o tom e o mote:
- Raparigas cantai todas,
Rapazes cantai com elas;
Que não haja um dizer
Nem nos rapazes nem nelas.
Os rapazes, sempre mais acanhados e “brutos, iam-se entusiasmando. Batiam nas mão delas para que abrissem a roda e “deixa-me entrar”. E outro. E outro. Depois … ainda não havia casamentos “homossensuais”. Mesmo que fosse preciso dançar em pares de duas... tudo era consentido. Sem meias nem dúbias intenções nem comentários descabidos, numa sociedade que vivia quase em estado de Inocência. Pares de dois é que não. Aqui o preconceito era bem forte. Ou apenas a tradição.
Formavam-se pares de mais ou menos “interessados”, uns com vista “ao futuro”, a maior parte para aquele momento. O presente. O canto, afinado desde o nascimento de cada um pelos acordes da Banda, era ali posto à prova. E que boas provas dava. Batiam-se palmas, estalavam-se os dedos, agitavam-se e davam-se braços, passava-se de mão em mão, ou de par em par, num rodopio estonteante de corpos viçosos, cheios de vida.
- Castelo Branco é vila,
Penamacor é cidade,
Aldeia barquinho d’ouro,
Onde embarca a mocidade.
Ou
- Lá vem aurora, lá vem, lá vem….
De madrugada, que graça tem;
Lá vem aurora, lá vem lá vinha,
De madrugada que graça tinha.
Ainda aquela roda não aquecera e já, ao lado, outra se formara. Que não queria ficar atrás. E trouxera “artilharia”. Dois adufes tocados por mãos ligeiras e que punham o grupo num vendaval de movimento, cor e som. Aquele dançar “a direitos” ao som ritmado de um tam-tam, que só voltei a ouvir em África, punha os corpos suados e excitados, balançando para cá e para lá,
- Aldeia de João Pires,
Ai! Ricotão, ricotão… tão ...tão…
Lindo cantinho da Beira
Ó ai! Ó ai! Ai! Ricotão.. tão… tão … ó ai ricotão!
De entre as terras do Concelho
Ai! Ricotão, ricotão… tão ..tão
É de todas a primeira.
Ó ai! Ó ai! Ai! Ricotão.. tão… tão … ó ai ricotão!
Ou ainda outra:
- Pum-pum ao redol,
meu bem como o sol…
Canta o pintassilgo,
mais o rouxinol.

Aquela quadra, das mais ouvidas, servia de refrão a um grande número das cantigas de roda…
- Aldeia de João Pires,
Lindo cantinho da Beira,
De entre as terras do Concelho,
É de todas a primeira.

Quando chegava o Tó do Realejo, uma nova roda se punha a girar. Das de “agarrar”. Como a “malta” preferia. Avós e mães à espreita. Quando não os pais. Aos “avanços” de algum mais “atrevido” lá se fincava o cotovelo direito da rapariga no peito do moço, que ela não “era de brincadeiras”. “Divertir sim, gozar não”. Depois era como se fosse o último baile da vida daquela gente que sentia que o corpo não era para descansar. E nem só de sacho e enxada, de charrua ou de arado se vivia na Aldeia.
E se viesse o Zé do Pífaro haveria ainda uma nova roda. Um novo baile, por onde homens e mulheres, casados e solteiros, rapazes e raparigas, garotos (que, sempre travessos, preferiam dar uma palmada ou um beliscão…) e garotas entravam, num corrupio de cantares e dançares, a fazer esquecer as agruras de uma semana que tão próxima ainda estava e de outra que já tão depressa se achegava.
- Alecrim, alecrim aos molhos….
Por causa de ti choram os meus olhos…
Ai meu amor quem te disse a ti
Que a flor do campo era o alecrim.

Lá muito de longe em longe passava um automóvel e o(s) baile(s) não parava(m). A música continuava, arredavam-se os dançarinos para a berma da estrada, os passantes arregalavam os olhos de espanto e… sorriam. Quem sabe se com vontade de também entrar na roda.
Ainda outra:
- Onde vai com seu sapatinho, olaré!
Onde vai com seu lindo pé!
Mata aranha, serranita,
Mata aranha, se tu és bonita!
Mata aranha, olaré,
Mata aranha com seu lindo pé!!!

- Ó Tio Fernando, cheguei a contar quatro bailes naquele espaço de quase 200 metros de alcatrão…
- Olha, sobrinho, e eu cheguei a ver e a dançar, ali, NUM só baile, a ocupar todo aquele espaço, embora nem todos cantassem e dançassem a mesma música… - respondeu-me o meu Tio, já este ano, nos seus 85 anos, uma das memórias vivas da nossa Terra, com um sorriso de saudade. E se ele tinha pé para a festa!
- Olha a triste viuvinha
Que anda na roda a chorar!
É bem feita, é bem feita,
Não acha com quem casar .

ou
- Viva o nosso ranchinho,
Viva e torna a viver,
Um ranchinho com’ó nosso,
Não o há nem pode haver.

E mais:
Eu pensava que a margaça.
Era nome de mulher;
A margaça é má erva,
Nem os animais a quer(em)

Ainda:
Maria da Conceição,
Ó que palavra tão doce,
Dava-te o meu coração,
Se o teu ao meu fiel fosse.

Muitos destes cantares acompanhavam os trabalhos do campo e tinham épocas próprias, coreografias adaptadas, sem grandes diferenças de localidade para localidade. Os mesmos cantares, adequadas as danças, ouviam-se pelas aldeias, em redor.
- O senhor do meio julga que é alguém…
É um macaquinho que nem barba tem…
- Valverde, Valverde, Valverde ladrão,
Rouba agora a moça que é a ocasião.
- Já cá vai roubada, já cá vai na mão,
Já cá vai metida em meu coração…
A camioneta da carreira, que marcava o aproximar das sete e meia, nem sempre dava sinal de que a festa ia acabar. No entanto, cada um dos membros desta fantástica comunidade sabia que o “vimos da festa” se aproximava, a passos largos. Melhor era voltar para casa. As “Avé-Marias” haviam tocado – um “invejoso” que não sabia dançar até o fizera “mais cedo” – o baile parara para todos rezarem, uns de verdade, outros nem por isso – e dali p’ra frente já não seria a mesma coisa. Até porque “os amigos do copo”, para quem a “festa” fora outra, nas tabernas ali à volta, começavam a dar “sinais” de si, geralmente de “má catadura” ou "com mau vinho", e melhor era ir cada um à sua vida. Coitadas das mulheres e dos filhos que haviam de os aturar.
Quanto sofrimento o “maldito vinho” causou, entre nós… Pois, nem sempre os filmes acabam bem para todos.
Cantigas e saudades? Muitas... Impossível deixá-las aqui todas.
Então… e o instrumento dos instrumentos de baile, a concertina não havia?
Ah! Era preciso pagar e não podia ser todas as semanas. E então a nossa Banda não punha o Povo a dançar? Oh! Se punha!!!
Veremos em episódios a seguir…
2 fotos por especial deferência de João Paulo Fidalgo.

Baile na Aldeia 1

Aquele mês de Maio de meados da década de 50 do século XX estava a ser igual a tantos outros. Tudo o que era campo havia sido cultivado ou, em período de pousio, ocupado por rebanhos e rebanhos de ovelhas e cabras, em demanda da pouca pastagem que ainda por lá havia.
A Escola, com duas enormes salas, era insuficiente para acolher todas as Crianças da terra, que apenas poderiam começar a frequentá-la com sete anos completos no dia em que as aulas reabriam, a 7 de Outubro. Dois professores para cerca de uma centena de alunos nem era tarefa que se desejasse. Um bom número acabava por desistir e a percentagem de “chumbos” andava acima dos 30%. Não era raro ver, na Vila, rapazotes "a mudar a voz" e a fazer exame da 4ª. Classe, a caminho dos … 14 anos.
Nos campos não faltava que fazer, muito poucos trabalhando o seu próprio bocado, grande parte vivendo dos arrendamentos, e os restantes como jornaleiros das casas maiores ou dos rendeiros, numa exploração, até hoje não interrompida, do homem pelo homem.
As searas haviam deixado de “correr” pelos campos, no mês de Abril, empurradas pelos ventos suaves assemelhando-se a um mar verde a querer fugir para o terreno do vizinho e começavam a tomar o aspecto dourado, a indicar que o mês do S. João chegaria breve. Aqui e além, nos poucos trigais que se semeavam na nossa terra, um pouco mais atrasados que os centeios, as mondadeiras haviam-se esforçado por arrancar as ervas ruins, tentando que a colheita valesse a pena, enquanto entoaram os seus cantos tristes e dolentes. Agora, os milhos, semeados nos fins de Março e primeiros dias de Abril, verdejavam os campos, os mais atrasados numa primeira volta para a sacha e os mais adiantados já em fase de “aterrar” para que as raízes adventícias encontrassem o alimento que podiam dar algum sentido aquele trabalho, feito de “terças”, num esforço quase sempre ingrato e de retorno mais que incerto. Mesmo assim, aqui e ali se ia ouvindo, arrancado lá bem do fundo da alma, para que tão penoso trabalho menos penoso se tornasse, o canto de quem daquele penoso viver se não podia libertar:
- Mondadeiras do meu milho,
Mondai o meu milho bem.
Não olheis para o caminho,
Que a merenda já lá vem.
Aqui e além, nos sítios mais frescos e húmidos, pois rega não haveria, os ganhões e as suas juntas de vacas, sob a canga e puxando a charrua e a grade, iam semeando aqueles terrenos com alguma garantia de que o feijão pequeno mataria muita fome, no duro Inverno, que haveria de chegar, andasse por onde andasse. Ao longo da Ribeira e em volta dos poços que a ladeavam, pois o “sangue” daquelas terras passava muito por ali, apareciam as hortas a merecer todo o cuidado para que as alfaces, o feijão catarino e o feijão manteiga, os tomateiros, os pimenteiros, os alhos, as cebolas, as melancias, os melões e as abóboras pudessem compensar, de algum modo, o esforço que de todos era exigido. De todos mesmo, velhos e novos, homens e mulheres, quase desde o nascer ao pôr-do-sol, de segunda a sábado, com a reconfortante sesta, na hora do maior calor, ali à sombra de uma oliveira ou de um sobreiro. Quase sempre... no chão.
As hortas eram regadas de manhã ou à tardinha, os feijoeiros e tomateiros encanados, a água tirada “à burra”, raro sendo ouvir-se uma nora no seu t'lem-t'lem, puxada por mansa jumenta, a percorrer quilómetros e quilómetros, de olhos tapados com um velho casaco, ao engano, sem sair do mesmo sítio.
Os batatais ocupavam uma parte significativa do terreno de regadio. Leiras e leirões. De vez em quando, o “mal-murcho”, hoje o bem conhecido míldio, fazia das suas e lá se podia “ir ao ar” o esforço de uma época, começando-se a ter o saber de que o cobre e a cal podiam alcançar efeitos benéficos na “cura” de tão nefasto azar. Também nas belas e viçosas vinhas, que alegravam os nossos campos, à volta das quais apareciam, na época, frondosos castanheiros. Pela primeira vez, com importação da batata de semente lá das Américas, se viram batatais destruídos pelo "escaravelho da batata" a que se acudiu com o famigerado DDT, o primeiro grande atentado ecológico a vitimar os nossos campos e as nossas culturas.
O Sol escorria para detrás da Serra para as Águas, quando uma parte da população regressava ao Povoado para uma ceia frugal e um descanso merecido e necessário. Havia quem ficasse a dormir lá pelos campos, em choças e cabanas, condições bem precárias, para um melhor aproveitamento do tempo, podendo até trabalhar-se à luz da… Lua ou logo de manhã, bem cedo, pela fresca. Mas, na Aldeia, os homens, acomodados os animais, passavam pelas tabernas e os rapazes aproveitavam para umas voltas pelas ruas, provocando aqui e ali o sossego dos mais pacatos, nada que não estivesse bem dentro dos limites de um respeito que não tinha discussão: o direito de cada um descansar, em paz. As mulheres, as crianças e as jovens não tinham grande hipótese de andar fora de casa, a não ser até ao lusco-fusco para irem buscar água à fonte, passarem pela casa dos avós, ou fazerem uma compra tardia, numa das "lojas", às escondidas da Guarda.
Durante a tarde de cada dia, quase todas as Crianças, ao saírem
da Escola, se haviam dirigido aos locais de trabalho dos pais para ajudarem na guarda dos animais que pastavam, encaminharem a água nas regas, entreterem os mais pequeninos… ou nem que fosse para estarem “debaixo de olho”. Não era tempo para facilidades. Não havia drogados e os fumadores eram poucos. Quase nunca jovens. Gentes desta Aldeia na cadeia seria uma raridade e a Autoridade dos pais era aceite, quase sem discussão, para bem de miúdos e graúdos.
De segunda a sábado o tempo sucedia-se monótono, sempre igual, apenas aliviado na esperança do desejado domingo, bem diferente, o sétimo dia, aquele em que até Deus precisara de descansar.
À “última” para a Missa dominical, pelas 10 horas, como que regatos de água a confluírem para o lago, a população da Aldeia encaminhava-se para o adro da igreja, mulheres com blusa e saia de “ver a Deus”, lenço na cabeça e xaile pelos ombros e homens, barba feita, camisa e calças lavadas, casaco e chapéu, mesmo que o calor já se fizesse anunciar... A celebração não tinha aquele rigoroso cumprimento de horário dos nossos dias e começaria quando o velho padre José Maria chegasse. Vindo de Aldeia do Bispo, no seu manso e também velho cavalo.
À volta do templo, formavam-se grupos discutindo …. gados, sementeiras, hortas, pastos, searas, ajustavam-se negócios, combinavam-se trabalhos. Muitas das actividades eram feitas em acordos de “toma lá dá cá” ou “eu vou p’ra ti e tu vais p’ra mim”. A “moeda” que mais circulava era a força daqueles corpos secos e musculados, mãos calejadas, sempre prontas para mais um esforço.
Quando o sacerdote se preparava para subir ao altar, o sacristão dava um último toque de campainha para que os homens entrassem, uma vez que as mulheres já se haviam acomodado o melhor possível, apertadas e sentadas no chão, desfiando as contas do rosário. A celebração, em Latim, padre de costas para o Povo, que enchia o então pequeno templo, dava azo a que mais rosários fossem desfiados e a que os homens, lá no coro alto, fossem "passando pelas brasas" e só a homilia, o “sermão”, era ouvido e entendido com o agrado de alguns e o desagrado de muitos, pois “o padre está sempre a meter o nariz onde não é chamado…”
O jantar de pobres, pelo meio-dia, não era tão pobre como no resto da semana. A Família juntava-se à volta da mesa, se fosse caso de a haver disponível, normalmente na cozinha, acontecendo, nalguns lares, comerem todos da mesma vasilha, que podia ser um grande alguidar de barro. E era dia do feijão grande, do grão, uma talhada de farinheira ou de chouriça, um bocado de toucinho. Às vezes só um sabor a cebola sobre a pratada de feijão pequeno, azeite a fugir e umas azeitonas. Ou nem isso. Dizer “não gosto”, “não quero” ou “não me apetece” causaria tanta admiração como ouvir-se, hoje, “não gosto de gelado”, “não brinco com a consola” ou "não quero o telemóvel". À uma hora, a refeição estava despachada, muito mais vezes por defeito do que por virtude.
Fotos in Infiernitum.com e em http://www.geocaching.com/, by Diogo112, com especial pedido de deferência.
 

terça-feira, junho 01, 2010

Saldanha Sanches, um Homem, ou o Amor vence a Morte!

Despedida eterna
Zé Luís:
Começámos esta tua última viagem (tu gostavas de viagens) na cama 56 dos serviços de cirurgia 1 do Hospital de Santa Maria.
Lia-te poesia e um dia parámos neste poema da Sophia de Mello Breyner:
”Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A Força dos teus sonhos é tão forte,
Que tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias”.
Assim foi.
No teu visionário e intenso mundo, a voracidade de um cancro traiçoeiro não te consumiu a alegria, a coragem, a liberdade.Entraste pela morte dentro de olhos abertos. O mundo que habitavas era rico de ideias, de sonhos, de projectos, de honradez e carinho.Percebemos o que ia acontecer quando no fundo do teu olhar sorridente brilhava uma estrela de tristeza. Quando te deixava ao fim do dia na cama 56 e te trazia no coração enquanto descia a Alameda da Cidade Universitária a respirar o teu ar da Universidade, das aulas e dos alunos que adoravas, do futuro em que acreditavas sempre.Foste intolerável com a corrupção, com os cobardes e oportunistas. Não suportavas facilidades. Resististe à sordidez, à subserviência, à canalhice disfarçada de respeitabilidade e morreste como sempre viveste - livre.Uma palavra para aqueles que te acompanharam nesta última viagem: para os melhores médicos do mundo, para as melhores equipas de enfermagem e de apoio, num exemplo de inexcedível dedicação ao serviço médico público. Vivi com emoção diária o carinho com que te cuidaram.Uma palavra de gratidão sentida para o Professor Luis Costa e Paulo Costa. E para um velho amigo de sempre o Miguel. Também para Laura e para o Jorge e para a minha mãe e toda a família que nunca te deixou.Por fim uma palavra para aqueles amigos que inventaram uma barricada contra a morte no serviço de cirurgia 1, cama 56, e te ajudaram a escrever, a pensar, a continuar a trabalhar: o João Gama, o João Pereira e senhor Albuquerque, cada um à sua maneira.Suspiraste nos meus braços pela última vez cerca da 1,15 da madrugada do dia 14 de Maio.Vai faltar-me a tua mão a agarrar na minha enquanto passeávamos e conversávamos.Provavelmente uma saudade ridícula, perante a força do exemplo e da obra que nos deixaste e me foi trazido por todos aqueles que te homenagearam – a quem deixo a tua eterna gratidão.Tenham a coragem de continuar.
[16.05.2010 - Maria José Morgado]
A um Homem que muito admiro, pois da "lei da morte" se libertou!

terça-feira, maio 25, 2010

Ir e voltar...

A viagem decorrera com tranquilidade, céu limpo, muito azul, lá em cima, as nuvens abaixo de nós deixando aqui e além ver pedaços dessa Europa mergulhada em crise. À aproximação do nosso destino, parecia que um mar de algodão em rama tomara conta do espaço, causando alguma tensão o penetrar da enorme aeronave naquela espuma que nos “cega” e deixa atarantados. Depois, furado o “tecto”, já o Reno nos mostra os seus meandros, misturando-se, nas suas margens, o casario bem ordenado, os campos bem tratados e o verde a cobrir quase toda a terra. Uma paisagem deslumbrante, à volta da deslumbrante cidade de Colónia.
Sabíamos que estariam lá os três,
filhos e neto, na saída, à nossa espera. Se a recepção dos mais velhos não traria novidade, generosa e pronta, o encontro com o pequeno Tomás deixava-nos alguma apreensão. Afinal, o mês de Agosto já passara. Há muito. E, esta idade, nove meses são "muita fruta".
Mas, pronto, estava jogada a sorte. Não apenas sorte, pois os contactos, via internet, haviam de dar uma ajuda. Afinal, não éramos tão desconhecidos assim, o Skype vai tornando as distância menores.
Escarrapachado no pescoço do Pai, o nosso Neto destacava-se naquele mar de gente, tão habitual nas salas de espera dos grandes aeroportos. Vimo-lo, mal entrámos no corredor de saída. Agitação dos adultos, de ambos os lados. E ele a olhar-nos, a estudar-nos, a fixar-nos. Depois… foi o milagre que só o Amor pode fazer: abraços, beijos, pegar ao colo, exclamações de alegria, como se naquela sala não houvesse mais ninguém.
Foram perto de 40 kms até ao destino, a casa dos nossos filhos. A chegada deu-se sem sobressaltos, mais campos verdes, searas a perder de vista, no meio de outras culturas. Estes Alemães não brincam em serviço. Trabalham mesmo. Assim, ver aqueles terrenos tão férteis e tão bem tratados encheram a minha alma de nostalgia. Esta veia de camponês durará enquanto tiver entendimento.
Não conhecíamos esta casa, um salto em frente dos nossos Filhos, para a grande aventura de terem casa própria. Deu para perceber, logo nas primeiras horas,
que a decisão fora bem meditada e a escolha acertada. Nos dias seguintes, com o jardim virado a Sul e com tudo o que fomos observando, quase desejámos morar também ali. Numa Aldeia alemã, tão diferente e tão parecida com as nossas aldeias. Diferente porque cheia de vida, as casas habitadas, muitas Crianças, gente que mexe e que vive, ruas planas e limpas, viaturas arrumadas, casas ajardinadas, não há campos ao abandono. Parecidas porque as pessoas são corteses, há boas relações de vizinhança, o sossego é total, sente-se a "proximidade" e até na torre da igreja os sinos vão anunciando as horas e as meias-horas e convidando à oração e à meditação, de manhã, ao meio-dia e à tarde. Fiquei impressionado com esta constatação, bem no coração da rica e laboriosa Alemanha.
O que pareceria ser uma semana normal, acabou por não acontecer. Cada dia passava mais depressa que o anterior, o envolvimento com o nosso Tomás era cada vez mais profundo e conhecê-lo, melhor, voltar a conhecê-lo foi uma experiência sempre maravilhosa, sempre renovada. Apesar de haver mais cinco Netos, cada um deles é diferente e tem espaço próprio no coração dos Avós. Nenhum substitui os outros.
Para além das refeições, a convivência era quase constante, com intervalos para dormir. Passear por estradas magníficas, visitar jardins tão bem tratados, rever as enormes searas de cevada, ajudar um pouco na reinstalação na nova moradia. E cantar ao Tomás, brincar com o Tomás, ouvir as gargalhadas do Tomás. Sempre meigo. Bem disposto. Amigo.
Os dias começaram a ficar cada vez mais curtos e a hora da despedida galopava ao nosso encontro.
Voltar ao aeroporto foi mais dever que prazer. A própria Criança sentiu isso, no abraço final, quando se “agarrou” aos Avós. Não sabemos porquê, mas ele “percebeu” que aquele adeus era diferente… Quem nunca teve de se despedir daqueles a quem quer Bem?
Todos gostamos de voltar a “nossa casa”.
A pequenina Leonor, que o Tomás ainda não conhece, estava a esperar os Avós. A sorte de ter muitos netos! Também ela não queria acreditar que os voltava a ver e passava-nos as mãozinhas pela cara para ter a certeza de que não era ilusão.
Um dia, o Tomás e a Leonor vão brincar juntos. Sob o nosso olhar! Terei de pôr-me de joelhos e exclamar:
- Obrigado, Senhor!


segunda-feira, maio 17, 2010

A merenda - 2

Todo o rebanho se encontrava à sombra das oliveiras, as cabras deitadas na terra nua e as ovelhas, de pé, focinho rente ao chão. O sol brilhante enchia o espaço e o calor abrasava. O ar “tremia” em "deslocações" contínuas. Um coelho, passou, lesto, a caminho da represa para se dessedentar. Lá bem no alto, como que a flutuar, um casal de cotovias tentava fugir do calor que a terra reflectia. Abrigado, com o bando, ali ao lado, numa moita de giestas, um perdigão dava sinais de si com o seu cantar tão conhecido das pessoas de campo. A cigarra não largava a sua cantiga, parecendo bem satisfeita com o Verão que culminava. Aqui e além, um ou outro piar das aves que se abrigavam nas sombras das figueiras e nos silvados. Nada que se comparasse com a festa da manhã…
Os garotos não deram grande importância à bolsa vazia e à merenda comida. Como o Pai lhes recomendara, a sua sombra estava bem pequena e devia ser meio-dia, pelo que o fim da tarde havia de chegar bem depressa. Então não ouviam a Avó Emília dizer-lhe que “quem não come por ter comido não tem mal de perigo”?!
Ora brincando, ora sentados nas pedras que os pastores usavam para descansar, mais inquietos que sossegados, idades próximas, raramente estavam separados e o entendimento era quase perfeito. Haviam bebido água nas fontes por onde foram passando e ali mesmo a 50 metros estava uma delas. Com o coucho, por onde todos bebiam. Um enxaguar rápido com a água fresca e cristalina e estava pronto para outro….
De vez em quando, um ou outro bando de pássaros procurava abrigo naquelas árvores, mas o “arraial” instalado depressa os fazia desandar.
As brincadeiras foram esmorecendo e até podiam aproveitar para dormir um pouco. Como lhes dissera o Pai. Lá estava a cama de fetos e restolho para ser aproveitada. Mas uma crescente inquietação começava a perturbar o dia que até nem correra mal. Ouve-se a voz do mais novo:
- Mano, tenho fome….
- Olha, a merenda acabou-se. E já falta pouco para voltarmos…
A sombra, nesse dia, nunca mais começava a crescer. Medida mais do que uma vez, mas sempre do mesmo tamanho.
- Olha lá. Também tenho fome. Se quiseres ficas com o gado e eu vou buscar de comer. - sugeriu o mais velho.
- Não posso ir eu?!
- Não que podes perder-te. Não sabes o caminho…
A fome foi o elemento decisivo para que ambos se pusessem de acordo. O mais velho ficava e o mais novo teria de percorrer, Sol a pino, em dois sentidos, o caminho que os separava da almejada refeição.
Estavam a começar a jantar, quando o Pai exclamou:
- Ó Carminda, há qualquer coisa que não corre bem. Os gaiatos separaram-se e um deles vem p’ra cá…
Do outeiro onde a casa de campo fora construída avistava-se uma área enorme e a quebra do padrão definido para aquele dia não lhe escapara. A ansiedade tomara lugar à mesa e uma eternidade se foi passando.
O gaiato, pé ligeiro, sem estar confinado ao caminho que o rebanho tinha de seguir, foi “a direito”, tanto se servindo das veredas tão típicas das nossas terras como, se fosse necessário, prosseguindo, a corta mato, por restolhos e olivais.
Ainda os adultos se interrogavam sobre o que teria acontecido e já o pequeno, rosto vermelho, "queimado" por aquela “solina” de Julho, todo suado, pulava o muro da Tapada, passando ao fundo do valado, pela figueira “preta”, rente à eira e ali estava ele, a “deitar os bofes pela boca”, impedido de responder à Mãe que, desde que o sentira próximo, não se cansava de perguntar:
- Ó filho, o que é que aconteceu???!!!
O gaiato atingira a meta. A tão grande ansiedade, apenas conseguiu responder:
- Venho buscar mais merenda!!! Estamos cheios de fome...
Primeiro sentiu-se o espanto – afinal, os garotos “nunca” tinham fome… - depois ouviu-se uma gargalhada geral, à mistura com abraços e beijos. Era só isso?! Que alívio, uff!
Dadas as explicações, era preciso voltar. Não sem que a criança "tratasse" da sua própria fome, enquanto a Mãe preparava nova remessa.
Saca aviada, aí volta ele para junto do irmão. Que, lá de longe, quase seguira, passo a passo, a caminhada do seu companheiro de trabalho: ansioso, quando desaparecia nas “baixas” ou no meio do arvoredo, aliviado quando o via reaparecer.
Não lhe escapara a chegada do mensageiro junto dos Pais e, com enorme alívio, o viu partir em sua direcção. Depois, era uma questão de esperar. Uma espera maior do que pensou, quando o irmão iniciara a sua missão.
O tempo cura tudo. Ou quase. O miúdo tinha o pé ligeiro e ali estava ele. Não resistiram a correr um para o outro. A partilha foi fraterna. Na verdade, afinal, tinham menos fome do que haviam pensado.
Satisfeitos, mais um gole de água, o Sol a cair para o lado das Águas e toca a empurrar as ovelhas e as cabras. Para completarem a volta ao pasto.
A passarada voltava a dar sinais de vida, aqui e ali ouviam-se chocalhos e campainhas de outros rebanhos. Às vezes, o assobio dos pastores, ou o ladrar furioso da canzoada. Que não havia maneira de se entender.
De vez em quando, mais um coelho saltava, assustado, desaparecendo, rapidamente, em zigezages estonteantes. Agora, as cotovias estavam mais à vontade e aqui e ali iam debicando. E cantando.
A tarde caiu vagarosamente. Sempre quente. Os miúdos matavam a sede nas fontes e os animais iam beber nas charcas. Depois, sempre avançando, sempre pastando.
Fez-se o mesmo caminho, no inverso, para o regresso. Não iam sós. Mais à frente, o Manel com os animais do Ti Bernardo e atrás, o Rui, com os do Ti Candeias. Na horta do Ti Joaquim, carregavam-se sacos de batatas para cima de uma burra e a Avó paterna regava a horta, ajudada pela filha mais nova.
- Olá, Avó! Olá Tia!
- Então hoje foi a vossa vez?
A ribeira fora atravessada no “pontão” e o destino estava ali, a dez minutos.
A poeirada era mais que muita. Pressentindo o fim da jornada, os animais aceleraram. Já a sombra dos eucaliptos e das sobreiras se estendia pelos campos, quando receberam os aplausos dos adultos que atavam os sacos e os colocavam sobre o carro de vacas que os havia de pôr a recato para matarem a fome num ano longo que ali começava.

sábado, maio 15, 2010

Adeus, Prima Otília!


Neste momento faz a sua última viagem até à nossa Aldeia. Para ficar lá, onde estão também muitos dos que lhe quiseram bem. A quem quis bem! Acabou o sofrimento. Descanse em Paz, minha grande e querida Amiga. Por todo o bem que me fez, que nos fez aqui lhe deixo o meu sentido agradecimento, já com muitas saudades. Descanse em Paz, querida Prima Otília.
Conheci-a desde que me comecei a conhecer. Mais que Prima era a irmã que a minha Mãe não teve. E, assim, o carinho por nós foi crescendo, com toda a naturalidade. Foi a Madrinha do meu irmão e, para completar, assumiu-se também como "madrinha" da minha irmã. Lembro sempre o seu sorriso doce e sereno, ao encontrar-se comigo, ao encontrar-se connosco. O tempo foi passando, o casamento chegou e também o Marido, o Domingos, que a Morte levou cedo de mais, nos "adoptou". O nascimento da Gabi enriqueceu-os, mas a Amizade e o Carinho por nós nunca esmoreceu. Aumentou mesmo. Corações grandes, abertos, acolhedores!
Já na tropa, de passagem pela Trafaria, era a sua casa que me abrigava, na passagem por Lisboa. Ali, na Ajuda. Sempre generosos e bons.
Devo recordar que, em 27 de Maio de 1966, no Cais de Santa Apolónia, a caminho do Ultramar, no NM "Niassa", a Prima Otília ali estava, sozinha, em representação de TODA a Família, a dizer-me um "até daqui a 2 anos".
Foi ainda a sua casa que se abriu para acolher a minha filha, no princípio da sua vida universitária. Ainda hoje guarda de si também a mais doce lembrança.
As vicissitudes da vida quiseram que não estivéssemos tão perto quanto a minha gratidão e amizade impunham. No entanto, recordarei que a tivemos nesta casa ainda não há um ano. Sei que lhe foi difícil a deslocação, mas a generosidade foi mais forte. Com ajuda da Gabi e do João. Que tanto lhe quiseram. Vou partilhar a saudade com eles. E com as suas netas. E com tantos dos que ainda cá estão e lhe quiseram bem. A quem quis bem!
Foto com alguns dos Irmãos, pessoas de quem gosto muito, e da casa onde nasceu e cresceu, colocadas pelo sobrinho João Paulo, in Facebook.

quinta-feira, maio 13, 2010

O Homem Vestido de Branco

De facto, eu penso que "não é justo" que Deus peça a um Homem de 83 anos que transporte o fardo pesado fardo de "chefiar" a Igreja Católica em tempos tão conturbados, para os quais a Mensagem de Fátima nos vem preparando, desde há quase 100 anos e Jesus Cristo, desde há 2000 anos, quando nos convidou "...pega a tua cruz e segue-Me".
O nosso Papa, Bento XVI, um Homem de estudo e de reflexão, dado à espiritualidade e à contemplação, estou convencido de que desejaria não ter sido "o Escolhido". Mas foi e aceitou. Com todas as consequências, a menor das quais não será o escândalo do abuso de Crianças por sacerdotes da nossa Igreja e com que o comunicação social tem feito um enorme alarido, tomando a parte pelo todo, visto que só apontou canhões à "ponta do iceberg". Julgo que ninguém tem os olhos fechados a ponto de ignorar que o resto do iceberg é medonho e a sociedade continua a assobiar para o ar.
Como pai, como avô, como profissional da educação interrogo-me, sempre com angústia, como é possível contaminar seres tão puros e inocentes, as Crianças que, num verdadeiro Acto de Fé se entregam àqueles que se julgam dignos de tomar conta delas: os pais, os avós, os professores, os padres e qualquer outro responsável que disso seja encarregado por função do ofício que desempenhe. Abusar, de qualquer modo, de uma Criança, é crime abominável que deve ser punido à luz das leis humanas e divinas. Por determinação do próprio Jesus - "ai daquele que escandalizar um destes pequeninos; mais lhe valera que lhe pusessem uma pedra de moinho ao pescoço e o lançassem no fundo do mar" - os clérigos que cometeram tamanho pecado hão-de ser, por isso, castigados. Aqui e na outra vida. Bento XVI há-de ter mão forte e misericordiosa, pois Deus abomina o pecado e ama o pecador e, desta crise, a Igreja há-de ressurgir purificada, mais forte e dinâmica. Como ele afirmou em frase notável, os verdadeiros inimigos da Igreja estão dentro e não fora dela.
A respeito da visita devo escrever que ultrapassou todas as minhas expectativas: homilias serenas e consistentes, nada apontando para "facilidades", um homem sorridente e afável, nunca dando sinais de enfado, mesmo na sua velhice e cansaço mais que justificado. Os debitadores de idéias e preconceitos "à la carte", sem conhecerem o Homem nem a Obra "a meterem a viola no saco", de certeza enraivecidos, porque o Povo não lhes fez a vontade e saíu à rua com Entusiasmo e Alegria.
Obrigado, Santo Padre por ter querido estar connosco. Igreja Portuguesa, que sejas digna de tamanho privilégio!
Nota: Já depois de ter escrito o meu despretensioso comentário, com satisfação transcrevo do "Expresso" de 15-05-2010, da autoria de Fernando Madrinha:
"O Papa que não sorria
Este era o Papa que, segundo os seus críticos, não condenava os casos de pedofilia na Igreja Católica com a clareza necessária, apesar de já o ter feito repetidas vezes. Na viagem para Lisboa, afirmou 'O sofrimento da Igreja vem do interior da Igreja, dos pecados que existem na Igreja'. Mais 'O perdão não exclui a Justiça'. Isto para quem ainda tivesse dúvidas, ou estivesse para as inventar, sobre o modo como Bento XVI entende que devem ser tratadas as 'ervas daninhas' da sua Igreja. Este era o Papa retrógrado e fundamentalista, supostamente intolerante para com as outras religiões e os que não têm religião alguma. No Centro Cultural de Belém, disse; 'A convivência da Igreja com as outras 'verdades' e com a 'verdade' dos outros é uma aprendizagem que a própria Igreja está a fazer'. Este era o Papa enquistado na sua fé, conservador, passadista e, portanto, incapaz de promover o diálogo inter-religioso e de fomentar o ecumenismo. Afirmou, a propósito; 'O diálogo, sem ambiguidades e assente no respeito entre as partes envolvidas, é hoje uma prioridade no mundo, à qual a Igreja não se subtrai.' E ainda sobre a diversidade cultural e a relação entre culturas. 'É preciso fazer com que as pessoas não só aceitem a existência da cultura do outro, mas aspirem a enriquecer-se com ela.'
São exemplos de como, nestes dias da visita a Portugal, Bento XVI passou o tempo a desmentir os mitos, as falsidades e os juízos errados que muitos críticos encartados põem a correr sobre ele e sobre o seu pensamento.
Este era também o Papa que não sorria, incapaz de um gesto afectuoso e de estabelecer empatias com as audiências. Mas vimos como se dirigiu aos jovens na Nunciatura e como eles lhe responderam, vimos como as multidões o receberam no belíssimo palco do Terreiro do Paço, no impressionante cenário de Fátima e na Avenida dos Aliados, ou como o aplaudiram no Centro Cultural de Belém. Compreende-se que tudo isto irrite os que detestam o Papa e o que ele representa. Mas enquanto não lhes for possível o Povo, esse empecilho que trava o passo na política e nos seus esforços para derrubarem os Valores que a Igreja defende - muitas vezes de modo incoerente, é certo, e não raro contraditório com a prática de alguns dos seus membros - têm que ter paciência. Eles, que são criaturas perfeitas e exigem uma Igreja perfeita, embora só esta que combatem assanhadamente e não outras bem menos tolerantes, o que têm a fazer é meter a viola no saco."
Também Henrique Monteiro, na sua coluna de opinião, no mesmo Semanário, nos dá uma idéia dos preconceitos e das "frases feitas" que servem para atacar Bento XVI...

segunda-feira, abril 26, 2010

A merenda - 1

O mês de Julho daquele 1953 decorria bem quente. Como de costume. Em direcção aos “calores da Santa Maria Madalena”, dizia-se em Aldeia.
Os milheirais, animados com as salvadoras “trovoadas de S. Pedro”, de que tanto dependia a vida da nossa gente, para o tudo e para o nada, cobriam vastas courelas e o seu produto havia de ser resgatado, depois de regado também com “sangue, suor e lágrimas” lá mais para depois da Ascensão. Sempre o calendário religioso a marcar a vida dos nossos camponeses. Nem havia outro. “P´lo Santo António”, “p’lo S. Pedro”, “p’lo S. Miguel”, “p´los Santos…” “lá p’ró Santo André”…
Os centeios haviam sido cortados e transportados para as eiras, aguardando a sua vez de passar pela malhadeira, quando não eram debulhados pelos manguais empunhados por gente valente, de “antes quebrar que torcer”, ao som de “Vai… vai… coradinha, vai… vai…”
À volta das eiras, bandos de rolas recolhiam os grãos caídos para a sua própria subsistência e para alimentarem as crias instaladas nos ninhos espalhados pelos sobreirais e pinhais, em volta. O seu alegre “trrutruu” era música para embalar bebés e animar os trabalhos bem pesados, pois o cantar do cuco já se fora, com a subida da temperatura de um Verão como tantos outros: quente e incerto nos resultados.
Os restolhos ocupavam uma grande parte dos campos aráveis da Freguesia e os rebanhos entravam por ali dentro, numa época em que alimentar tantos animais era uma forte “dor de cabeça”. As hortas vicejavam em redor dos poços e ao longo da Ribeira. Os batatais começavam a amarelecer, as flores das batateiras haviam dado lugar a frutos que ninguém comeria e os tubérculos estavam prontos para se arrancarem de debaixo da terra e serem armazenados na frescura das lojas, lá na povoação, ou debaixo da sombra quente das sobreiras ou das oliveiras.
A Escola havia fechado, dias antes, a catorze, com os exames da 4ª. classe a decorrerem, em Penamacor, até ao fim do mês.
Por isso, quase toda a garotada, já em férias, acompanhava os pais para o campo, alguns para tomar conta dos irmãos mais pequenos, outros para darem uma ajuda na “formação” para aquela “triste vida”…
O trabalho era muito e os braços poucos. E o dinheiro para contratar a mão de obra que escasseava, nesta época… era ainda mais escasso.
Estava então decidido que as batatas tinham de ser arrancadas naquela terça-feira. Os dois pastores haviam sido “conversados” para “alinharem” num trabalho mais pesado, sem dúvida. De enxada. Todo o dia. E os garotos é que tentariam levar o rebanho à pastagem, na Tapada da Barroca, a caminho do Salvador, distante quase dois quilómetros do “campo” onde “assentavam arraiais”, desde Abril até aos Santos.
Mal o Sol despontara, lá do lado da Senhora do Cabecinho, sentiu-se que o calor havia de fazer “estragos”, e os dois gaiatos foram levantados da cama pela Mãe, com a voz doce com que sempre os acordava:
- Vamos, filhos, têm de ir. Aproveitar a fresquinha. Vai fazer muito calor…
- Ó Mãe, tenho tanto sono…
- Vá. Depois dormem a sesta… quando o gado estiver a “rodear”. E logo à noite deitam-se mais cedo…
- Ó Mãe…
A muito custo, saltaram da cama, passaram a cara pela água fresca trazida da mina e, ainda pestanejando, com pouca vontade, foram petiscando do almoço geral, sem mimos nem esquisitices.
Num saco de pano, que a Mãe entregou ao mais velho, estava a merenda que havia de dar para alimentar os filhos até ao fim do dia. Simples, como tudo era simples, naquele tempo. Pão amassado lá em casa e cozido no forno público, azeitonas, queijo, um bocado de toucinho. Uma navalha, que o mais velhomanipulava com alguma destreza. Receber a navalha das mãos do Pai era uma prova de maturidade, de confiança. Da primeira autonomia. Poder usar navalha, era das maiores aspirações dos candidatos a rapazes. Depois, conseguir partir fatias de pão, sem encostá-lo ao peito... A água seria bebida, bem fresca, nas límpidas fontes a escorrer das fendas dos enormes blocos de granito, os barrocos.
Ao verem a bolsa com a merenda, os miúdos desataram numa lamúria.
- Mas vamos levar isso tudo? Nós não temos fome. Não somos capazes de comer “tanta coisa”!
- O que sobrar… trazeis…
O Pai começava a ficar impaciente com as demoras. O rebanho devia estar já a caminho. E perto do destino, pelo menos. Com o calor, as ovelhas iam “amarrar” para debaixo das sombras, sem se alimentar. O que não seria bom para a “cobrição” das muitas das fêmeas, algumas já prenhas, com maior êxito nos animais melhor alimentados.
Habitualmente calmo, quase desesperava, quando o rebanho passou o portão de ferro, pintado de preto, da Tapada da Eira, a caminho do seu destino, levantando nuvens de poeira, com o dlim-dlim das campainhas e o dlão-dlão dos chocalhos, em diversos tons. Aqui e além viam-se outras nuvens de pó provocadas por outros rebanhos, todos à procura do mesmo, quase sempre com crianças a tomar conta. Que grande aflição passar um rebanho pelo outro, em caminhos estreitos e conseguir que ambos ficassem completos. Com carneiros de mau feitio, a marrarem-se ferozmente, podia acontecer que um deles morresse. Ou os dois. Chegou a acontecer.
Pelo caminho, no “chão” dos pais, tomado de renda, o João ajudava a mãe na rega da horta. O pai era carpinteiro e ficara a pregar tábuas, na povoação. Logo a seguir, o guiava a junta de burro e vaca que puxava o charrueco com que o Ti Vicente tentava lavrar um recanto, lá no seu campo também arrendado à Casa Grande. Para um melancial mais tardio? Ou a tentar uma leira de feijão pequeno, que talvez ainda desse?
- Mano, vai lá a frente, ali junto ao "chão da Rosa Esteves", e não deixes o gado seguir para a Tapada do Cabeço. Vamos para a da Barroca.
O Avô paterno represara a água da Ribeira e encaminhava-a pelas levadas, pelo que regava “a pé” o milheiral que se estendia nas margens do curso de água que lhe atravessava o seu melhor terreno. Um luxo. No custo e na ecologia, embora ninguém conhecesse esta palavra. Admirado, aos ver o "cortejo", inquiriu destes dois dos seus muitos netos a razão de tamanha responsabilidade.
- Até logo, Avô!
- Tenham juízo… recomendou na sua reconhecida gaguez, depois de satisfeita a sua curiosidade.
Aqui e ali os melros saíam dos silvados ou dos salgueirais e rasgavam o espaço em voos rápidos e esquivos. Ainda o calor não apertara e a passarada fazia pela vida, numa caça constante aos insectos que esvoaçavam. Tentilhões, pintassilgos, felosas, andorinhas, rouxinóis, verdelhões, milheiririnhas, pinta-roxos… eram os grandes aliados dos camponeses numa agricultura sem insecticidas. Aqui e ali levantava-se uma poupa assustada. O canto rouco dos gaios sobressaía naquela sinfonia de Deus. O cadenciado cantar das perdizes dava um sinal bem claro da sua presença. Um bando enorme, que causou susto, no seu repentino e ruidoso levantar voo. No meio de um lameiro, a cegonha tentava a sua sorte na procura de algum ser vivente, sapo, cobra, rã que pudesse fazer sossegar os seus rebentos, lá no alto da torre da igreja, sempre a reclamar por mais e mais comida...
Passada a vinha dos Avós paternos e, logo a seguir, os frondosos castanheiros, carregadinhos de ouriços, onde os pica-paus se esforçavam por abrir buracos nos troncos centenários, batalha sempre vencida no que parecia ser impossível, ouve-se a voz do mais novo:
- Tenho fome. Quero pão...
- Tivesses almoçado como deve ser. A merenda é para logo… - resmunga o mais velho.
- Mas eu tenho fome… - insistiu, ganhado a coragem que só a fome é capaz de dar.
Fosse porque sentisse pena do irmão ou também já com vontade de comer, o mais velho abriu a saca, ripou da navalha, partiu duas fatias de pão, um naco de queijo para cada um e, atrás dos animais, com pó e tudo o mais, a merenda começou a desaparecer. Com que apetite!
Os castanheiros haviam desaparecido nas suas costas dos garotos e os "Malharís" ficavam cada vez mais perto, quando o mais velho perguntou:
- Queres comer mais?
A resposta foi a óbvia, "sim". E saltaram dois nacos de pão, umas azeitonas, um bocado de toucinho.
Logo adiante, foram ultrapassados pelo ti Joãozinho, escarrapachado na albarda da sua burra, as angarelas uma para cada lado, com um simpático “bom-dia, rapazes!”, logo se distanciando. O Ti M'né Ribeiro, vindo de Aldeia do Bispo, sempre emproado no seu cavalo, passou-os também, sem abrir a boca. Em sentido contrário, vinha o ti Zé "Rato”, à frente da sua “junta”, puxando por uma última carrada de molhos de centeio, a caminho da eira. Conhecia-os desde bebés e um “Aí, valentes!”, com um largo sorriso, foi o seu cumprimento.
Cerca de meia hora depois de iniciada a jornada, o rebanho chegou ao destino e começou a espraiar-se por aquele campo com quase tantas pedras como terra e onde os animais esfomeados procuravam tudo o que fosse de comer: ervas, giestas, codeços, espigas restos de centeio, restolho, grama, junça, milhã, baldroegas... Eram tempos sem “luxos”. Mas de carne, leite e queijo com sabores que já se foram.
Os gaiatos recordavam as instruções do Pai:
- Ides os dois. Tu, que és o mais velho, tomas conta do teu irmão. E do gado. Quando entrarem na Tapada, cá ao fundo, sem correrias, devagarinho, começam a “dar a volta”. Os animais “sabem”. É só irem atrás deles. Há-de haver algumas que querem “amarrar” logo na sombra das oliveiras, aquelas à entrada, junto à primeira fonte. Outras “cabeças doidas” vão querer correr tudo, num instante. Não pode ser. Vão “empurrando” pela barroca acima, do lado do ti M’ Ribeiro. Ao lado estão lá as figueiras, o milho e o feijão pequeno dele. E ele não é para brincadeiras, quase ameaçava. Cuidado com as duas cabras “ladronas”, a "malhada" e a "castanha"… Só estão bem a fazer asneiras… Sempre devagarinho, repito, senão os animais não comem. Com o vento do lado do Salvador, e lá tão longe, não podeis ouvir as horas do sino. Tu medes o comprimento da sombra do teu irmão – dirigia-se ao mais velho - que vos vai dizer as horas de o gado “rodear” e do vosso jantar. Quando a sombra tiver um passo de comprimento, é meio-dia, as ovelhas e as cabras já deram metade da volta, estais lá ao cimo, ao pé da segunda fonte e de outro grupo de oliveiras. É aí, à sua sombra, que todos descansam, porque vai estar muito calor. Jantais e até podeis dormir a sesta. Deitados no chão, claro. Fazeis uma cama de fetos e restolho. As formigas não matam ninguém. E as cobras e os lagartos têm medo de vós - garantia sem convencer os miúdos, que lhes tinham muito "respeito". Em cima dos barrocos… não se deitam. Isso é mais na Primavera. Agora vão estar a ferver! Depois, quando o Sol começar a ficar para este lado da Aldeia, a vossa sombra começa a crescer e, com dois passos de tamanho, serão três horas. É altura de tirar os animais da sombra e pô-los, de novo, a pastar. Sem pressa, continuam a volta. O Sol vai passar para o lado da Serra, aguentam, durante algum tempo, as ovelhas e as cabras naquela “baixinha”, onde passa a segunda barroca, do lado dos "Malharís", sabeis, lá onde fica a terceira fonte. Aí, com a terra húmida, há ainda erva verde e elas vão estar calmas. Este ano não temos lá milho nem feijão e não vai “custar nada”. Depois, quando a sombra já tiver cinco passos, são horas de voltar, tocais o gado para o caminho e vindes embora. Eu, daqui, vou espreitando se tudo está bem.

Os gaiatos confiavam tanto no "olhar de águia" do Pai como se ele fosse acompanhá-los. Ouviam-no, de vez em quando, responsabilizar os pastores pelas "más voltas" dadas ao gado, como se lá tivesse estado junto deles... Com o Pai "presente" tudo havia de correr bem. Dali, da suave elevação onde se situava a habitação sazonal da Família, rodeada de sobreiras, a eira ali ao lado, sob a sombra de quatro enormes eucaliptos, ele "via tudo"...
- E os chapéus sempre na cabeça! – acrescentava a Mãe, angustiada com aquela primeira experiência pastoril “independente” dos filhos.
– E quero tudo comido, senão ficais doentes…
O Sol aquecia, enquanto progrediam na pastagem. O instinto guiava os animais e as Crianças quase só tinham de ir atrás do rebanho – houvera alguma barafunda quando se cruzaram com o do Ti Manel Candeias, conduzido pelo Rui, vizinho, primo e amigo um pouco mais velho – acompanhados pelo valente e fiel “Farrusco”, que lhes dava segurança e tomava parte nas brincadeiras. Distraídos, ora saltando num pé, ora no outro, pareciam mais dois pardais em liberdade do que vítimas da “exploração do trabalho infantil”. Desde pequeninos que viviam naquele mundo e os animais, pode dizer-se, eram “parte da família”. Tão descuidada foi a jornada que, quase por distracção, iam metendo a mão na saca e mastigando, mastigando sempre, desde que a mais nova das Crianças "abrira as hostilidades"...
Uma manhã diferente, em que não fora preciso a Mãe exclamar:
- Mas vós não comeis nada?!
- Não temos fome… - era a resposta, quase em simultâneo, pois a brincadeira era mais forte que a vontade de comer, com que respondiam todos os dias.
A “volta” pelo pasto chegara ao meio. O Sol fora subindo, subindo e a sombra cada vez mais pequena. De vez em quando, o mais velho media-a com o seu pequeno passo. Estava quase. Também os animais tosavam o pasto ali à volta da segunda fonte. Tudo decorria como o Pai explicara. Quase não era preciso fazerem nada, pois os animais “sabiam tudo”. Mais um “lameirão”, com “marradas”ainda verdes, ali junto às grandes herdades do Dr. F. Conde, a “cair”, no limite do Salvador, e as oliveiras logo a seguir, com as almejadas sombras destinadas ao “rodeio”, o descanso dos animais. E das Crianças. Que aproveitariam para jantar.
Animais sossegados, água bebida ali nas fontes. Pelo coucho. Às vezes, “de bruços”. Nas palmas das mãos. Ou numa folha de figueira, apanhada ali mesmo ao lado. A “desgraça do plástico” ainda havia de ser inventada.
Sentaram-se em duas pedras, num "arranjo" dos pastores, com outra no meio a servir de mesa.
De repente, um ah! de espanto solta-se da boca dos dois irmãos. Acabavam de se dar conta que a merenda, a “farta merenda” de que haviam reclamado, não estava lá… Pedaço a pedaço fora comida... antes do tempo!
(Para continuar)
Foto via internet, in Portal Alentejano. Com vénia.

domingo, abril 11, 2010

Histórias de Aldeia

Estávamos a findar a década de 50 do século passado. Se havia um momento em que valia a pena andar pelas ruas de Aldeia, escolho o meu preferido, o do entardecer, com o Sol já escondido atrás da Serra. Uma boa parte dos gaiatos brincava nas ruas, como só se pôde brincar, naquela época. E o regresso dos camponeses tinha um não sei quê de repetitivo sempre renovado. Cestos ou baldes e caldeiros à cabeça das mulheres, homens de jaqueta ao ombro ou pelas costas e chapéu na cabeça, alguns conduzindo animais, um ou outro em cima da burra, pernas pendentes ou encaixado entre as angarelas, molhos de erva ou de lenha, aqui e ali os ganhões encaminhando as vacas, tão indispensáveis num mundo que só vira o tractor a puxar a malhadeira. E com ajuda dos mansos animais! Havia quem tivesse uma cabra, com sorte 2 ou 3, um ou outro borrego, que se iam criando, com esforço e cuidado, para lhes aproveitar o leite e serem garantia de duas ou três notas ( de 100!!!) lá na feira, em Penamacor, ou ali, se o comprador passasse para acertar um negócio que evitasse a sempre temida deslocação à Vila.
Não raro, por força do aproveitamento das pastagens, que faltavam, na hora da recolha havia rebanhos a atravessar o povoado, com o tão cativante tinir de chocalhos e campainhas, aqui e além entrecortadas pelas exclamações dos pastores a incentivar os gados, ou pelo latir de cães que não resistiam a uma boa pega, normalmente acalmada com duas pauladas nos lombos.
A Primavera afirmava-se e o caminhar para o Estio era inevitável. Como aquele sofrido viver.
Mas vamos às nossas duas histórias, a primeira ligada à Quaresma. A segunda também tem que ver com a forma como se vivia a Religião, ainda que, de modo um tanto descabido, quase desastrado, não fora a "santa inocência" das personagens intervenientes.
Ser diferente era um bocado complicado, ao tempo. Como pessoa ou até como bicho. O "normal" era que as cabras tivessem chifres e as ovelhas não. Se a Natureza se encarregava de proporcionar o contrário, podia "dar história". Foi assim que, nas 5 ou 6 cabras de um dos "condutores" das Ladainhas, havia de aparecer uma delas sem os tais... chifres. Foi-se esperando, esperando e, para desgosto do seu proprietário, os corninhos não apareciam. Nem haviam de aparecer. Pronto, o Ti F. tinha uma cabra "môtcha". Depois ele, ao chamá-las, lá ia clamando "malhada", "branca", "bargada"... e aquela, pronto, tinha de ser "môtcha". Não estivera ele em Aldeia, onde se apontavam para cima da centena de alcunhas, e aquilo até poderia não ser notado, mas daí a passar ele também a ser "Môtcha", Ti Môtcha e até "Môtcha-Môtcha" foi um passo. E quanto mais ele desesperava... mais o "Môtcha" ia sendo sussurrado, de modo audível, à medida que ele se encaminhava para casa, à procura do descanso ao fim de um um dia bem trabalhoso. As tardes eram sempre mais perigosas, com aquela garotada já fora da escola e ali sempre pronta para arreliar. E quanto mais ele se arreliava, mais o "Môtcha" ressoava por vielas e becos da pacata Aldeia. Um desespero. Um desassossego. Um calvário.
1. Era sexta-feira da Quaresma. A Ladainha estava, na hora habitual, frente à capela do Pereiro. Muita gente, como de costume. Já os "Senhor, tende piedade de nós!" haviam sido cantados e iniciavam-se os "Padre-nossos" pelo bem estar de presentes e ausentes, de vivos e defuntos.
A intenção fora proclamada e, em uníssono, começara-se a rezar "Padre Nosso que estais no céu..." quando, ali da esquina da casa da Ti Joaquina Rosa, uma estreita passagem do largo do "forno de cima" para o local da assembleia, se ouve a voz de um rapazão da nossa terra, conhecido pelas suas "brincadeiras", bradando por cima das vozes que rezavam:
- Môtcha!!!
Nem houve tempo para reacção de mais ninguém. Com igual energia ouve-se:
- Môtcha a p. que te pariu!!!
E "... santificado seja o Vosso Nome venha a nós o Vosso Reino..." Até ao fim!
Como não podia deixar de ser, a Ladainha só acabou na igreja paroquial.
De certeza de que Nosso Senhor perdoou a ambos. Perdoarem-se um ao outro... demorou mais tempo, mas o "Môtcha" foi caindo em desuso.
É que "Deus escreve direito por linhas tortas".
2. Ah! O Latim ou o "latim" também podia originar algumas confusões. Talvez mais do que seria desejável... Por isso, saudou-se o aparecimento das celebrações no vernáculo nacional.
Aquele princípio do mês de Maio até nem correria mal, se não fosse o acontecimento inusitado de os "amigos do alheio", gente de fora, certamente, terem feito desaparecer dois ou três burros, uma notícia do outro mundo para alimentar o "jornal" local e causar grande alarme na Povoação, onde algumas das portas nem sequer tinham chave e ficavam presas, noite e dia, por um pequeno ferrolho, ou até uma "cravelha" de madeira fixa por um prego que lhe servia de eixo.
As Ladainhas de Maio acabavam de ocorrer e haviam sido lançadas as bênçãos aos campos, aos animais e às sementeiras e também a estas invocações o Povo respondia "TÉ ROGAMUS, AUDÍ NÓS!"
No aconchego de uma bela tarde primaveril, uma das abastadas proprietárias da Aldeia, já viúva, como de costume visitava a sua quinta, ali na falda do Chão dos Prados. Em permanência, tinha lá um casal de quinteiros que se iam encarregando de fazer render um dos melhores bocados de terra da Aldeia, com a vantagem de uma nora num poço poderoso, um luxo de ricos, na época, puxada pela energia de uma burra bem tratada, que dava água farta para horta e batatal, milhos e pomar. Uma beleza.
Lá no meio da horta, tratando do "viço" ou "renovo", mondando e sachando, andava a quinteira a fazer pela vida da patroa e a tentar merecer - sem dúvida que o merecia - o seu "pão nosso de cada dia".
À medida que se aproximava da horta, a Senhora ia dando conta de que a empregada cantarolava a "música" das ladainhas de Maio. Entendeu mesmo que, à música, se juntava o "latim". Não lhe parecendo "muito católico", a Senhora pergunta:
- Ó Maria, o que é que estás a cantar?
- Ai, m'nha Senhora, então o que todos cantam agora...
- Então, repete lá....
- SE ROUBAMOS... MAL DE NÓS!!!
- Oh! Maria! Mas SE ROUBAMOS o quê? e MAL DE NÓS porquê?
- Ora, SE ROUBAMOS ... os burros! MAL DE NÓS... porque ficamos sem eles!
Notas:
1. Em Latim, não havia acentos; acentuei para ajudar na pronúncia mais aproximada...
2. As situações e personagens são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com situações vividas, realmente, são pura coincidência...
3. A foto é de Marta Vicente, in página de FaceBook de AJP.
4. Ver mais em
e a
5. A nossa Banda em

quarta-feira, abril 07, 2010

Domingo de Páscoa

As alegrias das alvíssaras deram o mote para a grande festa da Ressurreição.
Repicaram, por três vezes, os sinos para a Missa de Domingo de Páscoa. Não era uma Missa qualquer, mas a da festa do triunfo da Vida sobre a Morte.
Liturgicamente, era a única Missa do ano precedida de procissão, a celebração da Ressurreição pelas ruas da nossa Aldeia, com o Santíssimo Sacramento.
A Confraria estava quase em peso, os Irmãos, às dezenas, com as suas opas encarnadas, uns para pegar ao pálio, nas lanternas, à bandeira-guião; a maior parte, com a vela acesa na mão, para alumiar a Jesus Sacramentado. Para o Pároco, uma dor de cabeça, procissões e missas em ambas as aldeias, visita pascal numa delas. Mal havia de ter tempo para almoçar. Mas também não o deixariam passar fome.
A Missa fora anunciada para as 10 horas e, desde as nove, por todas as ruas, a população dirigia-se à igreja paroquial. Com ou sem a participação da Banda, o cortejo havia de sair, logo que a meia batesse. Tinham saltado das arcas e malas os fatos dos "dias santos". Xailes e lenços a estrear. Botas - e sapato, poucos - fatos, calças, camisas e chapéus tinham este dia como privilegiado.
Formava-se o cortejo, talvez o mais respeitoso do ano. Semelhante ao do 3º. Domingo de Outubro, a festa na Confraria do Santíssimo Sacramento.
Percurso habitual. Passagem pela Rua Nova, frente à loja do Senhor Mendonça, "forno de baixo", subir ao Largo do Pereiro. Um momento de adoração na capela aqui existente, passagem pelo "forno de cima" e largo do Poço Novo, com término na igreja matriz, que ficava a abarrotar de gente de todas as idades. A igreja lindíssima, montes de flores, alfaias novas.
Durante a procissão, o Povo - e a Banda, se presente - respondiam, em uníssono, como só a nossa gente sabe fazer, às invocações do celebrante, ainda em Latim, de compreensão acessível:
- Regina Coeli, laetare!
-Alleluia! Alleluia! Alleluia! Alleluia!
- Quia quem meruisti portare!
- Alleluia! Alleluia! Alleluia! Alleluia!
- Resurrexit, sicut dixit!
- Alleluia! Alleluia! Alleluia! Alleluia!
- Gaude et laetare, Virgo Maria!
- Alleluia! Alleluia! Alleluia! Alleluia!
- Ora pro nobis Deum!
- Alleluia! Alleluia! Alleluia! Alleluia!
- Quia surexit Dominus, vere!
- Alleluia! Alleluia! Alleluia! Alleluia!
Todos nós conhecemos os acordes que acompanham tão significativos louvores. Há 50 anos, a música ficava como que a pairar pelas ruas, largos e becos da Aldeia, até que a campainha, anunciasse, por toda a tarde, a passagem do Senhor e do cortejo pascal, levando as "boas festas" a cada casa de cada família.
- Boas festas, aleluia, aleluia! Jesus ressuscitou!
- Boas festas também p´ra si, Senhor Prior. Aleluia!
Havia sempre uma amêndoa, um esquecido, uma jeropiguinha, ou apenas um copo de vinho com um bolo de leite... Também algumas moedas para as despesas da igreja e "sustentação do clero". A cesta dos ovos, que se enchia mais de uma vez, fazia parte cortejo e do seu transporte todos se queriam esquivar. Quem fosse "demasiado" glutão ou descuidado com a "pinga", era certo e sabido que, antes de o sol se pôr, teria reunido "condições para desistir"... Em cada casa, a conversa era curta, pois a jornada havia de ser terminada, antes que escurecesse.l
Acontecia uma tarde em ebulição, pois os parentes e amigos queriam estar uns em casa dos outros para receber o Senhor e beijar o Crucifixo. E para as guloseimas. Ruas e escadarias alindadas com alecrim e rosmaninho, deixando, no ar, um odor tão próprio da Primavera. E da Festa.
O cortejo terminava sempre na Casa Grande. O Pároco e todo os acompanhantes, suspirando de alívio. Podiam comer e beber o que ainda fosse possível. E já não era muito!
Notas:
1. Fiz parte destas celebrações como adolescente e na Juventude, até já profissionalizado . Recordo, com saudade e alegria, estas vivências, das mais belas da minha vida.
2. As fotos, de autor desconhecido, foram retiradas da página Face-Book de A.J.P.